Candeia que vai à frente?

(Estátua de Sal, 10/09/2017)

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A saída da Grécia da zona Euro é uma hipótese cada vez mais provável. As consequências para a zona Euro? Bem, não podem ser boas mas é difícil, senão impossível, fazer uma quantificação prévia dos estragos e das ondas de choque. Deixo esse exercício ao Ministro Alemão Schauble e à sua casmurrice austeritária e punitiva. Hoje eles, amanhã nós? E nós, Portugal?

Parece que, “nós por cá todos bem”. Ninguém anda preocupado com a possibilidade de sermos, como a Grécia, a prazo mais ou menos longo – mas talvez mais cedo do que se possa pensar -, empurrados para fora do Euro. Normalmente, quem não tem um plano B, acaba sempre a negociar de calças na mão, o que nunca é uma posição ganhadora. Andamos com tanta delicadeza a fugir à discussão do tema, medo dos mercados, medo do Schauble, medo das agências de rating,  mas acreditem, quando a hora chegar ninguém vai ter qualquer delicadeza ou complacência connosco.  Ver artigo abaixo.


O provável novo embaixador dos EUA junto da União Europeia antecipa que a Grécia saia do euro dentro de um ano ou ano e meio. Já o ministro alemão das Finanças voltou a alertar para esse risco caso o Governo grego não aplique as reformas tal como acordadas a troco do terceiro resgate…..


Resto do artigo aqui: Cenário de saída da Grécia do euro está de regresso – União Europeia – Jornal de Negócios

O rearranjo da esquerda

(Daniel Oliveira, in Expresso, 29/08/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

A vitória do Syriza não foi apenas um epifenómeno grego. Foi um sinal. Também o foram a sua derrota perante Berlim e Bruxelas e sua divisão interna, que deu origem a um novo partido, mas que permitirá a Tsipras ocupar definitivamente o espaço do PASOK. Bem ou mal, a reconfiguração da esquerda grega desilude quem acreditava que estaríamos a assistir à sua radicalização. Na Europa, se isso está a acontecer é à direita, com a sua divisão em dois campos radicais: o ultraliberal, quase revolucionário, e o xenófobo, com uma agenda contra a modernidade. Dois campos que, em determinados contextos, até se podem aliar. Foi o que aconteceu na Finlândia, em que liberais, conservadores e nacionalistas, liderados por um milionário, começaram o processo de desmantelamento do exemplar Estado social do país.

A esquerda não se está a radicalizar, está a reconfigurar-se. O “modelo social europeu” foi abandonado pelos partidos socialistas e sociais-democratas, que aceitaram o fundamental das chamadas “reformas estruturais” para a desregulação e privatização das funções do Estado. Como a política tem horror ao vazio, esse espaço com um forte apoio social está a ser reocupado.

Na Grécia, por um Syriza em transfiguração. Em Espanha, através do aparecimento do Podemos. É verdade que caiu nas sondagens depois do que aconteceu com Tsipras e que não tem sido fácil gerir o seu discurso dúbio em relação a fenómenos como o do nacionalismo catalão, que vai a votos a 27 de setembro. Mas a vitória das listas de cidadãos que patrocinou em Barcelona e em Madrid e as alianças locais com o PSOE tornaram o movimento incontornável para um futuro governo à esquerda. O rearranjo do sistema partidário à esquerda por essa Europa fora não acontecerá apenas através do aparecimento de novas forças ou do crescimento e moderação de forças já existentes na esquerda radical. Ele pode resultar de revoluções internas dentro dos próprios partidos do centro-esquerda. A possibilidade de uma vitória de Jeremy Corbyn, socialista de todos os costados, na corrida interna à liderança dos trabalhistas britânicos está a deixar nervoso o establishment da decadência ideológica do partido e pode vir a ser tão ou mais relevante do que os resultados do Podemos ou do Syriza.

O Estado social português foi construído poucos anos antes de começar a ser posto em causa na Europa através de um acordo entre um PS sem implantação sindical e um PSD impossível de caracterizar ideologicamente. Tudo aqui é diferente e os efeitos do que está a acontecer na Europa vão demorar a sentir-se. Mas o espaço que, por cá, foi deixado vago pelo PS e em parte pelo PSD terá, também ele, de ser ocupado. Até porque a defesa do Estado social tem, ainda mais em Portugal, uma vocação claramente maioritária. A questão é saber quem terá unhas para começar a reconfigurar a esquerda nacional: os chamados jovens turcos do PS? Uma esquerda radical que ainda tenha massa crítica para se reposicionar e falar a um eleitorado mais moderado? Novas forças descomplexadas em relação aos ressentimentos do passado? Uma outra coisa qualquer que não estamos a ver? Depende muito do que for acontecendo na Europa e da qualidade dos protagonistas nacionais.

O medo do futuro

(José Vítor Malheiros, in Público, 25/08/2015)

José Vítor Malheiros

   José Vítor Malheiros

Na fatídica noite de 12 de Julho passado, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras foi obrigado a ceder perante as pressões do Eurogrupo e a aceitar uma reforçada dose de austeridade porque não possuía mandato do povo grego para abandonar o euro e essa seria a consequência inevitável caso desse um murro na mesa e dissesse “não” às condições humilhantes do resgate. Esta é, em grandes linhas, a narrativa oficial do Syriza.

De facto, um murro na mesa não levaria necessariamente à saída do euro e, noutras circunstâncias, poderia até forçar os “parceiros” do Eurogrupo a ceder e a conceder condições dignas de financiamento à Grécia e mesmo uma renegociação da dívida mas, como estes sabiam que a saída do euro era uma carta que Tsipras não podia ou não queria jogar, a eventual ameça de default e de Grexit por parte de Atenas não possuía a suficiente credibilidade para servir de instrumento de pressão.

Assim, Tsipras perdeu as negociações porque o povo grego, através das suas organizações políticas e das sondagens realizadas, disse e reiterou sempre esmagadoramente que não queria saír do euro; porque nunca pediu um mandato claro ao povo grego para sair do euro caso essa opção se impusesse, o que deu a sensação a muito eleitores que a opção de facto não existia; e porque avaliou mal as suas forças e os seus aliados no confronto com os credores em geral e com a Alemanha em particular.

É verdade que Tsipras também não tinha mandato do povo grego para aceitar o terceiro “resgate”, mas aqui foi possível defender que as ténues possibilidades de investimento abertas pelos novos empréstimos poderiam suavizar a prazo a austeridade e, assim, ir de encontro ao desejo expresso do povo grego no referendo de 5 de Julho, onde a austeridade foi recusada por uma expressiva maioria de mais de 61%.

De facto, o referendo, nos termos em que foi convocado e realizado, e apesar de ter sido, como foi, um grito de dignidade do povo grego contra uma verdadeira ocupação, ao não conter explicitamente um mandato que permitisse a Tsipras dar o famoso murro na mesa, colocou-o num dilema irresolúvel, impedido de sair do euro e de aceitar mais austeridade. Por que razão, entre estes dois termos inaceitáveis, Tsipras escolheu ceder ao Eurogrupo? Aparentemente, por ter considerado que o status quo (leia-se: continuação da austeridade) seria mais facilmente aceite pelos gregos que a escolha de um caminho nunca antes navegado, ainda que ele próprio, repetidamente, tenha afirmado não acreditar na eficácia do novo acordo.

A recente demissão de Tsipras, e a consequente convocação de eleições, faria sentido se o primeiro-ministro grego pretendesse com isso não só renovar e fortalecer a sua legitimidade política (como quer) mas clarificar o mandato que lhe é conferido pelo povo. Faria sentido, em particular, se o Syriza de Tsipras tentasse obter nas próximas eleições um claro mandato que lhe permitisse romper com o Eurogrupo e sair do euro caso reconhecesse essa necessidade. Estranhamente, porém, Tsipras parece apenas querer (teremos de esperar pelo novo programa eleitoral do Syriza para o confirmar) confirmar a sua legitimidade para levar a cabo o programa de austeridade, eventualmente de braço dado com algum dos chamados partidos “pró-europeus” da direita grega, como o “socialista” PASOK, a Nova Democracia ou o To Potami. Note-se que na Grécia e, crescentemente, no resto do mundo, “pró-europeu” quer dizer “pró-austeridade”, agora que a União Europeia foi totalmente capturada pelos interesses e pelas organizações neoliberais.

Como sabemos, não falta quem considere que Tsipras traiu o povo grego e o seu mandato à frente do Syriza, que conheceu há dias a sua primeira cisão em massa, com a saída de 25 deputados que formaram o partido Unidade Popular, liderado por Panagiotis Lafazanis. No entanto, o que me parece mais relevante na caminhada de Tsipras é como ela ilustra a crescente dificuldade que os líderes políticos actuais — mesmo os de esquerda, mesmo os anti-sistema —têm em mobilizar os cidadãos para causas difíceis e até, simplesmente, em falar a dura linguagem da verdade.

A verdade, para a Grécia como para Portugal, é que nos esperam anos de enormes dificuldades e sofrimento, quer prossigamos com a austeridade que nos transforma em eternas vacas leiteiras dos contribuintes alemães quer combatamos essa política neo-colonialista e decidamos correr o risco de inventar e construir o nosso futuro. Pelo meu lado, não tenho dúvidas na opção.

Houve uma altura onde a política era outro nome para a construção do nosso futuro colectivo, um empreendimento nobre e galvanizador, onde não faltavam enormes escolhos e cujo caminho era feito de imprevistos e de derrotas mas por onde nos impelia um sonho de dignidade e justiça. Tsipras pareceu num dado momento poder ser um desses líderes políticos mas, aparentemente, não pode ou não o sabe fazer.

Hoje, quase todos os políticos prometem um mundo cor-de-rosa a quem os eleger e ninguém tem a coragem de prometer sangue, suor e lágrimas mesmo quando esse é o caminho que devemos trilhar. Porque é ele que nos devolve a dignidade e nos permite ser livres e felizes.

Será que o povo deixou de ter a capacidade de ouvir as verdades e quer mesmo ser embalado em mentiras e promessas vãs mesmo quando as reconhece como tais?

Será que o povo deixou de ter a capacidade de sonhar um futuro diferente e melhor e apenas lhes podemos propor um regresso ao passado ou a continuação do presente para não os angustiar com as escolhas da liberdade? Será que a maioria dos cidadãos prefere mesmo a segurança da escravatura à incerteza da liberdade? Será que o mundo que os cidadãos sonham para os seus filhos é feito apenas de telenovelas e de centros comerciais?

Candidato independente às eleições legislativas pela coligação cidadã Livre/Tempo  de Avançar (jvmalheiros@gmail.com)