Défice de 2,1%: o grande silêncio

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/02/2017)

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De repente, o ministro das Finanças anuncia que o défice em 2016 ficou não em 2,8%, 2,5%, 2,4% mas em 2,1% e o grande debate é em torno dos sms trocados entre Mário Centeno e o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues. De repente, sabe-se que o défice passou de 3,1% em 2015 para 2,1% no ano passado e o que se discute acaloradamente é se haverá ou não uma nova comissão parlamentar de inquérito, desta vez incidindo especificamente nas trocas de mensagens entre Centeno e Domingues. De repente, devíamos estar a falar de coisas importantes para o país mas os noticiários e os comentários são dominados por uma troca de sms entre duas pessoas.

Sim, claro que é importantíssimo saber o que Centeno disse a Domingues. Claro que é óbvio que Domingues pôs como condição não apresentar, nem ele nem a sua equipa, as declarações de rendimentos e património. Claro que o ministro ou alguém por ele aceitou essa exigência. Claro que a decisão de alterar o estatuto de gestor público para responder a isso foi uma péssima e canhestra ideia. Claro que quem bichanou ao ouvido de Marques Mendes a publicação do diploma foi o Presidente da República. Claro que a partir daí, Centeno, que nunca quis mentir, se enredou em explicações cada vez mais sofridas e menos credíveis, até terminar com o famoso “erro de percepção” em que terá induzido Domingues. E agora? Pois, e agora?

Nunca nenhum político mentiu no parlamento? Nunca nenhum político mentiu numa comissão parlamentar de inquérito? Não vamos mais longe: no Governo anterior foi tudo de uma enorme lisura e verdade? O que Pedro Passos Coelho disse na campanha eleitoral foi o que fez depois quando chegou ao poder? Maria Luís Albuquerque nunca torceu a verdade no caso dos swaps? Cavaco Silva, no livro que ontem lançou, conta exactamente o que se passou aquando do famoso caso das escutas ao Palácio de Belém?

A direita tem desenvolvido nos últimos anos campanhas sistemáticas para denegrir os dirigentes de esquerda. Acusá-los de serem mentirosos é o primeiro passo. Já aconteceu com António Costa (vide as recentes acusações de Assunção Cristas no parlamento ao primeiro-ministro, quando se conhece o historial de Paulo Portas na sua relação com a verdade). Mas quando não chega vai-se mais longe. O lamaçal que foi lançado sobre vários dirigentes do PS durante o caso Casa Pia foi das manobras mais sujas que a democracia portuguesa conheceu.

Nada disso justifica as contradições de Centeno, nem que tenha aceite as exigências de Domingues, nem que tenha permitido que uma sociedade de advogados elaborasse ela própria o diploma. Tudo erros, tudo asneiras. Mas o Presidente da República deu sibilinamente o caso por encerrado e o primeiro-ministro mantém a confiança em Centeno.

Na verdade, o que a direita não suporta é que Centeno tenha provado que era possível trilhar outro caminho económico, com menos sacrifícios para os portugueses, e mesmo assim conseguir reduzir o défice para valores historicamente baixos, o mais baixo em 42 anos de democracia, coisa que a direita nunca conseguiu até agora. O que a direita não perdoa a Centeno é que tenha conseguido fazer isto colocando a economia a crescer um pouco mais do que se esperava, com o regresso do investimento, a subida das exportações, a melhoria do clima económico e do indicador de confiança.

É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros.

É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros

O Lobo e o cordeiro

(In Blog O Jumento, 17/02/2017)
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Desculpem voltar ao lobo mas as manobras deste mamífero merecem ampla reflexão e consequente desmontagem. Nunca se deve deixar passar em claro as manobras dos lobos, sobretudo as daqueles que usam e abusam da pele de cordeiro.
Estátua de Sal.

Talvez um dia se venha a saber o que levou um até agora discreto bancário a ficar nas primeiras páginas da forma mais triste. De um administrador de bancos espera-se confiança, lealdade, sigilo e privacidade, tudo qualidades que Antónimo Domingues revela não ter ao violar as mais elementares regras de convivência, dando a conhecer a um conhecido lobista o conteúdo de conversas privadas.
Primeiro foram os e-mails, a seguir os SMS, ninguém se admire que Domingues tenha gravado todas as conversas com membros do governo sem a sua autorização e o Lobo Xavier já as tenha ouvido, para verificar se há matéria para mais calhandrice.
Para um administrador de bancos isto é um suicídio, não há ninguém que esteja no seu pleno juízo, nem mesmo o seu amigo Lobo Xavier, que lhe mande SMS ou se comprometa em conversas telefónicas. António Domingues deixou de ser confiável e duvido que passada esta fase o próprio Lobo Xavier tenha confiança no seu velho amigo. O que poderá ter levado alguém experiente a imolar-se na pira da falta de princípios? O dinheiro que perdeu por não ser administrador, a vaidade ferida? Um dia saberemos.
A Caixa Geral de Depósitos representa milhares de milhões de euros, o seu dinheiro pode alimentar muitas empresas, pode ser multiplicado gerando muitas fortunas generosas na distribuição de comissões. A CGD pode aprovar PER que mantém vivas empresas que já morreram, tem importantes participações no capital de outras empresas, como se viu no caso da PT, tem crédito malparado concedido a importantes empresas e personalidades, adquire muitos milhões em fornecimento dos mais variados serviços, tem milhares de milhões para emprestar, pode favorecer muitas promoções políticas ao nível nacional e em cada uma das autarquias.
É aqui que entra o Lobo, neste caso o Lobo Xavier e nesta matéria temos mais um lobo do que um frade a falar para peixinhos. E se Lobo é mesmo o lobo, o António Domingues acaba por ser o cordeiro. Lobo Xavier, apesar de bom cristão, não é conhecido como administrador do Banco Alimentar ou de muitas das IPSS da Igreja. Antes pelo contrário, Lobo Xavier é administrador de grandes empresas e na sua vida não teve uma única aula de gestão.
Todas as grandes empresas têm interesses directos ou indirectos na CGD, grandes empresários mantêm litígios com a CGD, muitas empresas e personalidades têm crédito malparado para renegociar, tudo matérias em que o gestor, o administrador, o advogado ou o lobista Lobo Xavier pode dar uma preciosa ajuda, tudo dentro da maior das legalidades.
Lobo Xavier é o maior lobista da vida política e económica portuguesa. O seu poder é imenso, principalmente se o governo for da direita. Com os governos da direita todas as reformas fiscais com impacto nas empresas passaram pelas suas mãos, Paulo Núncio nada fez sem consultar Lobo Xavier, era o lobista que sabendo dos desejos de algumas das maiores empresas sabia o que os grandes interesses pretendiam das reformas do IRC ou do património.

Neste caso o Lobo misturou o cordeiro, o CDS, o PSD, o Presidente da República, uma estação de televisão e só Deus sabe quantos jornalistas numa manobra visando derrubar o mais competente ministro das Finanças das últimas décadas e ajudar a repor o governo da direita. Um dia talvez saibamos o que tinha o Lobo a ganhar com a degola do cordeiro e pode ser que se venha a perceber que tipo de Conselheiro de Estado é este Lobo Xavier.


Fonte aqui

Ovelhas negras, lobos e toupeiras

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 17/02/2017)

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Domingues, que era tão cuidadoso com a sua intimidade e não deixava ninguém ver a declaração de rendimentos, deixa Lobo Xavier vasculhar os seus SMS. Muito estranho. Será que o Lobo Xavier foi ao telemóvel do amigo enquanto ele foi à casa de banho?


Centeno deu uma conferência de imprensa e lá se tentou safar como podia e pedia o presidente Marcelo. Com pouca habilidade, e com aquele ar de quem está aflito para ir fazer chichi, o Ministro das Finanças transformou a sua chico-espertice numa chico-tolice e pronto. Há quem prefira passar por cordeirinho que ser ovelha negra. E assim ficou despachado o assunto, até porque havia 2,1 razões para que a demissão de Centeno fosse uma idiotice.

Já todos percebemos o que aconteceu, de tal modo que usei o eufemismo para “menti, prometi, mas afinal não me dava jeito cumprir” e evoquei o “eventual erro de percepção mútuo na transmissão das nossas posições” para justificar não ter aparecido no jantar do dia dos namorados e ficar em casa a ver o PSG-Barcelona.

Parecia que finalmente a novela das cartas de amor entre Domingues e Centeno tinha chegado ao fim quando surge a notícia: “o conselheiro de Estado António Lobo Xavier, amigo de António Domingues, deu a conhecer ao Presidente da República o conteúdo das SMS entre o ex-presidente da CGD”. Agora sim, isto está ao nível das vinganças de namorados. Que bom! Revelar SMS, acho o máximo. Nestas coisas da Caixa Geral de Depósito e do sistema financeiro em geral sou uma porteira. Adorava espreitar as SMS dos banqueiros. O do Horta Osório deve ter nudes.

É um volte-face surpreendente. Domingues, que era tão cuidadoso com a sua intimidade e não deixava ninguém ver a declaração de rendimentos, deixa Lobo Xavier vasculhar os seus SMS. Muito estranho. Será que o Lobo Xavier foi ao telemóvel do amigo enquanto ele foi à casa de banho? É a explicação mais lógica. Até porque, se bem me lembro, Domingues quando se demitiu dizia ser: “vítima de turbilhão mediático politicamente instrumentalizado e frequentemente a resvalar para a demagogia populista”. Ou seja, o Lobo está a envolver o Domingues num turbilhão mediático, não é coisa de amigo. Logicamente, chego à conclusão que Lobo Xavier andou a bisbilhotar o telemóvel do Domingues. É a única hipótese. Quer dizer… há outra hipótese.

Nos media, em relação a este caso, Lobo Xavier é descrito como amigo de Domingues e conselheiro de Estado, mas fica sempre esquecido o facto do Lobo ser administrador executivo do BPI. Parece estranho ser um administrador do BPI, concorrente directo da CGD, a ter acesso aos SMS de um ex-presidente da Caixa e a fazer o papel de defensor da ética. Parecendo que não, o indivíduo que traçou o plano da CGD e que trabalhou no BPI, troca e revela SMS sobre a Caixa com Lobo Xavier, administrador do BPI. Já vi toupeiras com menos dioptrias.

Tenho a curiosidade aos saltos e gostava de saber durante quanto tempo o doutor Domingues andou a trocar mensagens com o administrador do BPI, desde quando e o que lhe revelou. O meu ADN de porteira começa logo a latejar e fico cheio de vontade de conhecer as SMS trocados entre Domingues, ex-administrador da CGD, e Lobo Xavier, administrador do BPI, ex-banco de Domingues. Aposto que há smiles.


TOP 5

Deixa-me ver os teus SMS

1. Expresso: “Marcelo sentiu-se traído quando leu SMS de Centeno e Domingues” – e foi comer uma vichyssoise.

2. Madeira Rodrigues afirma que Sporting tem sido alvo de gozo – mas não tanto como a candidatura de Madeira Rodrigues. Parece uma promoção – despedir o JJ + mudar as cadeiras + tapar o fosso = 1,5 milhões, só no Continente.

3. Polícia francesa diz que violação com cassetete não foi “intencional” – ao próprio polícia já lhe aconteceu uma centena de vezes ao sentar-se à pressa.

4. Cordão humano contra Acordo Ortográfico em Lisboa – dão as mãos à antiga portuguesa, não há cá “hi five” nem essas cenas.

5. “No fim de semana o conselheiro de Estado Lobo Xavier, amigo de Domingues, deu a conhecer o conteúdo das SMS ao PR” – Marcelo devia ter dado voz de prisão ao Lobo: “Então você é administrador do BPI e tem SMS privadas do, na altura, presidente da CGD com o ministro?!”