A 10.000 metros de altivez

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/06/2015)

Miguel Sousa Tavares

                  Miguel Sousa Tavares

1 A bordo de um avião da TAP, a caminho de uma viagem de Estado à Bulgária, o Presidente da República achou a ocasião própria para declarar um “alívio” a venda da companhia aérea.

Como vem sucedendo ultimamente e com uma frequência preocupante, também desta vez Cavaco Silva perdeu uma excelente oportunidade para guardar silêncio ou ponderar melhor o alcance do que disse. Primeiro, por respeito à tripulação daquele avião e a todos os trabalhadores da TAP, que vivem tempos de incerteza e instabilidade que certamente o Presidente não pode dissipar. Depois, por respeito às gerações de portugueses, residentes e emigrados, que andaram ao colo da TAP e com a TAP ao colo, sustentando-a com a sua fidelidade e com o seu dinheiro (500 milhões, por exemplo, no governo do dr. Cavaco Silva) e que a consideravam coisa sua — agora vendida sem lhes dar cavaco.

Ao considerar a venda da TAP um “alívio”, o Presidente ou conhece os termos do contrato ou assina de cruz a decisão do Governo.

Ao considerar a venda um “alívio”, o Presidente deixou insinuada uma de duas coisas: ou que conhece os exactos termos do contrato de venda (que ninguém mais, excepto o Governo, conhece) ou que, mesmo desconhecendo-os, assina de cruz a decisão do Governo. Na primeira hipótese, é notável para quem está há dois anos a reclamar consensos e, pelos vistos, não se importa e é solidário com um negócio feito no desconhecimento e contra a vontade do maior partido da oposição e da totalidade dos donos da empresa: os contribuintes. Na segunda hipótese, o apoio entusiástico de Cavaco Silva a um negócio cujos contornos desconhecerá e não poderá avaliar, significaria apenas um passo — mais um — na direcção de apoio incondicional que vem dando ao Governo em funções, a quatro meses das urnas. Lamentável, mas já sem surpresa para ninguém.

Aliás, lá em cima, a 10.000 metros, ponderando sobre as críticas recebidas a este propósito, Sua Excelência declarou-se também absolutamente indiferente a elas, com o “ego satisfeito” que lhe dão as quatro maiorias absolutas recebidas ao longo destas penosas duas décadas em que ocupou o topo do Estado. É assim que ele reflecte sobre os dados referentes ao crescente descrédito com que uma maioria consistente de portugueses analisa o seu desempenho. Mas está de saída, já não lhe importa o que os portugueses pensam sobre ele. A seu tempo, tratará de cuidar para que a historiografia oficial registe apenas o que lhe interessa. E, daqui até ao final do mandato, não é provável que Cavaco Silva tenha de abdicar, em visitas de Estado, de aviões fretados à TAP sob a insígnia “Air Portugal”, que certamente prefere a aviões fretados à EasyJet ou à Balkan Airlines. O que não faltou a Cavaco Silva foram motivos de alívio.

2 Já com os pés bem assentes na terra da Bulgária, Sua Excelência aproveitou também uma pergunta de circunstância para azucrinar os gregos e o seu Governo. Fica-lhe mal, é feio bater em quem está por baixo e melhor teria feito em deixar essa tarefa para o seu Governo, pois que a representação do Estado não se adequa com o envolvimento nas questões dos governos europeus. Aliás, deverá ter acreditado no desonroso acontecimento a que assistiu, quando, noutra visita de Estado à República Checa, tinha Portugal acabado de pedir ajuda externa, ouviu, em silêncio, o anfitrião checo criticar, em termos ofensivos, os portugueses e o seu Governo. O novo-riquismo é sempre uma coisa feia de ver.

3 Felizmente, tenho fundadas razões para crer que as palavras de Cavaco não chegaram à Grécia e ao seu Governo — com coisas bem mais importantes em que pensar por estes dias. Ou, se chegaram, terão produzido o mesmo efeito que as críticas internas produzem em Cavaco Silva, segundo o próprio: nenhum.

Esta quinta-feira à tarde, em Atenas — no que se anunciou como o último dos dias D para a Grécia —, enquanto o Eurogrupo discutia no Luxemburgo o futuro dos gregos na Europa, o céu ficou subitamente cinzento e a chuva começou a cair, augurando más notícias, depois de dias de sol e calor tórrido. Mas, passadas umas duas horas, o sol estava de regresso, as colinas de Atenas e a da Acrópole estavam outra vez nítidas, como estava o mar do Pireu, para lá delas, e o Parténon vigiava do alto da cidade, lembrando que aqui começou a Europa dos valores que são os nossos. No ar, havia de novo um horizonte de ilhas, de ciprestes e de oliveiras, a inteireza do mundo mediterrânico que será para sempre a melhor civilização que o homem conseguiu criar.

O clima refletia a incerteza destes dias, entre a chuva e o sol, a descrença e a esperança. De um povo que, como me contava uma jornalista grega, se habituou a viver há meses com o seu destino suspenso — não já dia a dia, mas hora a hora.

A única certeza é que 84% dos gregos querem continuar na UE e no euro. Mesmo que critiquem os excessos de linguagem e de arrogância, apoiam maioritariamente o Governo do Syriza — não pelo que conseguiu, mas pelo que tentou. Por ter tentado, por ter resgatado o orgulho da Grécia. Sabem que cometeram erros e leviandades e que estão a pagar por eles. Mas também acreditam que a receita dos credores é um caminho de empobrecimento sem saída.

No centro de Atenas há menos trânsito e muito menos turistas do que eu guardava memória. Quer ali quer na periferia, não vi gente parada ou a vaguear sem destino: aparentemente, a vida continua como sempre. Não há sinais evidentes quer de miséria quer de riqueza (o parque automóvel é bem mais pobre do que o nosso e metade dos gregos desloca-se de moto). Os fins de tarde e a célebre vida nocturna da cidade já não são senão um resquício na zona da Plaka. A maior parte das pessoas está em casa, em frente à televisão. À espera que lhes digam se o seu futuro está a Leste ou a Ocidente, como tantas vezes sucedeu na história milenar desta terra. Por muito que os teóricos e os economistas se esforcem por dar lições sobre o que é e o que deve ser a Europa, a história continuará a ser sempre a chave de todos os entendimentos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O poder dos loucos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/06/2015)

         Daniel Oliveira

                         Daniel Oliveira

Parece um debate de loucos. As instituições europeias pedem à Grécia que se comprometa com metas em que só um doido varrido acredita. Para conseguir equilibrar as contas públicas, o Estado grego teve de arrasar a economia, deixar o endividamento público chegar a uns inacreditáveis 177% do PIB, pôr mais de um quarto dos gregos no desemprego e uma grande parte deles a viver abaixo do limiar de pobreza.

Agora é-lhe não apenas exigido que chegue aos 1% este ano, aos 2% para o ano e aos 3,5% em 2017. É-lhe exigido que, depois disso, assim fique durante muito tempo. Como explicou João Silvestre, nas páginas do Expresso Diário, trata-se uma impossibilidade: dos 28 países da UE, metade nunca conseguiu tal coisa nos últimos 10 anos; 11 nunca conseguiram os 2% e sete nunca chegaram aos 1%. Nos últimos vinte anos, muito poucos conseguiram manter-se por muito tempo, como agora se exige aos gregos, acima dos 3,5%. A Alemanha só conseguiu uma vez, por um ano apenas, e metade das vezes ficou abaixo de 1%.

AO QUE AS INSTITUIÇÕES EUROPEIAS ESTÃO A FAZER À GRÉCIA É BULLYING. O RESULTADO PODE SER A SAÍDA GREGA DO EURO. NÃO SEI, NÃO SABE NINGUÉM, PORQUE NUNCA FOI EXPERIMENTADO, AS CONSEQUÊNCIAS DE TAL PASSO PARA OS GREGOS E PARA A EUROPA

Tenho lido que a Grécia se tem mostrado irredutível perante os credores. Que não aceita. Que é teimosa. Que é radical. Não há negociação possível quando um dos lados pede o impossível. Se o Governo grego aceitasse estas metas estaria a mentir aos europeus. E, depois disso, a destruir a Grécia em nome de uma mentira. As medidas que a Europa quer impor à Grécia (aumento de impostos ao consumo e mais cortes nas pensões) teriam um efeito devastador na já devastada economia grega. Tornando ainda mais improvável o que, na realidade, já é impossível: pagar a dívida.

É difícil acreditar que a Comissão, o BCE e o FMI acreditam que a Grécia pode conseguir nos próximos dois anos, no meio da crise em que está, o que metade dos países europeus nunca conseguiu na última década. E se não estão loucos e não acreditam, desejam uma de três coisas: que o Governo lhes minta, para aplicar medidas inúteis que provem que a Grécia vergou, que decida sair do euro ou que sugue o que resta do país para mais tarde sair do euro.

Se se tratar da tentativa de saque, ela representa o fim moral da União: um credor não pode acabar com um país para cobrar dívidas, assim como não pode acabar com a vida de alguém para reaver o dinheiro. Se for uma das outras duas possibilidades, a motivação destes credores é política: impedir que mais algum povo pense que o seu voto pode mudar a Europa. Trata-se de um golpe de Estado.

O que as instituições europeias estão a fazer à Grécia é bullying. O resultado pode ser a saída grega do euro. Não sei, não sabe ninguém, porque nunca foi experimentado, as consequências de tal passo para os gregos e para a Europa. E este é o segundo sinal da loucura: há imensos responsáveis políticos por essa Europa fora que têm a certeza de que uma União que está há seis anos enredada numa crise de que os outros já saíram está preparada para os efeitos do “Grexit”. Confesso: não sei se lamentaria ou se festejaria a saída da Grécia do euro, a mais idiota invenção europeia desde o pós-guerra. Não sei se os gregos resistiriam ou não a esse passo para a sua liberdade. E não sei se a Europa e nós próprios aguentaríamos a sucessão de acontecimentos imprevisíveis que tal passo desencadearia. Sei que as certezas de tantos, que inventam convicção onde só podem ter dúvidas, são um excelente barómetro da irresponsabilidade política que grassa pela Europa. E ela explica quase tudo sobre esta negociação.

Uma mosca grega na sopa europeia

(Gustavo Cardoso, in Público, 18/06/2015)

Gustavo Cardoso

Gustavo Cardoso

Com esta frase Paul Mason terminava o seu apontamento para o Channel4 inglês sobre a situação na Grécia. Aliás, de repente, todos têm analogias para a Grécia, há quem fale de moscas e há quem fale de cirrose, o que não é nada tranquilizante pois pode querer dizer que a Europa é alcoólica.

Todos os que exercem poder na Europa parecem preferir que a Grécia desapareça, pois tudo seria certamente mais simples sem esta grande “chatice” que é ter um “problema grego” – até há quem designe o país como cirrose, levando a questionar se a Grécia é o fígado da Europa e levando a concluir que a Europa é alcoólica em último grau e que, portanto, ou faz uma cura forçada, um transplante imediato ou morre.

Mas também o cidadão normal parece contagiado por sentir que é necessário ter uma opinião sobre a Grécia. “Eles que saiam”, li num comentário num jornal online, outros dizem no Facebook  “não vou pagar reformas aos 55 anos quando aqui já vamos nos sessentas”.

No fim de contas, como sempre, há desinformação a rodos, lançada pelos próprios intervenientes e muitas vezes mesmo por aqueles que deveriam zelar pela normalidade, isto é, os próprios governantes dos países Europeus e altos funcionários da Comissão.

Nestas negociações não há inocentes em lado nenhum, as posições estão polarizadas e há uma luta a ganhar e ou ganha a Grécia ou ganham os que se lhe opõem. Mas será mesmo assim? Talvez seja mais complicado do que isso.

À primeira vista tudo parece muito claro, há um país que se endividou brutalmente e portanto tem de ser responsabilizado e pagar. Certo? Talvez não. Indo por partes do geral para o particular.

Há várias lutas políticas em campo e depois há a população grega. Não quero dizer que a Grécia é o equivalente à Espanha de 1936 porque é forte demais, mas no campo das ideias talvez seja um bom ponto de partida para fazer um reset à espuma dos dias e ir mais fundo, onde está o que interessa para compreender o que está em jogo.

Em 1936 na Guerra Civil espanhola opunham-se duas forças no terreno, com aliados estrangeiros extremistas presentes em cada lado à direita e à esquerda e outros ausentes, como as democracias europeias. Escolho a Guerra Civil Espanhola porque foi definidora da evolução política dos anos seguintes na Europa tal como me parece que será a Grécia hoje.

Em 2015 não temos guerra com armas na Grécia (ou pelo menos ainda não a temos), mas temos uma guerra de palavras em curso entre duas posições extremadas, a do Syriza e a dos partidos que governaram antes dele (direita e esquerda, Nova Democracia e PASOK e todos os que se formaram após a sua desintegração).

Não vale a pena perder muito tempo com esta parte da história, pois após sete anos de austeridade em Portugal e na Europa toda a gente já teve tempo de escolher lados e assumir-se como Austeritário e apoiar governos que professam essas políticas ou assumir-se como não Austeritário e estar do lado dos que acham que a política deve ser de crescimento e ter austeridade quanto baste.

No entanto, porque o governo grego resolveu desafiar tudo o que se assumiu como correcto de ser feito sob a bandeira da austeridade ao nível político europeu e também na Itália, Espanha, Portugal e Irlanda, estamos realmente num momento definidor. Ou se começa de novo e se faz um mea culpa parcial, iniciando-se um novo período ou se continuará em frente para o ano sete da era da euro-austeridade.

Hoje estamos já num local muito distante da discussão sobre quem teve a culpa da crise ter surgido, se os governantes, se os bancos, se outra coisa qualquer. Neste momento essa é uma discussão que perdeu relevância, o que se está a discutir é se a solução maioritariamente adoptada na zona euro para lidar com a crise deve ou não continuar a ser a austeridade só por si.

A questão central é que os actuais governos alemão, português ou espanhol, os partidos que fazem parte de coligações no governo na Holanda e Finlândia, bem como ex-governantes nacionais, agora nas instituições europeias, têm bastante a perder se a base da sua política for colocada em causa de forma abrupta com uma qualquer viragem política rápida na Grécia – tanto mais que há eleições ainda a serem feitas em Portugal e Espanha este ano.

Por outro lado, toda a gente já percebeu que instituições como o FMI estão obsoletas, pois não estão estruturadas para lidar com países com moeda única. O que aconteceu durante as troikas foi um exercício de incompetência atroz por parte de executantes que não detinham o saber necessário para lidar com um fenómeno com o qual não se haviam antes confrontado. Uma vez largados no terreno apenas lhes restava continuar em frente para não perder a face.

De algum modo, parte dos problemas políticos actuais com a Grécia advém dessa incapacidade de encontrar uma forma de o FMI não perder a face na Europa para que possa continuar a ter face noutras geografias mundiais.

E quanto à Grécia? São os gregos uns bandidos ou não?

Acho que é bem mais complicado do que isso. Há várias Grécias. Há a Grécia que militarmente é hoje o primeiro bastião europeu contra um possível avanço do Estado Islâmico, agora que a NATO confia menos na Turquia, e que levou um alto funcionário do Departamento de Estado Norte Americano a dizer a um alto funcionário dos Negócios Estrangeiros alemão que “os nossos rapazes não morreram nas praias da Normandia para vocês fazerem o que estão a fazer” com os gregos.

Há também a Grécia de um Estado que foi sempre fraco e presa de interesses dos mais poderosos gregos, que disfarçou a cleptocracia com distribuição de benesses injustificadas a diferentes partes da classe média-baixa à classe média alta, sempre com a conivência de Bruxelas que desviou durante quase três décadas o seu olhar da realidade grega.

Há também a Grécia do endividamento e do sobre-endividamento ao longo das décadas de governos socialistas e de direita, os quais sucederam à ditadura dos coronéis e à guerra civil grega – mas tudo isso já foi há muito tempo e já nada interessa, dirão alguns, mas interessa, é claro que interessa.

É verdade que o governo grego actual é responsável pelas medidas tomadas pelos governos gregos anteriores, assim como o governo alemão actual é responsável pelas medidas tomadas pelos governos alemães anteriores, mesmo indo até ao período nazi. É assim que funciona a responsabilidade dos estados, quando se demonstra que a responsabilidade existe.

E o que acontece quando se demonstra que nos Balcãs, para além de termos tido guerras com limpeza étnica na ex-Jugoslávia tivermos também governos democraticamente eleitos e praticantes de cleptocracia, como na Grécia? Muito provavelmente teremos de olhar de outra forma para tudo isto porque teremos a curto prazo responsabilizações criminais ao nível do Tribunal Europeu e que irão envolver políticos gregos, políticos da Europa do norte e empresários vários – tal como a comissão do parlamento Grego sobre a dívida ilegal confirmou na passada quarta-feira.

Tudo isto é Grécia e tudo isto não é uma mera questão de culpados e inocentes, de bons e maus, da esquerda ser pior ou melhor do que a direita e vice-versa.

É precisamente por isso que importa perceber que há actualmente pelo menos três formas de olhar a Grécia a partir de Portugal. A primeira é “ainda bem que não somos gregos”, a segunda corresponderá a algo como “não são gente séria, o governo e muitos deles”. No entanto, são duas formas pouco inteligentes de olhar a Grécia.

A primeira é pouco inteligente porque basta algo mudar para passarmos rapidamente a dizer algo como “pois, nós e os gregos, o que nos havia de calhar, má sorte a nossa” – é o tradicional pela boca morre o peixe. Nada do que se passar na Grécia deixará incólume Portugal, quem disser o contrário pode fazê-lo porque o papel dos políticos é tranquilizar a população, mas no fundo estará, se estiver a actuar bem, a colocar em acção um plano de contingência para minorar os efeitos do que se passar na Grécia.

A segunda forma de olhar a Grécia é, igualmente, pouco inteligente porque também nós temos muitos governos e políticos de quem nada nos orgulhamos e generalizar face aos gregos é o mesmo que dizer que também gostamos de ser gozados por todos aqueles que, pela Europa fora, consideram os portugueses menos europeus do que eles e constroem as várias narrativas sobre as inferioridades dos povos do Sul.

A forma inteligente de olhar a Grécia é perceber que enquanto não mudarmos a actual abordagem política e económica (para uma outra qualquer) estaremos a dizer que achamos bem que, como refere o programa Solidarity4all grego, exista um país onde: 33% da população esteja sem acesso à segurança social e cuidados de saúde; haja um aumento de 40% na mortalidade infantil; cerca de 20% de crianças tenham deixado se ser vacinada; 290 mil crianças tenham ambos os pais desempregados; 17% da população seja incapaz de suprir as despesas de alimentação; 44% da população viva abaixo do limiar de pobreza; ocorra uma quebra de 30% dos rendimentos da famílias;  mais de 50% dos jovens estejam sem emprego; ocorram reduções de pensões na ordem dos 45%; a redução salarial seja em media de 38% e mais e mais.

Se acharmos bem que algum país esteja assim e que a culpa é dos que votam nos governos que elegem e escolhem, que a culpa não está também nas instituições europeias, no FMI e nos nossos próprios governos, estaremos, muito provavelmente, a candidatarmos-nos também a sermos apenas mais um país como a Grécia algum destes dias.

E, na pior das hipóteses, estaremos a dizer que a Europa da euro-zona não tem outro futuro que não seja continuar a viver um pesadelo que será light numas regiões e muito dark noutras, que não há nada a fazer quanto às desigualdades, que é mesmo assim, que há uns que têm e outros que não têm, há os de cima e os de baixo e ai de quem nasce em baixo.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque este governo actual não é feito pelos mesmos políticos gregos que levaram o país ao endividamento que hoje tem.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque nem todos os políticos que estão em Bruxelas hoje são os mesmos que comandaram o aumento da dívida e o teste e experimentação de políticas de aprendiz de feiticeiro na Grécia.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque o FMI necessita de uma desculpa europeia para limpar a face dos seus próprios erros.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque não se pode brincar com a Síria e Ucrânia ao virar da esquina.

As dívidas pagam-se, mas podem pagar-se ao longo de cem anos como os ingleses fizeram após as guerras napoleónicas. Se não dermos essa oportunidade à Grécia vamos todos pagar muito mais caro e não será só em capital e juros, será também em democracia, em liberdades, em vidas e em falta de paz.

Este é um momento definidor e não podemos perder esta oportunidade porque pode mesmo, durante muito tempo, não haver outra.

Ser hoje pró-europeu é acreditar que é possível outra Europa diferente da vivida nos últimos sete anos e que sem resolver os problemas da Grécia não haverá outra Europa. Não há uma mosca grega na sopa europeia, há sim uma oportunidade grega para a Europa.

Professor do ISCTE-IUL, em Lisboa, e investigador do College d’Études Mondiales na FMSH, em Paris