(João Ramos de Almeida, in Blog Ladrões de Bicicletas, 23/07/2018)

(Não havia necessidade, parafraseando o Abade dos Remédios. O orçamento, ó Centeno, “é para todos os portugueses”, mas não só. É também – e se calhar, sobretudo -, para os bancos, os detentores de dívida pública de Portugal, sejam portugueses ou estrangeiros. Para esses, só de juros, são mais de 7000 milhões de euros.
E bem podias estar calado, porque aqueles que acusas de quererem o céu e a lua, são aqueles que te permitiram ser ministro e, mais ainda, Presidente do Eurogrupo.
Comentário da Estátua, 23/07/2018)
Antes de ir aos casos mais graves, apenas um aspecto anedótico.
Na entrevista que o ministro das Finanças deu ao Público, Mário Centeno refere por diversas vezes que as suas opções estão sustentadas no apoio dos portugueses, através de… estudos de opinião que foram realizados.

Para já, a referência aos estudos de opinião parece ter subjacente a ideia mirífica (e populista) de que é possível contornar o Parlamento e as instituições democráticas representativas – para governar em nome de “todos os portugueses”. Essa ideia parte de outra: a de que a pessoa que escolhe as perguntas é aquela que é a mais capaz e competente de interpretar o espírito de “todos os portugueses”. E assume assim um poder bem superior a “todos os portugueses”: o de impor a sua pergunta.
Geralmente, porque essa pessoa “interpreta” o sentir do povo, tende a não levar a “votos” aquilo que pode ser realmente determinante para “todos os portugueses”, quando não haja qualquer referência explícita nos programas partidários. Foi o caso do Tratado de Maastricht, da criação da moeda única – aliás, baseada num frágil estudo de impacto que convinha revisitar… – ou o Tratado Orçamental. Nunca esses tratados foram a votos.
Finalmente, convinha lembrar que a fiabilidade dos estudos de opinião depende muito da forma como as perguntas são feitas. Veja-se o caso já citado noutro post deste blogue, em que, na série britânica Yes, minister, se mostra como se dirigem entrevistas para obter certos resultados.
Centeno fez o mesmo. No estudo de opinião que citou, perguntou-se aos portugueses: “Qual dos três eventos” – gosto muito da palavra eventos – “mais aumentavam a sua auto-estima: ganhar o campeonato europeu de futebol, a saída do Procedimento por Défice Excessivo (PDE) ou ganharmos a Eurovisão”. Não se percebe muito bem a escolha do conceito auto-estima, mas tudo bem. A resposta da maioria dos portugueses recaiu evidentemente em… PDE. A conjunção de três palavras pesadas como procedimento, défice e excessivo parece mesmo mau e então se sairmos disso, parece bem mais importante do que “ganharmos” a Eurovisão.
Agora, faça-se outra sondagem: “Qual dos casos lhe parece ser mais importante para si: ganhar como prémio uma tablete de chocolate Regina, beneficiar de um Serviço Nacional de Saúde eficaz ou que o défice orçamental suba umas décimas do PIB?”
Pois é…


