Um mundo virado de cabeça para baixo

(Alastair Crooke in SakerLatam.org, 21/09/2026)


Será que as civilizações conseguem reunir os fragmentos de percepções e conhecimentos mais antigos para fornecer o contexto que torne o discurso moral novamente compreensível?

(Esboço de uma palestra proferida na Escola Superior de Economia, em Moscou, em 07 de setembro de 2026.)

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O futuro global é frequentemente descrito como um mundo multipolar ou multinodal, com a suposição implícita de que os Estados se dariam melhor – e resolveriam suas diferenças mais facilmente por meio do diálogo do que pela guerra.

Essa era uma ideia amplamente difundida nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Livros foram escritos para sugerir que a guerra não poderia acontecer: o texto definitivo sobre esse conceito, publicado originalmente em 1910 como A Grande Ilusão, tornou-se um best-seller internacional

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O lobby israelita vangloria-se do seu domínio sobre os EUA

(Paul Craig Roberts, in PaulCraigRoberts.org, 26/09/2026, Trad. Estátua de Sal)


Os Estados Unidos não são verdadeiramente um país. São uma província de Israel.


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Elliot Brandt, CEO da AIPAC – o lobby israelita – que tem o privilégio de não ter de se registar como lobby estrangeiro, foi apanhado numa gravação a gabar-se de como é fácil para ele controlar o presidente dos Estados Unidos e os funcionários de segurança nacional de Trump – o conselheiro de segurança nacional e secretário de Estado Marco Rubio, o chefe de gabinete adjunto da Casa Branca para a política Stephen Miller, o diretor da CIA John Ratcliffe e outros.

Numa surpreendente gravação que foi divulgada, ouve-se o CEO da AIPAC, Elliot Brandt, a gabar-se abertamente de como o poderoso lobby pró-Israel manipula figuras-chave do círculo íntimo de segurança nacional de Donald Trump, pressionando-as a apoiar outra guerra custosa e impopular no Médio Oriente em nome de Israel.

O áudio – que pode ouvir-se aqui -, gerou indignação online, alimentando acusações de que a política externa dos EUA está a ser ditada não por interesses americanos, mas por uma máquina de lobby alinhada com interesses estrangeiros com influência irrestrita. Os críticos afirmam que a fuga é mais uma prova de que os Estados Unidos não estão apenas empenhados — estão ocupados.

O coronel norte-americano Lawrence Wilkerson, antigo chefe de gabinete do general de quatro estrelas Colin Powell, secretário de Estado durante a administração de George W. Bush, afirmou:

“Vi a Mossad assumir o controlo do Pentágono em 2002. Não precisaram de qualquer identificação para entrar no edifício através do rio. Subiram até Douglas Feith, o Subsecretário de Defesa para as Políticas — o terceiro homem mais poderoso do Departamento de Defesa. Ocasionalmente, iam ter com Paul Wolfowitz, o Secretário Adjunto da Defesa.” 

Tanto o segundo como o terceiro cargos mais poderosos do Pentágono eram ocupados por judeus sionistas que apoiavam a hegemonia do Grande Israel no Médio Oriente.   Conseguiram levar os Estados Unidos à guerra no Médio Oriente em prol da agenda sionista do Grande Israel – do Nilo ao Eufrates, e hoje do Nilo ao Paquistão.   O 11 de Setembro foi o seu “Pearl Harbor” orquestrado, que lhes permitiu lançar a sua “guerra contra o terror”, que na realidade foi a destruição do Iraque, da Líbia e da Síria pelos Estados Unidos, países que representavam obstáculos à expansão de Israel.   Atualmente, o lobby israelita mantém os americanos em guerra com o Irão, uma guerra que até hoje deixou o Irão como vencedor. 

Trump está ressentido com a derrota militar que trouxe aos Estados Unidos.   Ele tentou esconder isso no meio das suas bravatas. 

Netanyahu, sabendo que Trump não aceita a derrota, preparou o terreno para que Trump escapasse à derrota salvando as aparências com um ataque nuclear ao Irão.  Assim, a ameaça de Trump na terça-feira, 22 de Setembro, perante o mundo inteiro na Assembleia Geral da ONU, deu ao Irão até depois das eleições intercalares nos EUA, a 3 de Novembro, para se render ou ser aniquilado. A aniquilação do Irão exige o uso de armas nucleares por Trump ou por Israel.

O que o mundo testemunhou na passada terça-feira foi o poder absoluto de Israel sobre a política externa norte-americana.   A administração Trump não serve os Estados Unidos.   Não serve os seus aliados da NATO.   Não serve a paz nem a justiça.   A administração Trump serve Israel em detrimento não só de todos os americanos, mas também do mundo inteiro.

No dia 3 de novembro, saberemos qual a percentagem de americanos, se é que existe alguma, que compreende isto.

Fonte aqui.


As veias (re)abertas da América Latina

(Manuel Loff, in Público, 22/09/2026)


O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.


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Ainda sem sabermos se Lula consegue voltar a travar o assalto do neofascismo bolsonarista, reflitamos sobre a natureza da nova vaga ultradireitista que está a tomar conta da América Latina.

A reação às experiências progressistas que começaram na viragem do século não começou agora, com os Bolsonaro, Milei, Kast, o salvadorenho Bukele, o equatoriano Noboa, o colombiano Espriella. Se há 20/30 anos foi a vez dos neoliberais (Fernando Henrique Cardoso, Fox, Piñera, Macri), esta nova geração de ultrarreacionários encena essa mistura perversa de sinais exteriores de fortuna, religiosidade estridente e desfaçatez moral, narcisismo trumpista, militares nas ruas e prisões concentracionárias como as de Bukele. Não hesita, como se viu com Bolsonaro, em montar golpes de Estado para conter o “comunismo”, que é aquilo que eles acham já ter sido, com Lula, os Kirchner, Morales, Correa, López Obrador, mais recentemente Boric ou Petro, as políticas redistributivas tipicamente social-democratas, que reforçaram a intervenção social do Estado mas não tocaram na estrutura da propriedade. A desigualdade classista e étnica, que é intrínseca a toda a ordem social das Américas (de facto, de todo o mundo capitalista, colonial e pós-colonial), manteve-se.

Do protetorado imposto (e aceite) à Venezuela pós-chavista até ao desabrido apoio ao Bolsonaro pai e aos filhos Flávio (o agora candidato) e Eduardo (o conspirador exilado nos EUA), o neoimperalismo trumpista tem tudo a ver com isto. Mas há mais do que isso. E é bem visível no caso de Abelardo de la Espriella, o novo Presidente colombiano, advogado de clientes poderosos acusados de ligações a grupos paramilitares, narcotráfico e corrupção. O que prometeu quando tomou posse, a 7 de agosto, diz tudo desta nova vaga fascizante que percorre as Américas: cortar impostos sobre os mais ricos, retomar a guerra civil, reatar relações diplomáticas e comerciais com Israel (rompidas pelo Presidente Petro em protesto por Gaza) e deixar de apoiar a denúncia de genocídio no Tribunal Internacional de Justiça.

Três dias depois, um terramoto matou mais de 400 pessoas no seu país, mas Espriella bloqueou imediatamente a ajuda de centenas de socorristas oferecida pelo México, Brasil e China, para, com toda a pompa, receber 82 membros do Exército de Israel. Um deles, oficial do mesmo exército que matou e deixou soterradas 80 mil pessoas em Gaza, “utilizou como cenário as ruínas do Hospital Universitario del Valle, em Cali, onde havia dezenas de mortos sob os escombros, para gravar a peça de propaganda mais cínica e insultuosa” (Iván Olano, CTXT.ES, 4.9.2026).

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O que é revelador nesta história é como o mais completo cinismo do Estado de Israel — organizar um genocídio à nossa frente e, ao mesmo tempo, encenar solidariedade humanitária — se promove como modelo a seguir.

Pergunta Iván Olano: “Por que razão as elites colombianas — e as de muitos outros países — demonstram tanto entusiasmo perante o genocídio perpetrado por Israel em Gaza? Não é apenas por vocação colonial ou por simples obediência aos EUA: é porque isso concretiza as suas fantasias.”

Israel transformou-se, para as direitas dos nossos dias, dos liberais aos neofascistas, naquilo que representou a Alemanha imperial de 1914-18 e a nazi de 1939-45, para as direitas da primeira metade do século XX: um modelo superior de tecnologia da guerra, um supremacismo étnico associado a um discurso religioso obsessivo, que não hesita em recorrer à violência genocida para concretizar um projeto político.

Um nacionalismo religioso sustentado numa “revolução tecnológica” que abre caminho ao que se tem chamado “tecnofascismo”. É isso o que constitui a “israelização” das nossas sociedades. E o que não falta são prosélitos deste modelo, como há dias Henrique Raposo, para quem “a Europa (…) está a aprender com os melhores: Israel”, e se mostra chocado com o “irracionalismo anti-israelita ou mesmo antijudeu que torna impossível as pessoas repararem que Israel é um aliado natural (…) das democracias e que todos nós vamos beneficiar da tecnologia militar israelita?” (Expresso, 18.9.2026)

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990