Trump não é um menino de coro 

(Francisco Louçã, in Expresso, 21/04/2018) 

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Por mais que seja tentador, tratar Donald Trump como uma caricatura de si mesmo é imprudente. Bem sei que apetece: a melena à rockabilly, o queixo levantado à Mussolini, a agressividade em todos os azimutes a empalidecer um presidente de clube de futebol, “moralmente incapaz”, diz o ex-chefe do FBI, Trump é mesmo uma caricatura. Mas é muito mais do que isso, é o chefe ocasional que tem nas mãos o poder do arbítrio e, sobretudo, é um precursor do que a direita vai passar a ser. Ele próprio usa a ‘estratégia do madman’, como Nixon em relação ao Vietname: sou louco e posso fazer tudo, tenham medo de mim. Em todo o caso, mais vale tomá-lo a sério e o sábado de bombardeamento da Síria demonstra porquê.

A farsa como guerra do Solnado 

Há aforismos que têm a maldição de estar sempre certos: cada episódio destes dias, como o ataque à Síria, confirma que a tragédia se repete como farsa (a encenação sobre o êxito da coligação bombista), mesmo que a farsa também se repita como tragédia (os tweets de Trump dão lugar às bombas). Mas, além da repetição, há algumas particularidades desta deriva belicista que merecem atenção.

A primeira é a aparência, a enfatuação. Os mísseis certeiros, letais, formidáveis, caíram como o fogo divino sobre instalações previamente evacuadas porque os bombistas avisaram os bombardeados, parece a guerra do Solnado. Aniquilaram a capacidade de produção de armas químicas, dizem os bombistas; os bombardeados argumentam que não detinham tal capacidade (e, se a tivessem, houve tempo de pôr as reservas químicas a recato); portanto, ficam todos satisfeitos. Tudo um pouco ridículo, não é? Esta pantomina é ilustrada pelas declarações solenes de Trump, Macron e May, triste encenação.

O facto, em todo o caso, é que as bombas foram inúteis, mas o bombardeamento não. A ameaça é real; mostra que várias potências estão dispostas a bombardear a Síria para gerirem as suas crises internas, o que sugere que o possam fazer mais vezes; comprova que as Nações Unidas são desprezadas por Trump, como já se sabia, e que nisso May e Macron se alinharam com ele, o que era menos evidente; demonstra que, para as potências, a Síria é meramente uma fronteira da segunda Guerra Fria.

Curvemo-nos perante o grande líder 

A segunda nota é uma constatação. Virou uma página para Trump, até ontem tão ridicularizado nas chancelarias europeias e de repente empossado como respeitado grande líder do mundo ocidental. Os dirigentes europeus correm a servir Trump, mesmo que por vezes com alguma infelicidade: a prosápia de Macron, que se gabou de ter convencido Trump a ficar na Síria, para logo ser desmentido pelo seu aliado, fica nos anais da aselhice diplomática. Mas o que o caso sublinha é que Macron só se vê como braço de Trump na Europa. Isso é novidade e é espantosa, redefine-se o alinhamento da política europeia.

Se nos lembrarmos da guerra do Iraque, em que nos foi servido abundantemente um menu de evidências forjadas de armas de destruição maciça, há uma diferença, é que a França se opôs no tempo de Chirac (e tinha razão). Mas quem quer saber de provas ou de factos, ou da população ameaçada, quando há bombas a lançar? O Ministério dos Negócios Estrangeiros português, que tem por lema escolher bem as palavras, sabia bem o que queria com o elogio da “oportunidade” do ataque: tinha que ser depressa. Santos Silva achou razões para virar as costas a António Guterres e o Governo foi atrás.

Este processo configura por isso a maior transformação que a União Europeia vive na última década. Em vez de alternativa a Trump, os chefes europeus preferem ser Trump, seguindo aquele velho ditado dos gangsters de Chicago, se não o podes vencer, junta-te a ele.

A segunda Guerra Fria 

A terceira nota é sobre a consequência. E ela é maior do que as bombas combinadas do sábado passado. Os Estados Unidos desistiram da Síria, mas não de Israel; e Israel não desistiu do seu principal objetivo militar, o Irão. Portanto, há mesmo uma escalada em curso. Só que as opiniões públicas, nos Estados Unidos ou na Europa, não aceitam invasões para paradas militares em Damasco ou Teerão. Portanto, bombas.

Pior ainda, os governos que conduzem esta escalada são mais frágeis do que os de Bush e Blair no seu tempo; esgota-se mais depressa o efeito anestesiante de um bom telejornal com mísseis pelos céus; e as pessoas tendem a lembrar-se das suas vidas e até a votar a sua desconfiança. Resta então o que sobra sempre: o discurso do ódio. E é aí que entra a guerra que verdadeiramente interessa, a que criará as justificações para as etapas seguintes, a segunda Guerra Fria.


A campanha eleitoral de Centeno

Diz o ministro das finanças: “Há uma alternativa, mas ela corresponde a escolhas de regresso ao passado em que o país enfrentou o risco de sanções, em que os investidores nos rotulavam de lixo, em que bancos ruíam e com eles a confiança no sistema financeiro. Não temos memória curta. Eu não seguirei esse caminho”. Parece tirado a papel químico dos editoriais que o incentivavam a arrepender-se de desvarios passados, confirmando assim que abriu a era d.C., desde Centeno. Em d.C. a memória é viva e a contenção orçamental é imperiosa. Cigarra e formiga, não há ministro das finanças que não adore um conto infantil que termine bem.

Alguns, decerto mal intencionados, terão notado que o ministro fala como se fosse o chefe do Governo, “eu não seguirei esse caminho”, que se pronuncia sobre o calendário eleitoral, obrigando António Costa a retificá-lo, e até que vai ao Parlamento explicar a política de outros ministérios, decerto intimado pelo PSD, mas com algum gosto que confirma aquele retumbante “somos todos Centeno”.

Ora, esta política tem uma única justificação: a candidatura de Centeno a vice-presidente da Comissão Europeia após as eleições de 2019. Para tanto, com a atual trajetória orçamental, o ministro anunciará o êxito com 0% de défice em 2018 e prometerá superavit para o exercício de 2019, esse vai ser o seu cartão de visita para a candidatura. Será impressionante, mesmo que uma parte, a de 2019, fique por confirmar quando entregar a pasta, e será convincente sobretudo porque satisfaz o critério pelo qual tudo se mede, o do défice. Só que este critério é errado e nem tudo o que reluz em d.C. é ouro.

O critério é errado pelo método. O Ministério das Finanças tem como objetivo o défice 0% em 2018 e superavit em 2019 unicamente por gestão das aparências. Estes objetivos nem são ocultados: as contas para os 0,7% agora anunciados incluem o gasto de 791,7 milhões de euros com o Novo Banco, dado que foi ativada a sua garantia contingente. Portanto, notando este despesismo bancário sempre justificado pelos contratos de conforto ao Lone Star, que comprou sem pagar o Novo Banco, o défice real das contas públicas seria de 0,3%. Mas as receitas estão subavaliadas e, como as finanças mandam em todos os ministérios, podem também controlar a despesa até ao final do ano para termos o número mágico. O verdadeiro objetivo é zero e a conta será zero.

Ora, essa forma de gestão é errada porque entrega às finanças a decisão sobre dossiês que só podem ser geridos com eficiência pelos outros ministérios. Foi por esse disparate que tivemos o concurso das médicas especialistas retido durante um ano por veto de gaveta das finanças, que olham para as contas, mas não para as necessidades, e que, por isso, ignoram a racionalidade das escolhas.

Mas o critério é ainda mais errado porque desperdiça a oportunidade de corrigir as contas públicas portuguesas. Pela minha parte, eu compreenderia uma obsessão contra o défice se a dívida portuguesa estivesse a ser emitida a 7% de juro, como aconteceu no passado. Mas se o défice é pago com dívida de curto prazo a juros negativos ou de médio prazo abaixo do crescimento nominal do PIB, mais vale gastar já o investimento que seja urgente, é mais racional do ponto de vista orçamental.

Veja o seguinte exemplo: um hospital precisa de um novo TAC, o atual está estragado. Se o comprar, é despesa, conta para o défice. Se não o comprar, as contas públicas parecem melhor, mas o serviço do hospital parou — é portanto défice escondido, porque algum dia vai mesmo ser preciso comprar a máquina. Se alguém nos diz que a melhor gestão é evitar o investimento, não se ofenda se ouvir que o fingimento é o pai da incompetência. Nenhuma candidatura a um lugar europeu vale a gestão deficiente do orçamento.

Voltemos então às coisas ditas sérias!

(Jorge Rocha, in Ventos Semeados, 16/04/2018)

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Agora que já se fechou mais um parêntesis holandês na minha quotidianidade, eis-me disponível para acompanhar com mais atenção as frivolidades de que vão sendo feitas as cenas políticas nacionais e internacionais. Começando pela capa do «Público» de hoje, a escolher ´como notícia principal a produção horária de 29 «T-Roc» na fábrica da Autoeuropa, dando gás às exportações e enervando um pouco mais as impotentes direitas, que veem o governo surfar agilmente as ondas, sem que nada o venha propriamente perturbar. Não tivessem sido os incêndios do verão passado – e o aproveitamento oportunista de Marcelo para com eles entalar António Costa – e a popularidade deste último pediria claras meças ao demagogo das selfies e dos abraços. Razão acrescida para tomar medidas cautelares muito eficientes contra os incendiários, que uma reportagem mostrada na TVI nos últimos dias, comprova serem como as bruxas espanholas: «que los hay, hay…»

Passemos oportunamente para Espanha e para a mais recente «pérola» presidencial, pois correspondendo ao convite do símbolo maior da opressão por que passam hoje em dia os catalães, Marcelo pôs o patriotismo de férias e disse-se muito apegado aos «nuestros hermanos» desde que tinha seis anos. Vale então a pena lembrar Almada Negreiros (saudação especial daqui ao Gustavo Morais da Marinha Grande!) que dizia se o Dantas era português, antes quereria ser espanhol. Podemos atualizar a máxima e invertê-la adequadamente: se o Marcelo gosta tanto de se sentir espanhol, mais uma razão bem forte para nos sentirmos arreigadamente portugueses!

Continuando nas notícias da primeira página do matutino da Sonae, dá para sentir algum prazer com os aborrecimentos do pato bravo dos ferries do Douro, que quereria construir um hotel em leito de cheia. Se Passos Coelho e Aguiar Branco lhe proporcionaram a escandalosa negociata, que dele fez o intermediário do «Atlântida» entre os ainda públicos Estaleiros de Viana e o seu comprador final, talvez os seus esquemas encontrem bem menos acolhimento neste governo do seu descontentamento.

Concluindo, enfim, com o propósito de Centeno em ser o campeão europeu da redução da dívida – e o que isso poderá implicar para que a qualidade de vida dos portugueses não melhore tão substantivamente quanto as condições atuais justificariam – sobretudo na saúde – mantenho a dúvida quanto ao verdadeiro objetivo do ministro das Finanças: provar que a dívida é resolúvel sem qualquer revisão nas suas periodicidades ou juros? Ou tudo fazer para objetivos pessoais, que já se conjeturam, mesmo justificando-se a máxima prudência para com as tergiversações do semanário de Balsemão?


Fonte aqui

O drible de Centeno 

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 10/04/2018)

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Centeno tem com o futebol uma relação feliz. Alguma direita ensaiou uma tentativa de criminalizar a sua ida ao estádio para assistir a um clássico e o CDS até tentou levar o trepidante tema ao plenário do parlamento europeu, mas a intriga foi enxovalhada pela justiça, que estranhamente dela se ocupou, pelas autoridades europeias, que perderam menos tempo, e pela divertida opinião pública. Agora, noutra coincidência cósmica, o ministro apresenta as suas sereníssimas contas no momento em que Bruno de Carvalho incendeia a pradaria e nada mais se discute num Portugal apaixonado pela exuberância. Neste contexto quente, Centeno podia anunciar tudo e o seu contrário e seria ainda assim aplaudido como o oráculo de Delfos que acerta sempre, mesmo que não se perceba bem onde quer chegar, ou sobretudo por isso.

O facto é que o seu inventário de sucessos, no artigo no Público, é um texto misterioso. Fica-se com a impressão de que o ministro fala modestamente de si próprio quando escreve que “Os poderes públicos são a maior fonte de ‘paciência’ e estabilidade numa sociedade” (a frase merecia ser gravada na parede do gabinete do Terreiro do Paço), tal como é curioso o programa eleitoral que anuncia que “o governo continuará a devolver confiança” (devolver confiança? Antes salários congelados). Mas é isso precisamente que Centeno quer que seja lido, ele não joga com subterfúgios: tudo correu bem, o caminho é certo, resta prosseguir, sou um homem paciente e defino a música do governo, os outros ministros que se cuidem. O mistério, então, está no que simplifica e no que joga.

Os números de Centeno são a sua força. Cresceu a economia e o emprego, reduziu-se o IRS e melhoraram um pouco as pensões. Atraindo a direita para esse debate sobre a carga fiscal ou outras contas, o ministro fica sempre a ganhar e eu, pela minha parte, só fico maravilhado pela ingenuidade de Rio e Cristas, que caem sempre na pavloviana armadilha de lembrar o passado dos seus partidos e governos contra o sucesso europeu de Centeno – perdem sempre e até dá dó ver como se fustigam com o mesmo erro.

Mas o ministro torce alguns números para que eles nos entretenham: aplaudir um tal aumento do investimento público em 25% quando estamos a olhar para o fundo do poço é somente facilitar; vangloriar-se de um superávite primário de 3% é defender uma política impossível e insustentável a prazo, que esgota as condições de acordo deste governo e será responsável pelo desgaste das condições estruturais de recuperação do investimento e dos serviços públicos a médio prazo. E, além de tudo, o ministério das finanças e o Banco de Portugal convergiram na continuação do desmantelamento do sistema bancário nacional (salvo a Caixa), talvez a maior tragédia da gestão económica da última década.

Bem sei que a política se joga quase sempre no curto prazo e daqui a ano e meio Centeno terminará o seu mandato nas finanças e voará outros voos. Importa-lhe por isso o cartaz que desenhar até 2019, a tal “paciência”, afinal bastante impaciente. Pode correr-lhe tudo bem, os juros podem manter-se baixos por ora, mesmo que já se anunciem as tensões que reverterão o gráfico, mas essa é a parte da lotaria antes da próxima recessão.

O problema de Centeno não é, portanto, nem a direita, que só o ajuda, nem as autoridades europeias, que precisam dele, nem sequer a conjuntura, que o tem poupado. O seu problema só pode ser ele próprio, pelo excesso de confiança. Um ministro que anuncia a sua preferência pela dissolução do parlamento para eleições antecipadas conjugadas com as europeias, quando o Presidente e o Primeiro-ministro, ao que se sabe, afastaram essa ideia tão esdrúxula, está fora de tom. Um ministro que, quatro meses depois da aprovação do Orçamento, anuncia um programa plurianual em que revê as metas do défice para o ano corrente, que tanta polémica têm causado na maioria parlamentar e que anteriormente foram invocadas como limite para restringir a despesa na saúde, se não mesmo o veto de gaveta para atrasar a contratação de médicos especialistas, está a sobrepor o seu ilustre arbítrio às regras da convergência política e até da gestão razoável. A conclusão é simples: afinal era falso que o défice impunha que não podia haver reforço do serviço nacional de saúde e, portanto, teria sido melhor “devolver confiança” neste capítulo.

Que o Natal e o défice sejam quando e o que um ministro quiser não parece nem salutar para o governo nem uma prenda aceitável para quem quer uma solução política de confiança.