Quando os depravados se tornam heróis

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 30/03/2026, revisão da Estátua)


Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é.


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E de súbito saiu de cena a podridão trazida parcialmente à superfície pelo muito pouco que ainda se conhece sobre os chamados «documentos Epstein». Os depravados, corruptos e predadores sexuais que neles constam assumiram agora a sua faceta de heróis salvadores da humanidade numa nova cruzada para tentar erradicar os hereges do planeta e fazer valer os inquestionáveis «valores ocidentais». Se possível, sobretudo, para tentar garantir a posse eterna e plena das terras e das riquezas mundiais que nos foram ofertadas por mandato divino. 

A trama criada por um obscuro professor do ensino médio pedófilo, não muito inteligente mas com uma esperteza imensa e o dom inato da chantagem, é algo de tenebroso muito diferente do que já se conhecia. Não é uma sociedade secreta, uma máfia organizada, um culto, uma clique em busca de poder, uma fraternidade, uma entidade conspirativa ou golpista guiada por padrões comuns.

Tal como é possível apurar até agora, momento em que as malhas censórias tecidas pelo capitalismo clandestino dominante apertam cada vez mais a divulgação substancial da teia, os documentos Epstein põem a nu as alienações entranhadas na superestrutura globalista do sistema transnacional da «democracia liberal». Revelam os desvios comportamentais e a insensibilidade da elite mundial governante, corrupta, sem princípios e que abusa, sem pudor nem limites, sexual e socialmente, dos mais fracos, discordantes e indefesos. Os factos conhecidos demonstram que as âncoras deste sistema de poder absoluto, desde os regimes políticos, militares e financeiros dos Estados Unidos, Reino Unido e Israel a extractos das cliques governantes e diplomáticas de países da União Europeia e da NATO, se alimentam da guerra, do roubo indiscriminado de fundos nacionais, depósitos bancários e matérias-primas, do terrorismo, das mega fraudes fiscais, com desprezo absoluto pela vida humana, a lei e as instâncias internacionais. Façamos uma excepção para a Espanha de Pedro Sánchez, que dá uma lição de independência a todas as marionetas de Washington e Telavive.

Epstein tinha um enorme talento, neste ambiente marcado pelos atropelos neoliberais, para trabalhar os egos imensos, a gula, a ganância e a amoralidade das minorias influentes e determinantes, para quem o dinheiro e o poder valem tudo, sob a cobertura do conceito aberrante de mercado livre. E para manipular e tirar proveito desta ambição desmedida, organizava convívios de conluio e decisão nos quais os ilustres convidados podiam também refastelar-se em orgias sexuais, sobretudo de carácter pedófilo, que lhes permitiam dar largas às depravações e à impunidade de cada um e cada uma.

Neste quadro, as agências de inteligência faziam os seus jogos recorrendo aos eficazes instrumentos de que dispõem, desde escutas, filmagens, espionagem directa, criando um acervo de material de chantagem para que o sistema se alimentasse a si mesmo num doentio ciclo vicioso. Aliás, alguns dos documentos e o «Livro Negro» agora expostos, contra a vontade de Trump, estavam em poder do FBI há oito anos.

Epstein funcionava assim como um mestre de cerimónias de um convívio global onde se cruzavam os altos e poderosos de todas as áreas de actuação – políticos, banqueiros, banksters, os ricos dos ricos, de Musk, Branson ao «benfeitor» Gates; congressistas, senadores, deputados, reitores de universidades da Ivy League, presidentes, ministros, príncipes, princesas, sheiks e emires; velhas famílias do establishment, CEO’s, administradores, escritores, pivots de TV, comentadores, ideólogos, directores de jornais e jornalistas afamados; donos dos principais fundos abutres, celebridades do jet set, finórios da moda, vedetas de Hollywood, sem esquecer os gangues Rothschild, Rockefeller e Maxwell; e ainda os serviços secretos e dirigentes de Israel, até ao cargo de primeiro-ministro. Enfim, a nata da governação, da comunicação e da «cultura» do Ocidente. 

Ehud Barak, o último chefe do sionismo trabalhista, um dos exterminadores do «processo de paz» e carrasco de Gaza, tinha «escritório» numa mansão de Epstein em Manhattan, Nova York. Barak solicitou ao anfitrião que lhe desse pareceres sobre os seus escritos públicos, incluindo o livro de memórias intitulado Meu País, Minha Vida: Lutando por Israel, Buscando a Paz. A «paz» que está à vista de todos.

Quanto a Robert Maxwell, imperador da imprensa/propaganda anglo-saxónica, tinha laços directos a Epstein através de uma filha, Ghislaine Maxwel, alcoviteira de luxo associada a este obscuro ex-professor. Está detida e viva, por enquanto. Maxwell era também um financiador directo do regime sionista; morreu prematuramente, e em condições misteriosas, em consequência do suspeito naufrágio do seu iate. No funeral, realizado em Jerusalém Ocidental, compareceram Shimon Peres, que foi primeiro-ministro e presidente de Israel, e dois ex-directores da Mossad.

Uma das figuras centrais dos documentos divulgados até ao momento é Peter Mandelson, também conhecido como «príncipe das trevas», por ter sido o principal conselheiro do vigarista e criminoso de guerra Anthony Blair na transformação do Partido Trabalhista britânico no novo «Partido Trabalhista» neoliberal. Mandelson idealizou e montou a campanha de calúnias contra o dirigente trabalhista de esquerda Jeremy Corbyn, que o forçou a abandonar a direcção do partido e o próprio partido.

No quadro da ligação íntima e directa que cultivavam, Mandelson informou Epstein cinco horas antes de a União Europeia anunciar, em plena crise de 2010, que iria desbloquear 500 mil milhões de euros para «salvar» a Zona Euro, mergulhada em crise existencial. Foi o maior delito de iniciados de que há memória.

Victoria Harvey, companheira nestas andanças de André, irmão do rei de Inglaterra, declarou um dia: «Quem não estiver nos documentos Epstein é porque é um looser» (fraco, incapaz, perdedor).

Epstein não era um frequentador entusiasta do Fórum de Davos, o cenáculo neoliberal globalista, onde «se perde muito tempo» mas, no entanto, «se encontram pessoas fascinantes».

Entre essas pessoas «fascinantes» e frequentadoras do Fórum Económico Mundial estavam o diplomata norueguês Roed-Larsen, um dos mediadores iniciais do Acordo de Oslo entre israelitas e palestinianos, e Børge Brend, que em Fevereiro renunciou ao cargo de presidente daquela instituição. Em tais ocasiões, de acordo com documentos tornados públicos, os convivas concluíram que «a ONU não serve para nada» e o direito internacional é «um entrave». O Fórum de Davos deve substituí-la e permitir que a elite mundial dite a sua lei, uma espécie de privatização dos mecanismos de gestão da legalidade internacional.

O primeiro ensaio desta «solução» é o chamado «Conselho de Paz» para Gaza, inventado por Trump e no qual os países que pretendam aderir serão obrigados a pagar mil milhões de dólares.

Trump e os outros

A divulgação dos documentos Epstein incidiu, sobretudo, no facto de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ser um dos participantes nos eventos proporcionados pelo «doutor financeiro para os ricos», como se intitulava o facilitador, na sua ilha privada de Little Saint-James. Nada que surpreenda: Trump tem o perfil ideal dos amigos e convivas depravados de Epstein.

Trump ficou colocado, deste modo, no epicentro do escândalo, apontado a dedo por adversários políticos que pouco ou nada diferem dele.

Vejamos o caso do casal Clinton. Ele, William, o carniceiro dos Balcãs que pulverizou a Jugoslávia a ferro, fogo e sangue, era uma espécie de convidado de honra e prestigiador dos saraus de Epstein na sua ilha, aos quais se seguiam voos em jactos privados para outros jardins de delícias. O ex-presidente democrata norte-americano era mesmo um dos amigos que sugeria nomes a convidar para os festins na ilha ou outros paradeiros. Ela, Hillary, esquartejadora da Líbia e da Síria, pertencia também ao círculo de amigos do mestre pedófilo, o qual, segundo a versão oficial, se suicidou na prisão em 10 de Agosto de 2019. Um suicídio muito conveniente.

Os Clinton continuam no escalão mais elevado da hierarquia do Partido Democrata, que agora reclama a sua superioridade moral para atacar Trump. Por muito que se esforce, esta outra face do partido Estado norte-americano nada tem de santidade em tão repelente evangelho.

Num email a Peter Thiel, chefe da empresa de corrupção e conspiração Palantir, financiada pela CIA, Epstein elogiou a «confusão no Médio Oriente», por ser tudo o que Obama queria. Por isso, acrescentou em relação ao processo sangrento que culminou com a entrega da capital da Síria à al-Qaida, «teremos de admitir que foi uma estratégia executada com brilhantismo» – obra lançada e chefiada no terreno por Hillary Clinton. Antes disso, a secretária de Estado de Obama tinha conduzido pessoalmente a criminosa implantação da anarquia terrorista na Líbia – transformado num país falhado.

Parece agora, no entanto, que ninguém se dava com Epstein, a não ser em encontros esporádicos, fugidios, mesmo fortuitos; ou, pelo menos, os seus amigos simulam que desconheciam as actividades de pedófilo e de proxeneta de luxo para as elites. 

No entanto, é difícil acreditar que um qualquer frequentador das actividades deste facilitador das elites, que na sua ilha ajudava os ricos e os advogados de grandes fortunas a manter milhões e milhões de dólares à margem das leis fiscais, não conhecesse o seu comportamento pedófilo. Não era possível que ignorasse o facto de Epstein ter cumprido pena de prisão por abuso sexual de crianças e pornografia infantil entre 2009 e 2010.

«Como vai a tua vida afortunada e dissoluta?», perguntou-lhe, em 2017, o democrata e antigo secretário do Tesouro da Administração Clinton, Larry Summers. Ao que Epstein respondeu: «Quando nos encontrarmos vou esforçar-me por te fascinar com histórias loucas de Washington».

Ariane de Rothschild, chefe do grupo bancário francês Edmond de Rothschild, mantinha amigáveis conversas com Epstein. «A turbulência na Ucrânia deve proporcionar-nos muitas oportunidades», dizia. E, por outro lado, depois do golpe em Tripoli, quando «os líbios passaram a ser “legítimos”», haveria de ter atenção especial aos milhões dos seus activos congelados. Epstein confessou-lhe então que «estava a trabalhar» com o MID, a direcção de inteligência militar de Israel, e também com a Mossad, para «identificar activos roubados e recuperá-los». Os serviços secretos israelitas, claro, negam que tivessem qualquer relação com Epstein. Sem dúvida um credível desmentido. Tudo isto se passava durante a administração democrata de Barak Obama.

É muito improvável que o conteúdo de milhões e milhões de documentos espalhados pelos armazéns e residências de Epstein venha a ser conhecido na sua plenitude e gere quaisquer medidas contra os predadores identificados. Os indícios de censura à documentação surgiram logo no início da divulgação, e de uma maneira que revelou o espírito doentio das próprias autoridades judiciais: muitos dos arquivos foram expostos de maneira a que seja possível identificar algumas vítimas, enquanto rostos e nomes de predadores são ocultados. Os abusadores não manifestaram qualquer piedade pelo sofrimento das crianças, ou mesmo adultos, que torturavam, meros objectos para satisfação de depravações humanas, o que corresponde à recrudescência do desprezo pelas pessoas nas deformadas sociedades modernas, como é próprio do sistema capitalista. «Sobretudo nunca peçam desculpa», era o conselho habitual de Epstein aos seus ilustres clientes.

A nova hora dos heróis

Toda esta cáfila de delinquentes que sofrem de comportamentos desviantes saltaram, num ápice, da secção de escândalos da comunicação social globalista para a dos heróis. Bastou-lhes seguir o criminoso Benjamin Netanyahu, também relacionado com Epstein e a contas com um mandado do Tribunal Penal Internacional, na injustificada e ilegal guerra contra o Irão.

Nesta transição temática existe, em comum, o desrespeito pela lei e pelo Direito Internacional – uma recomendação de Epstein aos seus ilustres hóspedes, de modo a entregar ao Fórum Económico Mundial (de Davos) a gestão dos assuntos mundiais.

Caprichando nas sevícias contra civis, entre os quais centenas de crianças, os heróis que fossavam em orgias pedófilas estão, no entanto, a sentir mais dificuldades na guerra do que aquelas a que o estatuto de impunidade os habituou.

Pela primeira vez, o Estado sionista prova a sério do veneno letal que durante quase 80 anos tem forçado outros a ingerir, sobretudo os palestinianos. O Irão independente dá sinais fortes de continuar a resistir, como conclui a própria imprensa de «referência» do regime norte-americano ao reconhecer que nenhuma das bases militares dos Estados Unidos em países do Golfo Árabe-Pérsico está habitável e funcional.

Trump, sem rumo e continuando a crer no realismo das suas próprias e voláteis ilusões, anda numa dobadoira prometendo o ataque final contra Teerão enquanto, juntamente com o aparelho sionista de agressão, vai falando em negociações e ficando com escassez de munições numa guerra de desgaste que parece não ser-lhes favorável.

Aos heróis directamente envolvidos nos ataques juntam-se os outros de sempre, com maior ou menor discrição, no apoio ao crime sangrento. Entre eles, o Governo de Portugal, cúmplice da agressão ao disponibilizar a Base das Lajes como plataforma de guerra. A vida dos portugueses corre sérios riscos em consequência da cegueira dos seus governantes, do seguidismo e do papel de capacho dos Estados Unidos e do selvático sionismo. Culpemos apenas Montenegro e os seus asseclas do «arco da governação» pelo drama que é o facto de o território português estar sob mira do Irão – por muito que tentem fazer-nos crer que isso não acontece.

Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é. Teerão apenas tem apoiado os massacrados palestinianos e outros povos desprotegidos da região, numa estratégia que manteve Israel em respeito. 

Se levarmos Jeffrey Epstein a sério, amanhã não será a véspera do dia em que o assassino Donald Trump cai do trono, apesar das ameaças que surgem de vários azimutes e que não passam disso: ameaças verbais. Nas conversas íntimas que tinha com o confidente Peter Mandelson, o pedófilo e proxeneta de luxo gabava-se do poder que tinha sobre Trump: «sou o único que pode fazê-lo cair».

Verdade, soberba, farronca ou confiança de chantagista emérito, Epstein já cá não está; mais do que suicídio, talvez alguém o tenha «suicidado». São coisas que acontecem nos meandros da «democracia liberal».

Além disso, mesmo que Trump perca o pé, não estamos seguros de que não seja substituído por outro ou outra da mesma laia.

Em boa verdade, apesar dos que gostam de espalhar ilusões para aparentar uma absurda superioridade moral e política, Trump não é apenas a pessoa de um sociopata, é o próprio sistema. O sistema de «democracia liberal» aparentada com o fascismo no qual os Epsteins desta vida podem ser mestres ou, em português anglo-saxónico, superdotados influencers globais.

Hoje é ontem: do Suez a Ormuz, da Hungria a Taiwan

(Por Cem Gürdeniz, in Reseau International, 29/03/2026, Trad. Estátua)


O ano de 1956 marca uma viragem decisiva na geopolítica moderna. A crise do Suez teve início a 19 de julho de 1956, quando os Estados Unidos retiraram o financiamento à barragem de Assuão, no Egito. A situação agravou-se a 26 de julho, quando o líder revolucionário egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal do Suez. A Grã-Bretanha e a França perceberam esta decisão como uma ameaça direta aos seus interesses. Na realidade, foi o capital financeiro que entrou em pânico, pois o canal é uma via de comunicação essencial para o comércio mundial.

Israel foi o elemento que desencadeou a intervenção no Suez em 1956. Após a chegada de Nasser ao poder em 1954, a marinha britânica retirou-se do Egito, reservando-se, no entanto, o direito de regressar em caso de crise. A Grã-Bretanha não aceitava uma perda total de controlo. Consequentemente, a decisão de Nasser foi vista como uma ameaça tanto estratégica como simbólica.

Os esforços diplomáticos realizados entre agosto e outubro de 1956 fracassaram. Entre 22 e 24 de outubro, a Grã-Bretanha, a França e Israel chegaram a acordo sobre um plano anfíbio secreto em Sèvres, perto de Paris. Israel não era um interveniente secundário, mas sim a ponta de lança das operações. Como a Grã-Bretanha e a França não dispunham da legitimidade internacional necessária para atacar diretamente o Egito, Israel desencadeou a guerra ao atacar a península do Sinai a 29 de outubro de 1956. Posteriormente, a Grã-Bretanha e a França intervieram sob o pretexto de separar as partes beligerantes e de proteger o canal.

Convém igualmente notar que Israel se tornou, de facto, uma potência nuclear por volta de 1967, embora nunca o tenha reconhecido oficialmente. As bases desta capacidade foram lançadas no final da década de 1950, imediatamente após a crise do Suez de 1956. Esta crise favoreceu uma aliança estratégica entre Israel e a França. Preocupada em contrariar a influência de Gamal Abdel Nasser na Argélia, a França aceitou fornecer a Israel uma ajuda nuclear crucial, nomeadamente o reator de Dimona e as tecnologias necessárias à produção de plutónio. Paralelamente, Israel retirou uma lição fundamental desta crise: não podia contar com as grandes potências, incluindo os Estados Unidos, para a sua segurança absoluta. Esta conjunção — a transferência de tecnologia francesa e um sentimento acrescido de isolamento estratégico — levou Israel a desenvolver uma capacidade de dissuasão nuclear independente. Nesse sentido, a crise do Suez não foi apenas um conflito regional; constituiu o ponto de viragem decisivo que permitiu a Israel alcançar o estatuto de potência nuclear.

Estudos académicos e memórias demonstram claramente que Israel assumiu conscientemente o papel de primeiro agressor e desencadeou a operação militar de 1956. A crise não foi um conflito tripartido espontâneo, mas uma intervenção coordenada, cujo cerne era a geopolítica israelita. Israel entrou no Sinai a 29 de outubro, a Grã-Bretanha e a França lançaram ataques aéreos a 31 de outubro e os desembarques ocorreram em Port Said entre 5 e 6 de novembro.

Reação de Eisenhower

O presidente americano Dwight Eisenhower opôs-se firmemente à intervenção, levada a cabo sem o informar. Considerava que esta enfraquecia o bloco ocidental e aproximava os novos Estados independentes da União Soviética. O primeiro-ministro Anthony Eden, confiante na vitória militar, resistiu inicialmente.

Os Estados Unidos exerceram pressões financeiras, restringindo o fornecimento de petróleo e bloqueando o apoio do FMI. A libra esterlina foi fortemente afetada. Consequentemente, foi declarado um cessar-fogo a 6 de novembro. A Grã-Bretanha e a França retiraram-se em dezembro, e Israel abandonou o Sinai em março de 1957. Em poucos dias, o poder imperial britânico desmoronou-se, não militarmente, mas financeiramente, sob a pressão americana.

A oportunidade húngara e soviética

Paralelamente, a revolta anticomunista na Hungria, que teve início a 23 de outubro de 1956, ofereceu uma oportunidade estratégica à União Soviética. O primeiro-ministro Imre Nagy iniciou reformas, orientou-se para um sistema multipartidário e anunciou a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia.

A 4 de novembro, pouco antes do desembarque franco-britânico em Port-Saïd, as forças soviéticas entraram em Budapeste com uma força esmagadora e reprimiram a revolta. Nagy foi posteriormente executado. Enquanto as Nações Unidas se concentravam no Suez, a crise húngara passou para segundo plano. O Ocidente, dividido, foi incapaz de reagir eficazmente.

Este acontecimento simultâneo revelou uma verdade geopolítica fundamental: as fraturas num domínio criam oportunidades noutro. Eisenhower ficou particularmente indignado com esta situação. A Grã-Bretanha dispunha das capacidades militares necessárias para prosseguir o esforço de guerra, mas não os recursos financeiros. A 9 de janeiro de 1957, Eden demitiu-se.

O declínio da Grã-Bretanha

O declínio da Grã-Bretanha foi progressivo. No século XIX, a libra esterlina dominava o comércio mundial. No início do século XX, os Estados Unidos tinham ultrapassado a Grã-Bretanha em termos de produção. Duas guerras mundiais deixaram Londres fortemente endividada.

Embora a Marinha Real Britânica ainda fosse poderosa em 1945, a sua força declinou rapidamente devido a restrições económicas e à sua dependência dos Estados Unidos. Já em 1956, já não conseguia operar de forma independente. Em 1971, a Grã-Bretanha retirou-se para leste do Canal do Suez, cedendo posições estratégicas à Marinha americana e pondo assim fim ao seu domínio marítimo mundial.

Hoje é ontem: a crise de Ormuz

Setenta anos depois, uma rutura sistémica semelhante ocorre durante a crise de março de 2026, centrada no estreito de Ormuz. Enquanto a Guerra do Golfo entra na sua quarta semana, o estreito de Ormuz está praticamente bloqueado. O custo desta guerra para os Estados Unidos ultrapassa os 30 mil milhões de dólares.

Normalmente, cerca de 140 navios transitam diariamente por este ponto. Agora, apenas alguns conseguem passar. Este ponto estratégico gere cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. Estas perturbações provocaram uma escassez do abastecimento físico.

O forte aumento dos preços da energia tem repercussões na produção de fertilizantes, na agricultura, na indústria e na fabricação de semicondutores. Os riscos para a segurança alimentar multiplicam-se rapidamente.

A 15 de março, os Estados Unidos retiraram 172 milhões de barris das suas reservas estratégicas de petróleo, reduzindo os seus stocks para cerca de 243 milhões de barris. Com um consumo diário de cerca de 20 milhões de barris, esta quantidade cobre apenas cerca de doze dias. Em 2009, os stocks ascendiam a 727 milhões de barris.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enfrentam crises orçamentais e uma dívida crescente que ultrapassa os 40 biliões de dólares. Os juros anuais rondam os mil milhões de dólares. Um pedido adicional de 200 mil milhões de dólares para a defesa sublinha o caráter insustentável desta trajetória. A incapacidade de aprovar orçamentos internos ao mesmo tempo que se aumentam os compromissos militares externos revela um profundo desequilíbrio institucional.

Paralelamente, a China e os países do Golfo estão a reduzir as suas reservas de obrigações americanas, sinal de uma erosão do estatuto do dólar como moeda de reserva, à semelhança do declínio observado anteriormente na Grã-Bretanha.

A Marinha dos EUA em declínio

O verdadeiro poder dos Estados Unidos reside no dólar e na sua marinha. No entanto, estes dois trunfos estão enfraquecidos. As suas forças terrestres são insuficientes para inverter a situação no estreito de Ormuz. Embora os dois grupos aeronavais tenham um impacto psicológico, carecem de poder concreto. O grupo aeronaval do porta-aviões USS Abraham Lincoln não pode aproximar-se da costa devido à intensa ameaça representada pelos mísseis e drones de combate iranianos. Os problemas não terminam aí para o USS Gerald R. Ford, que permanece longe da costa saudita devido à ameaça que representam os houthis em Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho. O incêndio a bordo, que durou 30 horas, foi mantido em segredo. O navio regressa a Creta, onde tinha feito escala para inspeção e reparações.

No Pacífico, o porta-aviões USS Ronald Reagan encontra-se em manutenção, o USS Tripoli e a sua unidade de reabastecimento, a 31.ª Unidade Expedicionária dos Fuzileiros Navais (MEU), abandonaram a zona, e pelo menos quatro contratorpedeiros foram redirecionados para outras zonas de missão. Consequentemente, o número de navios de superfície norte-americanos a operar permanentemente no Pacífico caiu para um nível crítico. Este quadro mostra claramente que os Estados Unidos, que dispõem de 292 navios (dos quais 233 navios de combate), mas apenas 104 navios (dos quais 75 navios de combate) operacionais em 2026, são incapazes de mobilizar forças suficientes em duas frentes simultaneamente. O Corpo de Fuzileiros Navais, com cerca de 2500 homens, está longe de garantir a dissuasão face a um país como o Irão, que conta com cerca de 85 milhões de habitantes e um vasto território. Além disso, o 11.º Corpo de Fuzileiros Navais, que partiu de San Diego a 20 de março de 2026, chegará ao Golfo três semanas mais tarde. Mesmo que estes dois grupos de fuzileiros navais unissem as suas forças, o impacto militar seria mínimo. Pelo contrário, as baixas americanas seriam mais elevadas do que o previsto.

Por outro lado, a ausência de uma reação firme ao apelo de Washington, solicitando à NATO e aos seus aliados asiáticos que enviassem navios para o Golfo e abrissem o estreito de Ormuz, demonstra que essa transformação já está em curso. Assim, uma verdade fundamental das relações internacionais revela-se mais uma vez: os Estados não têm amigos permanentes, mas interesses permanentes. Todos estes acontecimentos confirmam o aviso lançado por Colin Powell ao Iraque em 2002, aplicado à escala mundial: «Quem quebra a ordem é responsável por ela». Se uma ordem é perturbada pela força bruta, a responsabilidade pelo caos resultante deve também ser assumida. A atual crise em Ormuz demonstra que este princípio se aplica agora à escala planetária.

Risco de crise no Pacífico Ocidental e em Taiwan

A crise do Estreito de Ormuz afeta particularmente a região indo-pacífica. Os países importadores de energia, como a Austrália, o Japão e a Coreia do Sul, serão fortemente afetados, enquanto os exportadores, como a Rússia, beneficiarão de preços mais elevados. A crise gera um lucro de 150 milhões de dólares por dia para a Rússia desde o levantamento das sanções de Trump. Paralelamente, os países cuja segurança energética está ameaçada procurarão rapidamente estabelecer novas alianças.

A situação deteriora-se ainda mais na península coreana. Enquanto os Estados Unidos transferem elementos dos sistemas THAAD e Patriot da Coreia do Sul para o Médio Oriente, a Coreia do Norte realizou na semana passada novos testes com mísseis balísticos. Além disso, parece que os mísseis de cruzeiro lançados a partir de contratorpedeiros recentemente colocados em serviço são capazes de transportar ogivas nucleares. Estes desenvolvimentos indicam um enfraquecimento do sistema de defesa antimíssil americano no Pacífico e uma fragilidade da arquitetura de dissuasão regional. De acordo com um artigo do Financial Times publicado a 21 de março de 2026, o recurso intensivo aos mísseis de cruzeiro Tomahawk e aos intercetores de defesa aérea Patriot SM durante operações na Ásia Ocidental é igualmente necessário para defender Taiwan e enfrentar as forças chinesas logo no início de um conflito. O artigo salienta, no entanto, que as capacidades de produção americanas são limitadas e que o fabrico destas munições poderá demorar meses, ou mesmo anos.

Por isso, a pressão exercida pela China sobre Taiwan não decorre apenas das suas próprias capacidades, mas também da falta de atenção e de recursos por parte dos Estados Unidos. Estes últimos esforçam-se por manter um equilíbrio em várias frentes simultaneamente. Enquanto a administração Trump tenta obter resultados positivos com Cuba, a China aumenta progressivamente a sua pressão militar em torno de Taiwan. Durante a segunda semana de março de 2026, mais de 40 caças e mais de 10 navios de guerra operaram em torno de Taiwan em apenas 24 horas. Não se trata de um exercício temporário, mas de uma doutrina de contenção permanente. Quando os soviéticos intervieram na Hungria em 1956, o Ocidente viu-se incapaz de reagir.

O modelo que a China está a implementar hoje em torno de Taiwan poderá conduzir a um resultado semelhante. No entanto, desta vez, a diferença é mais acentuada. A China não é apenas uma potência militar, mas também um ator chave na construção de sistemas de produção, comércio e finanças. Até 2025, possuirá a maior força militar do mundo, e o seu peso na produção mundial acelera esta transformação. Em 1956, os Estados Unidos eram a potência hegemónica em ascensão, a Grã-Bretanha uma potência em declínio e a União Soviética a potência regional dominante. Em 2026, a China é uma potência hegemónica emergente, os Estados Unidos são a potência hegemónica atual e Taiwan é a nova Hungria. No entanto, desta vez, a hegemonia não será transmitida entre duas potências afins. A crise de Suez fez tocar o sino da morte da Grã-Bretanha.

A crise de Ormuz poderá desencadear uma rutura semelhante para os Estados Unidos. Pois, desta vez, uma potência está pronta para assumir o controlo do sistema não só militarmente, mas também económica e financeiramente. Em 1956, os Estados Unidos estavam preparados; hoje, é a China que o está. Consequentemente, Suez marcou o fim de uma era, e Ormuz poderá ser o início de uma nova.

Por isso, o mundo está a atravessar uma nova fase. A energia, a segurança, os corredores de transporte e os equilíbrios económicos estão a ser simultaneamente abalados. Israel e os Estados Unidos surgem como os instigadores deste processo. Já não é possível falar do sonho americano-indiano-israelita, do corredor económico IMEC, dos acordos de Abraão ou do Comité de Paz de Gaza. Os capitais fogem de uma guerra descontrolada. A região afastar-se-á rapidamente dos investimentos e da prosperidade. Pôr fim à guerra não será possível apenas com a resistência iraniana. O que será decisivo é a pressão que os Estados racionais exercerão sobre os Estados Unidos e Israel.

Na realidade, a cautela da Europa, do Japão e da Coreia do Sul, bem como a sua recusa ao pedido de navios de guerra formulado por Trump, demonstram que esta crise tem dificuldade em obter legitimidade internacional. Se o processo não for travado, este período ficará na história como uma sucessão de perturbações económicas e sociais mundiais, em vez de como uma guerra regional prolongada. Pôr fim à escalada orquestrada pela administração Trump já não é uma opção, mas uma necessidade para a estabilidade mundial.

Israel, com os seus 9 milhões de habitantes, desencadeou um processo que afetará o destino de 8 mil milhões de pessoas ao recorrer a uma potência como os Estados Unidos. Infelizmente, são raras as pessoas sensatas nos Estados Unidos que estão conscientes desta situação.

Fonte aqui

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Pepe Escobar:  Irão DESPEJA mísseis sobre Israel e Golfo, invasão de Trump DESABA

(Pepe Escobar, in canal do Youtube de Danny Haiphong, 28/03/2026)


Pepe Escobar participa do programa para analisar a resposta surpreendente do Irão a Trump, que agora busca uma saída por meio de uma escalada desesperada que pode transformar-se numa catástrofe em grande escala. O Irão desmontou o bluff de Trump, e nós analisamos o que você precisa saber para enxergar com clareza no meio da névoa da guerra.



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