O hábito que reage

(Daniel Oliveira, in Expresso, 22/08/2015)

         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Incomoda-me que se atribuam aos partidos políticos pecados que são da natureza de todas as organizações. Estruturas mais difusas do que as dos partidos não são mais generosas, mais abertas ao exterior, menos conflituais ou mais democráticas. A minha experiência até me diz o contrário: que as estruturas menos estáveis e a inexperiência dos que nelas participam tendem a facilitar a arbitrariedade. Os partidos, tendo nascido para conquistar o poder de Estado, estão naturalmente vocacionados para lidar com o conflito interno. E fazem-no de forma mais transparente, previsível e democrática do que qualquer sindicato, ONG ou associação política. Mas o monopólio partidário na representação democrática da vontade dos cidadãos é muito pouco saudável. Quem não quer, num determinado momento, militar num partido político não pode ser excluído do direito a escolher ou ser escolhido para candidato a qualquer cargo político. Por isso as listas de cidadãos deviam poder concorrer a eleições legislativas e os eleitores deviam ter a possibilidade de alterar a ordem dos candidatos propostos pelos partidos.

Como se viu com Manuel Alegre, em 2006, e Fernando Nobre, em 2011, é nas presidenciais, reservadas a candidaturas individuais, que os eleitores têm dado mais sinais de cansaço perante os excessos dos partidos. Talvez compreendendo isto, pela segunda vez na história (a primeira foi com Ramalho Eanes, quando a democracia e o sistema partidário não estavam totalmente consolidados), o PS poderá apoiar um candidato que não é militante do partido. E a candidatura de Maria de Belém mais não é do que uma reação a esta heresia. Não é seguramente uma resposta à evidente falta de notoriedade e de experiência de Sampaio Nóvoa. Se fosse, a escolha seria para alguém com mais relevância política.

O que Maria de Belém representa é o incómodo dos “Lellos” desta vida perante o aparecimento de um candidato externo ao círculo fechado do partido, que toma a democracia como propriedade sua.

O “Público” fez um “quem é quem” nos nomes que garantiram a vaga de fundo para que Maria de Belém avançasse. A forte presença de pessoas ligadas a grupos de interesses privados habituados a viver paredes-meias com o poder político é sintomática. Assim como é sintomática a relação que a candidata teve com estes interesses enquanto era deputada, mantendo avenças eticamente inconciliáveis com as suas funções. Não digo que estas pessoas esperem que um futuro presidente lhes dê o que não pode dar. Digo que estão, tal como os pequenos poderes partidários, habituados a uma determinada forma de fazer política. A reação epidérmica a um candidato externo ao partido e a escolha de quem tem como única vantagem competitiva a sua ligação umbilical ao aparelho são manifestações desse hábito. Se chegar a ir a votos, o resultado de Belém também será um teste ao poder destes poderes — aqueles de que Seguro, aliás, se queixava. E ao que mudou e não mudou na política portuguesa. O último a acreditar que tudo estava na mesma e a provar os frutos do seu engano foi Mário Soares, em 2006. A comparação é quase insultuosa. Soares tinha um passado, um carisma, um pensamento político e um apoio na direção do PS que faltam Maria de Belém. E mesmo assim correu-lhe mal.

As forças ocultas do PS

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 14/08/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Há qualquer coisa de suicidário nas ocorrências registadas no PS nas últimas semanas. A negligência nos cartazes, além das frases, ocas e compridas (…); e, agora, esta designação embrulhada, sem elegância nem grandeza, que impugna, afinal, a candidatura de Sampaio da Nóvoa.

A apresentação de Maria de Belém como putativa candidata à Presidência da República, apoiada pelo PS, abre uma cisão naquele partido, semelhante àquela que opôs Manuel Alegre a Mário Soares, e empurrou o dr. Cavaco para as mais altas funções do Estado. Com os resultados dramaticamente conhecidos. A ambiguidade do comportamento socialista só se explica pela correlação de forças naquele partido, e pela cedência de António Costa à ala mais conservadora, que parece ser dominante em força e em poder.

Há qualquer coisa de suicidário nas ocorrências registadas no PS nas duas últimas semanas. A negligência nos cartazes, além das frases, ocas e compridas, com módico impacto público; e, agora, esta designação embrulhada, sem elegância nem grandeza, que impugna, afinal, a candidatura de Sampaio da Nóvoa. O PS, assim, demonstra uma indecisão ou uma dicotomia larvar, oposta e, até, antagónica da coesão exigida a uma organização daquela natureza. E não me venham com a conversa de o PS ser um partido “plural”, que mantém opiniões diversas.

Sampaio da Nóvoa congregou, em torno da sua candidatura, três ex-Presidentes da República, além de alguns dos nomes mais prestigiosos e respeitados da sociedade actual. O que incomodou alguns “socialistas” com ouvidos meigos foi a clareza meridiana com que o antigo reitor disse ao que vinha, e que colide, fortemente, com a mansuetude calculada da vida portuguesa.

É extremamente preocupante a distanciação com que o PS se colocou em relação a Sampaio da Nóvoa, cuja atitude e orientação continua uma tradição que vem de Soares, de Jorge Sampaio e de Eanes. Uma tradição cultural progressista que se antagoniza com o errático e se fixa numa acepção moral da sociedade. O dr. Cavaco representa o outro lado dessa interpretação. Faltam-lhe a dimensão intelectual e o entendimento “do outro”, e, para lembrar um querido e saudoso amigo, Luís Fontoura, militante e alto dirigente do PSD, “entre mim e ele medeiam três quilómetros de livros.”

As responsabilidades do PS de António Costa sobrelevam as de um mero plebiscito. E, pelos vistos e ouvidos, caso o secretário-geral não altere o prometido e ajuramentado, o que já me parece difícil, ele pode constituir o definitivo encerramento de um ciclo funesto e tenebroso. A máquina de propaganda do PSD, o despudor com que os seus máximos dirigentes mentem e manipulam a verdade dos factos, a inexistência de uma crítica ideológica e política eficaz e não estipendiada, têm causado fortes danos ao ideal democrático.

Perante o que Sampaio da Nóvoa representa, qual o desejo secreto deste PS amolgado numa deriva perigosíssima para o País. Dir-se-á que aquele partido sempre foi o que foi, e as alianças que fez são de molde a deixar desalentados e perplexos o comum dos portugueses. Costa pareceu arrastar consigo o entusiasmo de muita gente, entusiasmo que tem esmorecido com o desenrolar dos acontecimentos políticos. Onde está o PS que ele prometeu?

Este episódio de que Maria de Belém, infelizmente, é protagonista secundária, porque em causa estão interesses mais elevados e ocultos, fornece-nos a dimensão do que, afinal, ambiciona este PS. Creio que António Costa perdeu o ímpeto inicial, calafetado pelo que de mais reaccionário se oculta naquele partido. Mas ele conhecia e conhece, melhor do que ninguém, as forças dissimuladas naquela agremiação. Esperemos para ver. Mas o andar da carruagem deixa certas dúvidas.

MARIA DE BELÉM ROSEIRA, NOVO «CAVALO DE TRÓIA» DA IGREJA?

(Alfredo Barroso, in Facebook, 12/08/2015)

Alfredo Barroso

Alfredo Barroso

 A actual presidente da assembleia geral da União das Misericórdias Portuguesas, que foi vice-provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa quando o provedor era o frade Vítor Melicias, e que gosta muito de citar o padre Lino Maia, apresenta-se como pré-candidata à próxima eleição do Presidente da República salientando sobretudo o facto de ser «profundamente cristã», e de ter «uma relação muito grande com algumas instituições, desde as Misericórdias às IPSS», como se isso a qualificasse especialmente para se candidatar ao Palácio de Belém.
Não deixaria de ser uma grande ironia política que viesse a ser o PS, partido de tradição sobretudo republicana, socialista e laica, a constituir-se como um veículo privilegiado de infiltração da Igreja Católica no poder do Estado, ainda democrático, em que actualmente vivemos. E convém salientar que esta senhora não foi, ao contrário daquilo que se quer fazer crer, uma boa ministra da Saúde. Já poucos se lembrarão de que o seu amigo então primeiro-ministro, o «beato» e «blairista» António Guterres, teve de substitui-la por não estar a dar boa conta do recado, e criou, para ela não ficar triste, uma pasta ministerial fantasma, dita da Igualdade, sem qualquer conteúdo nem infraestruturas mínimas, e que não serviu para mais nada senão para proteger o ego da amiga Maria de Belém.
Esta senhora, que pertence ao pouco famoso «grupo de Macau» (com António Vitorino, Jorge Coelho e outros que tais) e que foi consultora da Espírito Santo Saúde (quando era presidente da comissão parlamentar de Saúde), não tem propriamente um «curriculum» que a qualifique como socialista ou genuinamente social-democrata, e ouvir dizer que ela «tem uma experiência política notável» (José Junqueiro) é, no mínimo, de gargalhada. Também não deixa de ser subliminarmente insultuoso ouvir dizer que ela «é uma pessoa que une pessoas honestas à sua volta» (Miguel Oliveira e Silva), como se todos os outros candidatos potencias a Presidente da República só conseguissem unir vigaristas à sua volta.
Note-se que, para além dos óbvios apoios da Igreja Católica (que prudentemente nem precisam de se fazer ouvir), esta pré-candidatura escandalosamente encostada à direita tem muitos apoios da medíocre «tralha segurista» que fez dela, imerecidamente, Presidente do PS. Infelizmente, António Costa não se tem mostrado à altura de mobilizar o partido e fazer esquecer esse equívoco, apesar do actual presidente do PS, Carlos César, esse sim, ser politicamente muito mais competente.

O PS suicidar-se-ia definitivamente como partido de esquerda se viesse a apoiar a candidatura de Maria de Belém Roseira ao cargo de Presidente da República!