O anúncio feito ontem, 8 de outubro, de um acordo entre Israel e Hamas — mediado por Donald Trump e baseado em seu plano de 20 pontos — trouxe um suspiro coletivo de alívio.
Após mais de dois anos de uma guerra descrita por organizações de direitos humanos e uma comissão da ONU como de caráter genocida, milhares de palestinos mortos, a perspetiva de cessar-fogo, retirada parcial de tropas israelenses e troca de prisioneiros parece um raio de luz no horizonte devastado de Gaza.
Contudo, esse otimismo é necessariamente temperado por um realismo histórico, político e moral que não pode ser ignorado. Longe de parecer pessimista, soaria ingênuo ignorar a necessária desconfiança quando uma das partes se considera “povo escolhido” e enxerga um país inventado pela ONU como “terra prometida”.
Há razões para esperança. O próprio Hamas, em comunicado, afirmou ter agido com responsabilidade, consultando outras fações da resistência antes de aceitar os termos.
A inclusão de figuras como Marwan Barghouti e Ahmed Saadat nas listas de prisioneiros a serem libertados sinaliza uma concessão significativa por parte de Israel — algo que, em fases anteriores do conflito, parecia inimaginável.
Além disso, a pressão interna israelense, vinda de famílias de reféns e de uma opinião pública cansada da guerra, combinada com o desejo de Trump de consolidar uma vitória diplomática, criou uma janela de oportunidade rara.
A Rússia, por meio de Lavrov, reconheceu o plano como “a melhor opção que existe” em termos de aceitabilidade regional e não rejeição formal por Israel. A China, através de analistas nas agências oficiais de notícias, viu o acordo como “um momento muito importante para a paz”.
Mas é justamente no interesse verdadeiro pela paz que reside o cerne do pessimismo. A história recente está repleta de acordos rompidos por Israel. Em 2023 e em janeiro de 2025, cessar-fogos foram seguidos por intensificações da ofensiva militar.
Um levantamento detalhado aponta que Israel cometeu mais de mil violações de acordos anteriores, incluindo incursões, ataques aéreos e obstrução de ajuda humanitária.
Netanyahu, cuja sobrevivência política tem sido alimentada pela perpetuação do conflito, tem um histórico explícito de sabotar negociações de paz.
Durante anos, a sua política foi manter o Hamas no poder, inclusive facilitando o fluxo de dinheiro do Catar para Gaza, com o objetivo claro de dividir os palestinos e impedir a formação de um Estado palestino unificado.
Essa estratégia, como escreveu um analista, visava “preservar seu próprio domínio” — e o massacre de 7 de outubro, embora trágico, acabou servindo a esse fim, ao justificar uma campanha militar de proporções históricas, inclusive com provas robustas de que Israel atuou de maneira coordenada com o Hamas para o assassinato daquelas pessoas.
Mais perturbador ainda é o emaranhado de relações entre Israel e setores do Hamas. Embora o grupo seja retratado como inimigo absoluto, há evidências consistentes de que Israel infiltrou agentes em suas fileiras — e, inversamente, de que membros do Hamas operaram como informantes duplos.
Em maio de 2025, por exemplo, Israel prendeu uma fonte do Shin Bet em Gaza que se revelou agente duplo a serviço do Hamas. Por outro lado, o próprio Hamas já executou dezenas de supostos colaboradores israelenses em momentos críticos do conflito.
Esse jogo de espelhos sugere que, dentro do Hamas, há fações ou indivíduos cujos interesses pessoais, de sobrevivência ou de poder local se sobrepõem à causa coletiva do povo palestino — o que alimenta desconfianças legítimas sobre a representatividade e a integridade das negociações.
Além disso, o acordo atual deixa em aberto questões cruciais: o desarmamento do Hamas, a governança pós-guerra em Gaza e a retirada total das forças israelenses. Netanyahu já deixou claro que rejeita qualquer solução que leve à independência palestina, e seu gabinete inclui ministros de extrema-direita que ameaçam abandonar o governo caso haja “concessões excessivas”.
Tudo indica que o cessar-fogo pode ser, mais uma vez, uma pausa tática — uma forma de conter o desgaste internacional, apaziguar a pressão doméstica e reorganizar as forças para uma nova ofensiva, especialmente contra o que Israel chama de “infraestrutura residual” da resistência. Enquanto isso, alguma “falsa bandeira” é preparada.
Por isso, a cautela expressa pelas autoridades de Gaza — que pediram à população para não se mover livremente nas ruas principais, mesmo após o anúncio do acordo — é não apenas prudente, mas necessária.
A frase do dirigente do Hamas Izzat al-Rishq — “o que Israel não conseguiu alcançar por meio de genocídio, não conseguirá por meio de negociações” — ecoa como um lembrete: a resistência palestina não se rendeu; apenas aceitou uma trégua condicionada à implementação fiel do que foi acordado.
Em última análise, o acordo de 8 de outubro é menos um fim e mais um teste. Um teste de vontade política, de coerência ética e, sobretudo, de memória histórica. Se Israel repetir os seus padrões de violação, o ciclo de violência se reiniciará, mais brutal ainda.
Se, por outro lado, as partes — e especialmente os garantidores internacionais — impuserem o cumprimento integral dos termos, talvez se abra um caminho, ainda que tortuoso, para algo além da mera sobrevivência: a dignidade. Até lá, o otimismo deve ser mantido, mas com os olhos bem abertos — e os pés firmes na lição que a história insiste em ensinar.
Por tudo isso, chamar a este momento “acordo de paz” é precipitado. A prudência e a conduta das partes apontam para uma “trégua”. A comunidade internacional tem a chance de provar que pode fazer mais pelo povo da Palestina do que emitir “notas de repúdio”.
(*) Texto em português do Brasil, de acordo com o original
Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, a compaixão seria imensa neste país político.
Quem ainda não tinha percebido o significado profundo da grande vitória da direita em Maio percebeu agora com as reacções generalizadas à flotilha que Mariana Mortágua e mais três portugueses integraram.
Se havia dúvidas sobre o país que somos hoje, basta dar um salto às redes sociais, ouvir os comentadores, incluindo do PS, e assistir à fúria que uma missão humanitária provocou. Este ambiente político não existia antes de a direita valer dois terços dos votos dos portugueses.
O ódio à flotilha vem de todos os lados, mesmo de quem chama a Netanyahu “fascista” e admite que Israel está a cometer genocídio.
O Bloco de Esquerda é hoje um partido totalmente irrelevante na sociedade portuguesa que só elegeu um deputado. Suscita tanta fúria porquê? Ou é Mariana Mortágua?
Os argumentos contra Mortágua vão desde “porque não foi para o Sudão” ou “para a Ucrânia” a “está a perturbar o processo de paz em curso”. Não sabia que Mortágua tinha tanta influência na resolução de conflitos, mas este ódio é um sintoma da degradação do espaço público.
Todas estas iniciativas são sempre políticas. Desde quando um acto ser “político” ou “ideológico” passou a ser crime de lesa-pátria? Odeiam Mariana Mortágua por causa do “imposto Mortágua”? Uma péssima notícia para quem ainda não deu por isso: o Governo de direita não acabou com “o imposto Mortágua”. Está em vigor, a menos que o Orçamento agora aprovado em Conselho de Ministros venha a aprovar a sua extinção.
Se a posição da direita, agora maioritária, pode não espantar ninguém (apesar de o Governo ter agora reconhecido o Estado palestiniano, historicamente quase toda a direita é aliada cega das actividades levadas a cabo pelas forças armadas israelitas), o caso da flotilha serviu para perceber como o secretário-geral do PS está perdido, sem rumo e tem só um objectivo neste momento: durar.
Se os ventos são agora desfavoráveis à esquerda, a direcção do PS parece achar que é o “parecer mais de direita” que fará com que o povo um dia o volte a agraciar com bênçãos.
O silêncio de José Luís Carneiro sobre a flotilha e a detenção de Mariana Mortágua e os outros portugueses em Israel — onde o ministro Ben-Gvir foi humilhar os participantes da flotilha acusando-os de ser “terroristas” — tem sido revelador deste medo que percorre algum PS.
Duvido que se o deputado em causa fosse André Ventura (detido na Venezuela, por exemplo, se lá fosse manifestar solidariedade com os presos políticos do regime) não houvesse uma palavrinha de solidariedade não só do PS como dos outros actores políticos em geral.
O incómodo de José Luís Carneiro voltou a ser sentido este domingo quando novamente fugiu às perguntas sobre o assunto, agora sobre a manifestação pela libertação dos portugueses e a mensagem de Ferro Rodrigues. Para Carneiro, “a actualidade política são as autárquicas” e não leu a mensagem de Ferro Rodrigues.
Para que o PS não saísse totalmente envergonhado deste episódio, perante o qual parte dos seus (ainda) eleitores se sentem perplexos, felizmente houve a mensagem de Ferro Rodrigues.
Ferro fez uma crítica dura à posição do líder do CDS e ministro da Defesa — que acusou os participantes da flotilha de “serem apoiantes de terroristas” — de ter “enorme gravidade e irresponsabilidade” e lembrou “o tratamento degradante que o ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, lhes deu, filmando-os ajoelhados e chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos”.
Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, com um ministro a humilhá-lo, a compaixão seria imensa neste país político. Todos os líderes se acotovelariam para manifestar sentida e penhoradamente a sua solidariedade e a exigir a libertação.
Mariana Mortágua, por estes dias, não é pop. Já foi, no tempo em que o Bloco valia 10% e permitiu a José Luís Carneiro tornar-se pela primeira vez governante. Infelizmente, além de Pedro Nuno Santos, que veio condenar os insultos a Mortágua que enchem as redes sociais e não só, praticamente só uma outra voz de decência se fez ouvir: a de Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, que não partilha uma única ideia política com Mortágua. “Chicão” disse na CNN sentir-se “revoltado” com quem “achincalha um conjunto de portugueses que teve a coragem de se opor a um genocídio”.
Não sei se o PS acha que tem mais votos nas autárquicas com este posicionamento. Pode sair-lhe o tiro ao lado.
Samah Matar, uma mãe palestiniana deslocada, com o seu filho Youssef, que sofre de paralisia cerebral e está desnutrido, numa escola onde pernoitavam, quando, em Julho, uma grave crise de fome atingia a Cidade de Gaza, por causa da guerra e do bloqueio movidos por Israel.
Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos.
Vimos com horror o massacre dos israelitas cometido pelo Hamas a 7 de Outubro de 2023. A barbárie que vitimou mais de mil civis atingiu um grau de crueldade inimaginável. Ninguém, no dia seguinte, negava a Israel o direito de responder tomando como alvo a organização terrorista. Hoje, dois anos depois, tornou-se escandalosamente difícil evocar o 7 de Outubro perante a destruição apocalíptica de Gaza. Porquê? Se não faz sentido estabelecer comparações morais entre crimes tão hediondos, as atrocidades do Hamas não são “piores” do que a matança da população palestiniana perpetrada pelo Exército israelita.
Afirmar o contrário é tentar justificar o assassínio de todo um povo. É supor que os israelitas têm o “direito de se defender” de qualquer modo, direito exclusivo que lhes adviria do seu passado histórico de discriminação e de sofrimento sem fim — e que culminou no Holocausto. Passado que fez do povo judeu a vítima eleita da injustiça dos poderes estabelecidos do Ocidente, isto é, vítima da humanidade inteira (e assimilar a humanidade ao Ocidente é já um preconceito eurocêntrico). Considera-se agora que a vida de cada judeu vale mais do que a de qualquer outro ser humano — julgamos assim redimir-nos do Holocausto, nós, herdeiros dos ocidentais culpados daquele crime.
É a crença no valor superior de um judeu — e, portanto, de um israelita — que justifica que se arrase Gaza com os seus dois milhões de palestinianos, que se abatam mulheres e crianças, que se atire a matar contra os que, esfomeados, acorrem aos locais de ajuda alimentar — e que se troque um soldado israelita por centenas de militantes do Hamas. A vida de um palestiniano vale menos do que a de um judeu. A vida de uma criança palestiniana vale menos do que a de uma criança israelita. Ora, a erosão deste princípio, produzida pela guerra de Gaza, faz com que se torne difícil lembrar o 7 de Outubro. Foi uma convicção deste tipo — mas, ao invés, desumanizando os judeus — que levou o anti-semitismo hitleriano ao Holocausto.
Poder para a guerra
Como foi possível esta reviravolta que converteu um povo mártir em responsável por um massacre tão abominável como o que sofreu na Segunda Guerra Mundial?
Ele, que devia ser o primeiro a afirmar e a praticar as normas mais básicas de respeito pelo outro, ergueu-se, arrogante e feroz, e decidiu vingar-se bombardeando e matando a que julga ser raça inferior. A lógica que levou os descendentes das vítimas dos campos da morte nazis a uma tal posição de poder prepotente mostra como o exercício do poder político, voltado essencialmente para fins de sobrevivência, se transforma em poder para a guerra, com todas as consequências bárbaras que acarreta, sobretudo quando detém uma enorme superioridade bélica.
A ameaça de morte de Israel brandida pelos Estados árabes foi constantemente amplificada pelo discurso paranóico do poder israelita que via nela a continuação do projecto de “solução final” do Holocausto; e, para dele definitivamente se livrar, virou-o contra o inimigo, começando pela expulsão brutal, em 1948, dos palestinianos e árabes das suas terras (Nakba), seguido pela política dos colonatos e pela transformação de Gaza num vasto campo de concentração. Projecto que culmina agora com a sua destruição. O processo que levou à guerra actual e à decisão de eliminar por completo a presença e a existência de um povo do seu território implicou a inversão imaginária da posição de vítima (do Holocausto) na de carrasco; e a inversão e projecção da ameaça de aniquilação total (reactivada pelo 7 de Outubro) sobre o inimigo árabe-palestiniano.
Palestinianos desesperam para receber alimentos de uma cozinha comunitária no final de Agosto — a fome atinge a Cidade de Gaza e as áreas vizinhas
Gaza tornou-se um campo de extermínio de ratos humanos que fogem para todos os lados enquanto são bombardeados pelos aviões israelitas que os abatem à vontade, às dezenas, todos os dias. No meio de escombros e de lixo, os palestinianos dormem ao relento ou em tendas, correm humilhados e esfomeados para a ajuda humanitária que não chega, vivem sem cuidados médicos, sem higiene, doentes, feridos, mutilados, constantemente escorraçados. Vão de um sítio para outro, supostamente seguro, mas onde são baleados, despedaçados, mais uma vez desapossados da sua condição de humanos.
Nas imagens e nos relatos que nos chegam, é como se víssemos desenrolar-se, a céu aberto, uma outra versão da vida dos prisioneiros de Auschwitz. Gaza transformou-se no laboratório social de um Mengele genocidário: testa-se a resistência de um povo que, morrendo todos os dias um pouco, há-de acabar por abandonar a sua terra ou ser expulso por cinco mil dólares por pessoa — deixando-a livre, para os grandes empreendimentos imobiliários construírem a “Riviera do Médio Oriente” sonhada por Trump.
À frente dos nossos olhos
Tudo isto se passa diante dos nossos olhos com a cumplicidade da Europa, dos Estados Unidos e das nações democráticas que se calam perante os crimes de Israel. Neste sentido, Gaza é hoje o revelador sintomático de uma situação geopolítica mundial abstrusa, absurda, que nos afecta a todos, individual e colectivamente: as relações de força que determinam as estratégias e acções políticas das grandes potências, que condicionam a guerra e a paz e, directamente, a vida dos indivíduos, cessaram de se mascarar com ideologias, doutrinas políticas, religiões ou normas de direito internacional, para aparecer na sua nudez, na sua crueza ou crueldade brutas — e serem aceites como “normais”.
A visibilidade (não a transparência) dos acontecimentos, processos e iniciativas que giram à volta dessas relações de força alcançou um tal grau de intensidade e extensão que os valores jurídicos e a moral política já não contam — vale apenas a força, não há sequer lugar para o cinismo, a mentira ou a denegação, que tendem a desaparecer, dissolvidos na universalidade e clareza da violência que ocupa todo o campo político. Putin e os seus “crimes contra a humanidade” perpetrados na Ucrânia; Netanyahu e o assassínio colectivo de uma população indefesa; a repressão brutal das revindicações femininas pela polícia de Teerão; a inimaginável crueldade dos taliban contra as mulheres afegãs; a morte pelas bombas e pela fome das crianças palestinianas são “admitidos” com indiferença pelas democracias ocidentais.
Putin, Netanyahu, Trump e outros autocratas e criminosos de gravata continuam a exibir-se na cena mediática internacional, atraindo simpatias, elogios, posturas reverenciais, como se nada fosse. Porque acontece que esses homens não são apenas pessoas, representam a força de uma política que impõe aos povos um estado de espírito. Os sistemas autocráticos actuais concentram todo o tipo de poder (político, militar, económico, judicial) num só indivíduo. Deste, dos seus interesses e da sua vontade, depende a vida de milhões de seres humanos — o destino dos ucranianos nas mãos de Putin; as vidas dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia sacrificadas para que Netanyahu escape à justiça do seu país. Estes factos escandalosos, a sua impunidade ofensiva, a ausência de uma instância que os impeça e os puna — quando, por outro lado, a sua presença é cada vez mais exigida pelo sentimento de injustiça que vai emergindo na opinião pública — são mais uma faceta do bloqueio e da passividade a que a consciência política das nações parece condenada.
Gaza reflecte uma situação planetária paradoxal: a democracia de Israel comporta-se como uma autocracia; o povo descendente da Shoah apoia a “solução final” que os seus dirigentes programaram para os palestinianos; as vítimas tornaram-se verdugos, o “bom” é agora “mau” e cruel — e são eles os nossos aliados, depositários do mais profundo legado de humanidade, aquele que, precisamente, deveria fundar a nossa fé na democracia, depois do Holocausto.
Neste sentido, Gaza espelha da forma mais aguda o que acontece hoje às democracias, minadas pela violência da extrema-direita: os seus mecanismos institucionais políticos e jurídicos tendem a funcionar ditatorialmente, enquanto o discurso e os rituais de ostentação se mantêm aparentemente “democráticos”, afirmando a liberdade para o povo. Uma mesma lógica distorcida tece o fio que liga afectiva e politicamente Netanyahu a Orbán, Orbán a Putin, Putin a Trump, Trump a Bolsonaro, a Milei e a Meloni. Mas essa lógica deixa atordoados os jovens que se iniciam na democracia: será mesmo Putin o responsável pela guerra da Ucrânia? As atrocidades do Hamas no 7 de Outubro não justificam a retaliação empreendida por Israel?
A moral política evaporou-se, os fins agora justificam os piores meios porque o que está constantemente em jogo é, alegadamente, a sobrevivência das nações — foi uma questão “existencial”, como diz Putin, que levou a Rússia a invadir a Ucrânia; é uma questão de “segurança nacional” que faz Trump afirmar que os Estados Unidos “precisam de ter” a Gronelândia; é a sobrevivência de Israel que legitima a sua política bélica contra os palestinianos e os árabes. Porque os fins são derradeiros, todos os meios — e, antes de mais, a guerra — são bons para os atingir.
No discurso polarizado extremista do MAGA invoca-se a necessidade de matar para o renascimento da América; e todo o discurso xenófobo e racista dos movimentos populistas europeus fazem da morte do inimigo a condição primeira da sobrevivência. Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos. O genocídio dos palestinianos viabiliza a vida do povo israelita — aceitá-lo é aceitar a nova ordem mundial.
A política da força
A impunidade com que Netanyahu, Putin e Trump conduzem a sua obra de destruição vem da supremacia que a violência adquiriu nas relações entre Estados. O império da força leva à impotência dos povos e dos indivíduos. Nunca como agora essa impotência se manifestou tão agudamente: desde as manifestações de centenas de milhares de bielorrussos, ou de iranianas, durante semanas e semanas, de que só resultaram a repressão brutal e o reforço dos regimes autoritários até ao massacre, executado na impunidade, dia após dia, aos olhos de todos, dos palestinianos de Gaza, é toda uma série crescente de crimes cometidos pela pura violência do poder que paralisa, sidera e petrifica as vontades. É um terror legal, de Estado, que se abate sobre a população mundial.
A violência é política, física e mental, intelectual e emocional, e violência bélica letal. Gaza concentra em si a visão da impunidade obscena de todos os assassinos e violadores do direito internacional. As resoluções da ONU ou do Tribunal Internacional de Haia, as iniciativas das ONG, as denúncias dos media, os protestos populares revelam-se impotentes para conter a injustiça. A violência desfaz o simbólico: as manifestações de massa, as greves da fome, as imolações públicas, os sacrifícios mais corajosos perdem toda a sua eficácia. A impunidade vem da estratégia da violência, mas também da espécie de dilema a que ela condena todo o tipo de resistência possível: porque é da sobrevivência da nação prepotente que se trata, ou se aceita a eliminação do inimigo — por qualquer meio —, ou se é eliminado por ele. Ou se apoia o morticínio dos palestinianos para salvar Israel e os reféns, ou se é destruído pelo Hamas. Ou o Governo americano (e os Governos europeus) expulsa os imigrantes (“assassinos e violadores”), ou o seu país desaparecerá.
Este dilema em forma de extremo duplo impasse violenta e bloqueia o pensamento e a acção, deixando o campo aberto à política da força que avança sempre arrasando tudo à sua frente, sem hesitações, sem culpabilidades nem escrúpulos. É a lógica da violência neofascista. É ela que está a reduzir Gaza a cinzas. É ela que sufoca os resistentes que, não se deixando vergar aos ditames desta lógica, procuram ainda meios de lutar contra a ignomínia que nos atinge a todos.