O plano Trump: Uma visão de paz ou uma injustiça oculta

(Por Mustapha Stambouli, in Reseau International, 30/09/2025, Trad, Google)


Apresentado como a solução definitiva para o conflito israelense-palestino, o plano de Donald Trump propõe um conjunto de medidas destinadas a resolver as tensões entre a entidade sionista e os palestinos. No entanto, por trás das promessas de reconstrução e segurança, escondem-se aspectos que levantam muitas questões. Neste artigo, analisamos os pontos-chave do plano, destacando os perigos que ele representa para a soberania palestina e os riscos de agravar o conflito em vez de resolvê-lo.

Introdução

O plano de Trump para Gaza é apresentado como uma tentativa de resolver o conflito israelense-palestino impondo um amplo acordo de paz em Gaza. Mas por trás das promessas de reconstrução e segurança escondem-se elementos que levantam sérias preocupações quanto à sua justiça e viabilidade. Ao analisar os 21 pontos do plano, este artigo destaca os aspectos mais problemáticos, que correm o risco de agravar a situação em vez de resolvê-la.

1. Paz a qualquer preço: desmilitarização imposta

Um dos pontos mais controversos do plano é a desmilitarização do Hamas (Ponto 12). Forçar um grupo que se considera uma resistência legítima à ocupação israelense a se desarmar equivale a privar os palestinos de sua capacidade de se defenderem contra uma ocupação que já dura décadas. Essa demanda é vista não apenas como uma humilhação para o povo palestino, mas também como uma tentativa de suprimir qualquer forma de resistência legítima à ocupação. Além disso, o estabelecimento de forças de segurança internacionais (Ponto 14), lideradas pelos Estados Unidos, levanta questões sobre a verdadeira neutralidade dessas forças e o controle palestino que elas deixariam.

2. Reconstrução sem autonomia

O plano propõe a reconstrução de Gaza (Ponto 1), mas seria colocada sob supervisão internacional liderada pelos Estados Unidos e seus aliados, colocando em questão a soberania de Gaza e da Palestina como um todo. Em vez de plena autonomia para os palestinos, este plano cria um sistema em que a reconstrução ocorre sem qualquer participação ou controle local real. Gaza seria governada por um governo de transição composto por tecnocratas palestinos (Ponto 8), supervisionado por um comitê internacional. Isso reforça a ideia de que a Palestina é incapaz de administrar seus próprios assuntos sem a intervenção de atores estrangeiros, o que corre o risco de reduzir ainda mais a capacidade decisória palestina.

3. A exclusão da voz palestina

Outro grande problema é a falta de uma representação palestina verdadeiramente independente no processo. O plano prevê uma zona econômica com impostos e taxas reduzidos (Ponto 10) e outros incentivos econômicos para atrair investimentos estrangeiros, mas a que custo? A ausência de um diálogo inclusivo com as diversas facções palestinas — particularmente o Hamas e a Jihad Islâmica — leva a uma solução imposta externamente. Esse tipo de solução ignora as realidades políticas e sociais palestinas internas e só pode levar à instabilidade a longo prazo.

4. Um frágil equilíbrio de paz

A questão da segurança é central para o plano, com garantias de segurança por parte dos Estados regionais (Ponto 13) e a criação de uma força internacional temporária de estabilidade (Ponto 14). No entanto, o papel de liderança dos Estados Unidos nessa estrutura é problemático. Os Estados Unidos, tradicionalmente vistos como um aliado incondicional de Israel, têm pouca credibilidade como mediador imparcial. O plano de Trump não parece vislumbrar um verdadeiro equilíbrio de poder entre Israel e Palestina, mas sim uma imposição da vontade israelense sobre os palestinos, tornando quaisquer garantias de segurança desequilibradas e frágeis.

5. Uma promessa de futuro sem conteúdo prático

O ponto mais desestabilizador para o futuro dos palestinos é a promessa de um futuro Estado palestino (Ponto 19). Embora essa promessa pareça um passo em direção ao reconhecimento internacional de um Estado palestino, ela permanece muito vaga e condicionada a elementos que enfraquecem a autonomia palestina. Não há menção clara às fronteiras ou à soberania desse futuro Estado, e a prioridade parece ser dada às reformas internas palestinas (como a gestão de Gaza por um governo de transição) em vez da criação de um Estado verdadeiramente soberano.

6. Uma paz perfeita para a entidade sionista, incompleta para a Palestina

Por fim, este plano parece ser muito mais favorável a Israel do que à Palestina. A retirada gradual do exército israelense (Ponto 15) é um elemento positivo, mas não aborda as violações sistemáticas dos direitos humanos cometidas por Israel durante sua ocupação, nem as condições de vida insuportáveis ​​dos palestinos nos territórios ocupados. De fato, em vez de propor um verdadeiro equilíbrio de paz, o plano propõe um status quo no qual Israel manteria grande parte de seu poder e os palestinos, na melhor das hipóteses, estariam sujeitos à tutela internacional com pouco poder político real.

Conclusão: Um plano de paz ou de submissão?

Em suma, o plano de Trump para o Oriente Médio, embora busque alcançar algum tipo de paz, assenta em fundamentos profundamente injustos. Ao apagar os direitos palestinos e forçá-los a aceitar a tutela internacional, corre o risco de prolongar o conflito em vez de resolvê-lo. Uma paz duradoura não pode ser imposta por meio de soluções externas ou compromissos unilaterais. Ela exige um diálogo genuíno e respeitoso entre os povos, o reconhecimento dos direitos legítimos dos palestinos e um compromisso genuíno com o fim da ocupação israelense.

Apêndice: Lista dos 21 pontos do plano Trump

0. Tornar Gaza uma zona livre de radicalismo e terrorismo.

1. A reconstrução de Gaza.

2. Após ambas as partes concordarem com o plano, a guerra termina imediatamente, as operações israelenses cessam e a retirada gradual de Gaza começa.

3. Dentro de 48 horas da aceitação pública do acordo por Israel, todos os reféns vivos e os corpos dos mortos serão libertados.

4. Após a libertação dos reféns, Israel libertou centenas de prisioneiros palestinos que cumpriam penas de prisão perpétua, bem como mais de 1.000 detidos de Gaza desde o início da guerra, além de devolver os corpos de centenas de palestinos.

5. Anistia condicional para membros do Hamas e facilitação para aqueles que desejam deixar Gaza.

6. O fluxo de ajuda para Gaza, pelo menos nos níveis estipulados no acordo de troca de reféns de janeiro de 2025 (600 caminhões por dia), com a reabilitação da infraestrutura e a entrada de equipamentos para remoção de escombros.

7. A ajuda é distribuída pelas Nações Unidas, pelo Crescente Vermelho e por organizações internacionais neutras, sem a intervenção de nenhuma parte.

8. A gestão de Gaza por um governo de transição composto por tecnocratas palestinos, sob a supervisão de um novo comitê internacional liderado pelos Estados Unidos em cooperação com parceiros árabes e europeus, até a implementação de reformas pela Autoridade Palestina.

9. O desenvolvimento de um plano econômico para a reconstrução de Gaza.

10. A criação de uma zona econômica com impostos e taxas reduzidos.

11. A ausência de deslocamento forçado de palestinos.

12. A proibição do Hamas de governar e sua desmilitarização.

13. Garantias de segurança dos estados regionais para assegurar que todas as partes respeitem seus compromissos.

14. A formação de uma força internacional temporária de estabilidade sob liderança americana e árabe para supervisionar a segurança e treinar a polícia palestina local.

15. A retirada gradual do exército israelense.

16. A possibilidade de implementação parcial do plano em caso de recusa do Hamas.

17. Israel se compromete a não realizar ataques no Catar.

18. Lançar programas para desmantelar o pensamento extremista.

19. Abrindo caminho para um futuro estado palestino.

20. Lançamento de um diálogo político entre Israel e os palestinos.

Fonte aqui

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Genocídio em Gaza: que diremos aos nossos filhos?

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 25/09/2025)

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Mais que tardiamente, Portugal reconheceu finalmente o Estado da Palestina, e apenas porque já o haviam feito, ou estavam a fazê-lo, outros 155 Estados. O Governo da AD tomou essa decisão, ainda assim com a discordância do CDS, não por convicção, muito menos por uma posição de princípio contra o genocídio do povo palestiniano praticado em Gaza pelo governo sionista de Israel, mas simplesmente para não ficar totalmente isolado perante os seus parceiros, desde logo a própria Europa.

Europa essa que, sob o comando da senhora Ursula von der Leyen e invocando pretextos como o do “direito de defesa de Israel”, persegue e encarcera violentamente manifestantes pró-Palestina, como sucede em França ou na Alemanha, onde o simples acto de empunhar uma bandeira palestiniana serve de pretexto para tal repressão. Também na Europa, o Reino Unido declara como terrorista uma organização pró-Palestina (Palestine Action) e persegue e prende os seus membros ou apoiantes. Tudo isto ao mesmo tempo que os diversos governos europeus mantêm relações diplomáticas, comerciais e militares, inclusive o fornecimento de armamento e munições, com o governo de Israel.

Deste modo, sob pena de o reconhecimento do Estado da Palestina não passar de um gesto de profunda hipocrisia, e sob pena de o genocídio prosseguir, impune e sem entraves, é preciso cortar todos os apoios e todas as relações com Israel. Porque do que se trata, em particular em Gaza, é verdadeiramente de um genocídio, tal como a própria ONU já declarou formalmente.

Não esqueçamos – e não o esqueçam sobretudo os mais “distraídos” ou ignorantes, a começar pelos comentadores do pensamento sionista dominante – que a “Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio”, adoptada por unanimidade pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 9 de Dezembro de 1948, através da Resolução n.º 260, e que entrou em vigor a 12 de Janeiro de 1951, define o genocídio precisamente nos seguintes termos:

Artigo 2.º

Na presente Convenção, entende-se por genocídio os actos abaixo indicados, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tais como:

a) Assassinato de membros do grupo;

b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;

c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial;

(…)

Assim, despojar uma população inteira das suas casas, destruir essas casas, expropriá-las das suas terras, privá-la de quaisquer direitos, arrasar cidades e vilas inteiras e condená-la à morte por fome e doença, isso já não é apenas apartheid; é genocídio. Mas, sobretudo, é genocídio matar deliberada e sistematicamente dezenas de milhares de adultos e de crianças que simplesmente procuram comida, que se dirigem a um hospital ou aí são tratados, ou que se deslocam por corredores que as próprias tropas israelitas lhes indicaram como sendo seguros.

E atinge-se o cúmulo da brutalidade e da desumanidade quando os sionistas e os seus propagandistas se atrevem, de forma arrogante e provocatória, a proclamar que “não há fome em Gaza”, que não bombardeiam hospitais, mas apenas “refúgios do Hamas”, e que, quando um atirador israelita mata deliberadamente a tiro crianças com uma tigela vazia na mão, tal é feito por um bem maior e não constitui assassinato de crianças, mas sim a eliminação de futuros terroristas!

Tudo isto enquanto se abatem, sem dó nem piedade, jornalistas (cerca de 200, e mais em apenas dez semanas do que qualquer outro exército no mundo num ano inteiro!) no próprio exercício das suas funções, como já vimos suceder inclusive em directo, simplesmente porque os genocidas não querem testemunhas.

Os judeus que justamente proclamam e denunciam “Não em nosso nome” são, por toda a parte, dura e violentamente atacados e perseguidos. Tal como o são também os militares, sejam eles americanos ou israelitas, que denunciam o genocídio ou se recusam a participar nele.

É preciso afirmar, com todas as letras, que o que estamos hoje a assistir é, tal como no tempo do Terceiro Reich, a uma brutal limpeza étnica: a eliminação física de toda uma população sob argumentos de matriz nazi, como o de que são seres inferiores ou mesmo animais. E os judeus que o praticam, bem como os que a apoiam, são autores de um verdadeiro crime contra a Humanidade e estão, afinal, a fazer precisamente o mesmo que os nazis lhes fizeram nos anos 30 e 40 do século passado.

Todos aqueles, judeus e não-judeus, que fingem ignorar toda esta sanguinária barbárie têm as mãos sujas de sangue palestiniano. Deviam pensar seriamente no que farão amanhã, quando o manto de silêncio, de manipulação e de contra-informação já não puder encobrir a terrível realidade e brutalidade do genocídio em curso, e no que irão dizer aos seus filhos ou netos quando estes, justamente, lhes perguntarem: “E tu, o que fizeste para denunciar e combater todo este horror?”

O corte imediato de todo o tipo de relações e cooperações com Israel; o fim do fornecimento de quaisquer bens, em particular de natureza militar; o boicote à participação israelita em quaisquer eventos, seja qual for a sua natureza; e a perseguição criminal dos responsáveis por crimes de guerra – com Netanyahu, os seus ministros e os chefes militares à cabeça – são exigências que já não são apenas democráticas, mas, acima de tudo, humanitárias e mesmo civilizacionais.

Vamos hesitar e fingir que não vemos nem compreendemos, ou vamos lutar, sem esmorecer, para que essas exigências se cumpram e a Justiça seja realizada?

Fonte aqui

Uma Europa de contradições profundas

(Vários in Multipolar TV, 21/09/2025)


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Uma análise dos factos da geopolítica mais relevantes dos últimos dias em vídeo abaixo na Multipolar TV:

O 19.º pacote de sanções à Rússia ameaça implodir a UE. Rússia sobrevoa zona aérea da NATO como aviso aos ataques de drones vindos de território da UE. Uma pequena europa arrasta toda a UE para o confronto? Montenegro vai à China e jornais voltam com o processo Spinunviva. À incapacidade para formar uma frente unida contra o que se passa em Gaza, alguns estados, como Portugal, vêm reconhecer a Palestina como estado de pleno direito. Paliativo? Ansiolítico? A Espanha sobe a parada e diz “onde Israel estiver, eu não vou”. A Polónia fecha fronteira com Bielorrússia, contra interesses de países do centro e sul da EU. França perde África, mas Rússia, China e Coreia constroem centrais nucleares e garantem independência futura de várias nações. Brasil, continua com algumas dificuldades em escolher se vai para sul, se para norte? E a Venezuela, é agora que entra nos BRICS, após o anúncio de uma parceria estratégica com a Rússia.