Entre a Guerra e a Paz – Com o Major-General Carlos Branco

(Major-General Carlos Branco, in Youtube, 04/07/2026)


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No momento em que a Ucrânia se aproxima da debacle após a queda de Kostyantynivka e do desmoronamento da sua linha de fortificações, Zelensky e o Ocidente continuam em estado de negação. Vi há pouco na CNN dois aldrabões encartados, o Serronha e o pseudo jornalista, Rolando Santos, a jurarem a pés juntos que a Rússia está quase de joelhos!! A vergonha está tão cara, o preço está pela hora da morte, que as duas alimárias – mesmo com as avenças chorudas da CNN/CIA -, não a conseguem comprar e, por isso, vergonha na cara não tem nenhuma.

A verdade sobre a queda de Kostyantynivka e das suas implicações pode ser vista na intervenção de ontem, 04-07, do Major-general Agostinho Costa, que pode ser vista aqui, “uma prenda de Putin para Trump que é do tamanho de Évora”, diz o Major-general.

E num registo mais alargado, análise estratégica do conflito, fica também outro contributo honesto e sabedor do Major-general Carlos Branco entrevistado pelo jornalista Miguel Szymanski, no seu podcast Guerra e Paz.

Estátua de Sal, 05/07/2026


A quem pertence a inteligência artificial?

(Juan Torres López, in Resistir, 04/07/2026)


 A quem pertence realmente a IA e quem tem, portanto, o direito de a governar e de enriquecer com ela?


Soube-se que Sam Altman, o CEO da OpenAI e impulsionador do ChatGPT, anda há meses a visitar gabinetes em Washington com uma proposta aparentemente muito generosa:   a criação, por parte do governo dos Estados Unidos, de um fundo financeiro público para que os cidadãos possam partilhar dos benefícios proporcionados pela inteligência artificial. Como era de esperar, Donald Trump saudou a iniciativa, afirmando que assim “o povo americano ficará muito rico”.

A proposta não só tem um truque, como é precisamente o contrário do que se deve fazer. A armadilha reside no facto de a OpenAI acumular mais de 12 000 milhões de dólares em prejuízos num único trimestre e as suas projeções internas apontarem para mais de 115 000 milhões até 2029. O que Altman está a pedir pode, portanto, tornar-se mais um resgate financeiro do que uma fonte de rendimentos para a maior parte da população.

Para compreender por que razão afirmo, além disso, que esta proposta é o oposto do que se deveria fazer, é necessário responder, em primeiro lugar, a uma pergunta que não parece suscitar grande interesse:   A quem pertence realmente a inteligência artificial e quem tem, portanto, o direito de a governar e de enriquecer com ela? Uma pergunta que obriga a responder previamente a outra questão fundamental e que, por mais surpreendente que possa parecer, não tem resposta satisfatória na economia contemporânea:   qual é a natureza económica da inteligência artificial?

Este artigo reúne as linhas gerais da introdução a um ensaio de próxima publicação, no qual procuro responder a esta segunda questão e onde analiso também as suas implicações.

A importância do assunto

A razão pela qual essa pergunta é importante é simples: da natureza económica da inteligência artificial depende quem deve apropriar-se dela sem a desnaturalizar, bem como as políticas a adotar para a regulamentar, os direitos a reconhecer sobre a sua utilização, os instrumentos fiscais a aplicar, os quadros jurídicos que a regem e, em última instância, quem deve beneficiar da sua existência e quem deve suportar os seus custos.

Determinar com rigor a natureza económica de um fenómeno ou processo nunca é algo anedótico ou neutro. Muito pelo contrário. Depende disso sabermos se está a ser utilizada de acordo com o que efetivamente é ou de forma desnaturalizada. E uma vez que a inteligência artificial já começou a reconfigurar simultaneamente os mercados de trabalho, as estruturas de poder empresarial, as relações entre Estados e as condições de vida de milhões de pessoas…, acertar ou errar na forma como é utilizada ou deve ser utilizada não é um formalismo. Trata-se de um problema de economia política com consequências históricas que já se está a tentar resolver, mas sem debate e, em grande medida, sem os instrumentos conceptuais adequados.

Existe uma quantidade ingente de literatura sobre a inteligência artificial, mas ainda está por resolver o que ela é do ponto de vista económico. Muitas análises parciais esclarecem aspetos concretos, mas não resolvem o problema na sua totalidade. Trata-se de uma lacuna importante que tem duas causas. Uma é a dificuldade intrínseca do problema. A outra é a influência das grandes potências, que têm interesse em manter a confusão conceptual: quem controla uma definição tira partido das consequências de a ter estabelecido de uma forma ou de outra.

A corrente dominante em economia tenta integrar a inteligência artificial como um fator adicional de produção, encaixando-a em categorias que não foram concebidas para a expressar e que distorcem a sua natureza. As análises mais especializadas procuram descobrir quais os efeitos da IA sobre o trabalho ou outros domínios da economia, mas sem se questionarem sobre o que ela é exatamente do ponto de vista económico. Outras, mais críticas (sobre o capitalismo de vigilância, o capitalismo de plataformas ou que descrevem o tecnofeudalismo), analisam bem o ecossistema em que a IA atua e que transforma, mas também sem examinar previamente a sua natureza económica. Até mesmo a encíclica papal Magnifica Humanitas, talvez a análise mais ambiciosa e de maior alcance público produzida recentemente sobre a IA, chega a conclusões de grande profundidade ética e filosófica, mas deixa por resolver aspetos essenciais, precisamente porque também não se propõe a determinação rigorosa da sua natureza económica. O diagnóstico moral sem a base económica fica a meio caminho.

A IA não é “uma coisa”

Quando aqui falo agora de inteligência artificial, refiro-me principalmente aos grandes modelos de propósito geral, aqueles que estão por trás do ChatGPT, do Gemini ou do Claude, que concentram de forma mais intensa todas as propriedades que fazem da IA algo economicamente novo.

Ora bem, a grande dificuldade em determinar analiticamente o que é a IA do ponto de vista económico reside no facto de não se tratar de algo de natureza unitária. Não é uma única coisa, mas sim um conjunto de elementos de natureza económica muito diferente. Os algoritmos e modelos são conhecimento formalizado com natureza de bem público; ou seja, cujo consumo por um indivíduo não impede o de outro e cuja reprodução pode ser feita de forma ilimitada sem qualquer custo. Os dados de treino são um recurso comum gerado socialmente e apropriado de forma privada. A infraestrutura computacional é capital fixo (não varia à medida que a produção varia) com tendência para o monopólio natural, dado o seu elevado custo e grande envergadura. A energia é uma mercadoria com efeitos externos ecológicos massivos que, geralmente, não são internalizados por quem os produz. O trabalho humano incorporado na IA é utilizado como fator tradicional, embora com tendência para se tornar invisível e muito precário. E a capacidade de tomar decisões de forma autónoma é algo sem precedentes na história económica:   uma função emergente do conjunto que rompe a distinção clássica entre fator produtivo (passivo deste ponto de vista) e agente económico (decisor).

Nenhuma das categorias de que hoje dispomos capta tudo isto no seu conjunto. Mas o problema não é apenas a heterogeneidade dos componentes. Reside principalmente no facto de a sua combinação produzir algo cuja natureza económica não se reduz à soma das suas partes. Provavelmente é a primeira vez na história que um único recurso económico integra, em tão elevado grau e simultaneamente, elementos de naturezas tão heterogéneas, fazendo-os interagir de forma dinâmica e autónoma.

Existe ainda uma característica que agrava decisivamente a questão da sua apropriabilidade. A IA aprende e evolui através da sua própria utilização e as suas propriedades não são estáveis, mas sim dinâmicas e resultado da sua aplicação. Quem se apropria hoje da IA não se apropria apenas das suas capacidades atuais, mas também da sua trajetória evolutiva futura. E esta, tal como a do passado, será construída com o uso e a contribuição de milhões de pessoas que, no entanto, podem não receber qualquer compensação ou reconhecimento por isso, se se permitir que a IA seja objeto de apropriação privada. Por outras palavras: apropriar-se da IA não é adquirir uma ferramenta ou um fator de produção convencional. É apropriar-se da capacidade de tirar partido dos lucros futuros que ela produzir, da contribuição de terceiros e do poder de agência, ou seja, o poder de tomar decisões futuras que afetarão todos os seres humanos.

A conclusão que ninguém quer tirar

De tudo isto decorre a conclusão que deveria condicionar o desenvolvimento e a utilização da IA:   esta não pode ser objeto de apropriação privada sem que essa apropriação constitua uma expropriação daquilo que, por natureza, pertence a toda a humanidade. Quando o valor presente e futuro de um recurso depende inseparavelmente de uma contribuição coletiva contínua que nenhum proprietário individual pode gerar por si só, é economicamente incoerente tratá-lo como um ativo exclusivamente privado. Se assim for, a sua apropriação privada entra em contradição com a natureza económica do recurso e desnaturaliza-o, impedindo assim que a inteligência artificial desenvolva todas as suas possibilidades de desenvolvimento e elevando extraordinariamente os seus custos privados e coletivos.

Poder-se-ia dizer que os grandes modelos de linguagem requerem, para a sua construção, GPUs, energia e engenheiros que podem ser apropriados de forma privada sem desnaturalizar a essência da IA que acabámos de assinalar. É verdade. Mas esses são os seus fatores de produção, não a sua matéria-prima cognitiva. O que lhes confere capacidade e inteligência, o que confere o seu principal valor à IA, é o conhecimento acumulado por milhões de seres humanos ao longo de séculos, com o qual os seus modelos são treinados. Essa é a sua verdadeira matéria-prima. E ninguém pediu permissão para a utilizar, nem ninguém paga por ela.

A matéria-prima da IA é o património intelectual e cultural de toda a humanidade. Não pertence a Altman, nem ao Google, nem a nenhum Estado em particular. Pertence a todos, e é exatamente isso que permite reconhecer a inteligência artificial como algo cuja natureza é a de um bem comum. Uma conclusão a que se pode chegar a partir da filosofia, da ética ou da política, mas que, na minha opinião, ganha muito mais valor quando se chega a ela a partir da análise económica.

Além disso, a IA é um bem comum de um tipo radicalmente novo:   um bem que não se esgota com o uso, mas que cresce com ele; que não tem fronteiras nacionais porque a sua matéria-prima é universal; que tem capacidade para substituir o trabalho cognitivo humano numa escala sem precedentes; e que aprende e cresce por si próprio. Nenhum outro recurso possuía anteriormente essas características em conjunto. Embora seja verdade que alguns dos seus elementos (a infraestrutura informática, a energia, o trabalho humano incorporado) tenham a natureza de bens privados suscetíveis de apropriação individual, são insumos do sistema, não o próprio sistema. A IA como um todo, enquanto capacidade cognitiva e decisória que emerge de todos os seus elementos constituintes, tem uma natureza que transcende esses elementos e que não pode ser apropriada de forma privada sem a desnaturalizar e sem expropriar aqueles que a tornaram, a tornam e continuarão a torná-la possível.

As implicações em termos de propriedade, governação, distribuição e gestão democrática que isto acarreta são analisadas no ensaio que agora antecipo. Mas há algo fundamental que se pode adiantar:   é urgente impedir que os oligarcas tecnológicos consigam que as nossas sociedades e governos aceitem como um facto consumado a apropriação privada da inteligência artificial. E, para o conseguir, é imprescindível deixar de analisar a IA com categorias próprias de um mundo em que ela não existia.

Altman está com pressa em dispor de dinheiro público para quando o modelo de negócio privado da IA revelar os seus limites e talvez entre em colapso, tal como aconteceu no passado com o desenvolvimento inicial, em forma de bolha, de outras inovações revolucionárias. A nossa urgência deve ser outra:   tomar consciência de que a IA condiciona o futuro da humanidade e impedir que uns poucos a transformem num instrumento para o seu enriquecimento privado à custa de todos.

Fonte aqui

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O crescente autoritarismo de Bruxelas

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 02/07/2026)


A Lei dos Serviços Digitais permite sancionar indivíduos apenas porque pensam diferente. Seria difícil não considerar esta Lei um inaceitável instrumento de censura.


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O prolongamento da guerra na Ucrânia poderá conduzir a uma confrontação mundial. Esquecendo o resultado das duas guerras mundiais que empurraram as potências europeias para a subalternidade estratégica, a Europa prepara-se afincadamente para travar uma guerra contra a Rússia, fazendo tábua rasa das dramáticas consequências que essa confrontação terá.

A probabilidade de um conflito militar direto entre a NATO e a Rússia é hoje, de longe, superior à de um acordo de paz. Neste turbilhão, assistimos à ação das lideranças europeias tentando convencer as suas populações da inevitabilidade da guerra. E fazem-no das mais variadas formas, não se inibindo de atropelar e subverter as normas básicas que regulam o funcionamento dos Estados democráticos. Assistimos presentemente ao que já vimos no passado, quando acontecimentos históricos foram utilizados para condicionar e reduzir as liberdades dos cidadãos, lembramo-nos, por exemplo, do onze de setembro e da Covid.

Para convencer os cidadãos da inevitabilidade dessa confrontação e da sua adesão a esses propósitos, os dirigentes europeus estão a silenciar as vozes que se opõem à loucura. Expressões como “desinformação” e “ameaças híbridas” tornaram-se recorrentes, sendo utilizadas como pretexto para policiar a liberdade de expressão. Tornou-se, segundo eles, uma “necessidade”, para defender a liberdade de expressão. O pensamento não alinhado com Bruxelas passou a ser tratado como traição.

O domínio digital tem sido um campo de intervenção privilegiado da União. As decisões que têm vindo a ser tomadas levantam-nos sérias dúvidas sobre o que se pretende: proteger ou controlar o cidadão?

Em 2021, o Parlamento Europeu aprovou a derrogação da privacidade nas comunicações eletrónicas, permitindo que os prestadores de serviços de correio eletrónico e de mensagens pesquisassem automaticamente todas as mensagens pessoais de cada cidadão, em busca de conteúdos presumivelmente suspeitos e que os comunicassem à polícia. Trata-se, pois, da vigilância em massa dos cidadãos, para adquirir a capacidade de analisar toda a correspondência privada em busca de material «problemático», de «matéria sediciosa e subversiva». Apesar de em 25 de março de 2026, o Parlamento Europeu ter votado contra a prorrogação do regime de derrogação da privacidade, a controvérsia está gerada e nada é irreversível.

Um marco neste processo foi a adoção, em 2022, pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da Lei dos Serviços Digitais, que estabeleceu regras para os serviços online utilizados pelos cidadãos europeus no seu dia-a-dia, como sejam, plataformas de comércio eletrónico, redes sociais, lojas de aplicações, plataformas de viagens e alojamentos online. Regras essas que atribuem à Comissão Europeia poderes sem precedentes.

Com alegado propósito de proteger os cidadãos, na verdade a Comissão pretende exercer controlo político sobre espaços onde a sua narrativa oficial é contestada e se encontra desacreditada, numa intromissão inaceitável.

Quem não subscrever a narrativa belicista da Comissão sobre o que se passa no conflito na Ucrânia, corre o sério risco de passar a ser acusado de espalhar “desinformação” ficando, como tal, sujeito a sanções.

A Lei dos Serviços Digitais permite sancionar indivíduos apenas porque pensam diferente. Seria difícil não considerar esta Lei um inaceitável instrumento de censura. As designadas “ameaças híbridas” passaram a ser o pretexto para punir quem ousar contestar a versão oficial da Comissão, conferindo-lhe poderes para congelar os bens dos “prevaricadores” e proibir a sua circulação no espaço da União, sem lhes garantir o direito de defesa ou a oportunidade de contestar as acusações.

As sanções já tomadas não resultaram de um processo judicial, ou de um veredicto de qualquer tribunal da UE ou outro internacional. Os cidadãos atingidos não tiveram o direito a serem ouvidos, sendo impostas sem juiz, sem julgamento, sem supervisão e sem transparência.

As sanções disfarçadas de “medidas de política externa” não resultaram de uma decisão judicial. São decisões políticas, administrativas e extrajudiciais, ao abrigo da Política Comum de Segurança e Defesa da UE, sem que tenha ocorrido a violação de qualquer lei, seguindo o princípio arbitrário de “pensas (diferente), logo violas”.

O debate político só é válido se subscrever as posições oficiais. A hipocrisia destas medidas é assustadora. Se, por um lado, a União premeia jornalistas presos noutras paragens pela dissidência, por outro, “intimida” os seus próprios cidadãos pela “opinião que expressam”. Mesmo quando se limitam a citar fontes ocidentais ou ucranianas, correm o risco de serem rotulados propagandistas estrangeiros.

A Comissão Europeia planeia levar por diante a monitorização geral e indiscriminada de chats, emails e Messenger; propôs obrigar os prestadores de serviços a pesquisar automaticamente todas as conversas privadas, mensagens e e-mails em busca de conteúdos suspeitos.

A censura de Bruxelas vem-se manifestando de muitas outras formas. Por exemplo, proibindo a transmissão de meios de comunicação social russos, como a RT e Sputnik, até à censura de redes sociais e veículos de notícias. A sua intervenção vai ao ponto de ingerir-se e reverter resultados de referendos e de eleições em que os povos exprimiram a rejeição das suas tentações autoritárias. Temos presente o que aconteceu nas eleições na Moldávia, na Bulgária, na Roménia, na Geórgia ou na Polónia, ou as tentativas de ilegalizar partidos e movimentos políticos, assim como de afastar candidatos a cargos presidenciais.

Apesar da imensa evidência disponível, passou a ser crime expor a corrupção do governo de Zelensky. Sobre a matéria, a UE mantém-se em silêncio e não sanciona funcionários ucranianos que desviam dinheiro dos nossos impostos; não reprova o brutal recrutamento de homens ucranianos levados à força para a guerra; não condena as operações de falsa bandeira da Ucrânia, como foi o recente ataque à Roménia com drones marítimos, que correu mal a Kiev. A ser bem-sucedida poderia ter tido resultados imprevisíveis. Os exemplos são infindáveis.

Este modo de atuação começou a alastrar-se aos Estados-membros. Por exemplo, o governo alemão decidiu, em 2025, começar a premiar a delação, pedindo aos seus cidadãos que denunciem familiares que tenham «visões conspirativas», promovendo um projeto designado por «Conselhos sobre o Pensamento Conspiratório», cujo objetivo é aconselhar quem «suspeite que amigos possam estar envolvidos numa conspiração ou que membros da sua família tenham sido vítimas de teorias da conspiração».

Isto é um déjà vu que nos lembra outras paragens e outros tempos, onde os códigos penais eram utilizados pelas autoridades para perseguir a dissidência, onde pensar fora dos cânones oficiais era considerado agitação e propaganda antirregime. A história repete-se agora, mas para pior, por ocorrer fora dos códigos penais.

Vemos na Europa o início de uma certa «caça às bruxas» com tiques de macartismo. Aquilo a que assistimos não representa um aprofundamento da democracia, mas sim o seu retrocesso, com a ausência de respeito pela liberdade de expressão. Como alguém escreveu, caminhamos para um «goulag intelectual, presidido pelo “politicamente correto”. Se as vossas opiniões não forem as “boas”, “politicamente corretas”, sereis ostracizados.»

Vive-se a emergência de um autoritarismo gerido e promovido por tecnocratas não eleitos que decidem sobre as nossas vidas, sobre como devem os cidadãos pensar e comportar-se. Hoje são as “ameaças híbridas” russas, amanhã não se sabe o que será. Na prática estas medidas visam meter medo, tornar as pessoas obedientes, medrosas e receosas de terem opiniões dissentes. Falamos de uma acentuada degradação da democracia.

É este o caminho que a Europa está a trilhar. É altura de nos questionarmos se é por aqui que queremos seguir. Não pode haver quaisquer cedências nesta matéria. A defesa da democracia e da liberdade de expressão não se faz com sanções, proibições de vistos, pressão regulatória e controlo do que é dito online e por quem. Trata-se da completa negação do Estado de Direito por que tantos lutaram. É um retrocesso civilizacional