É um progresso. Lento, doloroso, quase involuntário, mas progresso na mesma. Em Bruxelas, durante uma conferência de imprensa tão silenciosa como um bunker normativo, a representante da Comissão Europeia, Paola Pigno, pronunciou finalmente o impensável: “É claro que, a dada altura, teremos de negociar com o Presidente Putin.”
A mensagem foi dada. Negociar. Não sancionar, não condenar nos termos mais fortes, não manifestar profunda preocupação. Não: conversar.
Alguns estagiários terão sido brevemente evacuados da sala por receio de que pudessem sofrer um colapso mental. Mas, vamos imediatamente tranquilizar os mercados, as consultoras e os produtores de comunicados de imprensa indignados. Paola Pigno acrescentou logo: “Ainda não chegámos a esse ponto.“. Ufa. A União Europeia ainda não está preparada para utilizar a diplomacia, essa ferramenta arcaica que geralmente antecede as guerras, e não o contrário.
Conversar, sim… mas só quando tudo estiver destruído
A declaração surge numa altura em que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, reiterou uma verdade diplomática digna de Metternich: “Não se constrói uma paz duradoura sem conversar com a Rússia”. Uma declaração revolucionária em Bruxelas, onde a política externa se tem baseado, nos últimos dois anos, num princípio simples: Não converse agora para que possa falar melhor, mais tarde, quando não houver mais nada a negociar.
A posição oficial da UE mantém-se fiel à linha traçada por Ursula von der Leyen, que declarou mais uma vez: “A Rússia precisa de perder esta guerra“. O problema é que perder uma guerra não é um conceito jurídico, nem um mecanismo para a paz. É um slogan. E os slogans, em geopolítica, tendem a ser muito dispendiosos.
800 mil milhões depois, ainda não é o momento certo
Porque, embora Bruxelas “ainda não esteja nesse ponto“, a conta já chegou certamente. Os referidos 800 mil milhões de euros para apoiar a Ucrânia a longo prazo não saem de um chapéu mágico europeu, mas sim de: 1) orçamentos nacionais; 2) dívida; 3) de uma solidariedade que Washington encara, agora, com uma certa distância orçamental…
Os Estados Unidos, por sua vez, começaram a explicar, de forma muito oficial, que: “A Europa precisa de assumir mais responsabilidade pela sua própria segurança“. — Declarações recorrentes do Departamento de Estado e do Pentágono. Tradução não diplomática: paguem, temos outras prioridades.
Neste contexto, negociar hoje pode permitir evitar o financiamento de uma guerra amanhã, que ninguém sabe como vencer, mas que ainda assim terá de ser paga.
A diplomacia como fase terminal
A lógica de Bruxelas é, pois, cristalina: 1.º Recusar qualquer diálogo. 2.º Acumular dívidas enormes. 3.º Desindustrializar. 4.º Esgotar a opinião pública. 5.º Depois, “em algum momento”, descobrir que a negociação é necessária.
Isto é o que se conhece como diplomacia de fim de ciclo, onde a mesa das negociações só aparece quando os cofres estão vazios e as ilusões se esgotaram.
Conclusão: a UE e a arte de se surpreender
Sim, por vezes a União Europeia ainda nos surpreende. Não com a sua visão estratégica, mas com a sua capacidade de ignorar o bom senso até que este se torne inevitável. Reconhecer que teremos de falar com Moscovo não é uma revelação. É uma admissão tardia.
E quando Bruxelas diz “ainda não chegámos lá“, o que na realidade significa é: nós preferimos ver até onde vai o absurdo primeiro, desde que alguém pague a conta. A diplomacia em Bruxelas continua, portanto, a ser aquilo em que se tornou: um Plano B que só é utilizado depois de todos os planos idiotas se terem esgotado.
Há tragédias históricas que se repetem como farsa, e depois há farsas que insistem em apresentar-se como pensamento sério. Uma delas é o coro recente de intelectuais de algibeira, esses comentadores rústicos que descobriram ontem os “direitos das mulheres iranianas”, como quem descobre um continente no Google Maps, mas esquecem convenientemente como e porquê essas mulheres vivem hoje sob uma ditadura teocrática.
Façamos então o percurso, com datas, factos e alguma memória histórica, aquela coisa incómoda que estraga as boas indignações primárias de rede social.
Em 1953, o Irão tinha um primeiro-ministro eleito, Mohammad Mossadegh. Nacionalizou o petróleo, afrontou os interesses britânicos e, por arrasto, americanos. E o resultado dessa ousadia foi um golpe de Estado organizado pela CIA e pelo MI6. Democracia derrubada, Mossadegh neutralizado e o Xá reinstalado como monarca absoluto. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade do petróleo, entenda-se.
Segue-se um quarto de século de ditadura pró-ocidental com repressão, polícia política (a SAVAK, treinada com carinho pelos aliados), tortura, censura e um processo de “modernização” imposto a partir de cima, desligado da sociedade real. O Ocidente aplaudia. E os intelectuais de feicebuque ainda não tinham nascido.
Neste ambiente, as forças políticas progressistas foram sistematicamente esmagadas. Presas, executadas, empurradas para a clandestinidade. Quem sobreviveu foi o clero xiita, protegido pela estrutura das mesquitas, pelas redes sociais tradicionais e por um discurso simples, anti-imperialismo, justiça social, dignidade nacional. Enquanto os tanques do Xá patrulhavam as ruas, os ayatollahs organizavam-se nas sombras.
Chegamos aos anos 70. O regime apodrece, a desigualdade cresce, a repressão sufoca. O Ocidente, com a subtileza habitual de um elefante numa loja de porcelanas, pressiona o Xá para “abrir um bocadinho o regime”. Medida que não foi nem carne nem peixe, enfraquecendo a ditadura sem criar alternativa. Quando o edifício caiu, caiu inteiro.
Em 1979 o Xá foge. Não há política progressista organizada, não há partidos fortes, não há sindicatos livres. Há mesquitas cheias, redes religiosas prontas e um líder carismático acabado de aterrar vindo de Paris. Khomeini. A revolução é capturada. A teocracia instala-se. E, poucos meses depois, começa a limpeza. Primeiro à esquerda, depois os liberais, depois as mulheres.
Sim, as mulheres. As mesmas que hoje são exibidas por comentadores que acordaram para a causa há cerca de 5 minutos. As mesmas cujos direitos foram sacrificados no altar da geopolítica ocidental e da destruição deliberada das forças progressistas iranianas. Mas isso não dá jeito explicar. Dá muito mais jeito fingir que o problema começou com um turbante, e não com um golpe de Estado patrocinado por Washington e Londres.
É aqui que entram os intelectuais da açorda, de dedo em riste e memória de passarinho. Falam da “barbárie islâmica” como se tivesse caído do céu. Indignam-se seletivamente, como quem escolhe causas num menu. Nunca uma palavra sobre Mossadegh. Nunca uma linha sobre a CIA. Nunca um suspiro pelas organizações de esquerda que poderiam ter sido aliadas naturais do feminismo e da emancipação social.
Defender os direitos das mulheres iranianas é justo e necessário. Fazê-lo sem contexto histórico, transformando a tragédia num exercício de moralismo colonial tardio, é apenas hipocrisia saloia. É como incendiar uma casa, impedir os bombeiros de entrar e décadas depois aparecer à porta para discutir a cor das cortinas.
A República Islâmica não nasceu de Alá. Nasceu da política externa ocidental e da eliminação sistemática de qualquer alternativa progressista. Ignorar isso não é inocente, é cumplicidade retrospetiva assassina.
Mas, claro, a pesquisa histórica dá trabalho. Muito mais cómodo é continuar a falar alto, dizer pouco e fazer pose como consciência do mundo com a boca cheia e a cabeça vazia.
“Tomem nota: Açores dia 24, para seguirmos aqui uma hora depois do jantar, porque já sabem que invasões em directo é o meu programa de televisão favorito”, concluiu Trump
Graças ao meu amigo Arnaldo (nome fictício e apelido omitido por razões de segurança) e aos seus extraordinários talentos informáticos, foi-me possível, por intermédio do acesso que obteve às comunicações classificadas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, assistir à reunião secreta ocorrida em Mar-a-Lago anteontem — em directo e a partir de Lisboa, tal como o próprio embaixador assistiu. É dessa reunião, histórica do ponto de vista português, que aqui dou conta, num resumo do essencial.
A reunião foi convocada para as 5 da tarde, dando tempo ao Presidente para terminar os 18 buracos do campo de golfe de que é proprietário, oferecido pela Arábia Saudita, e a tempo de o libertar para o jantar dos membros do clube Trump em Mar-a-Lago, os quais pagam uma fortuna de jóia e mensalidade do clube, além de uns dois mil euros por cada jantar com Trump, normalmente realizados duas vezes por mês. Tudo em troca da possibilidade de terem uns três minutos de conversa com o Presidente, aproveitados para exporem rapidamente um problema que enfrentam nos seus negócios e, a um sinal de Trump, entregarem um papel com os dados da situação à chefe de gabinete deste.
A reunião de anteontem foi convocada para o Salão Versalhes de Mar-a-Lago, decorado em tons dourados, vermelhos e púrpura, mas com colunas dóricas de mármore rosa em cada canto do aposento, nas quais se enroscavam serpentes de prata e lápis-lazúli. Estavam presentes, além do anfitrião, o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Dan Caine, o director da CIA, John Ratcliffe, a chefe de gabinete, Susie Wiles, e o genro e parceiro de negócios de Trump, Jared Kushner. À distância e a partir de Lisboa, como já disse, estava o embaixador recém-nomeado John Joseph Arrigo, descrito na página da embaixada como um “líder visionário, empresário de sucesso e defensor dedicado da comunidade”. Da sua biografia consta ter nascido na mesma Florida adoptada por Trump, ter um “diploma de associado em Administração de Empresas”, passado por um Palm Beach College, ter explorado um negócio de automóveis durante 30 anos e, segundo a embaixada, ter vindo para Portugal “acompanhado da mulher Megan e do cão ‘Hank’”. Difícil era pedirmos mais.
Foi Marco Rubio quem abriu a reunião, expondo brevemente toda a situação.
— Estamos aqui reunidos, por iniciativa do Presidente, para analisarmos a oportunidade e os benefícios, ou possíveis danos, de levarmos para a frente a denominada Operação Ananás.
— Lembre-me, Marco, o que é a Operação Ananás? — atalhou Trump, que parecia vagamente alheado, ainda irritado por ter falhado o birdie no buraco 10.
— Falámos disso depois da Venezuela, senhor Presidente… É a tomada das ilhas dos Açores.
— Aquelas ilhas ao largo da costa de África? — volveu Trump.
— Não, estas são ilhas portuguesas no Atlântico Norte.
— Espere aí, Marco. — Trump estava agora mais desperto. — É aquela ilha do meu amigo Cristiano Ronaldo?
— Não, não — interveio Jared Kushner. — Essa é outra ilha mais a sul.
— Ah, bom — suspirou Trump. — E vamos seguir o “método Venezuela”? Primeiro atacamos os petroleiros deles no alto mar?
— Eles não têm petroleiros, senhor Presidente — meteu-se o almirante do ar, Dan Caine.
— Não têm petroleiros?
— Não têm petróleo…
— Ah, então o que têm? Terras raras, ouro?
— Não — Rubio voltou à conversa —, não têm terras raras e ouro só nas reservas do Banco de Portugal.
— Então porque vamos lá?
Trump estava a começar a irritar-se com o assunto.
— Porque — retomou Marco Rubio, cheio de cautela — uma das ilhas dos Açores tem uma base aérea que já foi nossa e onde hoje dispomos de facilidades, mas a pedido. É muito útil para atacarmos no Médio Oriente… o Irão, por exemplo… e para apoiar Israel.
Neste ponto, Marco Rubio dirigiu um olhar disfarçado a Jared Kushner, que inclinou a cabeça, incentivando-o.
— E que — retomou ele — poderão ser-nos também muito úteis em caso da Operação Gronelândia.
Trump inclinou-se para trás na poltrona, finalmente interessado.
— Ah, estou a ver! E essa operação ocupar-nos-ia muitas forças e muito tempo?
— Nada, senhor Presidente. — Pete Hegseth interveio, sorrindo. — Meia dúzia de aviões a aterrarem na tal base, uma companhia Delta e numa hora tínhamos o assunto resolvido.
— E qual seria o pretexto diplomático para tomarmos conta dessas ilhas? Tráfico de droga?
— Bem, isso é difícil. — O director da CIA entrou na conversa pela primeira vez. — Portugal importa muita droga vinda do Brasil e da Colômbia, em rota para a Europa…
— Estou a ver, esses bandidos comunistas do Lula e do colombiano, exportando droga e marginais para a decadente Europa — entusiasmou-se Trump. — Então, temos aí o pretexto necessário!
— Bem, senhor Presidente — insistiu cautelosamente Ratcliffe. — Mas a droga não passa pelos Açores, mas bem mais a sul.
— OK, mas podemos sempre castigar Portugal por servir de porta de entrada de droga na Europa, ou não?
— Mas aí não poderíamos invocar a segurança nacional…
— Invocamos a segurança da NATO, a Europa é NATO.
Como sempre, Trump simplificava as coisas mais complexas, uma das qualidades que os seus seguidores mais apreciavam.
— Bem, mas eles também são membros da NATO — lembrou Marco Rubio.
— Hum… — Trump não se dava por vencido. — Essa tal base e as ilhas que vamos ocupar não servem para controlar o tráfico de droga no Atlântico?
— Podiam servir se eles tivessem aviões e navios adequados para essas missões — esclareceu Pete Hegseth.
— E não têm?
— Não, aviões não podemos reclamar, porque, depois dos F-16, preparam-se para nos comprar os F-35, que não servem para isso, mas são nossos, da Lockheed…
— E navios?
— Navios também não. Vão agora gastar 6 ou 7 mil milhões de dólares a comprar três fragatas aos italianos, que também não servem para essas missões.
— Aos italianos? — espantou-se Trump. — Mas alguém se lembra de comprar fragatas aos italianos?
— Lembrou-se o ministro da Defesa deles, este aqui na imagem — e Pete Hegseth apontou para uma fotografia de Nuno Melo, que aparecia no ecrã gigante colocado no Salão Versalhes.
— Um seu admirador, senhor Presidente — interveio, desde Lisboa, o embaixador visionário.
— Hum… — Trump contemplava, interessado, a fotografia de Melo. — O senhor embaixador informe-se como é que ele trata o cabelo, pois parece-me muito bem.
— Mas então o método do seu amigo Ronaldo não está a funcionar? — interrompeu, com um sorriso cúmplice, Jared, o genro.
— Está, mas não se perde nada em experimentar outros. Bom, adiante: então, o ministro da Defesa é meu admirador. E os outros, o Presidente, o primeiro-ministro, o ministro dos Estrangeiros? O que acha, senhor embaixador, vai haver grande barulho?
— Não creio, senhor Presidente. Portugal não é a Espanha, que costuma ter ideias próprias. Além disso, o Presidente deles está de saída, porque vai haver eleições no dia 18; o PM vai dizer umas banalidades sobre a indestrutível amizade entre Portugal e os Estados Unidos, e o ministro dos Estrangeiros, que classificou de “benigna” a nossa operação em Caracas, vai ficar a analisar o assunto, mas sem precipitações.
— Há eleições dia 18? — interessou-se Trump. — E concorre algum candidato com as ideias MAGA?
— Sim. — O embaixador Arrigo, defensor dedicado da comunidade, estava radiante com o seu inesperado protagonismo. — Concorre um que as sondagens dizem que vai ganhar à primeira volta, mas não tem hipóteses à segunda.
— E é mesmo um homem MAGA?
— Completamente. E outro seu admirador… Chama-se Ventura.
— Até o convidámos para o banquete da sua posse, senhor Presidente — informou o secretário de Estado. — Mas não teve lugar lá dentro e ficou no jardim.
— E o que diz esse tal Ventura?
— O mesmo que o senhor — retomou o embaixador e ex-empresário de sucesso como vendedor de automóveis na Florida. — É a favor da pena de morte e contra os imigrantes e os ciganos.
— Ciganos? Quem são esses?
— São os índios deles — esclareceu o embaixador.
— Ah! — Trump estava agora completamente decidido. — Esse tal Ventura parece-me um tipo mesmo às direitas! E, então, ganha na primeira volta, dia 18, mas perde na segunda?
— É essa também a informação que temos — completou o director da CIA.
— Nesse caso, é claro como água. — Donald J. Trump sorriu, uma vez mais reconhecendo em si mesmo as qualidades que o tinham elevado a dono do mundo. — Deixamos o tipo ganhar dia 18 e depois atacamos os Açores dia 24, que calha a um sábado. Não havendo então condições para realizar uma segunda volta, os Estados Unidos vão reconhecer esse gajo como Presidente legítimo de Portugal, e você, Marco, vai trabalhar para que outros países o reconheçam também. A seguir faremos com o novo Presidente deles um tratado de amizade e cooperação, que nos concede os Açores em troca da nossa protecção na luta contra a droga, a imigração e os… como se chamam eles?
— Os ciganos? — arriscou o embaixador.
— Esses — rematou Trump. — Então, tomem nota: Açores dia 24, para seguirmos aqui, em Mar-a-Lago, uma hora depois do jantar, porque já sabem que invasões em directo é o meu programa de televisão favorito.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia