O império contra-ataca

(Por João Carlos Graça, in SCF, 16/01/2026, revisão da Estátua)


É provável que tenha chegado a altura em que todos aqueles sinceramente preocupados com a soberania dos seus países debatam, mesmo muito a sério, o que deve ser feito para salvar o que pode e deve ser salvo.


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último editorial da SCF e o artigo de Finian Cunningham parecem-me mapear adequadamente a perceção dominante no Ocidente acerca dos acontecimentos recentes na Venezuela. Enquanto o editorial sublinha, na conduta de Trump, a queda generalizada das máscaras e as possíveis vantagens, pelo menos, do fim da hipocrisia, o artigo de Cunningham destaca a formação correlativa na mente ocidental de uma ideia generalizada sobre uma alegada “simetria” entre os atos da Rússia na Ucrânia e o ataque dos EUA à República Bolivariana.

A construção desta noção popular duma relação simétrica entre dois supostos males tem, claro, uma longa história por detrás. Na verdade, o modus operandi deste discurso e do procedimento memético correspondente é basicamente o mesmo que já está na base das estórias da suposta indignação ocidental relativamente ao pacto Molotov-Ribbentrop de 1939. Jacques Pauwels expôs de forma apropriada a sofística fundamental e a mistificação por detrás deste último caso: veja-se aqui e aqui. Vou agora enunciar vários pontos relevantes relativamente ao caso mais recente.

Antes de mais, sublinhe-se que ninguém procedeu oficialmente a qualquer suposta divisão do mundo em “esferas de influência”, seja entre os EUA, a Rússia e a China, ou noutra versão. Ninguém, isto é, exceto talvez alguns meios de propaganda imperial. Nem Vladimir Putin nem Xi Jinping anunciaram qualquer novidade sobre este tema. Houve apenas muito alarido mediático relativo ao facto de os EUA apertarem o seu controlo sobre o “hemisfério ocidental”, como óbvia “compensação”, caso sentissem a sua influência ameaçada noutros locais. Mas isso é tudo.

Em segundo lugar, as relações EUA/Venezuela e Rússia/Ucrânia estão a anos-luz de distância entre si, sendo quase impossível rastrear semelhanças. Para começar, a “grande república” de proprietários de escravos do Norte e a Gran Colombia não podiam ser mais diferentes desde os respetivos inícios. A contínua expansão territorial e a subsequente evolução imperial dos primeiros, em contraste com o desmembramento da segunda e as dificuldades subsequentes dos seus herdeiros (Colômbia, Panamá, Equador e Venezuela), definem trajetórias socio-históricas totalmente diferentes. Quanto à Rússia e à Ucrânia, a verdadeira questão é, pelo contrário, como é que as deliberações de dezembro de 1991 de Boris Yeltsin, Leonid Kravchuk e Stanislav Shushkevich, isto é, os chamados acordos de Belavezha, que liquidaram não só a URSS, mas um milénio inteiro de história russa unida, alguma vez puderam ocorrer. Qualquer espectador imparcial do desmembramento da URSS só poderia questionar-se: mesmo assumindo uma redução necessária daquele corpo político (com a imparável saída, designadamente, das 3 repúblicas bálticas), como é que pelo menos uma “União Eslava” baseada na Rússia, Bielorrússia e Ucrânia nem sequer foi tentada? Como, e porquê exatamente, todo aquele furor radical e desenfreado da dissolução? Exatamente como, e porque é que, o célebre sonho húmido de tantos no Ocidente Coletivo (Ludendorff, Hitler, Churchill, Brzezinski…), sobre a “barriga mole” da Rússia ser separada dela e voltado contra ela, foi tão facilmente realizado?

Isso deve permanecer por muito tempo como tema para investigação adicional, obviamente. Mas devemos agora acrescentar que, mesmo na forma reduzida que manteve em 1991, ou seja, basicamente com uma fronteira ocidental a corresponder à divisão estabelecida pelo infame Tratado de Brest-Litovsk (denunciado alguns anos depois pelo governo bolchevique), a Federação Russa teve uma paciência quase infinita perante a sua impertinente irmã do Sudoeste. Os casos mais recentes de secessão de antigos distritos ucranianos devem, de facto, ser considerados de acordo com as deliberações da ONU que estabelecem um equilíbrio entre os princípios cardinais que são tanto a integridade territorial dos Estados como a autodeterminação das populações. É decerto mais do que óbvio para quem tentar manter uma mente independente que a Rússia interveio, e assim reconheceu as regiões descontroladas, incorporando-as depois, só mesmo quando gravíssimas violações da resolução 2625 da Assembleia Geral da ONU, de 24 de outubro de 1970 (que afirma que a integridade territorial se aplica a Estados que se comportam de acordo com o princípio da autodeterminação dos povos, tendo assim governos representando toda a população pertencente a esse território) ocorreram de forma repetida e consistente, fazendo assim inequivocamente a balança inclinar-se para o lado do princípio da autodeterminação.

Além disso, para a sua Operação Militar Especial a Rússia invocou a “segurança coletiva”, também um princípio consagrado nas diretrizes da ONU, e de forma mais do que razoável e justa nesse aspeto. Isto refere-se não só à Ucrânia, acrescento e sublinho agora. Vários outros membros recentes da NATO na Europa de Leste, quer repúblicas ex-soviéticas quer antigos membros do Pacto de Varsóvia, comportam-se outrossim de forma consistentemente temerária, ameaçando a Rússia de forma explícita e desavergonhada, tornando-se assim ipso facto um alvo legítimo para o poderia militar russo. Como é óbvio, nada sequer remotamente semelhante a este padrão enlouquecido de comportamento ocorreu na relação Venezuela-EUA. O pobre país sul-americano só gostaria de ser deixado em paz. Que mundo maravilhoso seria realmente este, se ao menos os EUA pudessem ocupar-se dos seus próprios assuntos, vivendo e deixando os outros viver em paz…

Mas é mesmo só isso. O único evento mais ou menos “simétrico” que alguma vez tivemos, relativo a este tema, foi, é claro, a abusivamente chamada “crise dos mísseis de Cuba” de 1962, que foi na verdade a crise dos mísseis turcos de 1962: 1), os EUA ameaçaram descaradamente a URSS, através da Turquia; 2), a URSS respondeu da mesma forma, via Cuba; 3), o “país excecional” ficou instantaneamente indignado, até ao pânico e à histeria coletiva; 4), os dois grandes chefes brancos conversaram e fumaram os cachimbos da paz; 5), a URSS retirou-se de Cuba, e os EUA tiraram os seus mísseis da Turquia; 6), “Ei, ei, salvámos o mundo hoje, toda a gente está feliz, as coisas más foram-se embora” (aqui).

Acabou tudo?

Infelizmente, porém, hoje-em-dia, apesar de todos os benefícios associados à ressurreição da Rússia alcançada sob a presidência de Vladimir Putin, ainda não existe uma “projeção de poder” russa suficiente, como se costuma dizer, para proteger os países das Caraíbas/América do Sul. Por conseguinte, não há margem para qualquer possível “Tit for Tat” à Kruschev-Kennedy, apenas cachimbos de paz equívocos e provavelmente enganadores: desta vez, para ser claro, as coisas más vieram para ficar.

É natural que as pessoas tenham a triste confirmação de que os bons perdem sempre, que tenham aquela sensação desoladora de ânimo quebrado à maneira de Ulisses, “como se o seu pai ou o seu cão tivessem acabado de morrer”.

Por outro lado, a China parece manter-se na sua atitude de “paquiderme”, para usar a expressão de Jhosman Barbosa (aqui), limitando as suas preocupações à esfera económica, provavelmente esperando prevalecer no término dos próximos 5 mil anos e, em termos práticos, deixando os EUA escapar impunes em tudo, assumindo que, no fim, lhes seja apresentada pelos Yankees uma transação formalmente “win-win”, como maneira de os compensar formalmente. Seja como for, tudo permanecerá inapelavelmente circunscrito e “transacional” dentro desse domínio.

Entretanto, é provável que tenha chegado a altura em que todos aqueles sinceramente preocupados com a soberania dos seus países debatam, mesmo muito a sério, o que deve ser feito para salvar o que pode e deve ser salvo: isto refere se, por exemplo, do Brasil, que terá certamente de libertar as mentes dos seus quadros militares da “educação” que estes têm recebido do seu patrono do Norte nas últimas décadas; e que provavelmente terá também de denunciar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares que o país foi persuadido a aceitar por Fernando Henrique Cardoso, como argumenta aqui Paulo Nogueira Baptista

Num ambiente totalmente diferente, isto diz respeito também a todos os chamados “aliados europeus” dos EUA, começando pela “UE”, a Dinamarca oficialmente à frente de todos (Gronelândia), Portugal provavelmente o segundo na linha de sucessão (Açores). Ah, mas por agora podemos ter a certeza de que estas questões não serão discutidas por ninguém que concorra à Presidência da República Portuguesa na campanha eleitoral que decorre enquanto escrevo, neste mês de janeiro. Nem de longe. Em vez disso, o consenso quase universal irá, sem dúvida, apontar para: 1) aceitação dos célebres 5 por cento de gastos públicos afetos à compra de armamento dos EUA; 2) persuasão dos nossos jovens a aceitarem ir morrer nas estepes Citas, lutando bravamente contra os Orks e em defesa dos interesses da BlackRock.

Não é de admirar que as pessoas tenham a sensação avassaladora (para usar a expressão que Tom Waits foi buscar Emir Kusturica) de que basicamente “Deus está ausente em negócios”; de que há mais do que uma fuga na sala das caldeiras; de que assassinos, ladrões e advogados mandam tudo; e de que tudo se limita realmente a “um acordo” ou a “um esquema”. Mas, por outro lado, será que acabou mesmo tudo? E será que algum dia vai acabar? Embora isso possa parecer (e realmente seja) apenas um consolo muito modesto, o sentimento de ânimo quebrado de Ulisses pela morte do pai e do cão não são a forma como Odisseia termina, pois não?

Fonte aqui

Duas mulheres – uma submissa e vendida, outra forte e determinada

(João Gomes, in Facebook, 16/01/2026)


A Venezuela é do seu povo.


Há gestos que dispensam explicação porque se explicam a si próprios. Quando Maria Corina estende a mão e nela coloca um Prémio Nobel da Paz para o “oferecer” a Trump, não estamos perante diplomacia, mas perante uma cena de teatro político de quinta categoria. Um teatro pobre, previsível e, sobretudo, profundamente revelador.

O Nobel, símbolo supostamente universal de ética, paz e autonomia moral, é ali reduzido a moeda de troca. Não para o povo venezuelano, não para a democracia interna, mas para o altar do poder imperial. Não é um gesto de gratidão; é uma tentativa de compra. Compra de reconhecimento, compra de tutela, compra de um poder que não nasce do voto nem da rua, mas do despacho de um gabinete em Washington.

Maria Corina não entrega apenas uma medalha. Entrega uma ideia: a de que a Venezuela não se governa a partir de Caracas, mas a partir da Casa Branca. Entrega a soberania embrulhada em simbolismo barato e chama-lhe “liberdade”.

Do outro lado, no Parlamento venezuelano, Delcy Rodríguez fala. E o contraste é evidente. Não há prémios, não há genuflexões, não há selfies imperiais. Há um discurso duro, incómodo para o Ocidente, mas politicamente coerente: a Venezuela tem problemas, tem crise, tem feridas abertas – mas não está à venda.

Rodríguez não promete submissão. Promete resistência. Não promete obediência externa. Promete fidelidade a um projeto político que, goste-se ou não dele, continua a ser reconhecido por uma parte substancial do povo venezuelano como expressão da sua identidade histórica. A revolução bolivariana surge ali não como nostalgia, mas como linha vermelha: negociar, sim; render-se, não.

É aqui que a diferença entre as duas mulheres deixa de ser pessoal e passa a ser estrutural. Maria Corina representa a velha elite latino-americana que sempre acreditou que o poder se herda ou se pede emprestado ao império. Delcy Rodríguez representa – com todos os limites – a ideia de que o poder se disputa internamente, com conflito, com custo, com dignidade.

O mais inquietante, porém, não está apenas em Caracas. Está nas redações europeias, nos chanceleres ocidentais, nos comentadores que aplaudem este teatro grotesco como se fosse normal que um país soberano precise de bênção estrangeira para existir. Trump surge como maestro deste circo tardio, distribuindo legitimidades como quem distribui sanções, transformando a política internacional num reality show de chantagem e submissão.

E o Ocidente continua dócil, cúmplice, ajoelhado, até com medo. Em nome da “democracia”, aceita-se a humilhação simbólica de um povo inteiro. Em nome da “ordem internacional”, normaliza-se o rapto de presidentes, o estrangulamento económico, a ingerência descarada. É por isso que este momento exige algo mais do que indignação venezuelana. Exige uma resposta latino-americana. A história da América Latina é uma história de países isolados, derrotados um a um. A lição é antiga e clara: quando um cai sozinho, todos aprendem a obedecer.

Hoje é a Venezuela. Amanhã será outro. O contributo das nações latino-americanas não é retórico; é estratégico. Cooperação regional, defesa mútua da soberania, rejeição coletiva da tutela externa. Não como gesto ideológico, mas como instinto de sobrevivência política. Porque países que aceitam que outros sejam vendidos acabam, mais cedo ou mais tarde, por aparecer também na montra.

E a Venezuela lembra algo que o Ocidente preferia esquecer: os povos não são prémios, nem as nações são moedas.

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O 03 de janeiro e a racionalidade imperial contra a Venezuela

(Lady Bhārani, in SakerLatam.org, 14/01/2026)

Imagem do incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, após o bombardeamento dos Estados Unidos em Caracas no último dia 03 de janeiro 

Porque, com toda a evidência, os EUA enfrentam uma crise de legitimidade civilizacional. O capitalismo americano prometeu democracia, progresso e bem-estar, mas gerou desigualdade extrema, racismo sistêmico, destruição ecológica e uma cultura de individualismo predatório. A classe média está a desintegrar-se; a expectativa de vida diminui; a saúde mental entra em colapso. O modelo não seduz mais ninguém, nem mesmo no seu próprio território.


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Os acontecimentos do sábado, 03 de janeiro, são amplamente conhecidos; portanto, não faremos uma resenha dos eventos. Em vez disso, apontaremos as razões fundamentais do ataque dos Estados Unidos em solo venezuelano e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.

Além da condenação ética, persiste uma pergunta necessária: por que os EUA chegaram ao extremo de tomar uma decisão dessa magnitude em pleno século XXI, claramente prejudicial, considerando os resultados políticos tanto nos Estados Unidos quanto na Venezuela?

Ler artigo completo aqui, em português do Brasil.