Velhas alianças afundam-se no Atlântico

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 19/02/2025)


Não tenhamos ilusões nem dúvidas de que, mais de um milhão de mortos depois, a paz continua longínqua. Sob a tutela de Putin e Trump, o cenário de hipotéticas negociações formais é ainda um magma de contradições que, até aqui, têm sido insanáveis.


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E o feitiço está a virar-se contra o feiticeiro.

Os inspiradores, condutores e financiadores do golpe de Estado de 2014 na Praça Maidan, em Kiev, estão a sofrer as consequências desse atentado grosseiro contra a democracia montado exclusivamente para defender interesses alheios aos do povo ucraniano e estender o campo de acção da NATO até às fronteiras da Rússia.

O Ocidente está em choque com a derrocada de pilares que sustentam as alianças transatlânticas, que pareciam sólidas, como se correspondessem a um devir histórico, e afinal são vulneráveis quando os interesses contraditórios envolvidos finalmente entram em conflito. O que Davos tem vindo a construir tão laboriosamente com golpes, manipulação e propaganda no sentido do globalismo, a conferência de Munique veio agora atrapalhar.

Não poderá dizer-se que se trata de um caso de zanga entre comadres. É muito mais uma ruptura do tipo de relações habituais mantidas numa teia mafiosa entre o Padrinho e os seus Cappos.

Como ainda recentemente – em termos históricos – aconteceu no Afeganistão, os Estados Unidos estão em debandada da Ucrânia, arrastando consigo uma NATO atónita e dentro da qual o secretário-geral não sabe o que há-de dizer, a não ser dislates em que consegue pronunciar considerações e as suas contrárias numa mesma intervenção.

À fuga norte-americana das consequências da situação que criou há 11 anos em Kiev, e que custaram, logo para começar, cinco mil milhões de dólares à Fazenda de Washington, segundo versão oficial, corresponde a entrada numa fase ainda mais grave da longa agonia que antecede a morte da União Europeia. Enredada nos laços que criou por se ter envolvido, desde o primeiro momento, no apoio acrítico ao regime totalitário nazi-banderista instituído através do golpe, os 27 ficam agora com o menino nos braços e sem o direito a negociar soluções. Continuam a proclamar que apoiarão até às últimas consequências a casta corrupta e criminosa da qual a figura mais visível é o presidente ilegítimo Zelensky, de modo a «que a Ucrânia vença». Para alimentar a ilusão de que irão alcançar esse objectivo, cultivam a ideia insana de enviar tropas com uma dimensão de efectivos que não têm; dispõem-se a mandar dinheiro em cima do que já voou em anteriores donativos para as contas da seita nazi e que agora também não possuem porque cumprem com obediência canina as sanções à Rússia decretadas pelos Estados Unidos; e consideram-se obrigados a encaminhar ainda mais armas para o regime ucraniano – em estado muito mais para lá do que para cá – com os seus próprios arsenais já esvaziados. E se, com risco do seu próprio futuro a curto prazo, quiserem continuar com essa «democrática» missão, vão ter de comprar armamento aos senhores norte-americanos da morte, que já esfregam as mãos antecipando mais esse bónus.

Numa reacção patética, uma parcela ínfima dos chefes de governo europeus mais o secretário da NATO e os principais eurocratas não eleitos de Bruxelas, Van der Leyen e Costa, reuniram-se em Paris «de emergência» para decidirem como continuar a dar «todo o apoio» ao  regime ucraniano; e também para exigir a participação nas negociações de paz e preparar o envio de tropas para a Ucrânia. 

Este conclave daqueles que abdicaram de ter voz e agora pretendem falar grosso merece duas notas adicionais. A de que esses agora órfãos de Washington ainda não perceberam o tremendo alcance do problema em que se meteram ao longo destes anos. A sua situação é do tipo daquelas que o povo às vezes invoca, neste caso aplicada a propósito da negociação de Putin com Trump: não é preciso falar com os cães quando se pode falar com o dono dos cães. E se a ideia peregrina de enviar tropas como «forças de paz» continuar a ir para a frente é porque a União Europeia decidiu finalmente suicidar-se, abreviando o permanente definhamento de que tem padecido.

Até um político reles humilha a União Europeia

Como se não fossem bastantes as consequências do desprezo total a que a União Europeia foi condenada pelos Estados Unidos, depois de anos e anos de vassalagem indigna a Washington em todos os assuntos de âmbito internacional, os dirigentes europeus ficaram a saber que o vice-presidente norte-americano, JD Vance, usando o púlpito da chamada «conferência de segurança» de Munique, diagnosticou que «a principal ameaça à Europa vem de dentro, não da Rússia ou da China». Ouviram o que merecem até de um indivíduo reles, um desqualificado sofrendo de histeria do poder.

Aqui chegados é uma boa altura para recordar o sábio conspirador Henry Kissinger: «Ser inimigo da América é perigoso, mas ser amigo da América é letal». A casta governante dos 27 não pode alegar que não estava avisada.

Vance não se ficou por aí no constrangedor discurso de Munique. Em muitas das passagens da oratória sobressaiu a total desconsideração e a ostensiva desvalorização da sabujice dos dirigentes da União Europeia em relação a tudo quanto se decide em Washington, incluindo a maneira suicida como se emaranharam na teia tecida pelos nazi-banderistas de Kiev confiando em que a tutela norte-americana sobre a situação seria garantida enquanto necessária.

O vice-presidente dos Estados Unidos humilhou a União Europeia definindo-a como «fraca» e acusou-a de «sair da linha dos interesses americanos e valores compartilhados». Especificou, como um toureiro que termina triunfalmente a faena e inicia a volta ao redondel, que o Ocidente hoje «se expõe por não ter consenso sobre coisa alguma» e, acrescentando um pouco mais de sal à ferida, acusou os governos europeus «de censurar a liberdade de expressão e recuarem nos valores democráticos fundamentais». 

Os argumentos de Vance para chegar a esta conclusão são de um reacionarismo ultramontano e atroz, o que destroça ainda mais o abalado prestígio da União Europeia ao seguir obedientemente Washington. Porém, num dos argumentos explicitados o vice-presidente norte-americano tem alguma razão: o da Roménia, onde recentemente foram anuladas as eleições presidenciais devido à vitória de um opositor do regime oriundo da extrema-direita populista. Disse: «Podemos aceitar que é errado a Rússia comprar anúncios nas redes sociais para influenciar as vossas eleições, mas se a vossa democracia pode ser posta em causa por algumas centenas de milhares de dólares em publicidade digital de um país estrangeiro, então não é assim tão forte».

Os dirigentes europeus que assistiram em directo a esta exibição do representante trauliteiro do nacionalismo imperial arengando aos suseranos ficaram em choque, acharam que não mereciam tamanha ingratidão.

«Pode ficar registado na História que este foi um dia negro para a Europa», queixou-se amargamente Marko Mikkelson, presidente do Parlamento da Estónia; a sua pobre compatriota Kaja Kallas, em missão de serviço como chefe da «política externa» da União Europeia, ficou estarrecida com o facto de os Estados Unidos estarem «em confronto» com a Europa.

O diário britânico The Telegraph decidiu resumir o desgosto de todos na sua manchete: «Agora é o mundo de Putin e Trump. Estados Unidos deixaram de estar interessados em garantir a segurança na Ucrânia e na Europa».

A paz estará mais próxima?

JD Vance foi o primeiro enviado de alto nível de Donald Trump à Europa depois de ter novamente tomado posse na Presidência dos Estados Unidos. Não trazia qualquer «plano de paz», informou o presidente. Quanto aos seus outros enviados à conferência de Munique, o secretário da Defesa Hegseth e o intermediário para as negociações sobre a Ucrânia Kellog, estiveram na capital bávara apenas «para ouvir o que os parceiros têm a dizer». Afinal, bem no estilo imprevisível de Trump, Vance tinha recomendações para fazer estalar a ténue camada de verniz das relações transatlânticas, que a União Europeia cuidava ter a solidez de betão.

Estas danças e contradanças agitando a paz podre e dominadora que as administrações democratas norte-americanas impõem de maneira mais soft à Europa teve como música de fundo as notícias sobre a conversa telefónica de hora e meia entre o chefe do Kremlin e o mega oligarca da Casa Branca.

Notícias que também pareceram deixar os dirigentes europeus à beira de um ataque de nervos, porque este formato os deixa isolados na tarefa de apoiar o regime ucraniano sem terem uma palavra a dizer na procura de uma solução para pacificar o país. Os eurocratas, tecnocratas e autocratas de Bruxelas ficaram incomodados com o facto de Zelensky também ter sido posto de lado, em parte porque Trump e Putin parecem de acordo quanto à ilegitimidade da sua presença na presidência em Kiev. O presidente norte-americano manifestou-se até céptico quanto ao futuro político do chefe formal do nazi-banderismo comentando que, numa perspectiva eleitoral, «os seus números nas sondagens não são óptimos, para dizer o mínimo». 

As vagas informações sobre a conversa entre Putin e Trump, a primeira entre os principais dirigentes russo e norte-americano em longos anos, estão a ser amplamente especuladas em relação inversa com o seu conteúdo pobre e quase de circunstância, uma espécie de soma de itens canónicos de relações públicas.

Se algumas intenções atribuídas a Trump não forem por este invalidadas, conhecidas que são as suas tendências contumazes para a mentira e a incoerência, Putin terá obtido a aceitação de duas das exigências russas em relação a um eventual plano de paz: a impossibilidade de regresso às fronteiras de 2014 – a inclusão de quatro oblasts (províncias) no território russo parece ter sido uma hipótese levantada; e a Ucrânia não fará parte da NATO, travando-se assim a expansão da aliança para Leste.

Trump terá dado igualmente garantias de que nem tropas dos Estados Unidos ou da NATO integrarão qualquer «força de paz» que hipoteticamente seja expedida para o território ucraniano. A concretização desta intenção significará que o artigo 5.º do Tratado do Atlântico, que implica resposta de toda a aliança no caso de um membro ser atacado, não será válido para quaisquer tropas europeias que pretendam instalar-se na Ucrânia – ficando assim por sua conta e risco. Putin, recorda-se, já afirmou que militares de países europeus que entrem em território ucraniano, incluindo os que se declararem membros de uma «força de paz», sujeitam-se a não regressar com vida aos seus países.

A União Europeia, contudo, continua a insistir nesta intenção, embora entre os 27 haja quem comece a levar a sério as declarações do chefe do Kremlin.

Na verdade, o exército russo que, segundo perspectivas comuns na Europa, mal saíra ainda da Idade Média e a carência de armamento era tal que os soldados se viam obrigados a usar utensílios agrícolas do género de pás, forquilhas e ancinhos, ou mesmo peças de máquinas de lavar como munições, transfigurou-se, de um momento para o outro, num terrível e gigantesco monstro de eficácia.

Ouçamos o ministro da Defesa  da Lituânia, Davilé Sakaliené: «As capacidades militares russas já são três vezes maiores do que eram quando começou a invasão da Ucrânia em larga escala há três anos; e tudo isso aconteceu num contexto de guerra activa».

E o próprio Volodymyr Zelensky, que durante meses e meses se declarou à beira da vitória contra as incapazes e saloias tropas russas, garante agora que, «depois da queda da Ucrânia, a Rússia ocupará a totalidade da Europa com toda a facilidade».

Pelo que a Europa, segundo a publicação alemã Die Welt, tem um problema com a fuga e a traição de Trump. Diz-se que a «força de paz» necessita de pelo menos 120 mil efectivos no terreno mas os países europeus, segundo aquela fonte, não seriam capazes de mobilizar mais de 25 mil.

Tentando interpretar o que fluiu para o exterior da conversa de Trump com Putin há dados a garantir que a paz não está próxima, ao contrário de considerações que correm abundantemente; não por as eventuais negociações excluírem a União Europeia ou Zelensky, mas sim porque existe uma discordância de fundo à partida: o presidente norte-americano quer um cessar fogo imediato na actual linha de contacto e Putin, escaldado com o desrespeito por acordos anteriores como os de Minsk, aproveitados para reforçar as tropas  ucranianas, quer entendimentos acompanhados por garantias legais e a eliminação das causas profundas do conflito, no âmbito das quais a impossibilidade de a Ucrânia entrar na NATO é apenas uma delas. 

A Rússia, tudo o indica, não abdicará das desnazificação e da neutralidade da Ucrânia e também, como foi proposto anteriormente em documento que está nas mãos da União Europeia e da NATO, de um acordo de segurança indivisível ao nível da Europa no qual a segurança de qualquer país não possa ser obtida à custa da segurança de outro ou outros.

Nada nas informações escassas saídas da conversa permite perceber se Trump aceita ou não discutir nessas bases. Sem esse acordo, garante Moscovo, «a guerra deverá continuar e a Rússia terá de usar meios militares para garantir a sua segurança e a dos aliados». O vice-ministro dos Negócios estrangeiros russo, Sergei Ryabkov, disse o mesmo por outras palavras: «A suposta oferta de um grande favor em troca de exigências inaceitáveis dos Estados Unidos está fadada a fazer fracassar quaisquer negociações com a Rússia.»

Postas as coisas neste pé, uma paz negociada está, por enquanto, quase tão distante como antes da conversa, sobretudo se Trump fizer depender tudo de um cessar-fogo imediato. No entanto, segundo afirmou enigmaticamente o vice-presidente Vance em Munique, «acho que há um acordo que vai sair disto tudo e que chocará muita gente».

De concreto, sempre com a ressalva do facto de o presidente norte-americano ser capaz de dar o dito por não dito de hora a hora, parece assegurado que os Estados Unidos abandonam o auxílio militar a Kiev, deixando a Europa com essa responsabilidade, se for capaz disso, correndo o alto risco de antecipar a sua implosão; e não permitirão que a Ucrânia venha a fazer parte da NATO. Também parece ser intenção de Trump não aceitar que qualquer acordo seja assinado por Zelensky pela parte ucraniana, pelo menos sem que este se submeta a eleições presidenciais.

Fugir sim, mas de bolsos cheios

Os Estados Unidos fogem militarmente da Ucrânia, mas não com as mãos a abanar. Em vez das pretendidas conversações com Trump, Zelensky foi forçado a receber o secretário norte-americano do Tesouro, Scott Bessent, já depois de ser informado pelo secretário da Defesa, Peter Hegseth, de que «a Ucrânia terá de ceder territórios à Rússia» e «o regresso às fronteiras de 2014 é irreal», de acordo com declarações publicadas pelo New York Times.

Quanto a Scott Bessent, o único objectivo declarado foi o de extrair concessões minerais da Ucrânia. Um acordo já estabelecido, segundo fontes ucranianas e norte-americanas, resulta da exigência dos Estados Unidos de fazer contas aos 300 mil milhões de dólares que o país investiu para garantir a sobrevivência militar e política do regime nazi-banderista; esse acerto do deve e haver contabilizado desde o golpe de Maidan fez-se, ao que consta, mediante a aplicação de juros de agiota porque Zelensky aceitou que os Estados Unidos possam deitar a mão a 500 mil milhões de dólares em terras raras, minerais indispensáveis ao fabrico das mais modernas tecnologias, sobretudo microchips, e de que as reservas mais abundantes, a um nível de 90%, existem no território da China.

Dentro da Ucrânia registou-se imediatamente uma primeira reacção desfavorável ao acordo. A 79.ª brigada de assalto anfíbio, Brigada Tavri – muito interligada com os nazi-banderistas do Azov – deixou de combater alegando que não pretende defender interesses de outros. «Zelensky não tem nada que dar, muito menos duas ou três vezes mais que o apoio recebido», disseram porta-vozes da brigada. «É tudo nosso».

Parece, contudo, que Washington não está ainda satisfeito com os 500 mil milhões de dólares, uma vez que, segundo palavras de Trump, «a Ucrânia pode ser russa qualquer dia». Da conferência de Munique saíram informações citadas pelo jornal Washington Post, segundo as quais os Estados Unidos puseram Zelensky diante de um acordo sobre matéria não especificada que teria como contrapartida a concessão a Washington de 50% das futuras receitas minerais ucranianas. O jornal revela que Zelensky não aceitou, mas certamente o assunto não fica por aqui.

Na conversa que mantiveram, Trump e Putin terão concordado em que «o bom senso» deverá prevalecer no caminho para negociações e a celebração de um eventual tratado de paz nesta guerra que, «numa presidência minha nunca teria existido», disse o dirigente norte-americano.

Verdade ou mentira? Jamais o saberemos. Mas não tenhamos ilusões nem dúvidas de que, mais de um milhão de mortos depois, a paz continua longínqua. Sob a tutela de Putin e Trump, entre os quais existe logo à partida um diferendo limitador relacionado com o cessar-fogo, o cenário de hipotéticas negociações formais é ainda um magma de contradições que, até aqui, têm sido insanáveis. A Rússia, porém, é a parte que menos pressa tem, talvez convicta de que o tempo joga a seu favor para prosseguir os avanços militares e reforçar o poder negocial. Daí, por sua vez, a urgência de Trump num cessar-fogo.

Fonte aqui.

Negociando a partir de uma posição de irrelevância

(Dmitry Orlov, in SakerLatam, 31/12/2024, Revisão da Estátua)

Isto representa 0,05% dos cadáveres de soldados ucranianos e da NATO que estão espalhados pela região de Kursk

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À medida que a data da segunda posse de Trump se aproxima, várias cabeças falantes estão a dedicar cada vez mais fôlego ao tópico das negociações de paz que Trump iniciará com Putin para encerrar o conflito na Ucrânia. Todos presumem que Trump pode obter concessões valiosas de Putin.

O New York Times admitiu pela primeira vez que o paciente (a Ucrânia) está morto e a começar a cheirar mal, e é hora de começar a planear a fase pós-guerra do conflito. Aqui está um resumo das ofertas que as cabeças falantes consideram possíveis. Os especialistas de lá veem apenas quatro versões do acordo a ser assinado, que deve garantir a segurança da Ucrânia de alguma forma (para garantir que a “agressão russa” seja mantida sob controle).

1. A Rússia mantém os antigos territórios ucranianos que libertou até agora, enquanto o restante da Ucrânia se junta à NATO. Mas não há consenso dentro da NATO sobre permitir a adesão da Ucrânia e, o que é mais importante, Trump opõe-se. E tudo isso é irrelevante, pois a posição russa desde 1991 é que a Ucrânia deve ser militarmente neutra e não deve ser membro de nenhum bloco ou aliança militar. Vamos tirar esta hipótese da lista imediatamente: qualquer pessoa que use as palavras “Ucrânia” e “NATO” na mesma frase está a perder o seu tempo.

2. A Rússia mantém os territórios anteriormente ucranianos que libertou até agora, enquanto o restante da Ucrânia deve ser patrulhado por algum consórcio de forças de manutenção da paz europeias. Isso parece razoável à primeira vista, já que Trump certamente não enviará nenhuma força dos EUA para fazer esse trabalho sujo, exceto que… a posição russa desde 1991 é que a Ucrânia deve ser militarmente neutra e não deve ser membro de nenhum bloco ou aliança militar. E ter tropas estrangeiras em solo ucraniano não qualifica a Ucrânia como neutra; portanto, essas forças serão despachadas para Deus ou Alá ou o que quer que seja ao chegarem e, consequentemente, enviá-las para a Ucrânia definitivamente não é um passo em direção à paz. Risque esta da lista também: qualquer pessoa que sugira o envio de forças de paz europeias para a Ucrânia está a perder o seu tempo.

3. A mesma coisa, exceto que as forças de manutenção da paz europeias estariam sob o comando da NATO. Não importa sob que comando esses europeus estariam; eles ainda acabariam mortos, portanto, exclua essa hipótese da lista também.

4. “Neutralidade armada”: A Rússia mantém o território que controla no momento, enquanto a Ucrânia pode flexibilizar a sua força militar sem estar sujeita a nenhuma restrição quanto ao tamanho de seu exército ou ao número e tipo de armas convencionais à sua disposição. Os cabeças de ovo do New York Times acham que esse é o plano mais viável, embora não seja tão vantajoso para a Ucrânia (já que eles teriam que realmente fazer alguma coisa – flexibilizar, é claro). Exceto que o memorando de Istambul – o último acordo negociado entre a Ucrânia e a Rússia em 2022, e que a Ucrânia se recusou a assinar – definiu o tipo e o número exato de tropas e armas que a Ucrânia teria permissão para manter em sua forma final neutra, desmilitarizada e desnazificada. E é a esse memorando, atualizado para refletir os novos factos em campo, que os russos estariam dispostos a voltar se as negociações fossem retomadas.

Como se vê, os EUA, a NATO e a Europa não têm nada. Parece muito provável que a atual rodada de negociações, como um estágio do processo de luto, tenha a ver com o facto de Trump dizer adeus à Ucrânia, querendo livrar os EUA do conflito por procuração com a Rússia, que o seu antecessor iniciou, da forma mais rápida e barata possível, sem aceitar qualquer responsabilidade por nada e, certamente, sem estender quaisquer garantias de segurança à Ucrânia. Tudo o que resta é fazer com que o lado russo faça uma concessão – qualquer concessão, por mais simbólica e inconsequente que seja – para que o abandono da Ucrânia não pareça uma derrota total. Isso parece um plano, exceto…

Exceto que a Rússia não está mais interessada em qualquer negociação com a Ucrânia, os EUA, a NATO ou a UE sobre o destino da Ucrânia. Desde o golpe de 2014, a Rússia tem tentado repetidamente encontrar uma maneira não violenta de resolver o conflito entre o Ocidente e a maioria russa da Ucrânia, mas sem sucesso – porque foi enganada em todas as etapas. Os acordos de Minsk 1 e 2 foram todos firmados com o objetivo de ganhar tempo para armar e treinar as tropas ucranianas, e não em busca da paz. O (Acordo de) Istambul foi negociado com sucesso, mas, em seguida, Boris Johnson voou para Kiev e exigiu que a guerra continuasse até ao último ucraniano (o que já quase aconteceu até agora, já que os ucranianos estão a preparar-se para começar a recrutar jovens de 18 anos). Nesta altura, até mesmo os analistas da Bloomberg admitem que “a Rússia não tem motivos para fazer concessões porque está a ganhar”.

Além disso, a Rússia não tem motivos para querer entrar em qualquer tipo de negociação com Trump ou com o pessoal da UE/NATO que o pessoal de Trump logo começará a pressionar. No verão passado, Putin especificou que, para iniciar as negociações, todas as sanções contra a Rússia teriam de ser suspensas. A Rússia não precisa que essas sanções sejam suspensas (a economia russa está a crescer bem mesmo com as sanções em vigor), mas é uma questão de direito: essas sanções não foram aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU e, portanto, são ilegais. E porquê a Rússia entraria em negociações com base em relações estatais legais com entidades que estão a violar a lei internacional? Aqui temos a força irresistível que são as sanções a chocarem com o objeto imóvel que é a Rússia, e o resultado óbvio é a ausência de negociações.

Se a UE e os EUA tivessem uma epifania, percebessem que as suas 40 mil sanções ilegais os prejudicam e ajudam a Rússia, e rapidamente as revogassem todas (por mais improvável que isso pareça), o próximo obstáculo seria a ideia de congelar o conflito ao longo da atual linha de contato. A linha de contato está em movimento e, quando as negociações terminarem, ela poderá estar noutro lugar completamente diferente. Além disso, a linha de contato atravessa o território russo, uma vez que as regiões de Lugansk, Donetsk, Zaporozhye e Kherson foram aceites na Federação Russa na sua totalidade, e não de forma fragmentada, e, como disseram Putin e o ministro Lavrov, a soberania russa não está à venda. Além disso, a linha de separação passa por partes das regiões de Kharkov e Sumy, mas isso não completa de forma alguma a lista de antigos territórios ucranianos que se tornarão (mais uma vez) parte da Rússia. Não saber sobre o que se está a negociar não é uma boa posição para entrar em negociações.

Por fim, mesmo que todos esses obstáculos fossem removidos, um último obstáculo permaneceria: A Rússia não tem nada a ganhar ao entrar em negociações com Trump, a UE ou a NATO. É vantajoso para a Rússia simplesmente continuar a fazer o que está a fazer. O que o povo russo quer não é uma paz negociada com parceiros de negociação nos quais não confia mais porque sabe que são mentirosos, criminosos de guerra e terroristas. O que o povo russo quer é uma vitória total e direta – glória para suas tropas e humilhação para o inimigo. O ideal seria que a vitória chegasse a tempo para a comemoração do 80º aniversário em 9 de maio de 2025 (e se você não sabe o que se comemora nessa data, é porque não sabe nada sobre a Rússia). Por sua vez, os políticos russos ficariam muito felizes em obedecer, já que essa é a direção em que os desenvolvimentos no campo de batalha estão a mover-se. Não incomode os russos – eles estão ocupados vencendo!

Se as negociações são impossíveis, o que resta? “Escalada”, alguns exclamariam ansiosamente; “Terceira Guerra Mundial!” Bem, a liderança russa abordou essa questão durante o recente discurso de Putin perante o Ministério da Defesa. Para resumir brevemente:

– O ano de 2024 colocou as forças russas firmemente no controlo da iniciativa estratégica em toda a linha de contato na Ucrânia. Milhares de quilómetros quadrados de território e dezenas de centros populacionais estão a ser libertados das tropas ucranianas.

– As forças armadas da Rússia agora contam com 1,5 milhões de homens, muitos deles com experiência de combate, enquanto armas inovadoras como o Oreshnik, que dispensa a necessidade de uma resposta nuclear, estão a entrar em produção em massiva.

– A Rússia está a preparar-se para responder a qualquer provocação, inclusive a um conflito armado com a NATO na Europa durante a próxima década. Como a Rússia agora tem a força militar mais forte e testada em combate do planeta, é do interesse da NATO e da Europa evitar a todo custo um conflito armado com a Rússia.

A conclusão do conflito na Ucrânia já foi escrita. Esse documento está no Kremlin e, não, não nos será dito o que está nele. Nenhum envolvimento dos EUA, da UE ou da NATO na análise ou revisão do documento é necessário ou será aceite. A Rússia está vencendo. Os objetivos de sua Operação Militar Especial na Ucrânia estão a ser alcançados.

Mas o facto é que a guerra por procuração na Ucrânia, instigada no início de 2022 e perpetuada desde então pelo clã Biden, custou mais de um milhão de vidas ucranianas e uma ordem de magnitude menor, mas ainda assim um número considerável de vidas russas. Como a Ucrânia sempre foi e sempre será parte da grande Rússia (consulte os mapas históricos se tiver alguma dúvida sobre isso), essas vidas ucranianas também são vidas russas. Isso significa que as ações americanas resultaram na morte de mais de um milhão de russos. Tenha certeza de que a Rússia encontrará uma maneira de vingar os seus mortos. Os russos, pela sua natureza, não são vingativos. Eles apenas têm uma memória muito boa e gostam de acertar as contas. Eles também são muito pacientes e esperarão para agir até que os EUA estejam no seu momento mais fraco.

Portanto, tenho boas e más notícias para os americanos.

A boa notícia é que eles não morrerão num inferno nuclear tão cedo. A Rússia estará ocupada demais, a vencer, para se preocupar com eles. E então, como Putin disse durante a maratona de 4 horas de perguntas e respostas públicas de ontem, os russos terão que “pensar em casa”. Os principais tópicos para os russos, conforme resumidos pela inteligência artificial a partir das mais de 2 milhões de perguntas que eles fizeram, são, por ordem de prevalência, os seguintes: moradia e hipotecas subsidiadas, medicina, transportes, finanças, bem-estar dos militares, pensões e conexão de residências rurais a gasodutos. Os Estados Unidos, se você notar, não estão em nenhum lugar dessa lista.

A má notícia é que os americanos acabarão por ter que pagar pelos crimes cometidos pelo seu governo.

Fonte aqui.

Quando o óbvio não é óbvio

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 08/08/2024)

A mudança na linguagem de Zelensky sobre conversações com Moscovo não é genuína, é um fingimento, um gesto de simpatia para aliviar a pressão a que começa a ser sujeito.


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Apesar das reticências em o admitir, tanto por Kiev como pelas chancelarias europeias, a guerra na Ucrânia só terminará quando Kiev mostrar disponibilidade para entrar em conversações com Moscovo, aceitar fazer concessões territoriais e adotar um estatuto de neutralidade estratégica semelhante àquele promovido pelo presidente Yanukovych, em 2010, uma inevitabilidade que começa aparentemente a fazer caminho e a impor-se. Mas será mesmo assim?

Para se encontrar uma resposta aceitável à pergunta há que compreender as inconsistências no discurso de Kiev relativamente à sua disponibilidade, manifestada em várias ocasiões, para conversar com Moscovo. Para a aparente abertura de Kiev ao diálogo com o Kremlin terão contribuído, sem qualquer dúvida, as dificuldades cada vez maiores de o Ocidente apoiar o seu esforço de guerra; mesmo excluindo do cálculo estratégico ucraniano a eventual vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas.

Como deixou escapar a Representante Especial dos EUA para a recuperação económica da Ucrânia, Penny Pritzer, vai sendo cada vez mais difícil ao governo norte-americano encontrar financiamento para apoiar Kiev. No mesmo sentido, o jornal “Die Welt” chamou à atenção para o facto de os aliados não se encontrarem em condições para aumentar o fornecimento de armamento à Ucrânia. Parece indiscutível a incapacidade de os europeus poderem colmatar a eventual redução do apoio norte-americano.

Para esta mudança de discurso contribuíram certamente muitos outros fatores, como sejam os avanços russos no terreno – que começam a ser significativos – e a incapacidade de lhes fazer frente, e o desespero causado pela falta de combatentes.

A mobilização forçada abriu feridas difíceis de sarar na coesão social ucraniana, tendo levado a levantamentos populares, curiosamente em cidades situadas na Volínia, na parte ocidental do país, o berço do nazismo ucraniano. A deserção assumiu números avassaladores, tendo os 30 mil casos registados nos primeiros seis meses de 2024 superado largamente os valores registados em todo o ano de 2023.

A isto poderíamos adicionar muitos outros fatores. A situação económica degrada-se a cada dia que passa. As agências de rating atribuíram à Ucrânia a classificação de “C”, o que significa quase incumprimento, ou seja, foi iniciado um processo de incumprimento pelo facto da capacidade de pagamento se encontrar irrevogavelmente comprometida.

A conjugação de todos estes elementos levou Kiev a condescender, e a permitir magnanimamente a presença de um representante da Rússia numa anunciada cimeira de paz a ter lugar, eventualmente, no final deste ano. Tendo como pano de fundo futuras conversações com Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmitry Kuleba, numa intensa azáfama diplomática, deslocou-se à China e reuniu-se em Guangzhou com o seu homologo Wang Yi. Kuleba usou este encontro para assinalar a disponibilidade ucraniana para entabular conversações diretamente com a Rússia, não obstante ter alterado posteriormente o discurso após chegar a Kiev.

Segundo Kuleba, a China aproximou-se das posições de Kiev. A infelicidade deste tipo de declarações é reveladora da incapacidade de a elite ucraniana entender o que se passa à sua volta. Não percebeu ainda que não é o centro do mundo e que é descartável. A sua capacidade para influenciar Washington não é comparável à de Netanyahu, que até se pode dar ao luxo de ser ingrato, recuperando as palavras de Biden na sequência da conversa telefónica tida entre ambos.

Ao mesmo tempo que fala em paz, Zelensky também fala em guerra. Não perdeu ainda a esperança de infligir uma derrota militar significativa aos russos. Para isso, e apesar da dificuldade em as equipar e armar, está a preparar 14 novas brigadas. Entretanto, o CEMGFA ucraniano, o general Oleksandr Syrsky descaiu-se dizendo que foi forçado a utilizar algumas dessas unidades para reforçar as unidades em Volchansk e na frente de Pokrovsk.

Infantilmente, Zelensky continua a insistir no armamento maravilha que vai mudar o curso da guerra. A sua crença reside agora na dezena de F-16 que já terão chegado à Ucrânia, e que replicarão os inacreditáveis feitos do “Fantasma de Kiev”. Talvez influenciado pela derradeira e heroica carga a cavalo do que restava dos samurais contra uma barragem de metralhadoras do Exército japonês, protagonizada por Tom Cruise no filme “O Último Samurai”, Zelensky prepara-se agora para o seu último fôlego.

No meio do desnorte, não será de descartar mais uma aventura militar que venha a envolver as hostes ucranianas numa ofensiva final, muito provavelmente ainda este ano e antes da “conferência de paz” promovida por Kiev e pelos seus patrocinadores, convicto de que esmagará os russos e se apresentará na referida conferência na mó de cima, e em condições de lhes impor os termos da paz, fazendo-se passar por vencedor. Não deixa de ser insólito como é que o presidente de um país, com as suas forças a perder diariamente terreno e o país em ruínas, lucubre nestes devaneios ficcionais.

Segundo os rumores que correm, Kiev teria reformulado o seu objetivo estratégico. Em vez da recuperação total e completa dos territórios na posse dos russos, a preocupação seria agora apoderar-se da central nuclear de Zaporizia e aí apostar todas as fichas canalizando o que resta do seu potencial de combate, num último esforço, numa última oportunidade de obter uma posição negocial favorável. Isso explica a temporalidade das conversações com o Kremlin – só após este último confronto, que não terá lugar antes do outono. A jogada é extremamente arriscada. O falhanço conduzirá ao total colapso das forças armadas ucranianas, ditando o fim do regime ucraniano instaurado pelo golpe de estado em Maidan.

Por acreditar ser ainda possível impor aos russos os termos da paz, o lado ucraniano não se encontra próximo do designado impasse doloroso, uma condição indispensável para os litigantes se sentarem à mesa das negociações, o que poderá acontecer apenas no final deste ano. Por isso, a mudança na linguagem de Zelensky sobre conversações com Moscovo não é genuína, é um fingimento, um gesto de simpatia para aliviar a pressão a que começa a ser sujeito.

O caso ucraniano traz-me à memória o conflito entre a Finlândia e a União Soviética, em 1940, com a derrota e a cedência de território por parte da Finlândia. O discurso do comandante das forças armadas finlandesas, o general Carl Gustaf Mannerheim aos seus soldados, no momento da derrota, é incontornável. Zelensky devia lê-lo.

Mannerheim reconheceu que o resultado desfavorável obtido pela Finlândia resultou da valiosa promessa de assistência que as potências ocidentais fizeram e não concretizaram; e que há circunstâncias em que tem de se fazer a paz, mesmo em termos desfavoráveis. A imaturidade política dos líderes ucranianos não lhes permite entenderem isto. Por isso, o seu futuro pode não andar distante daquilo que aconteceu aos samurais.