A política é um gozo

Gustavo Cardoso

        Gustavo Cardoso

Na Era da Informação e das redes sociais gozamos de forma diferente, mas os melhores alvos continuam a ser os políticos e as políticas.

Se o leitor é um dos mais de cinco milhões de utilizadores de Facebook em Portugal e no seu mural não surgiu nenhum cartaz do PaF ou do PS “adulterado” pela criatividade de alguém, então ou há algum problema com as pessoas que escolhe para seus amigos ou o algoritmo do Facebook reconhece em si alguém não propenso a rir-se.

Uma das actividades mais recompensadoras que existe é o gozar com cartazes políticos. Porquê? Porque gozar com coisas sérias e com pessoas que, para exercerem a sua actividade, têm de aparentar ser sérias, como os políticos, dá muito mais gozo do que fazê-lo com outras.

Mas na Era da Informação e das redes sociais gozamos de forma diferente e os políticos e as campanhas também cometem erros de forma diferente.

O que aconteceu primeiro com o PSD, quando foi anunciado o azarado nome da coligação “PaF” [Portugal à Frente] e o associar do mesmo às estaladas dadas pelo Astérix aos romanos; e depois com o PS e os seus cartazes é normal em todas as épocas mas é diferente hoje nas sociedades em rede.

O que aconteceu foi o explodir da criatividade em rede, de quem gosta de mexer no Photoshop para alterar cartazes e mensagens, sejam os cartazes do PaF com aviões a levarem 500 mil portugueses para fora ou cartazes do PS com o Sapo Cocas a queixar-se de não conseguir esquecer a Miss Piggy.

A criatividade existe em todos nós mas a perspectiva de a partilhar com milhões de outras pessoas no passa palavra visual dos posts do Facebook incentiva-nos e a força da imagem é muito mais forte do que a força das palavras.

O que assistimos nos últimos dias é apenas o materializar do slogan “As pessoas são a mensagem”. O slogan que lentamente substituiu “O meio é a mensagem”, com o qual a maioria dos actuais protagonistas políticos cresceu. Ou seja, na Era da Informação o meio já não é a mensagem.

A política hoje tem de ser feita (e os cartazes desenhados) sabendo que se irá perder imediatamente o controlo sobre a mensagem escolhida, pois se as pessoas não concordarem com a mensagem irão alterá-la e partilhar de forma diferente o cartaz que a continha.

Está lógica é irreversível e não controlável, pois faz parte do ADN da Era da Informação. Se as campanhas quiserem ter algum tipo de controlo sobre as mensagens, então terão de ser elas próprias a gozar consigo mesmas e com os seus candidatos.

Ou seja, terá de ser a campanha de Passos Coelho e o PaF a utilizar o “por acaso a ideia foi minha” e António Costa o lema “Costa Concórdia”.

Aliás, da mesma forma que Jon Stewart e os Gato Fedorento demonstram, na Era da Informação a mensagem política chega mais facilmente se a mensagem for humorística e a fronteira entre o conteúdo sério e a forma de gozar com ele for bem conseguida.

Mas se o controlo sobre a imagem e a sua mensagem não é mais possível também os comportamentos de escrita dos políticos para se esquivarem ao gozo ou à crítica têm de ser alterados.

Para fazer política não é mais possível escrever por impulso no Facebook. Ou seja, os políticos têm de utilizar o seu Facebook pessoal como se cada post fosse uma auto-resposta a uma auto-pergunta que um qualquer jornal lhe tivesse encarregado de fazer para ser publicado no suplemento de Verão.

Não é mais possível escrever e esperar não ser notado e é-o ainda mais quando se escreve em apoio de alguém ou algo e depois se apaga o post.

Nesta época de Verão há muito mais tempo para olhar para o que os outros escrevem e depois partilhar, nem que seja apenas depois do jantar – mais olhos no ecrã aumentam a probabilidade de nada passar despercebido e os mais novos jornalistas estão muito mais atentos ao Facebook.

A Era da informação e a época estival tornam a política mais complicada de gerir para os políticos mas também para os ex-independentes que aceitaram protagonizar listas partidárias, tal como se escolheu fazer no PS e no PaF.

Pois, se os políticos mais profissionalizados, ou seja, aqueles que dedicam mais tempo à política, têm presente que tudo o que dizem e escrevem é política, muitos dos independentes esquecem-se que tudo o que antes publicaram online passará agora a ser também política e, como tal, potencial título de jornal.

Todas as entrevistas, todos os posts agora publicados e todos os já arquivados serão escrutinados, pois a eterna contradição entre academia e política é ainda mais exacerbada pela Era da Informação.

A política procura as fragilidades criadas pelas contradições de quem faz política, ou seja, como é possível hoje defender o contrário de ontem e esperar que se acredite no que se diz? Por sua vez, a academia vive do evoluir e do alterar do que se pensava antes, actualizando a verdade de ontem para a verdade de hoje.

No entanto, na Era da Informação os independentes muito mais rapidamente deixam de ser tratados como tal pela imprensa, quase que coincidindo esse retirar informal do título de independente com o aceitar de um lugar numa lista de deputados de um partido. E isso é normal, é a política na Era da Informação.

Podem as tendências da Era da informação ser ainda mais fortes em tempo de Verão? A resposta tem de ser cautelosa.

Se a silly season tende a afastar a política, já os Verões que antecedem períodos eleitorais tendem a criar momentos ainda mais propícios para explorar o humor político, as falhas humanas dos ex-independentes e mesmo para abrir espaço para caricaturar o candidato ou candidata presidencial que o não seria há meses atrás.

A combinação de pré-campanha, cartazes, políticos e praia podem até fazer-nos imaginar que seria normal e expectável que os turistas alemães e finlandeses que nos visitam nesta época estival percorressem as ruas de Albufeira gritando, para os transeuntes portugueses, que os ordenados dos empregados de bar e restaurantes são já demasiado elevados, que o FMI é que tem razão e que não vai haver nenhuma devolução de sobretaxas e que, ainda por cima, não se deviam queixar da austeridade porque aqui se trabalha muito pouco.

Mas sendo Verão em época de eleições tudo pode mesmo acontecer, pelo que o melhor é ficar à espera e aproveitar para fazer ironia com partidos, políticas e candidatos presidenciais porque gozando também se faz política.

Professor Catedrático do ISCTE-IUL, em Lisboa, e investigador do College d’Études Mondiales na FMSH, em Paris

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Uma mosca grega na sopa europeia

(Gustavo Cardoso, in Público, 18/06/2015)

Gustavo Cardoso

     Gustavo Cardoso

Com esta frase Paul Mason terminava o seu apontamento para o Channel4 inglês sobre a situação na Grécia. Aliás, de repente, todos têm analogias para a Grécia, há quem fale de moscas e há quem fale de cirrose, o que não é nada tranquilizante pois pode querer dizer que a Europa é alcoólica.

Todos os que exercem poder na Europa parecem preferir que a Grécia desapareça, pois tudo seria certamente mais simples sem esta grande “chatice” que é ter um “problema grego” – até há quem designe o país como cirrose, levando a questionar se a Grécia é o fígado da Europa e levando a concluir que a Europa é alcoólica em último grau e que, portanto, ou faz uma cura forçada, um transplante imediato ou morre.

Mas também o cidadão normal parece contagiado por sentir que é necessário ter uma opinião sobre a Grécia. “Eles que saiam”, li num comentário num jornal online, outros dizem no Facebook  “não vou pagar reformas aos 55 anos quando aqui já vamos nos sessentas”.

No fim de contas, como sempre, há desinformação a rodos, lançada pelos próprios intervenientes e muitas vezes mesmo por aqueles que deveriam zelar pela normalidade, isto é, os próprios governantes dos países Europeus e altos funcionários da Comissão.

Nestas negociações não há inocentes em lado nenhum, as posições estão polarizadas e há uma luta a ganhar e ou ganha a Grécia ou ganham os que se lhe opõem. Mas será mesmo assim? Talvez seja mais complicado do que isso.

À primeira vista tudo parece muito claro, há um país que se endividou brutalmente e portanto tem de ser responsabilizado e pagar. Certo? Talvez não. Indo por partes do geral para o particular.

Há várias lutas políticas em campo e depois há a população grega. Não quero dizer que a Grécia é o equivalente à Espanha de 1936 porque é forte demais, mas no campo das ideias talvez seja um bom ponto de partida para fazer um reset à espuma dos dias e ir mais fundo, onde está o que interessa para compreender o que está em jogo.

Em 1936 na Guerra Civil espanhola opunham-se duas forças no terreno, com aliados estrangeiros extremistas presentes em cada lado à direita e à esquerda e outros ausentes, como as democracias europeias. Escolho a Guerra Civil Espanhola porque foi definidora da evolução política dos anos seguintes na Europa tal como me parece que será a Grécia hoje.

Em 2015 não temos guerra com armas na Grécia (ou pelo menos ainda não a temos), mas temos uma guerra de palavras em curso entre duas posições extremadas, a do Syriza e a dos partidos que governaram antes dele (direita e esquerda, Nova Democracia e PASOK e todos os que se formaram após a sua desintegração).

Não vale a pena perder muito tempo com esta parte da história, pois após sete anos de austeridade em Portugal e na Europa toda a gente já teve tempo de escolher lados e assumir-se como Austeritário e apoiar governos que professam essas políticas ou assumir-se como não Austeritário e estar do lado dos que acham que a política deve ser de crescimento e ter austeridade quanto baste.

No entanto, porque o governo grego resolveu desafiar tudo o que se assumiu como correcto de ser feito sob a bandeira da austeridade ao nível político europeu e também na Itália, Espanha, Portugal e Irlanda, estamos realmente num momento definidor. Ou se começa de novo e se faz um mea culpa parcial, iniciando-se um novo período ou se continuará em frente para o ano sete da era da euro-austeridade.

Hoje estamos já num local muito distante da discussão sobre quem teve a culpa da crise ter surgido, se os governantes, se os bancos, se outra coisa qualquer. Neste momento essa é uma discussão que perdeu relevância, o que se está a discutir é se a solução maioritariamente adoptada na zona euro para lidar com a crise deve ou não continuar a ser a austeridade só por si.

A questão central é que os actuais governos alemão, português ou espanhol, os partidos que fazem parte de coligações no governo na Holanda e Finlândia, bem como ex-governantes nacionais, agora nas instituições europeias, têm bastante a perder se a base da sua política for colocada em causa de forma abrupta com uma qualquer viragem política rápida na Grécia – tanto mais que há eleições ainda a serem feitas em Portugal e Espanha este ano.

Por outro lado, toda a gente já percebeu que instituições como o FMI estão obsoletas, pois não estão estruturadas para lidar com países com moeda única. O que aconteceu durante as troikas foi um exercício de incompetência atroz por parte de executantes que não detinham o saber necessário para lidar com um fenómeno com o qual não se haviam antes confrontado. Uma vez largados no terreno apenas lhes restava continuar em frente para não perder a face.

De algum modo, parte dos problemas políticos actuais com a Grécia advém dessa incapacidade de encontrar uma forma de o FMI não perder a face na Europa para que possa continuar a ter face noutras geografias mundiais.

E quanto à Grécia? São os gregos uns bandidos ou não?

Acho que é bem mais complicado do que isso. Há várias Grécias. Há a Grécia que militarmente é hoje o primeiro bastião europeu contra um possível avanço do Estado Islâmico, agora que a NATO confia menos na Turquia, e que levou um alto funcionário do Departamento de Estado Norte Americano a dizer a um alto funcionário dos Negócios Estrangeiros alemão que “os nossos rapazes não morreram nas praias da Normandia para vocês fazerem o que estão a fazer” com os gregos.

Há também a Grécia de um Estado que foi sempre fraco e presa de interesses dos mais poderosos gregos, que disfarçou a cleptocracia com distribuição de benesses injustificadas a diferentes partes da classe média-baixa à classe média alta, sempre com a conivência de Bruxelas que desviou durante quase três décadas o seu olhar da realidade grega.

Há também a Grécia do endividamento e do sobre-endividamento ao longo das décadas de governos socialistas e de direita, os quais sucederam à ditadura dos coronéis e à guerra civil grega – mas tudo isso já foi há muito tempo e já nada interessa, dirão alguns, mas interessa, é claro que interessa.

É verdade que o governo grego actual é responsável pelas medidas tomadas pelos governos gregos anteriores, assim como o governo alemão actual é responsável pelas medidas tomadas pelos governos alemães anteriores, mesmo indo até ao período nazi. É assim que funciona a responsabilidade dos estados, quando se demonstra que a responsabilidade existe.

E o que acontece quando se demonstra que nos Balcãs, para além de termos tido guerras com limpeza étnica na ex-Jugoslávia tivermos também governos democraticamente eleitos e praticantes de cleptocracia, como na Grécia? Muito provavelmente teremos de olhar de outra forma para tudo isto porque teremos a curto prazo responsabilizações criminais ao nível do Tribunal Europeu e que irão envolver políticos gregos, políticos da Europa do norte e empresários vários – tal como a comissão do parlamento Grego sobre a dívida ilegal confirmou na passada quarta-feira.

Tudo isto é Grécia e tudo isto não é uma mera questão de culpados e inocentes, de bons e maus, da esquerda ser pior ou melhor do que a direita e vice-versa.

É precisamente por isso que importa perceber que há actualmente pelo menos três formas de olhar a Grécia a partir de Portugal. A primeira é “ainda bem que não somos gregos”, a segunda corresponderá a algo como “não são gente séria, o governo e muitos deles”. No entanto, são duas formas pouco inteligentes de olhar a Grécia.

A primeira é pouco inteligente porque basta algo mudar para passarmos rapidamente a dizer algo como “pois, nós e os gregos, o que nos havia de calhar, má sorte a nossa” – é o tradicional pela boca morre o peixe. Nada do que se passar na Grécia deixará incólume Portugal, quem disser o contrário pode fazê-lo porque o papel dos políticos é tranquilizar a população, mas no fundo estará, se estiver a actuar bem, a colocar em acção um plano de contingência para minorar os efeitos do que se passar na Grécia.

A segunda forma de olhar a Grécia é, igualmente, pouco inteligente porque também nós temos muitos governos e políticos de quem nada nos orgulhamos e generalizar face aos gregos é o mesmo que dizer que também gostamos de ser gozados por todos aqueles que, pela Europa fora, consideram os portugueses menos europeus do que eles e constroem as várias narrativas sobre as inferioridades dos povos do Sul.

A forma inteligente de olhar a Grécia é perceber que enquanto não mudarmos a actual abordagem política e económica (para uma outra qualquer) estaremos a dizer que achamos bem que, como refere o programa Solidarity4all grego, exista um país onde: 33% da população esteja sem acesso à segurança social e cuidados de saúde; haja um aumento de 40% na mortalidade infantil; cerca de 20% de crianças tenham deixado se ser vacinada; 290 mil crianças tenham ambos os pais desempregados; 17% da população seja incapaz de suprir as despesas de alimentação; 44% da população viva abaixo do limiar de pobreza; ocorra uma quebra de 30% dos rendimentos da famílias;  mais de 50% dos jovens estejam sem emprego; ocorram reduções de pensões na ordem dos 45%; a redução salarial seja em media de 38% e mais e mais.

Se acharmos bem que algum país esteja assim e que a culpa é dos que votam nos governos que elegem e escolhem, que a culpa não está também nas instituições europeias, no FMI e nos nossos próprios governos, estaremos, muito provavelmente, a candidatarmos-nos também a sermos apenas mais um país como a Grécia algum destes dias.

E, na pior das hipóteses, estaremos a dizer que a Europa da euro-zona não tem outro futuro que não seja continuar a viver um pesadelo que será light numas regiões e muito dark noutras, que não há nada a fazer quanto às desigualdades, que é mesmo assim, que há uns que têm e outros que não têm, há os de cima e os de baixo e ai de quem nasce em baixo.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque este governo actual não é feito pelos mesmos políticos gregos que levaram o país ao endividamento que hoje tem.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque nem todos os políticos que estão em Bruxelas hoje são os mesmos que comandaram o aumento da dívida e o teste e experimentação de políticas de aprendiz de feiticeiro na Grécia.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque o FMI necessita de uma desculpa europeia para limpar a face dos seus próprios erros.

Há que dar uma oportunidade de fazer diferente do que tem sido feito na Grécia, porque não se pode brincar com a Síria e Ucrânia ao virar da esquina.

As dívidas pagam-se, mas podem pagar-se ao longo de cem anos como os ingleses fizeram após as guerras napoleónicas. Se não dermos essa oportunidade à Grécia vamos todos pagar muito mais caro e não será só em capital e juros, será também em democracia, em liberdades, em vidas e em falta de paz.

Este é um momento definidor e não podemos perder esta oportunidade porque pode mesmo, durante muito tempo, não haver outra.

Ser hoje pró-europeu é acreditar que é possível outra Europa diferente da vivida nos últimos sete anos e que sem resolver os problemas da Grécia não haverá outra Europa. Não há uma mosca grega na sopa europeia, há sim uma oportunidade grega para a Europa.

Professor do ISCTE-IUL, em Lisboa, e investigador do College d’Études Mondiales na FMSH, em Paris