O (NEGÓCIO) FUTEBOL E OS TEMPOS

(Joaquim Vassalo Abreu, 19/05/2018)

futebol

Seria natural que antes fosse “espectáculo”, porque disso efectivamente se trata, e só depois um negócio. Seria, mas deixou de ser.

Mas antigamente o “negócio” era transparente e puro? Os anais dizem-nos que nem por isso e contam-se mesmo mirabolantes histórias!

Lembro-me de ouvir pela rádio em pequeno, no tempo dos transístores, que determinado clube precisava de ganhar por 28-0 (!) para não descer e, por artes de magia, ganhou por 29-0! Esse número ficou-me e lembro-me de há uns anos ouvir à entrada do estádio do Dragão um repórter perguntar a um espectador prestes a entrar qual o seu prognóstico para o resultado!

Eu estava atrás dele e com a minha resposta pronta se me interpelasse. Sorte a dele e azar o meu! É que se fizesse a mesma pergunta ter-lhe ia respondido: 28-0! Ele teria dito de imediato: Está a brincar? E eu responderia: Não, o senhor é que está a brincar comigo! Teria sido bonito…

Eram tempos surreais, tempos dos campos pelados, tempos de jogadores rijos e indomáveis e tempos das rádios! Tempos do “atenção Nuno, perigo no Barreiro” e das quase nulas transmissões televisivas. E tempo dos jornais também…E tempos da Capital possuir o unilateral mando! A Capital do Império…

Depois o “negócio”, que não o “espectáculo”, foi-se sofisticando, foram as leis se alterando, foi-se entretanto jogando e os vícios se aperfeiçoando…E veio a luta Norte Sul pelo seu domínio. É que antes o “negócio” quase só se circunscrevia à Capital, a Capital do Império…

E veio a Revolução e com ela um Pedroto disposto a deixar de ser “Andrade”, atravessar a ponte e conquistar a Capital, a ex- capital do ex-império.E com ele chegou um Pinto da Costa vindo do Boxe (estão a ver?), mas um tipo oriundo de boas famílias, de verve esfusiante, de piada fácil, acutilante e cortante e, acima de tudo, disposto a tudo fazer para mudar a Capital do “negócio” para o Porto! E com ele chegou a “fruta” ao  dito…

Entretanto uns puritanos verdes, de bigodinho curvo a pasteis de nata, olhavam para os seus umbigos e sentiam-se espantados com tanta desfaçatez naquele “savoir faire”!

Mas, mais tarde, já para os recentes tempos, veríamos ressurgir o outro da segunda circular, disposto também a recuperar o mando no “negócio”, pela mão de um tipo vindo ali de Alverca que, depois de uns falhados candidatos a “padrinhos”, assumiu com mão de maleável borracha, não tivesse ele vindo do negócio dos pneus, o comando da “empresa”. Radicou-se entretanto na Expo e, depois de fazer fortuna, para lá de um pequeno “furo” no BPN (17 milhões, que é isso?) espetou um autêntico “taco” ( há quem lhe chame “calote” e outros mesmo de “rombo”, no BES (Novo Banco) de mais de 600 milhões…trocos!

Mas isso comparado com o “furo” do Sócrates são apenas uns trocaditos, digo eu agora a tentar ter piada!

A diferença com o anterior descrito, o chamado “Rei” do Norte ou “Pinto Rei”, é que este ao menos sabe dizer Poesia, é de ironia fácil e não consta ter dado alguma vez “rombos” desses! Por favor, deixem-me pôr as coisas no seu lugar…é que este até gosta de Ópera!

Até que dos lados dos “viscondes” aparece um “paisano”, um pássaro de arribação impetuoso e de bico grave, um autêntico valentão. Sabe-se que também vem de boas famílias e que é perito em falir empresas (se os outros falem eu também falo, ora…). Diz-se que, com aquele célebre acordo com a Banca, terá salvado o Clube dos Viscondes da insolvência. Pois, mas voltou aos velhos hábitos e não consta que diga Poesia e piada não tem nenhuma! E faz-me, assim de repente, lembrar o célebre romance do grande GABO: “ O General no seu Labirinto”! Mas, será ele também contralto?

Mas é então esta gente que quer dominar, à força toda, o tal “negócio” do futebol, o tal que se deveria restringir ao “espectáculo”? Esta tal gente que noutros países já há muito foi banida, com o retorno do tal “espectáculo”? Na Inglaterra, primeiro exemplo, e até na insuspeita Itália. Em Espanha o presidente da federação foi preso e esquecido. E o “espectáculo” segue e os presidentes juntam-se, jantam, falam e vêm o “espectáculo” lado a lado. E os “teatros” estão sempre cheios, porque sem “espectáculo” não há assistências…torna-se um sítio cheio de lugares vazios…

Mas chegamos ao derradeiro tempo, o nosso tempo, o tempo da chafurdice, o tempo da impunidade e do nojo, o tempo de uma louca Justiça que ao invés de julgar esse nojo o protege e em que para a opinião pública devidamente demarcada já não interessam os crimes dos anteriores mas apenas os do último que, como sempre, se torna o fácil alibi para todos os outros. É o último, o desgraçado…

E os anteriores ainda vêm pedir justiça pois este os prejudicou…foi além do que devia, o desgraçado!

E depois há também o costumeiro “afinal são todos iguais…”quando, por falta de mais argumentos para defenderem os “seus”, se utiliza este velho refúgio que, no fundo e no essencial, quer dizer “ não se pode fazer nada, é assim e assim será e, apesar de tudo, eles continuam a ser os meus…”. E até dizem, estes ingénuos, que o clube é deles! Também estes são todos iguais, agora digo eu…

E neste degradante estado do “negócio”, um estado onde tudo isto estagna no pântano desse depravado sistema, há uma autêntica “tríade” procurando chefiar o “negócio”, ser o “padrinho”, é claro,  e chefiar todos os “capos” ao seu serviço…E nas Máfias estes matam mesmo…

E voltamos sempre ao mesmo: ao banditismo, às seitas organizadas e aos agentes procurando migalhas. Triste sina a deste “espectáculo”. E não se mudam os tempos?

Li algures que o Presidente da República, o seu melhor amigo o Dr. Eduardo Barroso, o deste amigo também Ferro Rodrigues, que é a segunda figura do Estado, o Dr. Sampaio que já foi PR, o seu irmão Daniel que nunca foi, mas é Psiquiatra, e mais uma série de viscondes, de barões e de  baronetes, e mais outros que usam bigode à pastel de nata e ainda outros “agro-betos” que por lá pululam, se sentem “constrangidos”, “desanimados”, “envergonhados”, ”apalermados”, “angustiados”, “embasbacados” e “preocupados”…

A mim só me surge dizer: “COITADOS”…

Há ou não incompatibilidades?

(Raquel Albuquerque, in Expresso, 14/04/2017)

assembleia

A Subcomissão de Ética concluiu que os sete deputados ligados a empresas com contratos com o Estado não estavam em situação incompatível. Só que nem todos acham o mesmo.


1 Quais foram as suspeitas?

Uma investigação do “Jornal Económico” identificou sete deputados com uma participação superior a 10% do capital social de empresas com contratos com o Estado. O Estatuto dos Deputados impede que os parlamentares (ou os cônjuges com quem estejam casados sem separação de bens) tenham “participação relevante e designadamente superior a 10% do capital social” de empresas às quais foram feitas adjudicações de entidades públicas. Luís Montenegro (líder parlamentar do PSD), Virgílio Macedo (PSD), Paulo Rios de Oliveira (PSD), Ricardo Bexiga (PS), Renato Sampaio (PS), Luís Testa (PS) e José Rui Cruz (PS) foram os sete nomes identificados. A situação passou para a Subcomissão de Ética do Parlamento, que elaborou sete pareceres, sobre a situação de cada um dos deputados.

2 Algum dos sete deputados foi punido?

Não. A Subcomissão de Ética concluiu não haver incompatibilidades, mas as opiniões dividiram-se. A aprovação do parecer que iliba os deputados só foi unânime no caso de José Rui Cruz (PS), por não estar em funções nesse período. Luís Montenegro (PSD), Paulo Rios de Oliveira (PSD), Virgílio Macedo (PSD) e Ricardo Bexiga (PS) têm participações em sociedades de advogados (que não estão abrangidas pela incompatibilidade definida na lei), o que levou PS, PSD e CDS a votar a favor e BE e PCP contra. Já Luís Testa (PS) e Renato Sampaio (PS), cujas mulheres tinham mais de 10% nas empresas (participação essa que entretanto diminuiu), despertaram dúvidas. Mesmo assim, foram ilibados com votos a favor do PS, abstenções do PSD e CDS e votos contra do BE e PCP.

3 Os advogados beneficiam de uma condição especial?

O artigo 21º do Estatuto dos Deputados define que um dos impedimentos dos parlamentares é a detenção de mais de 10% do capital social de empresas com contratos com o Estado. Mas isso só se aplica no “exercício de atividade de comércio ou indústria”, portanto quando se fala de sociedades de advogados, como acontece com quatro dos sete deputados, o retrato é outro. Essas empresas são tidas como sociedades não comerciais, o que as deixa de fora deste artigo. Se houvesse infração da lei, os deputados teriam de ser advertidos, suspender o mandato por um período não inferior a 50 dias e repor a remuneração recebida desde o início da situação de impedimento.

4 Alguém quer mudar o Estatuto dos Deputados?

O BE e o PCP foram os dois únicos partidos que se manifestaram contra a ‘absolvição’ dos deputados. O comunista Jorge Machado defendeu uma clarificação legal, para que também os advogados sejam abrangidos por este impedimento. O PCP considera ainda que o facto de as mulheres dos socialistas Luís Testa e Renato Sampaio terem diminuído as suas participações nas empresas não chega e que os parlamentares deveriam perder a remuneração relativa ao período em que houve incompatibilidade. José Manuel Pureza, deputado do BE, justificou o sentido de voto do seu partido pelo “critério de exigência máxima de transparência”.

Mais uma vez a nossa doença angolana

(José Pacheco Pereira, in Público, 02/04/2016)

Autor

                     Pacheco Pereira

Dizer o ‘estado de direito’ angolano devia provocar uma sonora gargalhada se o assunto não fosse muito sério.


O que é que faz PCP, PSD e CDS juntarem-se num voto comum com denso significado político? Angola. O que faz juntar Paulo Portas, Jerónimo de Sousa, Passos Coelho, Assunção Cristas num silêncio mais ou menos incomodado sobre claras e grosseiras violações dos direitos humanos e da democracia? Angola. O que faz Paulo Portas, esse corifeu do anti-comunismo, e da liberdade económica, agora convertido à digna carreira dos negócios, queixar-se da “judicialização da relação entre Portugal e Angola” a propósito da prisão de Orlando Figueira, antigo procurador do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), acusado de ter engavetado um processo em que era investigado Manuel Vicente, antigo dirigente da Sonangol? Angola.

Aqueles a que se solta a boca com o que se passa na Venezuela, aqueles que espumam com a viagem de Obama a Cuba, aqueles que correm para escrever artigos indignados com a duplicidade da esquerda face a regimes como o norte-coreano, o cubano, ou o venezuelano, agora explicam-nos que o regime angolano nada tem que ver com o comunismo. É um regime “pragmático”. Lá isso é, mesmo muito pragmático.

O mais espantoso argumento é o que acha que nada se pode dizer sobre o que se está a passar, visto que o que está em causa é o sistema judicial, os tribunais, o “Estado de direito” angolano e isso é tão inquestionável como os tribunais ingleses de juízes e advogados de cabeleira e velhos direitos do júri, onde há habeas corpus e… o primado da lei. Dizer, aliás, o “Estado de direito” angolano devia provocar uma sonora gargalhada, se o assunto não fosse demasiado sério.

Criticar a Coreia do Norte está bem. Criticar a Birmânia está bem e é muito longe e não se sabe nada para nosso conforto. Criticar a Síria e a “ditadura” de Assad está bem. Bater palmas à queda de Khadafi, mesmo com o incómodo do seu linchamento público, está também muito bem. Até ao nosso parceiro na CPLP, a Guiné Equatorial, podemos torcer o nariz. Tivessem eles “salvo” o Banif, talvez já não fosse assim.

Mas há ditaduras e ditaduras. E a questão já não é só ideológica, bem longe disso. Isso era antes e só funcionava para o PCP. Para o PSD, o CDS e parte do PS, é o “pragmatismo” que conta, ou seja, as que estão próximas de nós pelo dinheiro, com essas é que é preciso muita prudência. Na verdade, se investem em Portugal, pagam pelo menos o direito de não serem tratadas como ditaduras, apenas “Estados africanos em construção”, importantes motores de negócios, países mais ou menos exemplares.

Veja-se a China, cujo Partido Comunista Chinês comprou durante o Governo Passos Coelho algumas das mais importantes empresas portuguesas. Pelo menos uma, qualquer consideração estratégica do interesse nacional deveria impedir que fosse vendida, a REN. Mas a lei que definia os sectores de valor estratégico para Portugal, — anoto, não é para a economia portuguesa, é para Portugal —, por singular coincidência, só foi publicada depois da venda. Grande Partido Comunista Chinês, vanguarda do capitalismo mundial, exemplo de gestão da economia, parceiro desejado, governante dos homens que pagam umas centenas de milhares de euros para virem a ter a nacionalidade portuguesa com um “visa dourado”. Pelos vistos pagam a frente e ao lado. Mas os refugiados que se acumulam na Grécia e na Turquia, esses, não têm dinheiro para comprar um passaporte europeu, nem prédios de luxo, nem comissões a advogados e imobiliárias, nem luvas para “agilizar” o processo.

Angola é o que se sabe. Não havendo propriedade privada dos diamantes ou do petróleo ou dos outros bens naturais do país, apenas concessões às grandes petrolíferas americanas ou às empresas estatais, o que decorre da exploração desses recursos são biliões de dólares que são a principal riqueza de Angola. Para onde vão? Do lado “recebedor” desses gigantescos fundos está a cleptocracia governante em Angola, a começar na família do Presidente, estendendo-se para a entourage da Presidência, e para um conjunto de generais que ascenderam ao poder durante a guerra civil, e a que se juntam altos quadros do MPLA, administradores de empresas públicas, embaixadores, ministros e “homens de negócios”. Nenhum deles construiu a sua riqueza que não fosse pelo acesso ao poder político. Os seus nomes são conhecidos de todos, estão sistematicamente presentes em duas listas: as dos que violam os direitos humanos, como as da Amnistia Internacional, e as dos corruptos que todas as polícias europeias e americanas conhecem, incluindo a portuguesa.

Os seus nomes são também conhecidos, familiares, da “casa” de uma parte considerável da elite portuguesa, políticos, jornalistas, empresários, banqueiros, advogados, que têm negócios com eles. Há mesmo alguns casos, como o de um antigo diplomata, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, que é funcionário do Governo angolano para conduzir como “consultor” aquilo a que chama “diplomacia privada”. Há jornais, bancos, grandes empresas, investimentos imobiliários, terras, casas, e muita “influência” paga com o dinheiro angolano. Não há também nenhum negócio corrupto em Portugal de grande dimensão, ou queda de banco ou escândalo financeiro, que não vá ter a um destes angolanos, desde o BES, e o seu obscuro BESA, até ao “caso Sócrates”. E há demasiadas histórias que se sussurram e que circulam de boca sobre gente que foi espancada numa esquina de Lisboa ou Cascais, e que, vá-se lá saber porquê, não parece muito interessada em que a polícia investigue os seus agressores. E, no meio de tudo isto, abrem-se todos os dias os jornais, a começar pela imprensa económica, e vê-se notícias sobre notícias sobre os grandes negócios em que participam pessoas cuja riqueza foi roubada ao povo angolano, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

O argumento que pensam ser definitivo e arrasador é da “irresponsabilidade” que seria criticar Angola ou estas pessoas poderosas, porque quem iria pagar o preço seriam os portugueses que lá vivem e trabalham. Não é preciso ir mais longe para perceber que, com este argumento, estão a dizer tudo sobre a natureza do regime angolano e sobre a sua “democracia”. Daí vem a tese de que, “para proteger os portugueses”, têm de dançar com os demónios todos. Claro que não lucram nada com isso.

Mas o ponto é sensível. Há de facto muitas empresas e empresários que ganhavam muito dinheiro antes da actual crise em Angola. Pagavam todas as “propinas” necessárias e sobrava-lhes ainda lucro. E, quando confrontados com isso, encolhiam os ombros com cinismo e diziam: “Se não fôssemos nós, seriam os chineses, ou os franceses, ou os espanhóis.” Verdade, mas isso coloca-os hoje no mesmo barco daqueles a quem pagaram.

Mas há infelizmente muitos outros, os que de facto não têm defesa. Os portugueses em Angola, os que precisaram mesmo de ir para Angola trabalhar ao apelo de Passos Coelho para “saírem da sua zona de conforto” e para fugir ao desemprego por cá, esses servem para o argumento do silêncio. Na verdade, nada os protege, muito menos o silêncio, porque é o silêncio da fraqueza e os fracos nada podem quando as coisas endurecerem. Enquanto o regime angolano for o que é, nada os protege. Serão sempre as vítimas de um regime que não hesita em retaliar sobre os mais fracos para proteger os mais fortes.

Mas as coisas vão endurecer mesmo. A crise do preço do petróleo faz escassear os bens que os predadores estavam habituados a ir buscar à cornucópia da abundância. Eles se encarregarão de se guerrear entre si pela pouca água que jorra da fonte outrora abundante. E serão os próprios angolanos, aqueles que hoje vão para a cadeia, que acabarão por falar mais alto. Porque têm razão e são corajosos. É com eles que os portugueses deveriam estar.