A vossa vala comum: carta aos governantes do país e da Europa onde nasci

(Alexandra Lucas Coelho, in Público, 08/04/2025

(Um grande bem-haja para a autora deste texto pela coragem de denunciar as atrocidades monstruosas de Israel que sendo descomunais, muita gente, tal como eu, julga que o não são tanto. E pelo o libelo de dedo erguido contra os nossos políticos, cobardes, coniventes com a mortandade e benzendo-a com o seu silêncio cúmplice. A autora é lapidar:

“A Europa é a vergonha da democracia, sua suposta mãe e sua coveira. O Mal está sempre por toda a parte, mas a diferença de Gaza, do ponto de vista de quem nasceu aqui, é que a Europa gerou este último resquício do colonialismo, o alimenta em contínuo, é a sua escrava e agora vemos tudo em directo.”

Estátua de Sal, 10/04/2025


Ao longo deste ano e meio quis esperar que algo ainda acontecesse dentro dos líderes europeus. Algo revelado por este Apocalipse. Tarde, insuficiente, mas algo. Já não o espero agora.


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O primeiro livro da Europa — que é também a sua primeira guerra — começa com a palavra “Mēnin”: Cólera. Vinte e oito séculos depois, as piras dos mortos continuam a arder sem parar. Mas não só as dos mortos: as dos vivos, também. Vivos queimados vivos (um jornalista na sua tenda de deslocado ontem à noite). Talvez ainda vivos sepultados como mortos (quantos dos paramédicos que ouvimos rezar anteontem, quando já eram só vozes resgatadas das cinzas, gravando-se a si mesmas ao morrer?).

A cólera canta: vinte e oito séculos depois da Ilíada, as piras são dos mortos e dos vivos por toda a Palestina. Ardem no instante em que escrevo, 7 de Abril de 2025. E agora é a vós que me dirijo, governantes do país e da Europa onde nasci.

Esta noite mesmo, num palácio neoclássico, um presidente da Europa recebe uma presidente da Ásia, ambos com uma história ancestral de 500 anos em que representam colonizador e colonizada. O meu nome estava na lista de convidados por eu ter feito uma viagem para escrever um livro sobre essa Ásia, com as suas próprias piras de mortos, multicoloniais e pós-coloniais (um dos livros que Gaza adiou). Quando li o email do convite, imaginei que podia ser um ritual interessante de observar, a parte palaciana do terreiro em que os mortos falam vivamente aos vivos, se os ouvirmos. E ao mesmo tempo pensei que Gaza estava ali como está em toda a parte. Então, eu iria à cerimónia: levando ao pescoço uma meia-lua com as cores da Palestina e uma carta para o anfitrião. Uma pequena carta manuscrita, porque desde o 7 de Outubro publiquei dezenas de textos sobre este genocídio e a cumplicidade da Europa onde o presidente já foi visado, não seria necessário alongar-me. Sendo ele o chefe de Estado do país onde nasci, agora tratava-se só de 1) dizer que pela primeira vez me passara pela cabeça renunciar à cidadania portuguesa, e portanto europeia, a única que tenho 2) pedir um gesto imediato para a História, que está a ser escrita todos os dias.

A meia-lua que eu ia levar ao pescoço é uma fatia de melancia, símbolo alternativo da Palestina, feita de missangas. Por acaso, no mesmo lugar africano em que há 500 anos um piloto asiático embarcou na nau de Vasco da Gama para o guiar até à Ásia. O acaso é um deus em que acredito. Temi, porém, que o significado da melancia pudesse não ser claro para alguns dos presentes no palácio, nomeadamente os chefes de Estado. Por isso comecei a desdobrar a Palestina pelo suporte em movimento que seria eu própria. Vestiria uma roupa preta, um casaco verde e o fio da melancia seria branco. Levaria um keffiyeh como cachecol, que ficaria no bengaleiro, chamejando no meio dos abafos. E finalmente: ia bordar uma bandeira para pôr na lapela. Nunca bordei mas tenho bordados da Palestina talvez desde a primeira vez que fui lá, faz este Abril 23 anos. O bordado são os vestidos, as almofadas, as casas da Palestina. As mãos de pessoas que estarão onde agora?

Foi assim que num dia de dilúvio fui a uma linda retrosaria de Lisboa, comprei um retalho de linho, esse tecido que já estava na Ilíada, um bastidor de madeira, uma caneta própria, agulhas de diferentes tamanhos e quatro mechas de fio para bordar com as cores da Palestina. Essas mechas têm uma cinta de papel escrita em japonês, vieram mesmo do Japão, disse a senhora que me atendeu. De volta a casa, quando as dispus na mesa, pensei: Hiroxima. Porque penso em Hiroxima quando penso no Japão, e porque na estante Israel/Palestina tenho Hannah Arendt junto a Günther Anders, o filósofo também judeu que com ela foi casado, autor de Nós, Filhos de Eichmann mas também de Hiroxima Está em Toda a Parte. E só no instante em que escrevo esta frase, hoje, 7 de Abril, já noite, me apercebo de que a primeira vez que escrevi “Gaza está em toda a parte” (num texto de 5 de Outubro de 2024), não pensei em Günther Anders. Estava muito longe de casa, naquela parte da Ásia de que falei acima, no meio de mil e quinhentos milhões de pessoas. Talvez a frase tenha vindo por causa delas. Mas por trás delas talvez estivesse a memória dessa lombada.

Quando o palestiniano Mahmoud Darwish escreveu sobre os seus dias em Beirute debaixo das bombas israelitas, também pensou em Hiroxima. Hiroxima estava em Beirute e agora Gaza está em Hiroxima. Ao voltar da retrosaria e de Lisboa, eu olhava a minha mesa e aqueles fios para bordar ligavam Gaza e Hiroxima: vermelho, verde, branco, preto. O que fazemos com as mãos fica na memória do corpo. Torna-se parte do que é cada corpo, e só ele é, até ser interrompido para sempre. Desde que comecei este texto, quantos em Gaza? A todo o momento. A todo o momento que pegamos no telefone, se quisermos.

E o que aconteceu anteontem, pouco antes de enfiar o primeiro fio na agulha, foi que peguei no telefone e vi aquelas gravações. Vi aquelas ambulâncias, aqueles símbolos de emergência, de socorro humano, todas aquelas luzes ligadas, faróis na noite de Gaza, avançando sem medo, apesar do Mal. E depois ouvi o Mal, ali, como se estivesse na minha cozinha, nitidamente captado pelo telefone do homem que rezava, o homem que via a sua própria morte, o homem que se despedia da mãe, que pedia desculpa por ter escolhido aquele caminho: salvar vidas. Ouvi as rajadas dos que metralhavam a torto e a direito, cérebros lavados ao longo de anos para fuzilar em série, para verem qualquer palestiniano como muito menos do que os belos animais que àquela hora talvez se passeassem por Telavive, a noctívaga, a necro-sexy. Por vezes, pela trela de humanos veganos incapazes de comer até um ovo, militantes contra o sofrimento dos animais.

Ouvi os paramédicos que iam morrer e os que já tinham morrido embora o telefone ainda estivesse a gravar. Sabemos que o Mal abriu uma vala comum, enterrou 15, alguns talvez ainda vivos, depois destruiu as ambulâncias e também as enterrou. Até que o socorro do socorro desenterrou tudo, apareceram as gravações. O Mal reconheceu que mentira, como há um ano e meio mente. Há 58 anos mente. Há 77 anos mente. A guerra de há mais de cem anos contra a Palestina. A vala comum dos paramédicos foi só aquele momento em que o ponteiro bate no zénite porque vem de antes há muito. Há muitos mortos. E de repente eu estava ali na cozinha com o telefone na mão e tinha deixado de ser possível, sequer, estar naquele palácio da Europa, mesmo que em protesto. Sentar-me entre eles, eleitos que continuam como se nada fosse, que contribuem para que nada seja. Foi depois disso que pensei nesta carta, extensível a todos os que desde 7 de Outubro foram ou são governantes na Europa, com muito poucas excepções, sobre as quais também escrevi.

Ao longo deste ano e meio quis esperar que algo ainda acontecesse dentro dos líderes europeus. Algo revelado por este Apocalipse. Tarde, insuficiente, mas algo. Já não o espero agora. O carniceiro procurado pela justiça foi à Hungria, que lhe estendeu o tapete vermelho, pisou nas Nações Unidas, no Tribunal Penal Internacional. Continua a ser União Europeia lá. E, à cabeça da União Europeia, o novel chanceler já tem o seu tapete à espera do carniceiro. Que no dia em que escrevo estava de volta à Casa Branca, ao narcisopata que resume Gaza como “um incrível pedaço de imobiliário”.

Que Nações Unidas? Que Direitos Humanos?

Hoje, 7 de Abril, um ano e meio depois do 7 de Outubro, é a escravos de nazis que me dirijo. Não escravizados por outros, escravos por vontade própria. Vemos sobre-humanos na Palestina que continuamente nos dão provas de vida e do que a mata. Vemos o desfecho do sionismo, esse fruto monstruoso do monstruoso anti-semitismo europeu. E vemos os menos-que-humanos que sois vós, os untermensch: todos os eleitos que nada fizeram desde 7 de Outubro. Aqueles que perderam a Segunda Guerra Mundial em Gaza. Os que capitulam perante o triunfo dos porcos. Que atacam pró-palestinianos hoje como atacaram judeus ontem e continuam a atacá-los hoje. Que censuram, agridem, prendem, deportam. Os que se tornam nazis no meu tempo de vida. Enquanto os EUA, também usando judeus como arma, assistem à sua própria derrocada.

Tenho 57 anos. Nasci no ano em que Israel ocupou Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental. Tive a sorte de ainda ter visto a URSS, saber o Mal que era. Não ter dúvidas sobre o Mal que Putin é. Que a Arábia Saudita é. Que o Irão é. Não perdoarei quem enriquece com os tiranos a jeito e deixou a defesa da Palestina aos ayatollahs. O Irão ser o aliado da Palestina é a vergonha da Europa.

A Europa é a vergonha da democracia, sua suposta mãe e sua coveira. O Mal está sempre por toda a parte, mas a diferença de Gaza, do ponto de vista de quem nasceu aqui, é que a Europa gerou este último resquício do colonialismo, o alimenta em contínuo, é a sua escrava e agora vemos tudo em directo. Nada, nunca, teve estas características. Tal como nunca a Europa desceu tão baixo, caiu tanto para o mundo. A vala comum dos 15 paramédicos é a vossa. A vala comum da Palestina é a vossa. Vós: os sem coluna e sem futuro.

Isto não é a mala diplomática. Não é um apelo, já. Talvez seja um presságio e ainda não uma maldição. Escrevo em plena campanha eleitoral para o que será o terceiro governo português desde o 7 de Outubro. Ainda vou votar. Ainda acredito na democracia. Ainda não passei à clandestinidade nem estou na guerrilha. Sou essa privilegiada, ainda. E se me passou pela cabeça renunciar a ser portuguesa, europeia, o que só será possível se adquirir outra nacionalidade, hoje, 7 de Abril fiquei mais longe disso, ao lembrar-me do pensamento ancestral do que se veio a chamar Brasil, a acumulação de outras cabeças. Ampliar e não subtrair. E porque haveremos nós, que vemos Gaza em toda a parte, deixar a Europa aos coveiros da Europa? Estou aqui com Homero, Arendt, Anders, Darwish, como estou com Dante guiado por Virgílio, Goya pintando os fuzilados, Pasolini contra o fascismo.

Vós, oposto de tudo isso, sois a negação do melhor que a Europa pode deixar às suas crianças. Não peço que olheis as de Gaza, muito menos aquela decapitada que ontem vi, porque ao vosso racismo, ou cobardia sem remédio, 18 mil crianças (ou sabemos lá quantas mais) não mudaram nada até hoje.

O presságio é só este: olhem nos olhos das vossas crianças.


Descobriram uma limpeza étnica? Tem 80 anos…

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 07/02/2025)


A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. 


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O boçal pato-bravo de negócios globais em comissão de serviço na Presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, ignorando ostensivamente os filtros do cinismo político dominante e assumindo a ganância inerente ao seu empreendedorismo, deitou os olhos gulosos à costa mediterrânica da Faixa de Gaza e deduziu que ali se poderia construir uma nova, paradisíaca e altamente lucrativa «Riviera».

Sem o saber, ou talvez tentando desde já marcar posição, o construtor civil-presidente entrou nos terrenos entretanto reclamados pelos colonos sionistas, já que estes há muito tempo reivindicam o regresso à Faixa de Gaza para explorarem o paraíso segundo os seus próprios interesses.

A transformação de Gaza, ou pelo menos a sua costa, em empreendimentos habitacionais e turísticos fechados já foi testada e esteve em vigor durante quase um quarto de século. Os 19 colonatos sionistas existentes na Faixa de Gaza entre 1982 e 2006 eram condomínios privados e de luxo, protegidos pela tropa de Israel;  ocupavam 120 quilómetros quadrados, um terço do território, com sete mil habitantes e uma densidade próxima de 60 habitantes por quilómetro quadrado. Cerca de milhão e meio de palestinianos viviam então em dois terços do enclave, sem acesso ao mar e com uma densidade brutal de sete mil habitantes por quilómetro quadrado, a mais elevada do mundo, a grande distância. A título de exemplo, a densidade da Índia é de 500 habitantes por quilómetro quadrado, a da China é de 145 e a de Portugal é de 115.

Em 2006, o criminoso de guerra Ariel Sharon, então primeiro-ministro, mandou evacuar os colonatos de Gaza, não por qualquer acesso anti-colonização, mas porque pretendia iniciar as ofensivas terroristas regulares contra o território, continuadas por Netanyahu,  e não queria ter limites na envergadura das operações militares por nele habitarem sionistas.

Em termos gerais, poderia haver um impedimento concreto a resolver para que o plano de Trump se concretizasse. No enclave viviam até há pouco, antes de Benjamin Netanyahu lançar esta nova etapa do genocídio da população original da Palestina, mais de dois milhões de pessoas. Agora há menos, mas muitas das recentemente expulsas estão a regressar, mesmo que seja para as ruínas deixadas pelos nazi-sionistas; porém, uma vez que a violação de cessar-fogo é um dos desportos em que Israel está no topo, não tarda que, mais uma vez, sejam obrigadas a seguir o caminho inverso, pelo menos as que restarem vivas.

Para Trump, afinal, não existe qualquer problema. Despacham-se os habitantes do território para países árabes, que vão ter de os acolher e integrar, talvez ignorando que este processo, a versão mais recente de «solução final», está em curso há quase oitenta anos e sem que haja integração. Ele próprio, na pessoa do genro, inventou durante a primeira administração os chamados «acordos de Abraão», que assentavam na transferência dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia para a península egípcia do Sinai e para uma moderníssima e imensa cidade criada de raiz, Neom, já em construção na província de Tabuk, na Arábia Saudita, ligada à citada Península do Sinai passando pelo Golfo de Aqaba e o sul da Jordânia. Para não fugir ao espírito de um dos objectivos do empreendimento e para que a construção de Neom seja concretizada em áreas despovoadas, já se processou, a mando do governo saudita, uma limpeza étnica do território, vitimando principalmente a tribo Howeitat.

Os palestinianos expulsos para Neom e o Sinai iriam servir principalmente os turistas milionários que poderiam usufruir em exclusivo das delícias do Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. A nova «Palestina» resultaria então de uma transferência da população de Gaza e da Cisjordânia para um território desde o Sinai até à megalómana Neom.

Não digam que Trump, na sua heterodoxia político-empresarial, chamemos-lhe assim, não é um visionário. De Gaza a Sharm-el-Sheik e Neom, do Mediterrâneo ao Mar Vermelho, está na sua mente o maior e mais paradisíaco complexo turístico do planeta, acessível a meia dúzia de mafiosos que cada vez mais controlam o mundo. Não será esta uma gloriosa antecipação do espírito do globalismo, esse brilhante futuro para o qual o Ocidente tanto trabalha, mesmo que isso custe a vida e a expulsão dos locais de nascimento e residência a milhões e milhões de seres humanos?

O rei vai nu

Aqui d’El Rei, grita-se com a mesma convicção com que as chamadas democracias liberais dizem defender a «solução de dois Estados» na Palestina. Mas o rei vai nu. Todo o aranzel em torno de mais esta extravagância (para levar a sério) de Trump não passa de um fruto natural da imensa estratégia de enganos e mentiras cultivada pela política dominante para cometer as maiores atrocidades.

De alguns governos até à ONU interpretaram-se as palavras de Trump, com uma razão que não lhes pode ser negada, como a intenção de praticar uma limpeza étnica.

Sejamos sérios. Há muito que a limpeza étnica está em curso na Palestina. A «marcha da morte» de Lydda em 1948, o massacre da população das aldeias de Deir Yassin, ou o de Ramle, no mesmo ano – como exemplo das centenas de localidades palestinianas «despovoadas» na mesma altura – são episódios equivalentes ao da mortandade em curso em Gaza ou à expulsão em massa concretizada há dias em Jenin, no Norte da Cisjordânia. É o mesmo sistema, é o mesmo processo: limpeza étnica.

No fundo, estas ocorrências criminosas são uma inevitabilidade da existência da doutrina nazi, supremacista e racista do sionismo. «Uma terra sem povo para um povo sem terra» foi o primeiro princípio fundador do sionismo, há mais de 130 anos. Isto é, a Palestina estaria desabitada e à espera do povo judeu, a quem fora prometida por Deus há três mil anos, através da pena de Moisés.

A Palestina, porém, estava e está povoada por um povo multifacetado e milenar no seio do qual existia uma comunidade perfeitamente integrada de judeus palestinianos que, segundo as teses do sionismo, também faziam parte, simultaneamente, do «povo sem terra». É em mistificações como esta que se baseia a existência do Estado de Israel, que não se considera deste mundo, está acima de todos os outros e não se rege por leis terrenas mas sim pelos dogmas do Antigo Testamento, com o seu inegável cunho de crueldade. Nada disso é impeditivo de que o Estado sionista seja venerado por praticamente todos os outros do planeta, como se tivessem má consciência pelo Holocausto praticado por Hitler, horror que o sionismo sequestrou e invoca abusivamente e no qual nem só judeus foram chacinados, como reza a História que não é conhecida em Israel e nos seus principais aliados.

Uma nota imprescindível e que nunca é demais repetir. O sionismo não representa «os judeus», sejam religiosos, sejam étnicos. Os dois conjuntos, sionistas e judeus, estão longe de se sobrepor sendo que, por exemplo, não são poucos os cristãos – como os energúmenos Biden e Trump – que se proclamam sionistas.

O sionismo não tem procuração para invocar o Holocausto nem para se considerar representante de todos os judeus, muitos dos quais – quem nos diz que não é a maioria? – não se identificam com a limpeza étnica e os episódios de genocídio cometidos em seu nome e considerados indispensáveis para que se cumpra a meta do sionismo: a criação do Grande Israel, do Nilo ao Eufrates, pelo menos. Essa foi a terra prometida pelo deus dos sionistas, essa é a terra que o sionismo quer anexar, sejam quais forem os meios que tenha de utilizar. O judaísmo não se rege por esses objectivos e ambições. O sionismo é uma corrupção do judaísmo, é uma doutrina colonial, desumana e supremacista que considera os outros povos como «estrangeiros» e sem os mesmos direitos. Nada disso tem a ver com os judeus, o judaísmo e a sua imensa cultura milenar, de que sobram os grandes exemplos técnicos, científicos, económicos e artísticos – da literatura à música, da pintura, escultura e arquitectura ao cinema.

A realidade demonstrou, naturalmente, que a Palestina era habitada. Para ali se instalarem «os judeus» era necessário, portanto, expulsar os palestinianos. Uma acção que deveria fazer-se, escreveram os teóricos sionistas, para criar um Estado «com um regime de tipo europeu». A tal «única democracia do Médio Oriente», cujos resultados estão à vista.

Mas se a Palestina estava habitada, encontrou-se maneira de dar a volta à realidade e encaixá-la, à força, na doutrina sionista.

Por isso é natural ouvir os ministros israelitas de hoje e de ontem, militantes da extrema-direita, fanáticos religiosos ou colonos sem quaisquer raízes na Palestina – alguns nem são judeus, na verdadeira acepção da palavra –  afirmar que os palestinianos «não são humanos»; ou são «bárbaros», ou «animais», ou «selvagens», ou «sub-humanos»; ou «os palestinianos e os outros “goyim” (estrangeiros e não-judeus) têm a alma mais próxima da alma dos animais do que da alma de um judeu», leia-se, neste caso, de um sionista. Em suma, seres inferiores que devem ser escorraçados para que se cumpra «a vontade de Deus» e, finalmente, aquela terra prometida seja santificada.

Donald Trump enunciou, afinal, com palavras cruas, brutas e inconvenientes para as más consciências, principalmente as ocidentais, um conceito que é inerente ao sionismo, que não ao judaísmo.

Escândalo com o resort de Trump em Gaza? Afinal é mais um episódio de uma limpeza étnica a que o mundo assiste, às vezes palavroso, mas sempre impávido e sereno, há quase 80 anos. Uns governos e coisas do tipo da União Europeia insistem, como um mantra, na «solução de dois Estados» sem mexer um dedo para isso; outros manifestam solidariedade com a Palestina e os palestinianos e ou não têm influência ou acham que assim cumprem o seu dever; a ONU arrisca algumas palavras mais acrimoniosas mas tem a faca e o queijo na mão para fazer cumprir leis que aprovou e não respeita; para aplicar resoluções que ignora e armazena umas atrás das outras, transformadas em arqueologia diplomática e do direito internacional. Tem as suas «forças de paz», que prefere utilizar como tropas coloniais; representa todos os países do planeta mas tem medo de Israel, além de ser incapaz de denunciar o conceito nocivo e tóxico de sionismo. Teve coragem e autoridade suficientes para impor sanções contra o regime de apartheid na África do Sul, mas não consegue ou não quer fazer o mesmo contra o apartheid em Israel

Escândalo com a franqueza de Trump? Talvez motive alguns dirigentes influentes a chocar-se com a ligeireza com que o presidente norte-americano aborda o destino pretendido para os palestinianos e a pensar a sério naqueles seres humanos que lutam para sobreviver no inferno de Gaza em degradantes campos de refugiados e cidades e aldeias arrasadas; e que não podem sequer, por causa do «direito à existência» do Estado sionista, pisar a areia das praias, pescar artesanalmente ou banhar-se nas tépidas águas mediterrânicas.

Há pelo menos alguma agitação nos meios políticos e mediáticos, sem dúvida, também porque Trump, pelo seu fascismo indisfarçado, é o bombo da festa das castas políticas hipócritas e bem falantes, apesar de a sua doutrina económica e política, na prática, ser a mesma que guia os nossos dirigentes neoliberais. E se Biden tivesse pronunciado as mesmas palavras que Trump? Seria um presidente criativo ao propor uma solução eficaz para o problema de Gaza? Ou apenas mais um cristão sionista cúmplice de genocídio e limpeza étnica? Fica a dúvida.

Mais vale tarde do que nunca, dir-se-á a propósito do alarido. Neste caso é difícil que o aforismo seja verdadeiro. Trump e o seu confidente Benjamin Netanyahu – que, sejamos sinceros, ganhou uma nova vida porque os seus chacras não alinhavam muito bem com os de Biden – prosseguirão a saga iniciada no primeiro mandato do mega pato-bravo e potenciarão sinergias genocidas contra o povo palestiniano; o mundo em redor, principalmente a Ocidente, regressará à passividade do costume, incapaz ou sem querer ir além das palavras. Os palestinianos continuarão sozinhos e desprotegidos, mesmo com a sua inesgotável capacidade de luta e resistência, tendo apenas ao seu lado a solidariedade planetária de cidadãos e organizações cívicas capazes de lhes dar algum alento e cuja eficácia dos esforços em desenvolvimento é cada vez mais notável.

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Esclarecimento preventivo

Este texto não é antissemita, apenas desobedece ao decreto sionista que pretende fazer equivaler, mais uma vez abusivamente, o conceito de antissemitismo ao exercício saudável e democrático da crítica à doutrina sionista e aos comportamentos do Estado de Israel. O sionismo é, na teoria e na prática, o conceito mais antissemita aplicado à face do planeta pois define como antissemitas os outros povos semitas, designadamente os palestinianos e até comunidades judaicas da Palestina contrárias à existência do Estado de Israel. Quanto aos governos ocidentais que aceitam a definição sionista de antissemitismo, pretendendo até criminalizar os desobedientes e impô-la no quadro da opinião única, não passam, eles próprios, de antissemitas.

Fonte aqui.

Israel acabou. O futuro é da Palestina. A verdade mais difícil está por escrever

(Alexandra Lucas Coelho, in Público, 28/12/2024)

(Um grande bem-haja para a autora deste texto pela coragem de denunciar as atrocidades monstruosas de Israel que sendo descomunais, muita gente, tal como eu, não deve saber que o são tanto. E pelo o libelo de dedo erguido contra os nossos políticos, cobardes, coniventes com a mortandade e benzendo-a com o seu silêncio cúmplice.

Estátua de Sal, 29/12/2024)


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1. No dia 19 de Dezembro de 2023 acordei em Jenin (norte da Cisjordânia), após mais uma invasão israelita. As ruas estavam rebentadas de fresco, crateras e montanhas de lama, jorros de esgoto. O exército retirara com blindados e bulldozers mas continuava no céu, pronto a disparar. Ouvíamos o drone por cima da cabeça. Jenin é um bastião da resistência palestiniana, chamam-lhe A Pequena Gaza. Eu estava lá por Jenin e por Gaza, onde Israel matava jornalistas desde 7 de Outubro, barrando a entrada de outros jornalistas, de forma inédita na história do jornalismo.

Portanto, eu nunca poderia relatar o que se passava naquele momento na Cidade de Gaza. Mas esse 19 de Dezembro foi também o dia em que um homem, por sorte médico, teve de amputar a perna da sua sobrinha sem anestesia, em cima da mesa da cozinha. Uma bomba levara a parte de baixo da perna, ela morreria de hemorragia. O tio limpou o sangue com a esponja da loiça, cortou com a faca da cozinha, coseu a artéria com a agulha da costura, porque era o que havia e lá fora caíam bombas. Impossível chegar ao Al-Shifa, a cinco minutos. O maior hospital de Gaza, onde tantas vezes estive a saber de feridos, como a 19 de Dezembro estive no hospital de Jenin.

Um ano depois, já não me lembrava ao certo onde estava. Fui verificar agora, quando vi a data dessa amputação no mais exaustivo relatório que um indivíduo fez desde 7 de Outubro. Na última versão em inglês tem 124 páginas e 1401 notas de rodapé, remetendo para milhares de fontes (informação institucional, organizações de direitos humanos, media tradicionais, textos académicos, redes sociais). Chama-se Bearing Witness to the Israel-Gaza War e é um trabalho escrito e compilado pelo israelita Lee Mordechai, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém, doutorado em Princeton. Mordechai, 42 anos, encontrava-se numa sabática nos EUA no 7 de Outubro. Queria fazer algo, e a partir de Dezembro começou a reunir informação além da que estava a ser vista pela maioria das pessoas em Israel. Em Março de 2024, o documento tornou-se viral no ex-Twitter em hebraico. Mordechai ampliou o alcance: para seja quem for que queira saber. Esclarece no começo: “Não recebi qualquer pagamento para escrever este documento, e fi-lo em compromisso com os direitos humanos, a minha profissão e o meu país.” Viu milhares de imagens horríveis. Não as mostra no texto, dá os links. Não usa palavras como “terrorista” ou “sionismo”. Chama “militantes” ou “operacionais” aos membros do Hamas. Li o documento: é um texto claro, sucinto, quase sempre factual, com poucos adjectivos. Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.

Os palestinianos têm sido a grande fonte directa do maior horror do nosso tempo de vida: aquele que está em curso desde 7 de Outubro. Quem acompanha os incontáveis testemunhos que eles nos têm dado do seu próprio holocausto, sobretudo pelo Instagram, vai reconhecer centenas de momentos no relatório de Mordechai. Idem para quem segue as agências e tribunais da ONU, a Human Rights Watch, a Amnistia Internacional e muitas outras organizações, incluindo israelitas. Uma sucessão de horrores e recordes. Resumo aqui: recorde de bombas e de crianças mortas à bomba, à fome, de diarreia, hipotermia ou outros problemas que não seriam mortais, se fossem assistidas. Recorde de crianças mortas com tiros na cabeça, no peito. Recordes de médicos e trabalhadores humanitários mortos. Recorde de licença para matar civis por cada alvo de alto ranking: 300 para 1. Recorde de civis mortos com as mãos no ar ou bandeiras brancas. Recorde de detidos arbitrariamente, homens, mulheres e crianças, com tortura, violação e mortes nas cadeias (muitíssimo acima de Guantánamo). Recorde de sacos de plástico para corpos, e saquinhos de plástico para pedaços de carne e ossos. Famílias com muitos saquinhos de plástico, que eram filhos, filhas, mães, pais. Quase 100 por cento da população deslocada: 2,3 milhões de pessoas. Destruição ou razia da grande maioria das casas, escolas, hospitais, mesquitas, edifícios em geral. Fome e epidemias em massa. Pessoas a comer erva e ração de animais, e cães a comer os cadáveres das pessoas. Lixo e esgoto por toda a parte. Ausência de electricidade e água potável. Cesarianas sem anestesia, além das amputações e outras cirurgias. Sofrimento contínuo e atroz de centenas de milhares de mutilados, queimados, doentes. Mais de 45 mil mortos oficiais, milhares de desaparecidos, centenas de valas comuns, projecções de centenas de milhares de mortos. Sem falar na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, onde o Hamas não está no poder, e milhões de outros palestinianos são reféns de um governo de colonos, que nunca capturou semelhante quantidade de terra, árvores e animais, ou matou e prendeu tanta gente.

Tudo isto já estava documentado, e Mordechai compila muitos exemplos. Mas talvez a parte mais singular do relatório, pelo próprio facto de ser israelita e falar hebraico, seja o que ele expõe sobre Israel, o ponto a que chegou a desumanização dos palestinianos. E eis a chave, diz Mordechai: a desumanização dos palestinianos é o que permite este horror. Resumo: a grande maioria dos israelitas que não quer saber a verdade (as muitas verdades além da propaganda); que nas sondagens acha bem limpar os palestinianos de Gaza; que é contra a entrada de ajuda (e em muitos casos a trava, incendeia); que acima de todas as instituições aprova as Forças Armadas de Israel, acredita que são as mais morais do mundo. Até porque essas forças são ela mesma, a grande maioria dos israelitas, pais e filhos, mães e filhas. Um exército de tiro ao pato, onde é possível matar palestinianos por tédio ou por um post, onde cada um no terreno pode fazer o que lhe dá na telha, como testemunham soldados e oficiais que estiveram em Gaza. Não são excepções, são padrões. Militares que fazem de qualquer civil um terrorista, incluindo crianças e bebés. Que agem como se Gaza fosse um videojogo, planeiam alvos por Inteligência Artificial, dedicam execuções e explosões às namoradas (e namorados). Que fazem dos palestinianos cães. Que filmam e postam o cadáver de um palestiniano a ser comido por um cão, seguido do lindo pôr-do-sol de Gaza. Que filmam e postam palestinianos passados a ferro por veículos militares, palestinianos despidos, atados, vendados, aos montes. Que recitam a Torah e a cada compasso disparam um morteiro. Que grafitam as paredes, incluindo das mesquitas, com insultos ao Islão e símbolos judaicos (fotografei em Jenin). Que posam no Tinder com fardas, armas, troféus da guerra, porque exterminar palestinianos é sexy. Que se postam com a lingerie das palestinianas, nas casas que arruínam. Enquanto a televisão israelita pode, por exemplo, promover um vídeo genocida em que crianças israelitas, com imagens de destruição em fundo, cantam sobre como Gaza será arrasada e em breve Israel vai cultivar os campos lá. Aliás, uma das últimas actualizações de Mordechai diz respeito à limpeza étnica do norte de Gaza, nestas últimas semanas de 2024, depois de uma líder dos colonos ter ido a Gaza, escoltada pelos soldados, para inspeccionar os futuros domínios das 500 famílias israelitas que ela diz que já estão prontas a mudar.

Há instruções escritas para esta limpeza étnica? Para o genocídio? Que se saiba, não. O que só convém às lideranças, como diz Mordechai, acautelando futuros julgamentos. Mas houve inúmeros apelos à destruição geral de Gaza, comparações dos palestinianos com animais, com bárbaros, com inimigos da Bíblia, que deviam ser erradicados até aos bebés. Ao mesmo tempo que milhões foram gastos em propaganda para destruir críticos de Israel (incluindo a ONU), comprar vozes pró-Israel, multiplicar histórias falsas. Como eram falsos os 40 bebés decapitados do 7 de Outubro, ou as violações em massa do Hamas, e relatos feitos pela organização israelita que primeiro esteve nos kibbutzim atacados, a ZAKA, que Mordechai hoje considera descredibilizada (não porque o que aconteceu a 7 de Outubro não tenha sido atroz, mas porque foi distorcido desde a raiz e aproveitado politicamente).

“Acredito que Israel tem tentado uma combinação destas três coisas: (1) remover os palestinianos de Gaza, especialmente no Norte; (2) tornar vastas partes da Faixa inabitáveis, esperando que isso contribua para o objectivo anterior; (3) matar as pessoas de Gaza por violência directa, fome ou prevenção de ajuda”, escreve Mordechai quando explica porque considera tratar-se de um genocídio, de acordo com os critérios da Convenção de Genebra.

Incluindo a intenção de o cometer.

2. No dia 7 de Outubro de 2023 voltei a casa de uma caminhada ao fim da manhã e peguei no telefone que ficara em cima da banca da cozinha. Quando vi as notícias, ali de pé, transida, pensei duas coisas, nenhuma racional. Uma foi: “Vou comprar um bilhete de avião.” A outra é algo que até hoje não escrevi publicamente, com as palavras que então pensei: “Israel acabou.”

Esta crónica sai um ano, dois meses e vinte e um dias depois disso, e é o que continuo a achar, mas hoje de forma mais detalhada. Claro que Israel não acabou no terreno, nem sei quando isso acontecerá. O que quero dizer é que a ideia de Israel acabou. Israel é hoje um estado pária para qualquer pessoa que queira realmente saber o que aconteceu desde 7 de Outubro. Que encare o que já mostraram ­— além dos próprios palestinianos — os tribunais e agências da ONU, a relatora da ONU para a Palestina, a Human Rights Watch, a Amnistia, centenas de outras organizações ou Lee Mordechai, desde 7 de Outubro. E antes disso, desde 2007, com o cerco a Gaza. E antes disso desde 1967, quando Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental (e os Montes Golã) foram ocupados, e colonizados. E antes disso desde 1948, quando centenas de milhares de palestinianos foram expulsos de suas casas, feitos refugiados. Até hoje em campos miseráveis do Líbano, da Jordânia, da Síria.

Os jovens do mundo que acordaram para Israel/Palestina a 7 de Outubro não entendem como foi possível um país ser fundado à custa de um povo. Muito menos como é possível um povo ser exterminado nos nossos telemóveis, com a ajuda dos nossos governantes. Porque é que um único país no mundo faz o que quer na ONU, incluindo cortar-lhe as pernas, banir o secretário-geral. Porque é que um povo parece valer mais do que qualquer outro. E porque é que os palestinianos valem menos do que Israel, a América ou a culpa da Europa. Numa palavra: racismo (étnico, religioso, cultural).

A ideia de Israel nasce na Europa colonial do fim do século 19. Uma Europa que achava que era ok extrair o que pudesse de África ou da Ásia, instalar-se lá, ser dona. Em parte sionista por amor aos judeus, em parte sionista para se livrar deles. Anti-semita de longa data, muitos séculos, muitas fogueiras, muitos pogroms, até ao Holocausto. E depois do Holocausto — do maior horror que a Europa do século 20 conheceu — funda-se então o Estado judaico, com a alavanca da culpa europeia, para que nunca mais, nunca mais.

Mas fundado no quê? Na destruição de outro povo. Na mentira de que era uma terra sem povo para um povo sem terra. A ideia de Israel está ferida desde o começo pela destruição e pela mentira. E a partir daí foi de vitória em vitória, até o Hamas abrir o alçapão em que Israel se despenhou.

O Hamas derrotou Israel no dia 7 de Outubro. Com um massacre contra civis, na sua maior parte, tal como milícias sionistas pré-Israel foram terroristas, e muitos outros movimentos recorreram ao terrorismo sem se resumirem a isso. O Hamas fortaleceu-se pela corrupção da Autoridade Palestina, pelo jeito que deu a Israel ter esse inimigo e pela vergonhosa incapacidade da comunidade internacional. Membros do Hamas torturaram o meu tradutor e amigo W., mas antes disso eu já não tinha ilusões sobre o Hamas. Simplesmente é um erro resumi-lo como terrorista.

A sociedade israelita viveu o maior trauma de sempre a 7 de Outubro. E a gente que hoje a lidera viu nisso uma grande oportunidade para concluir a Nakba de 1948, a Naksa de 1967. É o que Netanyahu tem estado a fazer, com os seus ministros colonos, supremacistas judaicos, a colaboração activa de muitos sectores da sociedade, a incapacidade de qualquer oposição, a anuência de uma maioria de israelitas. E abriu-se a frente libanesa, com o Hezbollah, e a frente síria, com a queda de Assad, tudo oportunidades. Expansão, conquista. Na verdade, auto-destruição. A espiral da queda no alçapão.

Os israelitas não vão recuperar como país do que fizeram, do que viram, e do que não fizeram e não quiseram ver. Uma sociedade doente, cada vez mais incapaz de reconhecer o outro, os outros. A ilusão de uma bolha étnico-religiosa, vendo anti-semitismo em todas as partes, da ONU ao Papa, da Irlanda à Amnistia Internacional. Validada porque o mundo a tentou destruir. E tentou.

Israel perdeu o mundo. Bem pode vir a sinistra Arábia Saudita assinar a normalização, estão bem uns para os outros. Idem os sinistros regimes árabes, todos, desde 1947, carrascos dos próprios povos, e de outros. Carrascos dos palestinianos. Somando o sinistro Irão: nenhuma democracia no Médio Oriente.

Não há futuro num Estado fundado na desumanização de outros. O começo de Israel já era o fim de Israel. O 7 de Outubro gerou a desumanização definitiva. O futuro é da Palestina ou não será. Não mais, ao fim de 76 anos. A Palestina perdeu o mundo durante 76 anos, mas agora Gaza é o mundo. E para jovens como Greta Thunberg está associada à própria luta pela vida da Terra.

E será inútil os guardiões da lenda Dois Estados virem com o papão de que isto deita os judeus ao mar. Quero os judeus livres de Israel. Quero os judeus livres. Quero os palestinianos livres. Toda a gente livre desde o rio até ao mar. Toda a gente livre: não há outra moral. Ou: nunca mais é para toda a gente.

3. Daqui a um mês, a 27 de Janeiro de 2025, Netanyahu não irá aos 80 anos da libertação de Auschwitz porque tem medo de ser preso por crimes contra a Humanidade. Há dias, no Haaretz, Gideon Levy resumiu o simbolismo alucinante disto. Era bom que Netanyahu fosse preso já, mas faz bem em não ir: Auschwitz não merece o homem que desde 7 de Outubro preside a Auschwitz-agora-em-directo. Uma criança morta por hora.

E aqui tocamos na última parte deste texto. A verdade mais difícil está por escrever porque, ao mesmo tempo que o horror nunca foi exposto como desde 7 de Outubro, ainda falta muito. E tudo isso será sobre nós: o tamanho do buraco humano.

Esse horror não seria possível sem as bombas e os milhões dos EUA. Biden é um criminoso de guerra. Como Scholz, Ursula, a maior parte da UE (com três ou quatro países a fazerem a diferença). O mundo que permite que se extermine um povo em nome de Deus, e ainda se considera religioso. Mas Deus não tem culpa, só os humanos mesmo.

Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, primeiro-ministro Luís Montenegro, ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, restantes ministros: vão continuar a ser cúmplices de um genocídio? Quando vamos ter sanções a Israel? Quando vão ter coragem para enfrentar o fecho da embaixada israelita em Lisboa?

Quando vão exigir aos israelitas que querem ser portugueses que provem que não estiveram envolvidos neste genocídio? E que vão fazer quando os vossos filhos ou netos vos perguntarem que fizeram contra isto?

Lee Mordechai testemunha. Toda a gente pode testemunhar desde 7 de Outubro. Isto não é só sobre Israel e Palestina. É sobre nós.