Na Caixa com certeza

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 17/06/2016)

CGD

A Caixa Geral de Depósitos tem sido, ao longo de décadas, uma espécie de Casa do Artista do Bloco Central (mas num condomínio de luxo).


O primeiro-ministro, António Costa, admitiu, na passada quarta-feira, que o plano de reestruturação da Caixa Geral de Depósitos inclui a saída de funcionários por motivo de reforma, e defendeu a possibilidade de serem encerrados balcões no estrangeiro, em posições que não sejam “estrategicamente relevantes” para o país. Lá se vai a Caixa no Vaticano. Já percebemos que há menos na Caixa do que nós imaginávamos.

A Caixa Geral de Depósitos tem sido, ao longo de décadas, uma espécie de Casa do Artista do Bloco Central (mas num condomínio de luxo). O pessoal do arco da governação arranja ali um arco onde se abrigar quando está retirado dos palcos políticos. De Varas a Cardonas, passando por Nogueiras Leites, a Caixa é o abrigo na dura estrada da vida dos favores políticos. – Está de chuva? Vai para a Caixa e espera que passe. A vida é uma incerteza menos para quem tem a Caixa com certeza. A ideia que tenho da CGD é que é um banco que funciona tão bem que metade da administração não tem de fazer nada.

O mais curioso deste tema, Caixa Geral de Depósitos, é o facto de a ex-coligação governamental, de repente, estar preocupada com a saúde da Caixa. Já lá vai o tempo em que Maria Luís, sobre a CGD poder levar rombo com o Fundo de Resolução no Novo Banco, dizia: “A CGD pode sentir um impacto: é o preço de ter um banco público.” Sem espinhas. E o Presidente, Cavaco Silva, garantia, a propósito do mesmo tema: “É errado dizer-se que pela via de redução dos lucros da CGD os contribuintes podem vir a suportar custos.” Era a caixa da Joana, agora é a de Pandora.

Posto isto, a minha proposta para ajudar a recuperar financeiramente o nosso banco é vender o edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos na Avenida João XXI. Deve dar uma boa ajuda em termos financeiros, não só no que se poupa como no que se ganha.

Vejamos. A nível de espaço, suponho que equivale a cinco Jerónimos. Dava um bom Continente, por exemplo. Juntamente com a Muralha da China, e o ordenado do Mexia na EDP, é a única coisa que se vê, a olho nu, da Lua. A CGD podia, por exemplo, vender a sede da João XXI à Câmara para fazer a nova Mesquita de Lisboa. Desta vez, sem chatices (nem expropriações), até porque o edifício, em termos arquitectónicos, já tem um formato que não exige grandes mudanças. É pôr um crescente na abóbada principal e siga. Depois não digam que o Quadros não contribui. Claro que o maior problema desta solução é a dificuldade que um muçulmano sente ao ter de dizer: “Vou ali à Mesquita João XXI.”


top 5  A toque de caixa

1. Inglaterra e Rússia podem ser excluídas do Euro 2016 devido aos “hooligans” – A exclusão da Rússia e da Inglaterra permite começarmos a pensar no objectivo “melhores quartos lugares”

2. PSD e CDS não chegaram a acordo sobre documento das sanções a Portugal – Por falar em geringonça…

3. Obama e Dalai Lama reúnem-se à porta fechada na Casa Branca – Dalai quer direitos pelos fatos laranja usados em Guantánamo.

4. Portugal tem o segundo maior aumento da produção industrial na Zona Euro – Mas isto foi antes de começar o Euro 2016.

5. Desacatos no Euro 2016 fazem vários feridos – O Euro 2016 vai pagar à Turquia para se ver livre dos “hooligans”.

As toupeiras também têm coração

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 27/05/2016)

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João Quadros

Um espião português foi detido, em Roma, por suspeita de estar a vender segredos a um funcionário dos serviços de informações da Rússia.

A primeira pergunta que me ocorre é: será que isto conta como exportações? Pode haver aqui um mercado a explorar. A quanto estará o barril do segredo?
Eu sou péssimo a guardar segredos. Nota-se logo que estou a esconder alguma coisa. Mesmo que essa coisa não tenha nada a ver com a pessoa que está à minha frente. Jamais conseguiria guardar o terceiro segredo de Fátima, como fez a irmã Lúcia. Haveria de acabar por contar ao oftalmologista.

Percebo, perfeitamente, que um espião tenha necessidade de desabafar. Mas, segundo percebi, este nosso espião estava a desabafar a troco de 10 mil euros do espião russo, com quem se encontrou em Roma. Espero que os 10 mil euros fossem só o sinal. Parece-me pouco por um segredo da NATO. Espiões que se vendem ao preço de um central da II Liga de futebol portuguesa. Que pena o Jorge Mendes não andar, também, metido nisto.

Diz quem o conhece (ao espião) que Frederico Carvalho Gil era “certinho” até que se divorciou. Licenciado em Filosofia, segundo os antigos colegas (espiões), “chegava a ser gozado pela sua correcção considerada excessiva”, “incapaz sequer de dizer um palavrão”. Resumindo, estavam habituados a vê-lo como intelectual e “certinho” até que o viram “de rabo-de-cavalo e a fazer vida nocturna.” Por acaso, eu associo muito os espiões à vida nocturna. Deve ser por isso que muitos espiões portugueses vêm da maçonaria. As mulheres já estavam habituadas a que eles saíssem à noite sem explicar bem onde iam.

Nos livros e filmes de espiões, alguns baseados na realidade, os espiões trocam de lado numa terrível vingança depois de terem sido traídos ou abandonados à morte numa missão. Os nosso espiões mudam de lado porque estão com uma crise de meia-idade pós-divórcio. O mais provável é o nosso espião ter ido vender um segredo da NATO aos russos para ter dinheiro para ir comprar um Porsche.

Se os amigos e colegas do espião dizem que ele, desde o divórcio, começou a usar rabo-de-cavalo, deixou de usar gravata e passou a ir para a noite, isto tem muito pouco a ver com espionagem. Estamos perante o clássico caso do recém-divorciado que quer convencer a ex-mulher que já é outra pessoa. Usa rabo-de-cavalo, sai à noite e vende segredos aos russos. Como quem diz: “Já não sou o bota de elástico com quem te casaste. Até fiz uma tatuagem a dizer Fuck e, agora, sou o bandido que todas adoram.”

A nossa espionagem é isto, muito pouco John le Carré, bastante Corín Tellado.

Minha rica escola

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 13/05/2016)

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João Quadros

Aos poucos foi crescendo a polémica das escolas privadas com contratos de associação. Fazem favor de sublinhar – contratos de associação. Já sublinharam?


Isso não é sublinhar, é riscar. Escrevam, todos juntos em coro e a dar a mão: “Os contratos de associação são mecanismos do Estado para suprir dificuldades na rede pública.” Agora, escrevam a bold: “Como todos esses mecanismos temporários, devem cessar quando a necessidade que lhe deu origem também cessar.” Pronto, está feito. Podem pegar no que acabaram de escrever e enviar para aquelas escolas com contratos de associação (e pais) que puseram crianças nas aulas a escrever cartas a políticos para que não acabem com subsídios. Espero que não tenham dado muitos erros.

Para a nossa direita liberal as empresas privadas vão à falência, porque deixam de ter clientes, e é bem feito, é o mercado a funcionar. Já escolas privadas irem à falência porque o Estado vai deixar de ir lá gastar é um ai valha-nos o Cristo que é uma infâmia!

Posto isto, exijo subsídio estatal porque quero tomar banho de imersão em água Castelo. Quero poder optar pelo privado na esfrega das partes privadas. Quero ser um cidadão com direitos especiais apenas porque não me sinto satisfeito com a água do serviço público à minha disposição; para mim tem pouco gás e a outra é melhor. Paguem, se faz favor.

A ideia do PSD/CDS é pagar duas vezes a educação dos miúdos: investimos na escola pública e depois ainda pagamos a outra para esvaziar a que pagámos. Quando isto passar, a direita nunca mais vai poder dizer mal de subsídios – é o fim de 90% do discurso.

Para os deputados do PSD e CDS, trata-se “de uma questão de liberdade de escolha, mas acima de tudo, de garantir que as promessas (com pais, alunos e escolas) são cumpridas. Ou seja, de que o Governo honra a sua palavra”. É assim mesmo deputados da ex-maioria, acima de tudo a palavra do Estado é sagrada!

Vamos regressar ao ano 2011, directamente (sem passar pelas notícias em que a palavra honrada do Estado corta unilateralmente os salários aos funcionários e abocanha os contratos com os pensionistas) para as capas de jornais de 28 Setembro: “O Estado vai faltar ao prometido e não vai pagar os prémios aos melhores alunos do secundário”; “Melhores alunos ficam sem prémio de 500 euros”; “A poucos dias da cerimónia de entrega, o ministro Crato suspende os prémios pecuniários de mérito”.

Em 2011, quando ficou com o dinheiro dos miúdos (e as promessas a pais, alunos e escolas não foram cumpridas), o ministro da Educação justificou-se dizendo: “O reconhecimento do mérito não pode ser só distribuir dinheiro. Mesmo sem receberem os 500 euros, o reconhecimento do mérito dos alunos fica.”

Resumindo, se fôssemos segundo a lógica do ex-Governo de Passos, agora o Ministério da Educação reconhecia o mérito das escolas privadas, que é uma coisa que fica, e cortava-lhes já a massa toda e siga. Pumba, sem dar cavaco! À Crato.