Portugal não é a Grécia? A doença que vive, a cura que mata

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 24/07/2018)

PSG

Pedro Santos Guerreiro

Portugal e Grécia são cruzados pelo mesmo paralelo norte. Hoje, são cruzados também pelo mesmo paralelo morte. A tragédia dos incêndios hoje lá como há um ano cá – como no próximo ano onde? É hora de chorar pelos gregos e de lembrar os portugueses, mas nesta hora já pensamos na próxima, em que abriremos os olhos para ver e as bocas para falar.

Uma tragédia é uma tragédia e pede urgência, uma morte é uma morte e invoca luto. Há uma linha de respeito e dignidade humana a desenhar por cada uma delas – e cada uma isoladamente. Mas será inevitável estabelecer o paralelo. Aliás, já o foi. Mal soubemos ao raiar da manhã das labaredas mortais num outro litoral lembrámo-nos do nosso drama interior.

Talvez isso nos condoa, talvez nos convoque, mas abrimos as notícias, lemos os factos, vemos as imagens na Grécia e ele está lá, está lá o paralelo.

Mais cedo do que mais tarde levaremos este paralelo a outras análises, que desta vez nos farão pensar não só num país, não só em dois países, mas numa União Europeia, mas num planeta global. Lá chegaremos, depois de apagarem as chamas, de contarem os mortos, de vermos gente cair da ravina do desespero para o choro da tristeza, de vermos eclodir a revolta íntima de um outro povo, o grego, mas não do povo que seria o nosso, o europeu, se fôssemos uma união de facto fundada e não uma União em factos afundada, as crises das dívidas soberanas, as crises com refugiados, as crises com o Brexit, Rússia, Trump, a NATO, o populismo fulgente, o nacionalismo repugnante…

Quando lá chegarmos, a esse paralelo, encontraremos sobre a linha imaginária que vemos no mapa três traços reais que muitos não querem confundíveis: dois países com Estados fracos, pequena corrupção e incompetência administrativa; dois países sob austeridade duradoura; um planeta em aquecimento.

O aquecimento global não é um mito ambientalista nem uma invenção de cientistas radicais, é um acontecimento que estamos a viver, numa lenta autodestruição tenuamente combatida em tratados e acordos como os de Quioto e os de Paris, sucessivamente boicotados por interesses políticos e económicos, se é que eles são dissociáveis. Só a pressão social levará as forças políticas céticas ou cínicas a legislar e a impor. Mesmo isso será pouco. Sobretudo se a própria sociedade se alhear, da política e de si própria. Mas cedo as reportagens e os estudos académicos juntarão as imagens de Portugal 2017 e da Grécia 2018 para mostrar que “isto está a acontecer”. Está a acontecer até na Europa, este continente rico e “civilizado”.

Está a acontecer no sul quente e seco. Está a acontecer onde os Estados são falhos, governados à vista desarmada e tomados por administrações públicas lideradas por incompetentes promovidos por cunhas e cartões partidários, incluindo nas suas proteções civis. Portugal e Grécia são casos diferentes mas ambos estão há anos tomados por governos com total incapacidade estratégica de longo prazo (o que nos incêndios se vê na floresta e no ordenamento do território), por comportamentos sociais desvinculados e por uma sujeição orçamental a que chamamos austeridade: impostos muito elevados para pagar despesa pública e corte de meios e serviços públicos por exaustão (o que nos incêndios se vê na falta de recursos de combate).

Esta combinação de incompetência na estratégia e na ação, de falta de planeamento e de falta de meios, leva perfidamente à resignação inaceitável: a da fatalidade. Como se morrêssemos nos incêndios porque a natureza está assim e vida é isto.

Finalmente, o terceiro traço, o de que Portugal e Grécia são países da União Europeia resgatados por uma austeridade então necessária mas disparatada na profundidade com que se espetou a faca na ferida, pelo experimentalismo económico e pela raiva vingativa de políticos e países do Norte. Quiseram fazer uma purga. Criaram um purgatório.

O que Portugal passou é uma fracção do que desabou sobre a Grécia, tanto que somos “um sucesso” na lapela e eles saltam em três resgates. Mas se a União Europeia pensar que a falta de meios de um Estado para funções tão irredutíveis como as de proteger o seu povo são vírgulas orçamentais, então não entenderá nunca a sua própria decomposição nem poderá combatê-la. Nós somos portugueses, eles são gregos, outros são alemães, finlandeses, italianos, franceses, mas não somos europeus exceto quando falamos de dinheiro e do que nos aparta.

“Portugal não é a Grécia”, repetíamos desesperados em 2010 e 2011, com medo “dos mercados”. É verdade, não éramos. Mas hoje, neste preciso dia, somos. Somos países que ardem, onde se morre nas chamas em casa e a fugir delas nos carros. Somos países a fingir estratégias nacionais e irrelevantes na Europa, que nos quer para postal. Lá chegaremos, a esse debate, sem procurar culpas nem encontrar desculpas, esperando que nessa hora se entenda que isto não são casos nem acasos. É um planeta mais quente, é uma União Europeia mais fria, são Estados fracos e enfraquecidos pelos seus próprios sistemas políticos, administrativos e orçamentais. É a morte a sul, onde o sol faz mais brasa do que o bronze da pele dos turistas. Lá chegaremos, às análises frias mais ou menos inconsequentes, depois do combate de hoje, do luto de amanhã, sim, lá chegaremos depois disto a que chegámos. As mortes de hoje têm paralelo.

Marcelo, já tens o sermão pronto para os suecos e os gregos?

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 24/07/20’18)

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A 17 de Junho de 2017, no concelho de Pedrógão Grande, deflagrou um incêndio que viria a causar 66 mortos. No dia seguinte, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se ao local e deixou à Nação uma conclusão do que tinha visto, ouvido e cogitado:

«O Chefe de Estado defendeu que, perante o cenário que lhe foi descrito, "o que se fez foi o máximo que se poderia ter feito".

"Não era possível fazer mais, há situações que são situações imprevisíveis e quando ocorrem não há capacidade de prevenção que possa ocorrer, a capacidade de resposta tem sido indómita", considerou.»

Estas declarações, quiçá as mais objectivas e intelectualmente honestas a respeito do fenómeno a que se pode chegar, de imediato foram sentidas como um soco no estômago pela direita decadente. Marcelo surgia-lhes a cometer o crime de lesa-pulhice ao parecer blindar a tragédia contra qualquer aproveitamento político. A revolta que de imediato transpirou para o exterior, agravada pelo acumulado de ressentimento contra quem se comportava desde o início do mandato como o mais decisivo e desconcertante aliado de Costa e ainda pelo contexto de pré-campanha para as autárquicas, deve ter sido um bilionésimo daquela que se fez sentir nos bastidores e que chegou a Belém. Rapidamente, Marcelo percebeu que tinha cometido uma gafe com imprevisíveis consequências estratégicas, pois os aparelhos partidários e mediáticos da direita – e não só – iriam explorar sem pudor nem freio a comoção nacional nascida do elevado número de mortos e da espectacularidade tétrica da maioria deles ter ocorrido nas estradas ao serem apanhados de surpresa ou ao tentarem fugir das suas casas. Inevitavelmente, nas semanas e meses seguintes, iria ser lançada no espaço público uma mole de falhas de tudo e todos através dos testemunhos, especulações, inquéritos e investigações. Este vendaval de suspeitas e roupa suja deixaria o Presidente da República gravemente diminuído caso não conseguisse liderar politicamente o rescaldo. A sua resistência pública contra a indecência que vinha a caminho durou apenas uns dias, começando a alinhar o discurso para um julgamento político após ter recebido Passos Coelho em audiência a 23 de Junho. Esse julgamento viria a ser feito por ele próprio na oportunidade criada pelos incêndios de Outubro, ocasião em que humilhou (violentou?) o Governo e exigiu a cabeça de Constança Urbano de Sousa. Nos meses seguintes e até ao presente, passou a repetir ameaças, meio difusas e meio tontas, onde os incêndios de 2017 apareceram completamente instrumentalizados pela sua agenda política.

Hoje, temos parangonas com os 74 mortos na Grécia (número provisório) e a devastação histórica causada na paisagem e no património pelos incêndios. Na semana passada, foram os inauditos fogos na Suécia a encherem o noticiário, inclusive por causa do pedido de ajuda internacional que os ricalhaços, íntegros e organizadíssimos suecos tiveram de fazer por falta de meios. Entre os dois acontecimentos não há ponto de comparação quanto à geografia, flora e densidade habitacional, mas por isso mesmo a sua associação é relevante. Ao lado destes dois fenómenos temos o outro de uma alteração climática que derruba recordes de altas temperaturas em diversos pontos deste planeta. Um planeta a descobrir com cada vez mais danos em vidas, bens e disrupção de sistemas ecológicos no que consiste o Antropoceno. A lição é básica: nem que todas as nações estivessem unidas contra as alterações climáticas elas deixariam de causar imprevistas e inelutáveis perturbações catastróficas dado o ponto a que já se chegou. O sistema climático é demasiado complexo para o actual conhecimento humano e tecnologias disponíveis.

Este o contexto em que Marcelo usou os incêndios de 2017 como peso e trunfo políticos. O medo e a pressa foram mais fortes do que a força de carácter e o patriotismo. Só posso desejar que nenhum outro chefe de Estado que se veja confrontado com acontecimentos semelhantes lhe siga o exemplo.


Fonte aqui

Logros

(João Ramos de Almeida, in Blog Ladrões de Bicicletas, 28/04/2018)    

logros

Vem esta citação do livro de Yanis Varoufakis Comportem-se como adultos, a propósito de tantos portugueses que contribuíram para o maior logro da História económica dos últimos tempos.

Entre eles, gostava de salientar três sociais-democratas – Cavaco Silva, Jorge Braga de Macedo e Vítor Gaspar – e dois socialistas cujos sorrisos nos deviam fazer pensar: de Vítor Constâncio, numa altura em que sai de cena do BCE, e de Mário Centeno, quando entra em cena no eurogrupo.

“A maioria dos europeus gosta de pensar que a falidocracia americana é pior do que a sua homóloga europeia, graças ao poder de Wall Street e à infame porta giratória entre os bancos dos Estados Unidos e o governo daqule país. Estão redondamente enganados. Os bancos da Europa foram geridos de forma tão atroz nos anos que antecederam 2008 que os bancos inanes de Wall Street quase ficam bem na fotografia em comparação. Quando a crise rebentou, os bancos de França, Alemanha, Holanda e Reino Unido tinham uma exposição de mais de 30 biliões de dólares, mais do dobro do produto nacional dos Estados Unidos, oito vezes o produto nacional da Alemanha e quase três vezes os produtos nacionais do Reino Unido, Alemanha, França e Holanda somados. Uma falência grega em 2010 teria exigido, de imediato, um resgate dos bancos pelos governos alemão, francês, holandês e britânico no valor aproximado de dez mil dólares por criança, mulher e homem que vivesse naqueles quatro países. Em comparação, um revés de mercado semelhante contra Wall Street teria exigido um resgate relativamente diminuto: não mais de 258 dólares por cidadão americano. Se Wall Street mereceu a ira do povo americano, os bancos da Europa mereciam 38,8 vezes essa ira.”

“Mas não é tudo. Washington podia empurrar os activos tóxicos de Wall Street para os livros da Reserva Federal e deixá-los ali até recomeçarem a ter bom desempenho ou serem eventualmente esquecidos, para que os descobrissem os arqueólogos do futuro. De uma forma simples, os americanos não precisavam sequer de pagar os relativamente magros 258 dólares por cabeça com os seus impostos. Já na Europa, onde os países como a França e a Grécia abdicaram dos seus bancos centrais em 2000 e o BCE estava proibido de absorver dívidas más, o dinheiro necessário para resgatar bancos tinha de ser buscado aos cidadãos. Se alguma vez se interrogar porque é que o regime europeu se empenha mais na austeridade do que o americano ou o japonês, eis a razão. O BCE não tem autorização para enterrar os pecados dos bancos nos seus próprios livros, o que significa que os governos europeus não têm outra opção senão financiar resgates bancários através de cortes de benefícios e aumentos de impostos.”

     
Por outras palavras: a austeridade é o mecanismo que a doutrina liberal e o edifício da moeda única europeia encontraram para poder evitar que os accionistas dos bancos paguem as suas dívidas ou simplesmente paguem pelos erros dos seus actos de gestão, transferindo-as para aqueles que eles tanto gostam de designar por consumidores e contribuintes, mas que são, na verdade, pessoas, com as suas vidas e as suas famílias. Tudo sob um lema tristemente ingénuo ou cúmplice que já ouvimos tanto entre nós: Devemos honrar as nossas dívidas. 

“Quando os bancos franceses enfrentaram a morte certa, que escolha lhe restava” – a Christine Lagarde – “enquanto ministra das Finanças francesa, com os seus colegas europeus e do FMI, senão fazer o que fosse preciso para os salvar – mesmo que isso implicasse mentir a 19 parlamentos europeus ao mesmo tempo sobre o objectivo dos empréstimos gregos?”

O nosso resgate – aquele que aumentou consideravelmente a nossa dívida pública, a ponto de Centeno ficar agora tão feliz por descer um pouco o montante de juros a pagar e de condicionar o investimento público a essa descida – foi verdadeiramente um resgate aos bancos europeus pagos pelos cidadãos mais pobres da Europa.

Dir-se-á: Mas não há altenativa agora e convém ser prudente. Talvez. E mesmo isso conviria ser melhor discutido. Mas havia uma coisa que era importante fazer: nunca estar sentado a presidir ao grupo de personalidades que são o guardião daquele histórico logro.


Fonte aqui