Durante muito tempo vai deixar de haver notícias

 (José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/06/2016)

 

Autor

Pacheco Pereira

 

Que fique bem claro que penso que o Campeonato Europeu de Futebol, ainda por cima com a participação de Portugal, é notícia e matéria de relevo noticioso. Não ponho nada disso em causa. Admito mesmo uma situação de cobertura noticiosa especial, com meios e tempo acima do normal. Mas não é isso que se passa. O que se passa é uma profunda anomalia e deriva dos media para se tornarem apenas puro entretenimento e deixarem de ter fronteiras entre géneros, com a canibalização de todas as emissões – a televisão é o melhor exemplo do que digo – pelo futebol. A lógica jornalística implicava que as principais notícias fossem dadas nos noticiários (e refiro-me a notícias e não ao penoso espectáculo de adeptos, jornalistas, políticos, etc., a dizer coisa nenhuma, a não ser a portugalidade descoberta pela via da bola). E depois os programas desportivos, em canais especializados, falassem o que quisessem e quanto quisessem. É assim nos países civilizados. Dito mesmo assim: nos países civilizados ninguém imagina este excesso português, talvez latino-americano, de parar tudo porque daqui a uma semana há um jogo da Selecção. Até lá é a logomaquia futebolística para encher o ar.

 O que se passa é uma pura invenção contínua de imagens do “nada”, sem conteúdo noticioso que não são mais do que paisagem, na qual não acontece nada. Os jornalistas estão lá à espera seja lá do que for. Se uma menina com chupa-chupa aparecer vagamente vestida de futebolês, lá vão eles atrás. Os jogos em si mesmos são uma pequena parte deste espectáculo, é a partida, é a chegada, é o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, o treino, o passeio, seja lá o que for serve.

Deixou de haver especialização que permita separar a emissão normal, já afectada pelos directos que se justificam, insisto que se justificam, do permanente fluxo de palavras e imagens a pretexto do futebol, sem qualquer conteúdo informativo, só entretenimento e entretenimento pobre, muito pobre.

 golo

No cabo era suposto haver canais noticiosos e canais de desporto e, embora em momentos excepcionais, como é, e não tenho dúvidas, o actual campeonato, seja normal tocarem-se uns aos outros. Mas não é isso que acontece – o zelo futebolístico dos ex-canais noticiosos é tal que ultrapassa o dos canais especializados, até porque podem deslocar meios e recursos e as audiências do prime time para o futebol. O ónus vai para os canais de cabo, mais do que para os canais com sinal aberto. Aí são os noticiários que perdem a cabeça, mas as telenovelas essas mantêm-se. O público feminino fica a ver a novela, o masculino é atirado para o cabo. Esta perda de autonomia do cabo é particularmente perigosa para os canais noticiosos, que perdem identidade e função, tornando-se durante muito tempo canais de desporto.

O efeito é semelhante à dopagem. Televisões dopam as pessoas que precisam de doses cada vez maiores de futebol, duas horas de jogo e 200 de “nada”, para se sentarem diante do ecrã sem mais nada dentro da cabeça do que a pílula da bola, ou o químico do jogo. Se não for isso que está lá no ecrã, seja na RTP, na SIC ou na TVI – e está de manhã à noite -, mudam de canal para a “concorrência” e as audiências afundam. Ninguém consegue manter a sanidade, limpar a cabeça e o corpo. Depois há a ressaca, e parece que falta alguma coisa. Até à próxima.


 Portas e o seu valor no mercado

 

Foi o próprio Portas que, falando de si, disse que “estava no mercado”. Sobre a sua atitude disse tudo o que queria dizer na discussão que tive na Quadratura do Círculo [SIC Notícias], excepto uma coisa: por que razão um homem que é esperto e sabe as consequências reputacionais daquilo que faz correu tão rapidamente para um emprego de lobista de uma empresa? A resposta deu-a o próprio Portas: o seu “valor” no “mercado”. Ora o “valor” de Portas no “mercado” do lóbi degrada-se rapidamente à medida que o tempo passa e os contactos e relações que estabeleceu enquanto esteve no governo, onde ocupou os mais altos cargos de “estado”, vão-se desvanecendo. Aliás, uma retórica balofa que uma certa direita do CDS tem do “estado” está bem traduzida neste episódio, em que um antigo vice-primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Defesa passa a lobista exactamente usando o “valor” que vem dessa alta experiência. E o “valor” são os segredos de Estado, os conhecimentos, os contactos, e o currículo de cargos governamentais no cartão-de-visita. É por isso que Portas tem pressa e assim pode comprar os talheres de prata mais cedo, ou fazer o upgrade para os de ouro.

 

 

A máquina da ignorância ao serviço da política que não ousa dizer o nome (II)

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/06/2016)

Autor

        Pacheco Pereira

Vale a pena a gente perder tempo com as inanidades que por aí se escrevem sobre “fascismo” e “comunismo”, ainda por cima supostamente “demonstradas”, como diz José Rodrigues dos Santos, num livro de ficção? Vale e não vale. Do ponto de vista intelectual e argumentativo, não vale. Nem são novas, nem são informadas, nem são interessantes, nem nada. O que vale é usá-las para mostrar o que elas significam: a possibilidade de, em 2016, se proferirem inanidades em público para voltar a uma variante de anticomunismo que a radicalização da vida política à direita precisa à falta de melhor para combater a “geringonça”. Não precisamos de tomá-las a sério no seu conteúdo e bramar que criticá-las é pôr em causa o “direito à liberdade de expressão”. Apetece-me nestes casos virar crente e dizer ao Senhor: “perdoai-lhes por que não sabem o que dizem”. Já não direi que “não sabem o que fazem” porque acho que sabem mais o que fazem do que o que dizem. O que não dizem é o que fazem.

O problema é outro e é esse que me faz perder tempo e espaço ao PÚBLICO: é o que é que sobra? Quem é que fica de fora? Porque “eles” dizem estas inanidades mas pretendem ser parte de uma herança impoluta, nem fascistas, nem comunistas. Havia de facto uma pequena “terceira força” que mantinha uma simultânea aversão aos dois lados do totalitarismo do século XX. Mas quando foi capaz de resistir e manter um terreno moralmente superior, foi porque pensava de forma bem diferente daqueles que hoje pretendem ser os seus herdeiros. No entanto, para quem estava nesses anos malditos, essa “terceira força” ou não existiu, ou foi tão débil que nunca teria força para contrariar os eventos dessa “guerra civil”, como de facto não teve. Teve que se aliar e os melhores aliaram-se. Como Churchill e Roosevelt, embora presumo que este último seja muito suspeito a estes paladinos.

O problema é que personagens que pensavam como os autores destas imagens nesses anos cruéis da guerra, salvo meia dúzia que se podem contar pelos dedos país a país, aceitaram demasiadas conveniências, demasiados “não há alternativa”, demasiadas colaborações porque o seu anticomunismo era mais fundo do que a resistência ao poder totalitário dos nazis. Há livros sobre isso, vale a pena lê-los. E, pelo contrário, a turma do “bolchevique com a faca na boca”, antepassado destes desenhos, foi toda parar pelo menos à colaboração, como em França, ou às hostes do Senador Joseph McCarthy nos anos do “naming names”. Aliás ainda não se lembraram do Senador, esse intrépido combatente do comunismo…

As excepções que existiram têm imenso mérito, mas hoje os autores destes desenhos achariam que eram “moles”. E depois tendiam a ter más companhias. Por exemplo, na denúncia dos crimes do estalinismo, os trotskistas eram muito mais claros do que os anticomunistas conservadores, porque sabiam do que falavam. E porque compreendiam que a força interior do comunismo não vinha apenas das maquinações de Lenine ou Staline. Este anticomunismo dos desenhinhos, instalado e cómodo, quando já não tem risco nenhum senão a asneira e o ridículo, contrasta com o anticomunismo a sério, quando era a doer, quando homens como Koestler ou Orwell, ou aqueles de quem se dizia que a luta final seria entre “ex-comunistas” e comunistas, denunciavam os crimes de Staline e de Hitler. Mas todos eles eram suspeitos à direita, porque tinham sido… comunistas. O livro de Koestler, O Zero e o Infinito (Darkness at Noon), é um livro sobre um dilema moral e político, e baseava-se na história trágica do “menino querido do Partido” Bukharine, e a última coisa que faz foi olhar para os comunistas como o “bolchevique de faca na boca” destes desenhos infantis.

Mesmo em Portugal, quem melhor falou desses dilemas não foram os companheiros de estrada do salazarismo, que escreveram milhares de páginas contra o perigo do “bolchevismo”. Foi, por exemplo, Eduardo Lourenço nas Heterodoxias e no seu estudo sobre o neo-realismo, ou, de forma ainda mais pessoalmente sofrida porque de denegação, Jorge Borges de Macedo que tinha sido comunista e que passou a vida a negá-lo, mas que nos seus livros ia muito mais longe na crítica ao marxismo do que muitos outros. A sua negação é um dos melhores exemplos da marca trágica da experiência comunista da sua geração, pelos homens que tinham visto chegar “esse exército (…) vindo de Leste”, e da dificuldade do anticomunismo ser vivido sem ser entendido como uma “traição”. Não por causa do Pai dos Povos, mas por causa dos milhões de mortos desse “exército (…), vindo de Leste” que travaram os Panzer nas estepes russas quando tudo parecia perdido.

Não falarei sequer da minha experiência pessoal de ter sido um dos primeiros a estudar o PCP e o comunismo em Portugal, sem ceder aos mitos da casa. Eu sei muito bem o que é o estalinismo censório na primeira pessoa, os insultos e processos de intenção, quando a reverência à URSS e ao PCP eram a norma na intelectualidade portuguesa, comunista e “independente”. Nem sequer vou falar disso, porque foram penas menores face a muitas outras bem maiores. Só me fico dizendo que quando era incómodo, quando por exemplo nas Audiências Sakharov, só Mário Soares, alguns poucos social-democratas e alguns esquerdistas, aceitavam participar, os antepassados aperaltados destes fogosos anticomunistas do desenhinho nunca queriam sujar-se com essas causas “primárias”.

Mas isso leva-me a ter quase dó com estes exercícios de propaganda menor, mas de intencionalidade maior, porque este anticomunismo de opereta, nem sequer é um verdadeiro anticomunismo, é um anti-socialismo, é um anti-social-democracia, é a substituição do pensamento da democracia por uma espécie de digesto empresarial que encontra na experiência de Singapura o seu ideal.

É que nem sequer é o PCP que eles querem atingir, é o PS, é António Costa, são os social-democratas que ainda não têm vergonha do nome, é o dificílimo engolir da perda do poder, é a falta do exercício de mandar e é a consciência de que, sem as sanções punitivas e a “lei de ferro” da Europa, não chegam lá tão cedo. Enquanto isso divertem-se achando-se geniais com estas boutades gráficas e verbais que brincam com um fogo que eles não sabem sequer que existe.

Historiador.

Este artigo é a segunda e última parte do que foi publicado a 4 de Junho.

O que eu diria se fosse a um congresso do PSD…

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 10/06/2016)

Pacheco Pereira

              Pacheco Pereira

…onde não posso ir porque não sou delegado, não tive nenhum cargo que me desse esse direito por inerência e não quereria falar numa condição de favor em relação aos que têm o direito de lá estar. Aliás, essa hipótese já se colocou num dos primeiros congressos da era Passos Coelho e foi recusada pela direcção do partido. Aos energúmenos que nos partidos têm a sua única vida profissional e que adorariam essa ocasião para me apupar devo dizer-lhes que é para o lado em que durmo melhor. Já tive na vida muitas mais ocasiões de incómodo e riscos muito maiores, para me assustar com isso. Além disso seria uma honra, como se percebe deste texto.

Aqui vai, de fora, como se fosse lá dentro.

Ponham lá nas paredes das sedes do PSD…

Passavam menos de 15 dias sobre o 25 de Abril de 1974, a 6 de Maio, três homens, Francisco Sá Carneiro, Joaquim Magalhães Mota e Francisco Pinto Balsemão, liam a declaração genética do PPD, depois PSD, intitulada Linhas para um Programa. Chamo a atenção: o habitual argumento destinado a desqualificar os documentos dos primeiros anos do PSD, de que são o resultado de habilidades linguísticas destinadas a obter legitimidade nos anos do PREC, não colhe de todo. Este documento é escrito muito antes de se dar a radicalização política do ano de 1975 e aliás não esconde a génese do novo partido na chamada “ala liberal” cuja actividade cessava então “pelo nascimento dum partido de orientação social-democrata”. Ou seja, os autores desta declaração estavam a dizer exactamente o que queriam dizer e a situar-se exactamente onde queriam situar-se.

Inscrito a letras de ouro …

Deixemos de lado a parte do apoio ao MFA e ao 25 de Abril, para nos atermos às demarcações do texto e ao seu conteúdo programático. Primeira demarcação: a “concepção e execução dum projecto socialista viável em Portugal, hoje, exige a escolha dos caminhos justos e equilibrados duma social-democracia, em que possam coexistir, na solidariedade, os ideais de liberdade e de igualdade.” A expressão “caminhos justos e equilibrados duma social-democracia” significa que o novo partido se distanciava dos outros “socialismos”, em particular dos dois partidos que tinham chegado ao 25 de Abril aliados por um “programa comum”: o PS e o PCP. Esse “programa” não durou muito, mas existia.

Para não se esquecerem de onde vimos…

O que é que significava esta “visão social-democrata da vida económico -social”?

“a) Planificação e organização da economia com participação de todos os interessados, designadamente das classes trabalhadoras e tendo como objectivos: desenvolvimento económico acelerado; – satisfação das necessidades individuais e colectivas, com absoluta prioridade às condições de base da população (alimentação, habitação, educação, saúde e segurança social); – justa distribuição do rendimento nacional.

b) Predomínio do interesse público sobre os interesses privados, assegurando o controlo da vida económica pelo poder político (…).

c) Todo o sector público da economia deve ser democraticamente administrado (…) .

d) A liberdade de trabalho e de empresa e a propriedade privada serão sempre garantidas até onde constituírem instrumento da realização pessoal dos cidadãos e do desenvolvimento cultural e económico da sociedade, devendo ser objecto de uma justa programação e disciplina por parte dos órgãos representativos da comunidade política.

(…)

PSD

f) Adopção de medidas de justiça social (salário mínimo nacional, frequente actualização deste salário e das pensões de reforma e sobrevivência, de acordo com as alterações sofridas pelos índices de custo de vida, reformulação do sistema de previdência e segurança social, sistema de imposto incidindo sobre a fortuna pessoal preferentemente ao rendimento de trabalho com vista à correcção das desigualdades).”

Citei mais extensivamente porque é uma parte crucial da “visão”. Estão lá mais coisas, como a crítica ao absentismo dos latifundiários, a defesa do direito à greve (“meios necessários para uma permanente e contínua subordinação da iniciativa privada e da concorrência aos interesses de todos e à justiça social”); a possibilidade de nacionalizações para garantir o “controlo da vida económica pelo poder político”; a defesa do “saneamento” e do “julgamento dos crimes constitucionais de responsabilidade, de corrupção, contra a saúde pública e os consumidores e, dum modo geral, contra a vida económica nacional, bem como dos abusos do poder.” No plano político está lá a defesa daquilo que viria a chamar-se o “poder local”; a independência do poder judicial; a laicidade do Estado; o fim da discriminação das mulheres, e a afirmação de que a “educação e a formação constituem serviço público no mais amplo e digno sentido de expressão porquanto são fundamento e garantia de liberdade e de responsabilidade. A igualdade de oportunidades, alargamento de horizontes e a preparação ou readaptação à vida em sociedade são os objectivos fundamentais de educação e formação.” Ou seja, a educação é o mecanismo-chave da mobilidade social. E por fim, a defesa da “autodeterminação” nas colónias com imediato cessar-fogo.

Para quem não sabe o que é a social-democracia…

Talvez a mais significativa frase do texto seja esta:

“Consideração do trabalhador como sujeito e não como objecto de qualquer actividade. O homem português terá de libertar-se e ser libertado da condição de objecto em que tem vivido, para assumir a sua posição própria de sujeito autónomo e responsável por todo o processo social, cultural e económico.”

Ela é uma das chaves para perceber o pensamento de Sá Carneiro e dos fundadores. Não vem do marxismo, nem do socialismo, nem do esquerdismo, vem da doutrina social da Igreja tal como se materializava no pensamento da social-democracia que se queria instituir. Demarca o PSD do PS, do PCP mas, acima de tudo, daqueles que no lugar do “trabalhador” colocam as “empresas”, a “economia”, ou outras variantes de qualquer poder que não “liberta”.

A escolha e a ordem das palavras não são arbitrárias. Estes homens devem ter ponderado todas as palavras, todas as ideias e todas as frases deste documento com o máximo cuidado e rigor. Sabiam que estavam a escrever para a História e para o dia seguinte, para os portugueses e para Portugal.

Nem é preciso dizer, de tão evidente que é, que nada disto é o que pensa e o que diz a direcção do neo-PSD que hoje existe. Este é o PSD antigo, mas esta é também a parte que não é “modernizável”.