GO ON PEDRO, GO ON…

(Joaquim Vassalo Abreu, 18/01/2017)

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Zeca Mendonça

Já não é a primeira vez que lhe escrevo, e todas elas foram para lhe incutir força, ou melhor, para o estimular. Uma vez rogando-lhe para continuar, outra para não desistir, outra para lhe ensinar como se mudava Portugal até mas, desta vez, troquei de título para não pensarem ser isto uma novela mexicana ou um romance de cordel. Não, cada uma tem o seu objectivo e conteúdo.

Há bocado olhei assim de soslaio para a TV e assisti a parte do seu duelo com o “Babusha” e tirei-lhe o chapéu. Bem, tirar-lhe o chapéu é uma forma de dizer porque mais dia menos dia terá mesmo que andar com ele enterrado, tal a calvície que já ostenta e careca de saber que como o “Babusha” tem o cabelo todo, não é tarefa fácil ir-lhe à cabeça e vai ter mesmo que andar com ele enfiado.

Mas eu, em vez do título acima, enquadrado sempre no espírito inicial, até estive para inovar e recorrer ao célebre “ We Never Walk Alone” mas, exceptuando a escolha de candidato à Câmara de Lisboa, noto que tem os brasonados do partido todos consigo na questão da TSU, a improvável aliança sua com a extrema esquerda radical, que tanto os excita nela vislumbrado a sua ressurreição, e não o aconselho a que meta o futebol nisto tudo e verá porquê.

Apesar de se dizer para aí que é dos carecas que elas gostam mais, eu sei que a calvície o vai atormentando, e aí nada tenho a aconselhar-lhe mas, naqueles momentos entre a fala e o riso, notei o seu semblante carregado, assim como quando a gente anda com uma coisa na cabeça e ela não nos abandona, está a ver? Não é a TSU porque, está visto, parece que é para o lado que melhor dorme, mas é a Câmara de Lisboa, não é? É que não há meio de desancar com um nome.

Até aquele seu suposto amigo, aquele que teve a distinta lata de lhe chamar “cata-vento”, ele que a isso nunca chegará pois se apanha uma rabanada mais forte vai é ladeira abaixo, anda a mandar nomes para o ar, e só pode ser para os queimar e lhe, a si, lixar a vida.

Ele anunciou que você contactou, e repare que ele não disse terá contactado, um tal de Moniz, mas eu aconselho-o a que desconfie. É que esse Mendinhos, seu suposto amigo, também é benfiquista e quer é ir ocupar o lugar do outro, o tal de Moniz. Portanto, o melhor é não lhe dar bola, nem tão pouco ir à bola com ele. Sinal insofismável de como o Futebol nada une e tudo separa.

Repare só naqueles painéis das TV´s sobre futebol, tanto no dia como no dia seguinte: Na RTP3 são todos das esquerdas. Excluídos, sem mais. Naquele da SIC Notícias ao domingo também são todos do futebol e, portanto, são também para esquecer. Naquele da TVI24, às segundas, o do “Ó Sousa Martins, ó Sousa Martins”, são todos direitolas, mas o Serrão é do Porto e os outros devem ser mais Cristas. E são muito, para não dizer muitíssimo, destravados! Para olvidar também.

Que resta então? Exactamente: o “Dia Seguinte”, também na SIC Notícias e também às segundas. São todos do seu partido, sendo que um deles é do Porto, de Matosinhos e de Gaia, pelo menos, e só vai a Lisboa para a “peia”. Restam, portanto, o Rui Gomes da Silva e o Rogério Alves, ambos Advogados, mas Lisboetas.

Ora no Rui Gomes da Silva nem os benfiquistas votam. E como também não votam no Rogério…está visto, é tudo para esquecer. Você ouça-me: se quer ganhar faça como o Rio fez no Porto e não se meta com o futebol. Hostilize mesmo, se preciso for. Percebeu agora?

Eu sei que isto que lhe vou dizer, o nome que lhe vou indicar melhor dito, é assim como um coelho tirado da cartola e, por isso, desculpe lá a imagem, mas você tem aí dentro, dentro da sede, um autêntico dinossauro, um tipo que do seu partido sabe tudo, conhece todos os seus amigos e inimigos, e também de todos os seus antecessores, tem-nos todos na mão e que, mesmo sem nunca o ter ouvido falar, é o eterno e reservado adido de imprensa do PSD. Esse mesmo: o Zeca Mendonça!

Eu sei que ao fim destes anos todos, o que mais nos ficou na retina foi aquela cena da rasteira que pregou a um repórter de imagem, talvez porque lhe estivesse a interromper o seu apressado passo. Nunca se soube ao certo. Eu escrevi na altura que aquilo tinha mão, ou pé, do Relvas mas, visto melhor, isso até será um trunfo, pois é um tipo que a gente vê sempre à frente do chefe, a desimpedir a passagem e sempre a abrir e a fechar portas, seja dos carros seja dos gabinetes. Quer melhor?

A este ninguém o pode acusar de falta de “PSDismo”, de falta de lealdade, nem sequer de não saber “rasteirar”. Ele rasteira com souplesse, corpo hirto e olhar em frente. É a solução, Pedro!

Vai perder? Que importa? Não é apenas um “adido”? Você sai vivo da coisa, ninguém se machuca, o Zeca Mendonça volta ao seu posto e a vida continua, não será?

Portanto, Go on, Pedro, sem medos!

Yours Sincerely, que em Português quer dizer: não tem nada a pagar!


Fonte do artigo aqui

O EXPRESSO e os seus EDITORES

(Joaquim Vassalo Abreu, 17/01/2017)

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Antes de mais, e por amor à verdade, quero deixar bem vincado que já há bastante tempo deixei de comprar e ler o Expresso, jornal que religiosamente lia e comprava semanalmente desde que nasceu: em 1973!

Mas o Expresso, ou a sua proprietária Impresa, andou tempos e tempos a tentar-me para assinar o seu Digital até que, numa proposta deveras tentadora, que eles diziam ser por três meses, eu acedi. Aceder à senha é que foi complicado! E quando acedi à tal senha disseram-me que não, que a promoção era só por um mês. Não quis mais conversa e, sabendo já o número de cor, nunca mais atendi.

Mas há uma coisa que eles nunca deixaram de fazer (só pode ser por desorganização interna, ou então, para mim que sou um ser complacente e ingénuo, pelo elevado e simples dever de informar) que foi o de mandarem, diariamente para o meu Mail, o Expresso Curto e o Expresso Diário. Um ao princípio e outro ao fim do dia!

Mails que eu guardei durante dois anos, até ao Iphone e ao Ipad me dizerem: pá, liberta espaço porque senão nem fotografias podes tirar!

E, assustado, eu disse: agora tem que ser! E que é que eu fiz? Desatei a tomar notas, a cronologicamente tomar notas ( já vai em mais de dez páginas manuscritas), para depois ganhar espaço na memória. Na memória deles que não na minha que, felizmente, ainda não preciso! E dou comigo a ver coisas lindas, coisas de uma coerência sem fim, verdadeiros tratados de futurologia e opiniões definitivas tais, que se esboroavam no dia seguinte. A memória escrita tem destas coisas! Mas eu, prometo-vos, vou partilhar a síntese deste trabalho, que só um recente reformado, pese as suas obrigações domiciliárias, poderá fazer. Com calma e sem precipitações, pois eu sou um puco dado a impulsos…

Aquilo, no fundo, o que eles fazem é aquilo que eu, quase diariamente, nos meus “Pensamentos Onlaine” vou observando e dizendo, assim telegraficamente, mas de que eles fazem teorias antecipando a “pós-verdade”, essa coisa que, jornalisticamente, tudo desculpa. Podem dizer o que lhes apetecer, podem noticiar o que entenderem, o mais absurdo que for mesmo que ofenda a inteligência de quem lê, mas, amanhã haverá sempre mais…

É tudo mais ou menos risível, muitas vezes grotesco mesmo, outras vezes hilariante e a grande conclusão é de que eles, ao invés de se perguntarem, o que seria até pedagógico, afirmam! E eu, há pouco tempo, li uma observação de um leitor que eu achei tão propositada que até vou reproduzir e na qual, de resto, me revejo, da mesma maneira que a muitas vezes digo a Amigos que passam a vida a citar: “Não citem, citem-se!”, dizia ele, para os tais jornalistas: “ Ok.! Deem as notícias, mas não as interpretem…deixem isso ao meu cuidado”! Logo subscrevi!

Mas essa minha análise, um pouco exaustiva pois tem dois anos desse Expressos Diários e Curtos e até, para contraponto, quatro anos do meu Blog, que atravessa as mais diversas áreas, vai ter que ficar para mais tarde porque, muito embora se diga que a memória na política dura um mês, a minha dura um pouco mais…A ver se sou capaz e tenho paciência! Mas, se conseguir, irão ver que é bonito e elucidatório!

Mas o que, assim de imediato, me leva a escrever este texto, não fugindo do tema que lhe dá título, é um artigo de opinião de Bernardo Ferrão, Editor do Expresso, que este mesmo fez o favor de me mandar para o meu Facebook, vejam lá, a quem eu não nego a liberdade de escrever o que entenda, claro, e que se intitula: “Passos começou a fazer oposição”.

Eu, ainda antes de ler o texto, fiquei assim a meias que inquieto e perguntei-me: Mas haverá alguma coisa nova, alguma coisa que eu não saiba, que por muito que tente lembrar-me não tenha ouvido e lido? Que se passa, afinal?

Então comecei a ler o texto! “O PSD está a fazer o que lhe compete, diz ele, oposição!”. “ Que Costa estava a negociar com os Parceiros Sociais o que não poderia cumprir”. E fala depois em “negociatas” que as esquerdas se recusam a aceitar. E segue dizendo, com aquela certeza própria de quem sabe do que está a falar, sem conhecer sequer o acordo, que “No fundo, o Governo está a pôr o Orçamento de Estado, os Contribuintes, a pagar um aumento de Salário Mínimo que devia ficar a cargo dos Patrões”. É isto que está lá escrito, eu juro!

Parei de ler e concluí: com jornalismo destes para que preciso eu de jornalismo?

Conclusão: ele está convencido (e transmite esse seu convencimento como Editor) que Passos está a pôr a nu as fragilidades do acordo das Esquerdas (já disse que não falo mais em Geringonça), quer mostrar que está vivo e quer irritar Marcelo! E, achando que Costa vai ficar isolado, passará a ter um Governo em minoria…. Disse ele! O Editor do Expresso! Daí eu, assim a modos que apalermado, disse: que novidade!

E, assim de repente, mesmo sem pensar, apeteceu-me perguntar-lhe: Porque não publica este texto no jornal do PSD ( o Portugal Livre), se é que ainda existe?

De um comentador, colunista ou afim, responsável pela sua opinião, eu até perceberia, até porque sou pelo pluralismo mas, de um Editor?

Dispenso caro Editor. Dispenso mesmo. Mas vá escrevendo, vá escrevendo sempre que, pelo menos enquanto houver memória nos cujos e eu não me fartar, eu vou guardando, quer dizer, registando.Se me continuarem a mandar, claro!

Nota final: Nos comentários ao texto foi uma festa! Que, afinal, não tinha ido ao congresso dos Jornalistas; que não tinha aprendido nada; que tão novo e já tão causticado …quando eu escrevi isto já eram “cerca de”, como eles dizem, 176 comentários! Nem queiram saber…

Até dá a impressão de que me leram antes de eu sequer escrever…

O Vírus TSU – Cena II

(Por Estátua de Sal, 17/01/2017)

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Resumo da cena anterior

Barítono Coelho decide inocular toda a bancada de deputados com o misterioso e moderno vírus TSU que Manel do Pistão, o melhor mecânico de automóveis de Lisboa, trazido e apresentado por Marcus Antonius, lhe propõe para fazer descarrilar a geringonça. O deputado Sonsonegro é indigitado para comprar as seringas e assumir as despesas com a imprensa. (Ver cena anterior completa aqui)


Era por volta do meio-dia. Marcus Antonius acercou-se do computador principal da sede do partido. Tirou os óculos, olhou para o centro do écran e a máquina lá se abriu. Tinham instalado a tecnologia mais recente; nada de palavras-chave, o acesso fazia-se pelo reconhecimento da pupila. E a máquina só abria com a dele e com a de Barítono, para evitar fugas de informação e conspirações. Começou por ver os emails. Eram aos magotes e quase todos eles exigiam explicações sobre o vírus TSU. Eram os patrões, era a Igreja e as Misericórdias, eram os jornais amigos, eram as sedes distritais, eram os sindicalistas da UAT (União Amarela dos Trabalhadores), eram deputados que alegavam ser alérgicos a picadelas e que perguntavam se não podiam engolir o vírus em comprimidos.

Marcus era eficiente. Ligou a impressora e imprimiu todo o correio que foi colocando meticulosamente num dossier que depois colocou numa mala de diplomata. Olhou para o relógio e viu que eram horas de almoço. Apressou-se e preparou-se para sair. Daí a pouco iria reunir com Barítono para fazer o ponto da situação. E a situação não estava nada boa. O seu faro de velho perdigueiro da política não costumava deixá-lo ficar mal.

Saiu. Comeu uma francesinha no bar da esquina – era o que comia sempre quando havia borrasca no horizonte -, e às 15 horas em ponto entrou no gabinete do presidente do partido. Barítono estava sentado à secretária a rir para o écran do computador. Marcus não estranhou. Nos últimos dias Barítono andava a flutuar sobre uma de nuvem da felicidade. Sentou-se na cadeira em frente à secretária e perguntou:

– A que se deve tanta alegria, caro companheiro? Alguma boa notícia de última hora?

Barítono desviou os olhos do computador e foi respondendo calmamente:

– Vou-te fazer uma confidência. Ando mesmo feliz. Ando a reviver velhos tempos, que estava a ver que nunca mais voltavam. Com a nossa estratégia do vírus passei a ser outra vez importante. Parece que estou outra vez no tempo em que era primeiro-ministro e recebia pressões de todo o lado a pedir dinheiro, favores e benesses. Vinham todos ao beija-mão. Agora estão a vir outra vez, porque mesmo os nossos são uns troca-tintas. Vendem-se por um prato de lentilhas às migalhas da geringonça, e dizem que eu é que sou catavento. Sim, eu tenho visto o desfile de traidores que por aí andam a querer enxovalhar-me. Ele é o Toino Saraiva, ele é o Silva Penhasco, ele é o Morais Tormento, ele é a Azeda Leite, ele é até o Banjo Correia de quem nunca esperei tanta ingratidão. Para já não falar do Mini Mendes essa víbora venenosa de trazer por casa.

– E tu ainda não sabes de tudo. Há os que te criticam pela frente mas há aqueles que nos fazem exigências sérias e mesmo ameaças pela calada. Trago aqui um pacote de emails que temos que analisar com urgência. A situação é grave. Ou me engano muito ou pode estar mesmo a preparar-se uma rebelião, uma greve, ou qualquer coisa assim.

Barítono deu um salto na cadeira. Rebeliões e greves eram coisas das esquerdas, como costumava dizer a Santinha Cristas, que o faziam sempre engolir em seco ao ponto de lhe causarem falta de ar. Pelo que atirou logo: – Como assim, como assim, queres-te explicar?

Marcus retirou o dossier da pasta e disse:

– Vamos por partes. Temos dezenas de mensagens. As sedes distritais perguntam como devem argumentar quando nos acusam de sermos geringoncistas de esquerda, colonizados pelo Irónico de Sousa e pela Traquina Martins. Responde lá que eu depois transmito.

– Ó, essa é fácil. Avança com a teoria da muleta. Não somos muleta do Abrenúncio. Se ele partiu uma das pernas ele que vá a Cuba fazer fisioterapia – respondeu Barítono com um ar ufano da sua própria sagacidade.

– Bem, mas isso levanta um outro problema. Eles perguntam se agora somos contra a concertação ou a favor da concertação – retorquiu Marcus.

– Ó, essa também é fácil. Se formos nós a concertar somos a favor. Se for o Abrenúncio somos contra – respondeu Barítono esfregando as mãos de contente.

– Pois, mas isso levanta então um outro problema. Vou-te ler este email que é importantíssimo, vindo de quem vem, e sobretudo pelo que diz. É enviado pelo Henrique Zombeteiro do Espesso. Reza assim:

“Caro Barítono

O Dr. Bolsanamão encarregou-me de o contactar. Quer saber se essa coisa do vírus é a sério ou é só para chatear o Abrenúncio. Como militante Nº 1 ele exige saber qual é a tática e diz que subscreve a segunda hipótese e veta a primeira. Ele admite todas as formas de oposição à geringonça, desde que não lhe vão á bolsa. Mais o informo que ele emprega mais de 200 trabalhadores com o salário mínimo, mais os que hão de vir, pelo que essa história do vírus vai dar um rombo de 10 milhões nas contas do grupo.  Acrescenta ele que o dinheiro da TSU dado pela geringonça é tão bom como o seu. Seguir-se-ão as devidas represálias nos próximos Espessos e nos noticiários da PIG e da PIG Notícias caso persista nesse aventureirismo irresponsável.

Cordiais saudações do HZ.”

Barítono, desta vez, enfiou-se pela cadeira abaixo. Demorou dez segundos a reagir e por fim, numa voz pausada, murmurou apenas: – E há mais desse jaez?

– Tenho aqui outro, também do piorio. Vem do patriarcado, do próprio Manel Inclemente:

“Caro Barítono

A nossa missão evangélica não pode ser ameaçada pelos desígnios do combate político. As Misericórdias necessitam de acudir aos pobres e desvalidos nestes tempos de agrura e neste Inverno rigoroso. Colocar em causa os rendimentos da Igreja é sacrilégio, pecado mortal que, como sabe, merece punição não só da mão de Deus mas também da voz e da mão dos homens. O dinheiro da geringonça, desde que flua para a mão dos agentes do Senhor, é tão bom como o seu. Pelo que, a persistir nesse devaneio, só nos restará denunciá-lo em todos os púlpitos, nos nossos sermões dos próximos meses, quiçá dos próximos anos.

Confiamos, contudo, que Deus tenha piedade de si e lhe dê a graça do arrependimento, de forma a evitar a prossecução das suas funestas intenções.

Em nome do Senhor, MI”.

Barítono ficou ainda mais enfiado na cadeira. Desta vez fez uma grande pausa, um minuto ou mais, a compor as ideias. Marcus aguardava expectante. Como não vinha resposta, avançou timidamente: – Pronto, volta tudo atrás, não é?

Barítono saltou de novo na cadeira e disparou lesto e firme:

 – Nem pensar! Quer dizer, para já nem pensar. Vejamos. Pelos vistos não está aí nenhum email da Tia Ângela, do Mário Bazuca, ou do Gangue Schauble a pressionar. Esses sim, seriam mesmo perigosos. Os outros também se podem revelar vir a ser, mas se for o caso, então sim, poderemos sempre voltar atrás.

– Ó homem, mas voltar atrás depois de tanto finca-pé vai ser, em definitivo, o fim da tua carreira política. Já te chamam aldrabão com todas as letras depois dos quatro anos de governo em que te fartaste de mentir e de dar o dito por não dito; a acrescer ao que tens dito, todos estes meses na oposição, que não bate certo com o que fizeste no governo.

– Não te preocupes Marcus. Eu sou o rei da pós-verdade. Não é para me gabar mas até acho que sou melhor que o futuro Presidente Trunfo. Viste como ele ganhou as eleições? Os eleitores estão-se nas tintas para a verdade. A verdade agora é servida nos reality shows das televisões. Os políticos só têm que ser bons ficcionistas, os que escrevem o melhor guião, e eu sou mesmo bom nisso. Até já sei como nos vamos safar se precisarmos de activar um plano B.

– Sou todo ouvidos, explica lá o plano – retorquiu Marcus.

– É simples. Lembras-te de quando eu afirmei e reafirmei que ia apresentar o livro de escândalos do arquitecto Saraivada? Lembras, certamente. Depois acabei por não ir. E a razão que avancei para não ir é que tinha dito que ia, sem ter lido o livro, tendo mudado de opinião depois de o ler. Pois é, agora também não conheço o decreto que o Abrenúncio vai apresentar. Depois de conhecer, e se tivermos que recuar, podemos sempre argumentar da mesma forma. E se a coisa se complicar mesmo, podemos sempre invocar que é em nome do interesse nacional.

– Acho que essa estratégia pode ser o teu suicídio político – disse Marcus desalentado.

– Talvez seja, mas não há nada que pague estes dias em que me sinto de novo importante – disse Barítono com um sorriso de orelha a orelha. E prosseguiu: – E é assim que se fará porque eu é que sou o líder, como muito bem sabes.

Marcus não respondeu. Pensou apenas que os líderes, e já lhe tinham passado vários pela frente, são sempre transitórios. E são sempre os últimos a antecipar o seu próprio fim.


(A continuar nos próximos dias com as cenas seguintes do folhetim).