Desistorização do tempo: ausência de perspectiva histórica, desesperança de um novo futuro

(Por Frei Betto, in Diálogos do Sul, 30/04/2026)

Broken antique clock with cracked face lying in sandy beach.

Um relógio antigo, em pedaços, jaz parcialmente enterrado na areia ao pôr do sol em uma praia. (Imagem gerada por IA).

Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais”. Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.


Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização [ato ou efeito de retirar algo do seu contexto histórico] do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico — as coisas acontecem e se repetem — e comungavam a ideia do destino implacável — algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha vida; e esse poder é inelutável. 

Foram os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (1) (Vide meu Jesus Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus. Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa, recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.

Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, nos faça felizes.

Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto de vida baseia-se no ter e não no ser. 

Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal.  O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou 500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade, porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações científicas e tecnológicas.

Ora, quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico. 

O que preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar, devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de ração diária, um carinho, e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz: sombra e água fresca. 

Nós não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional, uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos. 

A perda da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de se estender isso à infância. 

Vivemos, pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único. 

A perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala… 

Minha geração — a dos idos de 1968 — vive agora em desconforto. Tantos sonhos e sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze, Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke, Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções totalizantes e ideologias sagradas, crentes de que a filosofia nos redimiria dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.

Foram Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade — Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe sobrepuja a fundamentação.

Não há doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se manifesta.

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras do que em livros, e causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, pela descontinuidade e pelo pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas.

Esse momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV — uma concessão pública — contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido, corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis discricionárias.

* Artigo em português do Brasil de acordo com a fonte aqui

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Hand writing with a quill pen in an old history book titled História da Europa, with words 'Unidade' and 'Progresso' highlighted

O “projeto europeu” nas ruas da amargura

(Por Albarda-mos, in Estátua de Sal, 03/05/2026, revisão da Estátua)

Hand writing with a quill pen in an old history book titled História da Europa, with words 'Unidade' and 'Progresso' highlighted

Alguém marca um livro de história sobre a Europa destacando as palavras unidade e progresso que, entretanto foram abolidas do projeto europeu… Imagem gerada por IA.

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de João Gomes sobre o fim da Segunda Guerra Mundial e a tomada de Berlim pelo exército soviético, (ver aqui). Pela análise que faz às motivações que levarão a UE a tentar reescrever a História, conectando tais motivações à morte do “projeto europeu”, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 03/05/2026)


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A UE é um projeto tecnocrata, tem um programa próprio que se impõe sem grande atenção às necessidades reais das populações dos países e regiões que a compõem, às suas diferentes característica, culturas e necessidades. Em tempos apregoava a coesão, a convergência socioeconómica entre os estados membros, a atenuação das desigualdades sociais, um mercado comum e aberto, a defesa de valores humanistas, democráticos e o progresso civilizacional, etc.

Hoje em dia tudo isso se inverteu, alguns estados põem e dispõem e ditam aos outros as regras orçamentais, a política sectorial, fiscal, empresarial, económica, etc. Há uma canalização absurda de verbas para Estados que não são membros e chegam a condicionar mais as políticas da UE que alguns dos membros. As desigualdades sociais e entre países são cada vez maiores, a convergência é um mito, tudo encarece e a vida dos europeus não abastados – a grande maioria -, é cada vez mais difícil, com menos tempo e recursos, mas muito mais desinformação, ruído, propaganda, controlo mental e pressão – as exigências e deveres aumentam, os direitos diminuem.

Os valores progressistas e igualitários foram substituídos pelo ódio, a xenofobia, a discriminação, a marginalização e a segregação. A verdade é um alvo a abater, e se na guerra ela é a primeira vítima, numa sociedade belicista, armamentista e militarista como se pretende a UE, ela já vem a definhar e é tratada como uma pobre coitada que só alguns iluminados e outros vultos da comunicação social estão em condições de nos dizer qual é: já nem sequer pode ser procurada e conhecida por intermédio de outras fontes que não as dos especialistas de painel, que ora são generais e tenentes-coronéis ora diretores da Cruz Vermelha ou da AMI, manobrados por jornalistas que ora são moderadores, ora comentadores, ora editores, por vezes tudo no mesmo dia e até à mesma hora, consoante o discurso, a narrativa e a mensagem programadas naquele horário.

E perante toda esta demência, há cada vez uma maior deferência aos centros institucionais de poder e aos seus líderes, mesmo apesar dos escândalos cada vez mais frequentes de corrupção, alienação e outros crimes de lesa-pátria, como os emails da Ursula às farmacêuticas, a Mogherini que desapareceu rapidamente das notícias, entre outros casos que pelos vistos não abalam mas reforçam a crença da bondade e da solidariedade europeias, assim como da defesa dos direitos humanos e das liberdades individuais.

Tudo isto numa UE a reboque e na sombra dos EUA, coisa que não acontece em mais nenhuma organização continental relativamente a outra nação de outro continente, não com os mesmos níveis de submissão, aculturação política e sabujice. Até o inglês continua e é cada vez mais a língua oficial dos líderes da UE, mesmo após o Brexit! E não me venham dizer que é por causa da Irlanda ter ficado na UE…

Perante tudo isto, como esperar que o “projeto europeu” tenha qualquer respeito pela “verdade” ou “realidade” históricas, se sucumbiu a fantasias, divagações e a lucubrações corporativas e pessoais de poder?

E sucumbiu em detrimento do bem comum e do progresso social e civilizacional, com o retorno ao volkismo e às correntes racistas e segregacionistas do século passado, antissocialistas e profundamente não igualitárias, tão em voga no “farol do mundo livre” pelo qual a UE se orienta e define atualmente, e onde a separação de poderes é tão ténue e manipulada.

Hoje é ontem: do Suez a Ormuz, da Hungria a Taiwan

(Por Cem Gürdeniz, in Reseau International, 29/03/2026, Trad. Estátua)


O ano de 1956 marca uma viragem decisiva na geopolítica moderna. A crise do Suez teve início a 19 de julho de 1956, quando os Estados Unidos retiraram o financiamento à barragem de Assuão, no Egito. A situação agravou-se a 26 de julho, quando o líder revolucionário egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal do Suez. A Grã-Bretanha e a França perceberam esta decisão como uma ameaça direta aos seus interesses. Na realidade, foi o capital financeiro que entrou em pânico, pois o canal é uma via de comunicação essencial para o comércio mundial.

Israel foi o elemento que desencadeou a intervenção no Suez em 1956. Após a chegada de Nasser ao poder em 1954, a marinha britânica retirou-se do Egito, reservando-se, no entanto, o direito de regressar em caso de crise. A Grã-Bretanha não aceitava uma perda total de controlo. Consequentemente, a decisão de Nasser foi vista como uma ameaça tanto estratégica como simbólica.

Os esforços diplomáticos realizados entre agosto e outubro de 1956 fracassaram. Entre 22 e 24 de outubro, a Grã-Bretanha, a França e Israel chegaram a acordo sobre um plano anfíbio secreto em Sèvres, perto de Paris. Israel não era um interveniente secundário, mas sim a ponta de lança das operações. Como a Grã-Bretanha e a França não dispunham da legitimidade internacional necessária para atacar diretamente o Egito, Israel desencadeou a guerra ao atacar a península do Sinai a 29 de outubro de 1956. Posteriormente, a Grã-Bretanha e a França intervieram sob o pretexto de separar as partes beligerantes e de proteger o canal.

Convém igualmente notar que Israel se tornou, de facto, uma potência nuclear por volta de 1967, embora nunca o tenha reconhecido oficialmente. As bases desta capacidade foram lançadas no final da década de 1950, imediatamente após a crise do Suez de 1956. Esta crise favoreceu uma aliança estratégica entre Israel e a França. Preocupada em contrariar a influência de Gamal Abdel Nasser na Argélia, a França aceitou fornecer a Israel uma ajuda nuclear crucial, nomeadamente o reator de Dimona e as tecnologias necessárias à produção de plutónio. Paralelamente, Israel retirou uma lição fundamental desta crise: não podia contar com as grandes potências, incluindo os Estados Unidos, para a sua segurança absoluta. Esta conjunção — a transferência de tecnologia francesa e um sentimento acrescido de isolamento estratégico — levou Israel a desenvolver uma capacidade de dissuasão nuclear independente. Nesse sentido, a crise do Suez não foi apenas um conflito regional; constituiu o ponto de viragem decisivo que permitiu a Israel alcançar o estatuto de potência nuclear.

Estudos académicos e memórias demonstram claramente que Israel assumiu conscientemente o papel de primeiro agressor e desencadeou a operação militar de 1956. A crise não foi um conflito tripartido espontâneo, mas uma intervenção coordenada, cujo cerne era a geopolítica israelita. Israel entrou no Sinai a 29 de outubro, a Grã-Bretanha e a França lançaram ataques aéreos a 31 de outubro e os desembarques ocorreram em Port Said entre 5 e 6 de novembro.

Reação de Eisenhower

O presidente americano Dwight Eisenhower opôs-se firmemente à intervenção, levada a cabo sem o informar. Considerava que esta enfraquecia o bloco ocidental e aproximava os novos Estados independentes da União Soviética. O primeiro-ministro Anthony Eden, confiante na vitória militar, resistiu inicialmente.

Os Estados Unidos exerceram pressões financeiras, restringindo o fornecimento de petróleo e bloqueando o apoio do FMI. A libra esterlina foi fortemente afetada. Consequentemente, foi declarado um cessar-fogo a 6 de novembro. A Grã-Bretanha e a França retiraram-se em dezembro, e Israel abandonou o Sinai em março de 1957. Em poucos dias, o poder imperial britânico desmoronou-se, não militarmente, mas financeiramente, sob a pressão americana.

A oportunidade húngara e soviética

Paralelamente, a revolta anticomunista na Hungria, que teve início a 23 de outubro de 1956, ofereceu uma oportunidade estratégica à União Soviética. O primeiro-ministro Imre Nagy iniciou reformas, orientou-se para um sistema multipartidário e anunciou a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia.

A 4 de novembro, pouco antes do desembarque franco-britânico em Port-Saïd, as forças soviéticas entraram em Budapeste com uma força esmagadora e reprimiram a revolta. Nagy foi posteriormente executado. Enquanto as Nações Unidas se concentravam no Suez, a crise húngara passou para segundo plano. O Ocidente, dividido, foi incapaz de reagir eficazmente.

Este acontecimento simultâneo revelou uma verdade geopolítica fundamental: as fraturas num domínio criam oportunidades noutro. Eisenhower ficou particularmente indignado com esta situação. A Grã-Bretanha dispunha das capacidades militares necessárias para prosseguir o esforço de guerra, mas não os recursos financeiros. A 9 de janeiro de 1957, Eden demitiu-se.

O declínio da Grã-Bretanha

O declínio da Grã-Bretanha foi progressivo. No século XIX, a libra esterlina dominava o comércio mundial. No início do século XX, os Estados Unidos tinham ultrapassado a Grã-Bretanha em termos de produção. Duas guerras mundiais deixaram Londres fortemente endividada.

Embora a Marinha Real Britânica ainda fosse poderosa em 1945, a sua força declinou rapidamente devido a restrições económicas e à sua dependência dos Estados Unidos. Já em 1956, já não conseguia operar de forma independente. Em 1971, a Grã-Bretanha retirou-se para leste do Canal do Suez, cedendo posições estratégicas à Marinha americana e pondo assim fim ao seu domínio marítimo mundial.

Hoje é ontem: a crise de Ormuz

Setenta anos depois, uma rutura sistémica semelhante ocorre durante a crise de março de 2026, centrada no estreito de Ormuz. Enquanto a Guerra do Golfo entra na sua quarta semana, o estreito de Ormuz está praticamente bloqueado. O custo desta guerra para os Estados Unidos ultrapassa os 30 mil milhões de dólares.

Normalmente, cerca de 140 navios transitam diariamente por este ponto. Agora, apenas alguns conseguem passar. Este ponto estratégico gere cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. Estas perturbações provocaram uma escassez do abastecimento físico.

O forte aumento dos preços da energia tem repercussões na produção de fertilizantes, na agricultura, na indústria e na fabricação de semicondutores. Os riscos para a segurança alimentar multiplicam-se rapidamente.

A 15 de março, os Estados Unidos retiraram 172 milhões de barris das suas reservas estratégicas de petróleo, reduzindo os seus stocks para cerca de 243 milhões de barris. Com um consumo diário de cerca de 20 milhões de barris, esta quantidade cobre apenas cerca de doze dias. Em 2009, os stocks ascendiam a 727 milhões de barris.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enfrentam crises orçamentais e uma dívida crescente que ultrapassa os 40 biliões de dólares. Os juros anuais rondam os mil milhões de dólares. Um pedido adicional de 200 mil milhões de dólares para a defesa sublinha o caráter insustentável desta trajetória. A incapacidade de aprovar orçamentos internos ao mesmo tempo que se aumentam os compromissos militares externos revela um profundo desequilíbrio institucional.

Paralelamente, a China e os países do Golfo estão a reduzir as suas reservas de obrigações americanas, sinal de uma erosão do estatuto do dólar como moeda de reserva, à semelhança do declínio observado anteriormente na Grã-Bretanha.

A Marinha dos EUA em declínio

O verdadeiro poder dos Estados Unidos reside no dólar e na sua marinha. No entanto, estes dois trunfos estão enfraquecidos. As suas forças terrestres são insuficientes para inverter a situação no estreito de Ormuz. Embora os dois grupos aeronavais tenham um impacto psicológico, carecem de poder concreto. O grupo aeronaval do porta-aviões USS Abraham Lincoln não pode aproximar-se da costa devido à intensa ameaça representada pelos mísseis e drones de combate iranianos. Os problemas não terminam aí para o USS Gerald R. Ford, que permanece longe da costa saudita devido à ameaça que representam os houthis em Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho. O incêndio a bordo, que durou 30 horas, foi mantido em segredo. O navio regressa a Creta, onde tinha feito escala para inspeção e reparações.

No Pacífico, o porta-aviões USS Ronald Reagan encontra-se em manutenção, o USS Tripoli e a sua unidade de reabastecimento, a 31.ª Unidade Expedicionária dos Fuzileiros Navais (MEU), abandonaram a zona, e pelo menos quatro contratorpedeiros foram redirecionados para outras zonas de missão. Consequentemente, o número de navios de superfície norte-americanos a operar permanentemente no Pacífico caiu para um nível crítico. Este quadro mostra claramente que os Estados Unidos, que dispõem de 292 navios (dos quais 233 navios de combate), mas apenas 104 navios (dos quais 75 navios de combate) operacionais em 2026, são incapazes de mobilizar forças suficientes em duas frentes simultaneamente. O Corpo de Fuzileiros Navais, com cerca de 2500 homens, está longe de garantir a dissuasão face a um país como o Irão, que conta com cerca de 85 milhões de habitantes e um vasto território. Além disso, o 11.º Corpo de Fuzileiros Navais, que partiu de San Diego a 20 de março de 2026, chegará ao Golfo três semanas mais tarde. Mesmo que estes dois grupos de fuzileiros navais unissem as suas forças, o impacto militar seria mínimo. Pelo contrário, as baixas americanas seriam mais elevadas do que o previsto.

Por outro lado, a ausência de uma reação firme ao apelo de Washington, solicitando à NATO e aos seus aliados asiáticos que enviassem navios para o Golfo e abrissem o estreito de Ormuz, demonstra que essa transformação já está em curso. Assim, uma verdade fundamental das relações internacionais revela-se mais uma vez: os Estados não têm amigos permanentes, mas interesses permanentes. Todos estes acontecimentos confirmam o aviso lançado por Colin Powell ao Iraque em 2002, aplicado à escala mundial: «Quem quebra a ordem é responsável por ela». Se uma ordem é perturbada pela força bruta, a responsabilidade pelo caos resultante deve também ser assumida. A atual crise em Ormuz demonstra que este princípio se aplica agora à escala planetária.

Risco de crise no Pacífico Ocidental e em Taiwan

A crise do Estreito de Ormuz afeta particularmente a região indo-pacífica. Os países importadores de energia, como a Austrália, o Japão e a Coreia do Sul, serão fortemente afetados, enquanto os exportadores, como a Rússia, beneficiarão de preços mais elevados. A crise gera um lucro de 150 milhões de dólares por dia para a Rússia desde o levantamento das sanções de Trump. Paralelamente, os países cuja segurança energética está ameaçada procurarão rapidamente estabelecer novas alianças.

A situação deteriora-se ainda mais na península coreana. Enquanto os Estados Unidos transferem elementos dos sistemas THAAD e Patriot da Coreia do Sul para o Médio Oriente, a Coreia do Norte realizou na semana passada novos testes com mísseis balísticos. Além disso, parece que os mísseis de cruzeiro lançados a partir de contratorpedeiros recentemente colocados em serviço são capazes de transportar ogivas nucleares. Estes desenvolvimentos indicam um enfraquecimento do sistema de defesa antimíssil americano no Pacífico e uma fragilidade da arquitetura de dissuasão regional. De acordo com um artigo do Financial Times publicado a 21 de março de 2026, o recurso intensivo aos mísseis de cruzeiro Tomahawk e aos intercetores de defesa aérea Patriot SM durante operações na Ásia Ocidental é igualmente necessário para defender Taiwan e enfrentar as forças chinesas logo no início de um conflito. O artigo salienta, no entanto, que as capacidades de produção americanas são limitadas e que o fabrico destas munições poderá demorar meses, ou mesmo anos.

Por isso, a pressão exercida pela China sobre Taiwan não decorre apenas das suas próprias capacidades, mas também da falta de atenção e de recursos por parte dos Estados Unidos. Estes últimos esforçam-se por manter um equilíbrio em várias frentes simultaneamente. Enquanto a administração Trump tenta obter resultados positivos com Cuba, a China aumenta progressivamente a sua pressão militar em torno de Taiwan. Durante a segunda semana de março de 2026, mais de 40 caças e mais de 10 navios de guerra operaram em torno de Taiwan em apenas 24 horas. Não se trata de um exercício temporário, mas de uma doutrina de contenção permanente. Quando os soviéticos intervieram na Hungria em 1956, o Ocidente viu-se incapaz de reagir.

O modelo que a China está a implementar hoje em torno de Taiwan poderá conduzir a um resultado semelhante. No entanto, desta vez, a diferença é mais acentuada. A China não é apenas uma potência militar, mas também um ator chave na construção de sistemas de produção, comércio e finanças. Até 2025, possuirá a maior força militar do mundo, e o seu peso na produção mundial acelera esta transformação. Em 1956, os Estados Unidos eram a potência hegemónica em ascensão, a Grã-Bretanha uma potência em declínio e a União Soviética a potência regional dominante. Em 2026, a China é uma potência hegemónica emergente, os Estados Unidos são a potência hegemónica atual e Taiwan é a nova Hungria. No entanto, desta vez, a hegemonia não será transmitida entre duas potências afins. A crise de Suez fez tocar o sino da morte da Grã-Bretanha.

A crise de Ormuz poderá desencadear uma rutura semelhante para os Estados Unidos. Pois, desta vez, uma potência está pronta para assumir o controlo do sistema não só militarmente, mas também económica e financeiramente. Em 1956, os Estados Unidos estavam preparados; hoje, é a China que o está. Consequentemente, Suez marcou o fim de uma era, e Ormuz poderá ser o início de uma nova.

Por isso, o mundo está a atravessar uma nova fase. A energia, a segurança, os corredores de transporte e os equilíbrios económicos estão a ser simultaneamente abalados. Israel e os Estados Unidos surgem como os instigadores deste processo. Já não é possível falar do sonho americano-indiano-israelita, do corredor económico IMEC, dos acordos de Abraão ou do Comité de Paz de Gaza. Os capitais fogem de uma guerra descontrolada. A região afastar-se-á rapidamente dos investimentos e da prosperidade. Pôr fim à guerra não será possível apenas com a resistência iraniana. O que será decisivo é a pressão que os Estados racionais exercerão sobre os Estados Unidos e Israel.

Na realidade, a cautela da Europa, do Japão e da Coreia do Sul, bem como a sua recusa ao pedido de navios de guerra formulado por Trump, demonstram que esta crise tem dificuldade em obter legitimidade internacional. Se o processo não for travado, este período ficará na história como uma sucessão de perturbações económicas e sociais mundiais, em vez de como uma guerra regional prolongada. Pôr fim à escalada orquestrada pela administração Trump já não é uma opção, mas uma necessidade para a estabilidade mundial.

Israel, com os seus 9 milhões de habitantes, desencadeou um processo que afetará o destino de 8 mil milhões de pessoas ao recorrer a uma potência como os Estados Unidos. Infelizmente, são raras as pessoas sensatas nos Estados Unidos que estão conscientes desta situação.

Fonte aqui

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