O nazismo geracional e o Diário de Anne Frank

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 15/10/2024)


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A geração nascida no pós Segunda Guerra, a dos babyboomers, cresceu e foi educada na associação do nazismo à Alemanha e à caraterização do nazismo como uma ideologia assente no racismo, na imposição de um grupo classificado como raça, a raça ariana, como superior e de uma outra raça, a dos judeus, como uma espécie infra-humana, que deveria ser reduzida a cinzas em campos de concentração e depois eliminada em massa.

A geração atual, a do neoliberalismo e da lei da selva, do sucesso assente na violência, dos meios justificarem os fins, está a ser confrontada com o nazismo israelita, que considera os palestinianos infra-humanos e os israelitas a raça eleita e superior. Esta geração não parece ter termo de comparação e desculpa a violência que lhe é servida nos ecrãs assumindo que os israelitas estão a defender os seus valores, como surge nas legendas.

Na Europa e na União Europeia, a geração dos netos dos que fundaram a Europa com base em valores antinazis, os netos da geração que leu o Diário de Anne Frank, estão agora a viver e a participar na ressurreição do nazismo enquanto ideologia e estão a ser condicionados pelos atuais meios de manipulação a aceitar essa ideologia como a “defesa da liberdade e da democracia e do mercado livre”, valores entendidos segundo o seu ponto de vista: sou superior, logo sujeito os outros, se necessário elimino-os. O neoliberalismo era, sempre foi, um produto do ovo do nazismo! Por detrás do espetáculo da liberdade de comportamentos, mas não tanta que não separe cultura branca (a da elite), de cultura afro e de cultura latina ou hispânica, como é visível nos prémios da indústria do infoentretainment da oligarquia americana) encontra-se o racismo das oligarquias designadas por WASP (White, Anglo-Saxon Protestant), um branco, protestante, cuja família tenha origem no noroeste da Europa e que passou a integrar a oligarquia judaica, Rothschild, Rockefeller, Morgan, Goldman entre outros que dominam o mercado financeiro mundial. O liberalismo nem é livre, nem igualitário.

Assentando o nazismo israelita e o nazismo alemão nos mesmos princípios ideológicos, a superioridade rácica ou étnica, ou até religiosa como razão, a justificação para ocupação de territórios e eliminação de povos, a perversidade do nazismo israelita tem a vantagem de ser patrocinada económica, militar e, no essencial, politica e ideologicamente pela superpotência Ocidental, enquanto que o nazismo alemão dispunha apenas das suas próprias forças e atuava por si e pelos seus interesses. O nazismo israelita beneficia do poder financeiro dos Estados Unidos, do seu aparelho militar industrial e da cobertura fornecida pela sua poderosa indústria de comunicação e manipulação da opinião pública. Fatores determinantes e que permitem todos os atrevimentos e provocações.

O nazismo alemão tinha uma doutrina expressa no Mein Kampf (A minha Luta), superioridade rácica, recuperação da antiga ideia nacionalista alemã do “Drang nach Osten”, a necessidade de ganhar o Lebensraum, o espaço vital, que vemos reproduzido nos nacionalistas israelitas na criação do Grande Israel, que inclui o Líbano e a Síria, e na estratégia do Grande Ocidente Global, leia-se dos Estados Unidos, do domínio do Médio Oriente.

Sendo a mesma a base ideológica no nazismo alemão e do nazismo israelita, a radical diferença entre ambos reside no tempo histórico em que eles se manifestam e na inversão de valores que a adoção do nazismo israelita representa na ideologia do Ocidente — no seu sistema de valores.

O neoliberalismo enquanto doutrina dominante no Ocidente justificou e impôs os fundamentos do nazismo como condição para a sua existência enquanto sistema dominante no mundo no século XXI, mas colocou-o em confronto com a emergência de antigas civilização durante séculos sujeitas ao domínio ocidental e que o contestam.

O Ocidente, como a Alemanha de Hitler, justifica-se pela necessidade de impor a sua supremacia através da conquista de territórios e da eliminação de povos para em seu lugar colocar o povo eleito — arianos num caso, judeus israelitas noutro — que servissem os interesses da sede do império, em Berlim, num caso, em Washington atualmente. O nazismo alemão tem, como qualquer fenómeno político, várias causas e várias explicações, mas todas elas vão convergir na necessidade de impor um poder para defender um interesse julgado vital.

No caso do nazismo alemão, além da crise do orgulho ofendido com a derrota na Grande Guerra e da crise económica provocada pelas reparações que resultaram dela, ou da luta contra a ameaça comunista, ele tem, na essência, por base o objetivo da recuperação do estatuto de grande potência mundial por parte da Alemanha, num tempo em que a Europa ainda era o centro do mundo e de esse objetivo apenas poder ser alcançado pela forma mais brutal que pudesse ser utilizada para o efeito. Por isso os alemães estiveram tão perto da construção da arma atómica, um conhecimento científico que os Estados Unidos aproveitariam em Hiroshima e Nagasáqui. Não herdaram apenas o saber técnico, mas também o objetivo que ele proporciona.

No caso do nazismo israelita, estamos a assistir e a participar na repetição dos mesmos princípios do nazismo alemão para imposição de um poder, o dos Estados Unidos, que seja incontestado. Porque são quem financia (paga), arma e, sabemos agora com a presença dos mais altos comandantes militares americanos em Israel, manda e comanda as operações de Israel no Médio Oriente, como já se sabia que era esse o papel da NATO na guerra na Ucrânia, onde vigora um poder de cariz nazi, apoiado pelos Estados Unidos.

Também é interessante verificar que, tal como no nazismo alemão, o nazismo israelita jamais refere que tipo de sociedade pretende impor nos territórios ocupados a não ser que ficam sob a lei da superioridade ariana ou judaica. Estados teocráticos, na sua essência, o que não os distingue do Irão, do Afeganistão ou da Arábia Saudita.

Jamais o Ocidente — os Estados Unidos — referem nos seus planos de guerra e de pós guerra de valores, de Liberdade, de Justiça e de Respeito pelos povos. Tal como o nazismo alemão jamais o fez. Também, tal como no nazismo alemão, o nazismo israelita impôs a mais férrea censura à contestação à sua política e, fundamentalmente, aos resultados desta. Fê-lo, como o nazismo alemão havia feito, eliminando intelectuais, jornalistas e repórteres e impondo regras leoninas sobre segredo de Estado, utilizando os onze princípios de propaganda de Goebbels, o ministro de Hitler.

Os cidadãos dos Ocidente Global passaram a ter direito apenas a uma verdade oficial, todos os que se manifestam contrários são classificados como traidores, marginais e, logo, banidos do rebanho e do espaço público.

A grande vitória do nazismo israelita é que ele provou que o nazismo pode ser apesentado com sucesso como uma ideologia e uma prática que os ocidentais, os europeus, quer os da geração dos babyboomers, quer a dos precários liberais da nova geração, tomam não só como aceitável moralmente, mas como o melhor lugar ideológico para obter sucesso, lugares de topo da administração pública e privada, títulos académicos, negócios e tudo dentro de uma embalagem que apregoa os grandes valores do Ocidente no pós Segunda Guerra, é certo que mais apregoados do que praticados, mas ainda assim invocados.

No pós Segunda guerra, a Europa Ocidental declarava-se Mundo Livre, patrocinadora da libertação de África, liberal nos costumes e nos mercados, acolhedora de emigrantes de mão de obra barata, mas implacável com os que colocassem em causa a ordem e a exclusividade da violência por parte do Estado, mantendo nos seus aparelhos de poder uma rede protofascista de desestabilização, a GLADIO, gerida pela NATO, aceitando as ditaduras portuguesa, espanhola e grega. Chegou o momento de a embalagem ir borda fora!

A normalização de Hitler e do Mein Kampf tem sido feita diante dos nossos olhos através da glorificação de Zelenski, o ilusionista escolhido pelos americanos para transformar os batalhões nazis em combatentes da liberdade e os antigos nazis em heróis, caso de Bandera e de apresentar Netanyahou como o Herodes que, segundo a Bíblia cristã, ordenou a matança dos inocentes para evitar o nascimento de um verdadeiro rei dos Judeus, que ameaçasse o poder romano.

A normalização de uma estratégia nazi está certificada nos documentos que definem a política dos Estados Unidos para o século XXI, entre eles os recentes National Security Strategy (NSS) e National Defence Strategy (NDS) publicados na segunda metade de 2022 pela administração Biden, que reafirmam a preeminência dos Estados Unidos na ordem mundial em termos militares e económicos e referem a continuidade dos esforços de Donald Trump para estabelecer regras que garantam os meios para as empresas americanas “vencerem na cena mundial”. O Irão é um grande produtor de petróleo e um grande exportador para a China, o inimigo principal dos Estados Unidos económica e militarmente.

Israel representa o papel de provocador de um conflito que permita aos Estados Unidos atacar a China e as suas empresas por via da dificuldade de abastecimento de energia. Os Estados Unidos estarão por detrás do ataque de Israel ao Irão, que utilizou como operações provocatórias e preparatórias o ataque a Gaza, a pretexto do Hamas, o ataque ao Líbano a pretexto do Hezbolah, o assassinato de lideres palestinianos no Irão para dar oportunidade a este ataque.

Imagens do nazismo alemão, tendo a adolescente Anne Frank como figura referencial, do tratamento dado às crianças fechadas no gueto de Varsóvia revelam a herança do nazismo através das práticas dos militares israelitas em Gaza.

Em termos de princípios e valores estamos perante o mesmo fenómeno, o nazismo. Também estamos perante os mesmos objetivos. O nazismo alemão tinha como objetivo a preeminência da Alemanha na cena mundial, cujo centro a Europa ainda representava nos anos vinte do século passado e é pela mesma preeminência, agora ao serviço de um outro patrocinador, e noutro tempo, que o nazismo israelita age para garantir a hegemonia dos Estados Unidos.

O próximo ato de afirmação de luta pela imposição da hegemonia dos Estados Unidos será o ataque ao Irão. Que ele seja desencadeado por um estado nazi caracteriza os valores essenciais pelos quais se rege o estado patrocinador que colocou duas esquadras e forneceu os mais modernos equipamentos de guerra ao serviço de Israel, o estado vassalo. E indicia os valores que vão ser os dominantes no Ocidente Global.

Não foi certamente para defender Israel dos ataques de grupos de guerrilha e resistência que são o Hamas e o Hezbolah que os Estados Unidos deslocaram duas esquadras, forneceram os mais modernos sistemas de armas e, por fim, colocaram em Israel, no comando da operação militar, generais de quatro estrelas do topo da hierarquia das Forças Armadas Americanas, como tem sido a narrativa passada pela comunicação social do Ocidente alargado.

Um êxito no ataque ao Irão será assumido como um êxito americano e um sopro vital para os Democratas, que se apresentarão como os “capitães América” contra os Republicanos; um fracasso ou uma meia vitória será imputada aos israelitas. O nazismo alemão utilizou até ao fim a estratégia de atribuir as vitórias a Hitler e as derrotas aos exércitos executantes no terreno. Os nazis israelitas tanto correm o risco de serem os bodes expiatórias de um mau resultado, como têm a possibilidade de reforçar a condição de elementos indispensáveis ao futuro dos Estados Unidos, com quem partilham os conceitos de conquista e gestão do poder.

Quem está já fora da mesa do jogo de xadrez é o esforçado Zelenski, porque a Ucrânia passou à condição de causa perdida e o Irão passou a ser o objetivo principal para chegar à China.

O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol. – Eclesiastes

Médio Oriente — Um claro momento de exposição da natureza humana

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/10/2024)


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O aniversário dos acontecimentos de 7 de Outubro de 2023, um sangrento ataque de guerrilheiros do Hamas a uma povoação do sistema de ocupação do Estado de Israel do território palestiniano serviu, como se esperava, para a montagem de uma gigantesca campanha de apoio à política que desde a sua fundação o Estado de Israel conduz na Palestina .

Para erigir Israel como mártir e vítima valeu tudo: Inventar a História, esquecer o passado, manipular factos do presente. A linha central da mistificação da justificação dos atos assenta na afirmação do direito “à defesa de Israel” e da sua existência. Na realidade o Estado de Israel é uma entidade política criada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial e por sua conveniência. O direito à defesa de Israel é o mesmo de qualquer guarnição romana nos confins do império. Tem o direito a defender-se correspondente à força de que dispuser ou lhe for proporcionada. Quanto ao direito à existência do Estado de Israel ele resulta do poder de potências exteriores imporem um bastião armado num ponto chave de domínio de um território. Em resumo, o atual Israel corresponde ao Krak des Chevaliers do tempo das cruzadas, uma fortaleza da Ordem dos Hospitalários na Síria e que serviu como centro de administração e base militar, permitindo aos europeus dominar a ampla região do Médio Oriente.

Desde a ocupação do Krak pelos cruzados da ordem dos Hospitalários, 1142, esta fortaleza foi o centro do conflito entre os cruzados e os árabes com vitórias e derrotas. Na primeira metade do século XIII, enquanto outras fortalezas dos cruzados foram ocupadas, o Krak e sua guarnição permaneceram na sua posse até 1271, sendo a única área importante sob seu controlo. A proximidade da fortaleza dos territórios muçulmanos permitiu-lhe assumir um papel ofensivo como uma base a partir da qual áreas vizinhas poderiam ser atacadas. Em 1250 um exército muçulmano devastou o campo ao redor do castelo. Em 1268, o mestre da ordem, Hugo Revel, informou os superiores que a área estava deserta e que a propriedade do Krak no Reino de Jerusalém já valia pouco. O direito do Krak a existir extinguiu-se com a perda de valor para a estratégia do Ocidente, que iria concentrar-se no seu desenvolvimento e na expansão marítima.

Krak des Chevaliers, como atualmente Israel, são exemplos clássicos de perturbadores estratégicos. Os pregadores da nova história têm inventado um outro, o Irão, agora o responsável pelo genocídio israelita na Palestina e pela invasão do Líbano. O Irão faz parte da história do Médio Oriente desde sempre. Para não ir aos tempos bíblicos, o Médio Oriente e o Norte de África foram dominados por dois grandes impérios, o império persa e o império otomano. Quem não faz parte da história, a não ser como interventor externo, são Israel, o império britânico e o seu herdeiro, os Estados Unidos.

Durante a antiguidade, o império persa englobava os territórios desde a atual Turquia até o Punjab, incluindo o Egito. Do século VII até ao século XI a Pérsia foi anexada pelo império árabe e a partir de então o islamismo passou a ser a religião oficial, mas os iranianos adotaram a versão xiita como forma de reação nacionalista, já que o império árabe seguia a versão sunita. Da mesma forma, a língua persa foi mantida em oposição à língua árabe. Mais tarde a Pérsia vir-se-ia espremida entre os impérios russo na Ásia Central e britânico na Índia. Cada um destes retirou ao Irão territórios que se tornariam Azerbeijão, Quirguistão, Turcomenistão, Tajiquistão, Uzbequistão e partes do Afeganistão.

A Convenção Anglo-Russa de 1907 formalizou as esferas de influência da Rússia e do Reino Unido sobre o norte e o sul do país, respetivamente, onde a potência colonial detinha a decisão final em assuntos económicos. O Xá Cajar concedeu à Anglo-Persian Oil Company autorização para explorar e operar campos de petróleo, que começaram a produzir em 1914. Winston Churchill, que supervisionava a conversão da Marinha Real Britânica para navios de guerra movidos a petróleo, nacionalizou parcialmente a companhia antes do início da Primeira Guerra Mundial.

O atual Irão foi envolvido na Primeira Guerra Mundial devido à sua posição estratégica entre o Afeganistão e os impérios otomano, russo e britânico e ao seu petróleo. Em 1914, o Reino Unido enviou uma força militar à Mesopotâmia para negar aos otomanos o acesso aos campos de petróleo persas. A Alemanha infiltrou agentes na Pérsia para atacar os campos petrolíferos e provocar uma guerra santa contra o governo britânico na Índia. Após a I Grande Guerra o norte do Irão foi ocupado pelo general britânico William Edmund Ironside e o Reino Unido assumiu o controlo dos campos petrolíferos.

Em 1953, após a nacionalização da Anglo-American Oil Company surgiu um conflito entre o xá (pró-americano) e o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh (nacionalista), que levou à deposição e prisão deste num golpe militar realizado com a ajuda dos serviços secretos do Reino Unido e dos Estados Unidos. O xá Reza Pahlevi, que havia fugido do país, retornou e assumiu poderes ditatoriais.

Os laços militares com os Estados Unidos aprofundaram-se em 1971, quando os norte-americanos concederam ao Irão crédito para a compra de armas no valor de um bilião de dólares.

Os Estados Unidos são o herdeiro do império britânico e utilizam Israel como base de ataque na sua estratégia de domínio do Irão. É esta a causa da guerra de Israel contra todos os seus vizinhos e é a recusa em serem submetidos que leva os persas ou iranianos a atacar Israel, que vêm como um factótum americano.

Na década de 80 os interesses no domínio da região do Médio Oriente materializaram-se na guerra Irão-Iraque, oficialmente por razões de definição de fronteiras na região do Shatt al-Arab, onde os rios Tigre e Eufrates se encontram e desaguam no Golfo Pérsico e com um fundo religioso, porquanto o Irão seguia a versão xiita do islamismo, o Iraque era de maioria xiita, mas com um governo sunita e secular. Além disso, o Iraque possuía uma minoria curda que não apoiava o governo iraquiano e, por isso, recebia apoio secreto dos iranianos. Os Estados Unidos apoiaram o Iraque, aliados à Arábia Saudita, dentro da estratégia que está em curso de domínio da versão atual do “Crescente Fértil”, o que inclui os Estados do Golfo, a Arábia Saudita, o Iraque, a Síria, o Líbano e o Egito, tendo como objetivo final o domínio do Irão. Esta estratégia replica a reconstituição do união dos antigos impérios Otomano e do Persa, o domínio do Mediterrâneo Oriental, do Mar Vermelho, do estreito de Ormuz, que permite ameaçar a Rússia e controlar o tráfego marítimo entre o Índico (Índia e China) e o Ocidente através do Canal do Suez. Israel é o pivô desta estratégia e o elemento desestabilizador que a justifica.

O apoio do Irão a vários grupos de resistência na região tem por objetivo opor-se ao domínio dos Estados Unidos que seria a continuação do domínio do império britânico e do regime do Xá Reza Pahlevi.

Durante séculos o desestabilizador da região foi o Império Britânico e desde a revolução industrial e a importância do petróleo, os Estados Unidos e as grandes companhias petrolíferas. O Irão nunca foi um desestabilizador, foi sempre uma entidade sujeita. A justificação de que a Arábia Saudita se aliou aos Estados Unidos por se sentir ameaçada pelo xiismo de Teerão é do domínio da mais despudorada desonestidade. O regime religioso da Arábia Saudita, o wahhabismo sunita, não deve nada em termos de exigência fundamentalista ao xiismo. Grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Alqaeda são expressões do radicalismo sunita. O fundamentalismo foi legitimado com a formação da dinastia saudita, no século XVIII, e institucionalizado pelo Reino da Arábia Saudita, formado em 1932, criado pelos ingleses. O fundador da dinastia saudita, Muhammad bin Saud, incorporou na sua política as ideias radicais de Wahhab. Não existe em termos de radicalismo religioso distinção que favoreça o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente à Arábia Saudita a não ser a venda de petróleo barato e a compra de material de guerra caro. O resto é hipocrisia e desonestidade intelectual.

Os israelitas são apenas os atuais ocupantes do Krak des Chevaliers que é Israel.

A posição do “resto do mundo” sobre a ação dos Estados Unidos no Médio Oriente reflete o momento de transição das relações de poder que estão em curso. Ao resto do mundo interessa o desgaste que esta guerra provoca nos Estados Unidos, que são quem a paga. À China e à Rússia, em particular, interessa o empenhamento dos EUA nesta região, que limita as possibilidades de intervenção na Ucrânia e em Taiwan. Para os BRICS, esta guerra irá aumentar a já monstruosa dívida pública americana e desvalorizar o dólar, o que é para eles um fator positivo.

A ação de Israel durará até os financiadores americanos entenderem ser lucrativo pagá-la. Uma ação devastadora de Israel sobre o Irão obrigaria os Estados Unidos a empenharem ainda mais meios na região e a aumentar a despesa e é este balanço entre custos e benefícios que os estados maiores financeiros americanos devem estar a fazer relativamente à retaliação de Israel ao Irão.

Contas. Contabilidade. Nada mais do que isso. As vidas humanas estão fora da contabilidade. A nossa civilização é um mercado! Estamos num claro momento de exposição dos valores da nossa civilização e da natureza da humanidade.

Israel — Um Estado Rottwiller

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/10/2024)


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A análise do comportamento de Israel na estratégia dos Estados Unidos tem de partir da caraterização da relação do Estado de Israel com os Estados Unidos. É essa relação que determina as ações de Israel e permite ler os passos que os Estados Unidos dão para atingirem o seu objetivo decisivo e vital de manterem a supremacia mundial.

É à luz da questão de hegemonia do sistema mundial, assente na força, que permite emitir o dólar, a moeda de troca mundial sem qualquer valor de referência, a não ser as rotativas da Reserva Federal Americana, que as ações dos atores no Médio Oriente devem ser analisadas.

Os comentadores avocados pelos grandes aparelhos de comunicação centraram as suas arengas em dois pontos: o tipo de ataque do Irão, com aviso prévio, com meios facilmente interceptáveis e de modo a não causar grandes danos pessoais e o tipo de reação de Israel. No fundo, limitaram-se a replicar o que os painéis de comentadores do futebol fazem ao apreciar o “jogo do dia”. A questão, no entanto, é a existência de um campeonato e a estratégia que cada equipa montou para o disputar, quais os investimentos e quais os objetivos dos donos dos clubes. Existem, como sabemos, clubes de primeira e clubes filiais. Israel é um clube filial. Tem, com certeza objetivos próprios, mas o seu papel é o de servir de guarda do proprietário. A relação entre ambos é do mesmo tipo da de um cão rottweiller com o seu dono,

O rottweiller é um tipo de cão desenvolvido na Alemanha, julga-se que descendente de cães romanos e utilizado como cão de guarda. No início do século XX, quando foram pesquisadas diversas raças para a função policial, o rottweiler demonstrou ser extraordinariamente adequado e estas tarefas. Quando não são educados de modo a reconhecer quem manda, podem ser agressivos e necessitar de reeducação. Não parece que seja o caso de Israel, pese embora as justificações para os crimes de Israel atribuídas à fuga à justiça de Netanyahou, ou ao domínio do grupo ultrasionista que domina o governo e tem por objetivo a criação do Grande Israel e a eliminação dos palestinianos, considerados animais.

Na realidade a ação de Israel segue o guião da estratégia dos Estados Unidos para a região e que é conhecida. O essencial desta estratégia pode ser lida em duas obras produzidas por personalidades que desempenharam funções de alta decisão nas administrações americanas e que expõem as linhas mestras da ação dos Estados Unidos. O primeiro é o livro The Grand Chessboard American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, O Grande tabuleiro de xadrez. A supremacia americana e as suas implicações estratégicas, de Zbigniew Brzenski, que foi Conselheiro Nacional de Segurança da administração de Jimmy Carter, no qual expõe a importância da região que designou como Eurásia e que explica a decisão de atacar a Rússia a partir da Ucrânia. O segundo livro, menos conhecido, Winning Modern Wars — The Clark Critique, escrito por Wesley Clark, um general vedeta, de quatro estrelas do Exército dos EUA e ex-comandante supremo aliado da OTAN na Europa de 1997 a 2000. Diretor do conselho do Atlantic Council, bem como presidente e CEO da Wesley K. Clark and Associates, uma empresa de consultoria estratégica e que chegou a ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Ele relata o primeiro contacto com a administração de Bush Jr, no seu regresso aos Estados Unidos e ao Departamento de Defesa, o que lhe foi dito a 20 de setembro de 2001, apenas nove dias depois dos ataques às Torres Gémeas. A administração Bush (Dick Cheney e Donald Rumsfeld) tinha concebido um plano para atacar sete países de maioria muçulmana após os ataques de 11 de setembro.

O plano incluía ações militares contra Iraque,  SíriaLíbanoLíbiaIrãoSomália e Sudão, sendo o Iraque o primeiro alvo. Três semanas depois da conversa informal, o mesmo oficial entregou a Clark um memorando a descrever como os EUA iriam derrubar sete países em cinco anos. “Começava no Iraque, e depois Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e, a terminar, Irão”.

No livro referido, sob a forma de conselhos ao presidente dos EUA, Wesley Clark explicita a estratégia a seguir: “O que o presidente dos EUA necessita de saber.” Linha de partida: O pós guerra fria terminou. Vivemos uma nova era geopolítica que necessita de uma nova visão e a renovação dos fundamentos do poder americano. O Sistema Internacional depende em exclusivo do sucesso dos Estados Unidos na nova era.

O primeiro passo na renovação dos EUA é encarar a realidade. Os Estados Unidos estão a enfrentar um grupo emergente (BRICS), cada vez mais alinhado, de potências opostas à ordem internacional baseada em regras (sic) e liderada pelos EUA. A Rússia, alinhada com a China, e agora ao lado do Irão e apoiada pela Coreia do Norte, está no centro de uma manobra para destruir a preeminência americana, redistribuir o poder global e dividir o mundo em esferas de influência. Essas potências estão a cooperar cada vez mais. Como o presidente chinês Xi Jinping declarou ao despedir-se do presidente russo Vladimir Putin, em março de 2023, juntos estão a promover “mudanças” que “não víamos há cem anos”. Essas mudanças referem-se ao desmantelamento da ordem global (sic). A invasão da Ucrânia pela Rússia e a intenção da China para tomar Taiwan são apenas dois esforços entre muitos desses atores que visam reduzir a influência dos EUA e mitigar as leis, regras e restrições do atual sistema internacional.

Os potenciais adversários dos EUA estão cada vez mais decididos a usar a força. A invasão em larga escala da Rússia na Ucrânia em 2022 foi um choque (embora não devesse ter sido). Agora, os países europeus temem que, se for bem-sucedida na Ucrânia, a Rússia possa avançar mover contra a Moldávia, Geórgia, Cazaquistão, Polónia ou os estados bálticos. A China, embora ainda cautelosa e calculista, investiu num grande poder militar e está a utilizá-lo para intimidar Taiwan. O Irão continua a procurar a destruição de Israel e está aumentar o seu poderio para adquirir a hegemonia regional. As armas nucleares importam novamente. Putin e os seus aliados têm repetidamente, e com sucesso, ameaçado o uso de armas nucleares para impedir a assistência criticamente necessária dos EUA e do Ocidente à Ucrânia. O medo aberto de confronto com uma potência nuclear prejudica a credibilidade dos EUA em todo o mundo. A Rússia e a China estão a ampliar e modernizar os seus arsenais de armas nucleares, incluindo armas nucleares estratégicas que podem atingir os Estados Unidos. A Rússia produziu uma nova geração de armas nucleares táticas mais facilmente utilizáveis ​​e os meios para as lançar, e Putin fala como se a Rússia tivesse alcançado a superioridade nuclear estratégica.

As sanções económicas dos EUA revelaram ser inadequadas e, às vezes, até contraproducentes. As sanções dos EUA para cortar os fluxos tecnológicos e financeiros para a Rússia após sua invasão da Ucrânia em 2022 não se mostraram eficazes em interromper o uso da força pela Rússia. Tecnologia como chips e máquinas-ferramentas vitais para a indústria militar da Rússia difundiu-se entre um regime de sanções multilaterais que tem sido difícil de aplicar e sujeito a evasão. A Rússia ainda está a exportar petróleo e algum gás, e a obter moeda forte através de uma rede de contrabando, manifestos falsos e mistura de produtos petrolíferos para disfarçar a sua origem. Mas mesmo sem serem totalmente eficazes, essas sanções alienaram muitos países que estavam em cima do muro sobre o conflito na Ucrânia e incentivaram mais esforços para minar o sistema financeiro global dominado pelos EUA.

Os esforços dos EUA para cortejar e conquistar o Sul Global não estão a obter sucesso. Os poderes atrativos do sistema democrático dos Estados Unidos diminuíram com o sucesso do modelo autoritário da China, o surgimento de regimes autoritários em países como a Turquia e o Egito e os problemas óbvios que a governo dos EUA enfrenta em casa. Em África, os esforços dos EUA para pregar a democracia e os direitos humanos são às vezes vistos como uma forma de “imperialismo cultural” e contrastados com as ofertas de ajuda e capital da China sem interferência em assuntos internos.

No Médio Oriente, o Irão criou um arco de milícias e outras forças opostas aos Estados Unidos e muitos atores parecem ver as declarações do governo dos EUA de que não procura a escalada com Teerão como reflexo da fraqueza dos EUA. Em todo o Sul Global, muitos líderes que avaliam o apoio vacilante dos Estados Unidos à Ucrânia parecem ter decidido que a Rússia é a potência mais forte.

A estratégia americana deve assentar entre outros na renovação do seu poder e incluir o fortalecimento da dissuasão nuclear dos EUA e todos os sistemas auxiliares que lhe dão credibilidade. Os líderes dos EUA devem reexaminar a necessidade de sistemas táticos e de teatro, bem como a modernização das ogivas. A dissuasão nuclear dos EUA deve ser uma pré-condição para a negociações estratégicas sobre armas nucleares com a Rússia e a China.

Quanto à Ucrânia o apoio americano deve ser o necessário para expulsar as forças russas do seu território. A China está a observar como os Estados Unidos e outros países respondem a esse desafio. Washington deve encorajar aliados e parceiros que compram armas dos EUA, como sistemas ATACMS e Patriot, a adiar a aceitação e, em vez disso, doar seus sistemas para a Ucrânia conforme necessário para derrotar a agressão russa lá.

O governo dos EUA deve concentrar a construção naval para dissuadir a China, e melhorar as capacidades estratégicas de defesa nuclear dos EUA. Procurar oportunidades como a exploração de petróleo no Mar da China Meridional para repelir economicamente o expansionismo chinês e manter as políticas económicas de investimento robusto em infraestruturas no Estados Unidos, evitando a posse de tecnologias-chave na China. Além disso, Washington deve dar maior prioridade à proteção do dólar como o principal meio de comércio internacional e reserva de valor.

Quanto ao Irão, que está na ordem do dia, Clark expõe a estratégia em vigor: forçar os governantes do Irão a escolher entre a sua luta pela hegemonia regional e a sobrevivência do regime. O governo dos EUA deve alterar a sua política em relação ao Irão de “relutância em escalar” para “acabar com o Eixo da Resistência “, incluindo o apoio de Teerão aos Houthis no Iémen. O governo dos EUA deve alertar o Irão de que, a menos que o Eixo da Resistência seja desmantelado e as ameaças terroristas e nucleares do Irão cessem, os Estados Unidos e os seus aliados usarão todos os meios necessários para efetuar mudanças no Irão. Ataques militares dos EUA dentro do Irão que coloquem em risco os ativos mais valorizados pelo regime, começando com instalações de produção de drones e mísseis, não devem ser excluídos da consideração se o Irão atacar forças dos EUA.

É quanto a este ponto da estratégia de impedir que o Irão se torne uma potência regional no Medio Oriente, ameaçando o papel que tem sido desempenhado por Israel, como rottwiller dos EUA que vai ser decidida a “retaliação de Israel”. Ou os EUA entendem que já estão em condições de aniquilar o poderio militar-industrial do Irão e provocar uma mudança de regime em Teerão e nesse caso a ação de Israel será violenta e preparatória de um ataque principal, ou os EUA entendem que ainda não estão reunidas as condições para essa operação e a retaliação de Israel será destinada a “amolecer” a resistência de Teerão a um futuro ataque decisivo. Decisivo é, no entanto, uma demonstração de força dos Estados Unidos, que convença os estados na região de que ainda são eles os mestres do jogo. Certo é, também, que em qualquer momento ocorrerá um confronto decisivo entre os Estados Unidos e o Irão para impedir este de disputar a hegemonia de Israel como potencia regional e de se tornar uma potencia nuclear. Seria mais um Estado dos BRICS a aceder a essa condição, juntamente com a Rússia, a China, a Índia.

Os Estados Unidos, como referiu Wesley Clark, têm de se mostrar eficazes na luta contra os aliados de Teerão, o Hamas, os Hezbollah, os Houthis, que é o trabalho de rottwiller a cargo de Israel e também manterem a ocupação de parte da Síria, como o estão a fazer à margem de qualquer justificação que não seja o poder da força.

A afirmação da administração Biden, de que os Estados Unidos não se iriam envolver na retaliação de Israel é pura retórica, todos os meios utilizados por Israel são americanos, os aviões, as armas, o sistemas de comando, controlo, comunicações, informação por satélite, localização de alvos são americanos e são também os Estados Unidos que fornecem a reserva de emergência com duas esquadras na região.

A eficácia da retaliação de Israel dependerá muito das capacidades de defesa antiaérea que Teerão tenha entretanto desenvolvido para proteger as suas infraestruturas criticas. Uma informação que com certeza os Estados Unidos dispõem.

Por fim, na distribuição dos custos das duas guerras, a de Israel será paga pelos americanos, com emissão de moeda que criará um efeito de bola de neve de inflação repercutido pelos estados do dólar, os europeus em particular. A guerra na Ucrânia será paga diretamente pelos europeus, com fundos retirados dos apoios sociais e do investimento produtivo.

As ações no Médio Oriente e na Ucrânia dependem da análise da situação que for feita em Washington. Existe um guião. Falta a fita do tempo. Somos todos, os cidadãos das democracias ocidentais, democraticamente impotentes para intervir no nosso futuro.

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Memo to the president: The United States needs a new strategic approach fit for a new geopolitical…

The urgent task before American leaders is to renew the foundations of US power, ensuring that the country’s power of…

www.atlanticcouncil.org