Trump e Israel mal podem esperar para começar a bombardear o Irão

(Caitlin Johnstone, 17/12/2024, Trad. Estátua de Sal)


Tanto Israel quanto o novo governo Trump estão ansiosos para começar a bombardear o Irão o mais rápido possível, agora que Assad está fora do caminho.

A comunicação social israelita relata que as IDF agora veem os ataques aéreos no Irão como muito mais fáceis de executar, agora que os seus pilotos não precisam se preocupar com as defesas aéreas sírias ao longo do caminho, enquanto o The Wall Street Journal relata que a equipa de Trump está a avaliar as suas opções de ataques aéreos contra o Irãoo para evitar que ele possa obter uma arma nuclear (apesar de não haver evidências de que o Irão esteja atualmente a tentar obtê-la.

Um novo artigo do The Washington Post intitulado “O colapso da Síria e os ataques israelitas deixam o Irão o exposto” relata que “o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu sinalizou o desejo de capitalizar os ganhos contra o Hamas e o Hezbollah e enfrentar Teerão de forma mais agressiva sob uma nova administração dos EUA”. O artigo observa que Trump expressou abertura à guerra com o Irão, dizendo que “tudo pode acontecer”.

Isso ocorre quando os afiliados da Al-Qaeda que capturaram Damasco garantem ao mundo que a Síria não permitirá mais ser usada como plataforma de lançamento de ataques contra Israel.

Depois de Assad ter sido deposto, recebi um monte de comentários esquisitos aos meus textos, alegando que Israel estava de alguma forma triste com esse desenvolvimento, porque Israel e Assad estavam secretamente do mesmo lado. Esta é uma das teorias da conspiração mais estúpidas que alguma vez me pediram que acreditasse. E quem me pediu que acreditasse não foram QAnoners malucos ou a comunicação social liberal, mas um setor de esquerdistas pró-Palestina que também adoram a NATO.

Os EUA odeiam a Al-Qaeda, depois amam a Al-Qaeda, depois odeiam a Al-Qaeda, depois amam a Al-Qaeda. Eles separam-se, voltam a ficar juntos, separam-se novamente. “Estávamos numa pausa!” “Não estávamos numa pausa!” Eles vão ou não vão? Continue assistindo e descubra!

Revoluções falsas em todos os lugares para onde olhamos. Viva, os bravos combatentes da liberdade derrubaram o ditador na Síria! Viva, Donald Trump está a lutar contra o Estado Profundo! Hooray, Bernie Sanders e a AOC estão a transformar o Partido Democrata e a lutar por justiça económica!

À medida que a necessidade de uma verdadeira revolução se torna cada vez mais urgente, estamos a assistir a cada vez mais revoluções falsas destinadas a manter o status quo no lugar. A raiva das pessoas contra a máquina é aproveitada por um falso populismo bilionário e por um progressismo de merda, para que a sua energia política possa ser alimentada de novo pela máquina. As pessoas são treinadas para aplaudir os rebeldes estrangeiros que são apoiados pela CIA e lutam para expandir o poder do império dos EUA, em vez de aplaudirem os grupos que, em todo o mundo, lutam contra o domínio imperial.

Eles canalizam a nossa atenção e energia para revoluções falsas, para nos impedir de lutar por uma verdadeira. Quanto mais descontente o público estiver, mais necessário será eles fazerem isso. Quanto mais tempo continuarmos a ser redirecionados para becos políticos sem saída, por aqueles que beneficiam do status quo imperial, mais tempo o status quo imperial continuará a abusar de todos nós.

Os apoiantes de Israel dirão que o antissemitismo é um dos maiores problemas do mundo e, se você lhes perguntar exemplos de onde o antissemitismo perigoso está a ocorrer na nossa sociedade, eles listarão coisas como as Nações Unidas, a Amnistia Internacional, a Irlanda e o Papa.

Muitas vezes vejo perguntas como “Porquê os bilionários estão a destruir o mundo dessa maneira? Qual é o sentido de acumularem tanta riqueza se você vão passar o resto da vida num qualquer bunker subterrâneo?”

Tais perguntas assumem um nível de racionalidade que não acredito que os bilionários possuam. Os bilionários são movidos por forças inconscientes e irracionais dentro de si mesmos, não por preocupações racionais. Tornar-se um bilionário é em si um ato irracional. Ninguém precisa de tanto dinheiro. A segurança, a proteção ou a qualidade de vida de alguém, não é significativamente melhorada por ter biliões de dólares em vez de milhões. Não importa quanta riqueza você controle, você só pode dirigir um carro de cada vez, usar um fato de cada vez, morar numa casa de cada vez. Depois de um certo nível, acumular mais dinheiro torna-se um absurdo sob qualquer métrica possível.

As pessoas que acumulam tanta riqueza não estão a comportar-se racionalmente – elas estão a tentar preencher um buraco dentro de si mesmas que nunca poderá ser preenchido. Elas estão a reagir ao trauma da primeira infância e compelidos por mecanismos de enfrentamentos psicológicos disfuncionais. Elas estão, inconscientemente, a tentar compensar as histórias de deficiência e carência; a tentar perseguir a aprovação do pai, morto há muito tempo; a tentar sentir uma sensação de controlo, num mundo que parecia muito ameaçador para elas quando eram pequenas.

Se elas nem sequer estão a agir com base em qualquer preocupação real com o seu próprio futuro, então por que agiriam com base em preocupações com o futuro do planeta?

As pessoas obscenamente ricas que governam o nosso mundo estão a destrui-lo, não por estupidez ou despeito, mas por compulsão inconsciente.

Um viciado em heroína não continua a drogar-se por não entender que a heroína lhe faz mal ou porque não receia vir a ter uma overdose um dia; continua a drogar-se porque o seu vício é impulsionado pela dor interior e forças psicológicas que o habitam e que ainda não trouxe à consciência.

Tornar-se um bilionário e tornar-se um viciado em heroína são comportamentos destrutivos, irracionais, impulsionados por dinâmicas internas irracionais. A única diferença é que os bilionários estão a levar-nos a todos com eles para o abismo.

Fonte aqui.


Na periferia do Império e da sorte

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 29/09/2024)

(Deixem a guerra para quem sabe de guerra, digo eu. Ao ler este artigo e comparando-o com os dislates que todos dias ouço da grande maioria dos ditos “especialistas” das televisões, lembrei-me logo do antigo ditado que rezava assim: «Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?» 🙂

Estátua de Sal, 29/09/2024)


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A atual fase da manobra dos Estados Unidos no Médio Oriente através de Israel constitui uma evidente consideração do papel da União Europeia como um ator subordinado na periferia do império — um esfregão.

As atuais ações dos Estados Unidos no Médio Oriente inserem-se numa estratégia apresentada há anos pelo domínio do grande espaço da margem oriental do Mediterrâneo que inclui a Síria, o Iraque e tem como objetivo principal o Irão.

Para alcançar este objetivo, os Estados Unidos necessitam de uma base segura e absolutamente dedicada e essa base é Israel. As ações que através dos israelitas os Estados Unidos estão a desenvolver na Palestina e no Líbano — o genocídio dos palestinianos e a destruição do que resta do Líbano — tem por finalidade criar uma situação em que Israel não tenha de dividir meios e forças para assegurar o seu domínio interno com perturbadores como os movimentos de resistência palestiniana e se possa concentrar no objetivo principal, o de servir de base de ataque — ou testa de ponte — no ataque ao Irão.

A eliminação dos palestinianos — sob qualquer pretexto, seja o Hamas ou a qualidade da água do Jordão — assim como o controlo absoluto do Líbano têm a finalidade de preparar o ataque ao Irão e esse ataque tem de ser efetuado antes que este passe a dispor de capacidade nuclear e de um escudo de proteção antiaéreo eficaz.

A violência, o desprezo pela opinião pública por parte dos dirigentes de Israel e as afirmações de apoio incondicional aos objetivos anunciados por Netanyahou feitas pela administração americana resultam da urgência de provocar o Irão e de o atacar e esta urgência liga-se a uma outra, a de evitar que depois de alcançados os seus objetivos na Ucrânia, a ocupação do Donbas e neutralização da capacidade militar ofensiva de Kiev, a Rússia esteja em condições de apoiar o Irão sem as limitações atuais. O tempo urge.

Nesta fase, os Estados Unidos estão a conduzir uma guerra em duas frentes relativamente barata, com sucesso absoluto em termos militares na Palestina e no Líbano (alvos moles), com grandes dificuldades na Ucrânia, mas com ganhos económicos significativos, pois eliminaram a União Europeia como concorrente económico, impuseram-lhe o seu petróleo aos preços que lhes convém para asfixiar a sua indústria, ainda a obrigaram a pagar a guerra na Ucrânia quer diretamente com as doações e empréstimos sem prazo, quer através das compras de armamento americano. Com as duas guerras que conduz à distância, os Estados Unidos têm hoje uma economia florescente que justifica a alegria de Kamala Harris e permite as rábulas de Trump. Existe apenas um problema: com uma derrota (previsível) na Ucrânia, os Estados Unidos serão tentados a demonstrar a sua força noutro cenário e esse será, com elevadas probabilidades, o Irão.

As duas esquadras americanas atualmente posicionadas como guarda-costas de Israel permitem que o objetivo da limpeza do terreno na Palestina e no Líbano seja efetuada sem resistência significativa, nem intervenção externa, mas não são suficientes para apoiar um ataque ao Irão com possibilidade de sucesso. Há que trazer mais meios quer de defesa antiaérea, quer lançadores de armas de ataque. Os Estados Unidos necessitam de um pretexto para utilizarem as armas nucleares de que dispõem em Israel, antes de empregarem as embarcadas nos seus meios navais e aéreo, e é essa necessidade que está a ser discutida embrulhada na narrativa da autorização por parte dos Estados Unidos de utilização de misseis balísticos de longo alcance a partir da Ucrânia. É evidente que a Ucrânia não é tida nem achada nessa “autorização”, os misseis de longo alcance serão utilizados ou não de acordo com a manobra dos Estados Unidos.

O momento em que os misseis — os ATACMS — serão lançados a partir da Ucrânia contra um objetivo significativo no interior da Rússia está dependente do final da operação de limpeza em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Esse ataque será a casus belli que justificará uma resposta da Rússia, desejavelmente, do ponto de vista dos Estados Unidos, com armas nucleares táticas, que dê o pretexto para um ataque nuclear ao Irão não só às suas instalações nucleares, mas a toda a sua infraestrutura económica.

É este o tabuleiro de xadrez onde se está a jogar a nossa existência. Um tabuleiro onde a União Europeia não joga, apenas paga e sofre as consequências que são previsíveis de rápido empobrecimento, como acontece com as periferias dos impérios em guerra.

A manobra dos Estados Unidos no Médio Oriente tem uma elevada possibilidade de implicar o emprego de armas nucleares e é essa possibilidade que está a ser equacionada, e para a qual os meios de manipulação já estão a preparar as opiniões públicas ocidentais, amplificando os avisos que Moscovo tem feito da alteração da sua doutrina de emprego face à manobra de envolvimento que está a observar e que não necessita, aliás, de especiais dotes de presciência.

De Bruxelas nem uma palavra.

A ruína moral do Ocidente

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/04/2024)

Certamente que todos dormiremos mais descansados se, no seu exercício de “legítima defesa”, Israel destruir as instalações nucleares dos aiatolas. Mas dormiremos mais descansados ou mais pacificados de consciência sabendo a bomba nuclear nas mãos dos fanáticos ortodoxos de Israel, que se declaram “o povo eleito”?


A

1 de Abril — parece mentira mas não é —, Israel consumou um feito jamais visto, que me recorde, na história diplomático-militar dos tempos modernos: atacou uma instalação diplomática de um outro país na capital de um país terceiro, matando oito funcionários dessa instalação através de um míssil disparado de um avião da sua Força Aérea. Morreram nesse ataque ao Consulado-Geral do Irão em Damasco, na Síria, um comandante do Quds, a guarda revolucionária iraniana, e sete outros agentes da organização, e o edifício ficou destruído. Normalmente ou quase sempre, tais acções de execução de agentes inimigos no estrangeiro são levadas a cabo pelo Kídon, uma secção da Mossad, que as executa após receber luz verde do próprio primeiro-ministro israelita. Mas são feitas de forma tão discreta quanto possível, através de execuções a tiro, por meio de carros armadilhados ou por envenenamento, com cuidado para evitar vítimas civis — a maior parte das vezes com sucesso, mas outras vezes fracassando e até tomando inocentes por alvo. Mas agora tudo foi feito de forma espectacular e ostensiva e nem sequer visando um alvo particularmente importante. Tratou-se, para lá de qualquer dúvida legítima, de um acto de guerra e de um acto de pirataria internacional sem precedentes. Todavia, chamado a condenar o ataque de Israel no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o bloco ocidental opôs-se a qualquer condenação. Imaginem o que aconteceria se Putin tivesse disparado um míssil contra o Consulado da Ucrânia em Varsóvia…

A 14 de Abril, o Irão ripostou, que era aquilo que Israel obviamente esperava e desejava da sua acção em Damasco — e daí tê-la feito de forma tão ostensiva. Nada fazendo, o regime iraniano via ameaçada a sua fraca popularidade interna e desautorizada externamente a sua aura de único país islâmico que mantém um conflito insolúvel com Israel. Mas também não podia arriscar nada que desenca­deasse uma resposta em grande escala de Telavive e que trouxesse os americanos de volta, sem rodeios, para o apoio total a Israel. Sabendo que Washington já tinha enviado um porta-aviões para a zona, diversos caças e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o Irão fez uma coisa insólita: avisou previamente os Estados Unidos do ataque, mas garantindo que ele apenas visaria instalações militares e seria mais simbólico e para salvar a face do que verdadeiramente ameaçador. Fez o mesmo aviso aos países árabes sunitas vizinhos de Israel e, depois, com as televisões do mundo inteiro a seguirem em directo, despachou uns 400 drones que demoraram seis horas a tentar chegar ao destino, umas dezenas de mísseis de cruzeiro e alguns mísseis balísticos. Como resultado, escavou um buraco numa base área do Neguev e feriu uma jovem beduína numa zona sem sirenes nem protecção antiaérea, cuja casa as autoridades israelitas aproveitaram para mandar destruir. Após o que Teerão declarou a operação terminada, com êxito.

Foi um festim para Israel e os seus “aliados”. Imediatamente, Damasco ficou esquecido, e o que passou a vigorar em todos os noticiários e declarações, como acto primeiro do casus belli, foi o “ataque em grande escala do Irão a Israel”. Há dezenas de anos que Israel usa esta estratégia política em relação aos palestinianos: promove uma nova ocupação de terras, destruição de casas ou repressão sangrenta num posto de controlo e depois, perante uma tímida resposta, invoca um direito de legítima defesa perante um ataque de que terá sido alvo. Fez agora o mesmo com o Irão, que, não sabendo como reagir, optou perla opção mais estúpida. Depois, o Iron Dome proporcionou um show televisivo em directo, um ensaio práctico muito mais útil do que os realizados frente aos pobres rockets do Hamas e um pretexto para Biden pedir ao Congresso mais dinheiro para Israel, visto que o dinheiro dos contribuintes (e eleitores) americanos estava a ser bem empregue. Em terceiro lugar, permitiu a Israel experimentar a doce sensação de gozar da solidariedade amedrontada de países como a Jordânia, a Arábia Saudita ou os Emiratos, num regresso ao espírito dos Acordos de Abraão, estilhaçados pelo sanguinário ataque do Hamas em 7 de Outubro de 2023 e o subsequente genocídio palestiniano em Gaza. E, finalmente, se dúvidas porventura ainda houvesse em alguns ingénuos espíritos, permitiu a Israel convocar, além do esperado e indefectível apoio militar e político dos Estados Unidos, o apoio igualmente empenhado dos outros suspeitos do costume: França, Inglaterra, Alemanha, eternos campeões dos direitos humanos, grandes vendedores de armas a Israel, inescapáveis cúmplices morais do genocídio de Gaza.

No momento em que as opiniões públicas nestes países começavam a mobilizar-se para exigir dos seus Governos o fim da venda de armas a Israel, o ataque do Irão veio mesmo a calhar para abafar o assunto, fazer esquecer o massacre em Gaza ou outros temas inconvenientes, como o assassínio de sete civis estrangeiros da carrinha da organização humanitária World Kitchen. Como que por magia, Israel passou de agressor a agredido, de carrasco a vítima. E aqueles, os grandes defensores dos direitos humanos, que em seis meses não conseguiram encontrar razões suficientes para forçar Israel a parar com o morticínio de palestinianos, nem sequer para a sua condenação, agora, sim, estão revoltados com o ataque dos inofensivos drones dos aiatolas e a ofensa aos israelitas. Eles que, em seis meses, não conseguiram encontrar quaisquer razões para castigar Israel ou os seus governantes com sanções que prejudicariam os seus comuns negócios, agora, sim, vão estudar sanções ao Irão. (Mas não se admirem se, por debaixo da mesa, os mesmos, os mesmíssimos que vão aprovar as sanções, venham a montar um sistema para as contornar e até para poderem vender armas aos aiatolas, porque tudo isto é demasiado complicado para a nossa vã inteligência). E, juram eles, tentam segurar a mão de Israel, na sua justa e terrível represália (perdão, legítima defesa) sobre o Irão. Mas, no limite e além do palavreado hipócrita, deixarão que Israel faça o que quiser, como sempre. Porque confiam que a Rússia não intervirá, e assim o “louco bom”, Netanyahu, pode ser deixado à solta, porque o “louco mau”, Putin, tem a Ucrânia com que se ocupar: mesmo a calhar. E se, mesmo assim, aquilo explodir numa guerra regional e a Europa ficar sem petróleo, como em 73, paciência, dos fracos não reza a história. E teremos sempre o amigo americano para nos ajudar, como fez com o gás, substituindo-se aos russos, depois de fazer explodir os Nordstream e duplicar o preço que os europeus pagam pelo gás.

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A 14 de Abril, Israel e os seus aliados não apenas detectaram no ar e destruíram 99% dos engenhos de morte enviados do Irão — também detectaram previamente e destruíram 99% das opiniões ou notícias capazes de contrariarem a versão única de mais uma vitória dos bons sobre os maus, da derrota de um ataque não provocado à “única democracia do Médio Oriente”. Uma democracia que, em seis meses, liquidou, nas suas casas, nas ruas, nas escolas, nas mesquitas e nos hospitais, 35 mil civis, dos quais 16 mil crianças, e em cujo governo há um ministro que propôs resolver o problema dos 2,3 milhões de palestinianos encerrados em Gaza com uma bomba termonuclear e outro que, mais simplesmente, jurou que “os palestinianos não existem”. Se não tivéssemos visto as imagens de quarteirões inteiros em Gaza destruídos com bombas de uma tonelada fornecidas a Israel pelos defensores dos direitos humanos, dos hospitais transformados em campos de batalha, das crianças com olhares esgazeados de fome, ainda poderíamos acreditar, talvez, que isto seria uma guerra da liberdade contra o terrorismo. Se não conhecêssemos a história, poderíamos acreditar que eram os justos a triunfar sobre os usurpadores da “Terra Santa”. E certamente que todos dormiremos mais descansados se, no seu exercício de “legítima defesa”, Israel destruir as instalações nucleares dos aiatolas. Mas dormiremos mais descansados ou mais pacificados de consciência sabendo a bomba nuclear nas mãos dos fanáticos ortodoxos de Israel, que se declaram “o povo eleito”? Qual é, afinal, o critério moral que nos distingue dos outros? Perguntem às crianças de Gaza, perguntem à rosa de Hiroxima.

Eu fiz jornalismo durante mais de 40 anos. E em todas essas décadas, seguindo a política nacional e internacional, tive muitas vezes de me conter para não confundir a hipocrisia com a própria natureza da política. Mas sempre acreditei que, no fim, seria a independência e a liberdade do jornalismo a prevenir e a evitar que isso acontecesse.

Porém, e como já o escrevi a propósito da guerra na Ucrânia, e agora o volto a escrever a propósito da guerra de Israel em Gaza, nunca tinha visto o jornalismo tão submisso à narrativa oficial, tão disposto a abdicar do contraditório e tão avesso a fazer as perguntas ocultas, as perguntas essenciais.

Isso, mais ainda do que esta miserável geração de líderes políticos, é o que mais me faz descrer no triunfo das democracias, enquanto resultado de regimes escolhidos por povos informados e livres. Oxalá eu possa estar enganado!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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