O drible de Centeno 

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 10/04/2018)

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Centeno tem com o futebol uma relação feliz. Alguma direita ensaiou uma tentativa de criminalizar a sua ida ao estádio para assistir a um clássico e o CDS até tentou levar o trepidante tema ao plenário do parlamento europeu, mas a intriga foi enxovalhada pela justiça, que estranhamente dela se ocupou, pelas autoridades europeias, que perderam menos tempo, e pela divertida opinião pública. Agora, noutra coincidência cósmica, o ministro apresenta as suas sereníssimas contas no momento em que Bruno de Carvalho incendeia a pradaria e nada mais se discute num Portugal apaixonado pela exuberância. Neste contexto quente, Centeno podia anunciar tudo e o seu contrário e seria ainda assim aplaudido como o oráculo de Delfos que acerta sempre, mesmo que não se perceba bem onde quer chegar, ou sobretudo por isso.

O facto é que o seu inventário de sucessos, no artigo no Público, é um texto misterioso. Fica-se com a impressão de que o ministro fala modestamente de si próprio quando escreve que “Os poderes públicos são a maior fonte de ‘paciência’ e estabilidade numa sociedade” (a frase merecia ser gravada na parede do gabinete do Terreiro do Paço), tal como é curioso o programa eleitoral que anuncia que “o governo continuará a devolver confiança” (devolver confiança? Antes salários congelados). Mas é isso precisamente que Centeno quer que seja lido, ele não joga com subterfúgios: tudo correu bem, o caminho é certo, resta prosseguir, sou um homem paciente e defino a música do governo, os outros ministros que se cuidem. O mistério, então, está no que simplifica e no que joga.

Os números de Centeno são a sua força. Cresceu a economia e o emprego, reduziu-se o IRS e melhoraram um pouco as pensões. Atraindo a direita para esse debate sobre a carga fiscal ou outras contas, o ministro fica sempre a ganhar e eu, pela minha parte, só fico maravilhado pela ingenuidade de Rio e Cristas, que caem sempre na pavloviana armadilha de lembrar o passado dos seus partidos e governos contra o sucesso europeu de Centeno – perdem sempre e até dá dó ver como se fustigam com o mesmo erro.

Mas o ministro torce alguns números para que eles nos entretenham: aplaudir um tal aumento do investimento público em 25% quando estamos a olhar para o fundo do poço é somente facilitar; vangloriar-se de um superávite primário de 3% é defender uma política impossível e insustentável a prazo, que esgota as condições de acordo deste governo e será responsável pelo desgaste das condições estruturais de recuperação do investimento e dos serviços públicos a médio prazo. E, além de tudo, o ministério das finanças e o Banco de Portugal convergiram na continuação do desmantelamento do sistema bancário nacional (salvo a Caixa), talvez a maior tragédia da gestão económica da última década.

Bem sei que a política se joga quase sempre no curto prazo e daqui a ano e meio Centeno terminará o seu mandato nas finanças e voará outros voos. Importa-lhe por isso o cartaz que desenhar até 2019, a tal “paciência”, afinal bastante impaciente. Pode correr-lhe tudo bem, os juros podem manter-se baixos por ora, mesmo que já se anunciem as tensões que reverterão o gráfico, mas essa é a parte da lotaria antes da próxima recessão.

O problema de Centeno não é, portanto, nem a direita, que só o ajuda, nem as autoridades europeias, que precisam dele, nem sequer a conjuntura, que o tem poupado. O seu problema só pode ser ele próprio, pelo excesso de confiança. Um ministro que anuncia a sua preferência pela dissolução do parlamento para eleições antecipadas conjugadas com as europeias, quando o Presidente e o Primeiro-ministro, ao que se sabe, afastaram essa ideia tão esdrúxula, está fora de tom. Um ministro que, quatro meses depois da aprovação do Orçamento, anuncia um programa plurianual em que revê as metas do défice para o ano corrente, que tanta polémica têm causado na maioria parlamentar e que anteriormente foram invocadas como limite para restringir a despesa na saúde, se não mesmo o veto de gaveta para atrasar a contratação de médicos especialistas, está a sobrepor o seu ilustre arbítrio às regras da convergência política e até da gestão razoável. A conclusão é simples: afinal era falso que o défice impunha que não podia haver reforço do serviço nacional de saúde e, portanto, teria sido melhor “devolver confiança” neste capítulo.

Que o Natal e o défice sejam quando e o que um ministro quiser não parece nem salutar para o governo nem uma prenda aceitável para quem quer uma solução política de confiança.

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2 pensamentos sobre “O drible de Centeno 

  1. Eu gostaria que Francisco Louçã venha a ser o próximo ministro das Finanças numa verdadeira coligação PS/BE, pois teria de enfrentar realidades insuscetíveis de serem alteradas, enquanto Centeno vai para Comissário Europeu ou presidente do BCE.
    Até agora, o BE teve medo de governar. Na minha Junta de Freguesia temos um acordo com o BE na Assembleia desde a passada legislatura. Convidámos novamente o BE para entrar na Junta e não apoiar apenas o PS na Assembleia, mas recusaram. Governar uma Junta de Freguesia não tem nada de ideológico. Trata-se de manter as ruas e jardins limpas, arranjar o que se estraga nas escolas básicas e fazer força para que o Município e os Ministérios façam que devem fazer. Quase sempre aprovamos Moções por unanimidade. Mesmo assim, o BE parece que não quer “sujar” as mãos. Mas é assim, governar implica coragem e aguentar críticas justas ou injustas.
    Francisco Louçã, não te esqueças do Partido Renovador Democrático que apoiou Cavaco sem entrar no Governo pela simples razão que Ramalho Eanes, o seu mentor, não estudou bem o significado de entrar na Comunidade Europeia e desconhecia os dinheiros que viriam daí. Eanes teve medo que a crise de falta de divisas continuasse e não queria ser obrigado a fazer o que o PS com o PSD tiveram de fazer, uma tremenda austeridade em termos de importações. O PNR tirou 28% ao PS na primeira eleição para os perder logo na segunda e nunca mais foi partido, acabando comprado por um grupo de fascistas que mudaram o nome para Partido Renovador Nacional, salvo erro. Se tivesse entrado no Governo e ido até ao fim da legislatura seria hoje um grande partido

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    • Isso é como o SPD achar que por ter o ministro das finanças vai ter poder para mudar alguma coisa, depois ouve-se o Scholz e não se nota diferença com o anterior.
      Governar contra o programa eleitoral que fique para os “partidos responsáveis” que elogiam os últimos 30 a 40 anos da eurolândia, com os resultados que se vêm.

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