Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, a compaixão seria imensa neste país político.
Quem ainda não tinha percebido o significado profundo da grande vitória da direita em Maio percebeu agora com as reacções generalizadas à flotilha que Mariana Mortágua e mais três portugueses integraram.
Se havia dúvidas sobre o país que somos hoje, basta dar um salto às redes sociais, ouvir os comentadores, incluindo do PS, e assistir à fúria que uma missão humanitária provocou. Este ambiente político não existia antes de a direita valer dois terços dos votos dos portugueses.
O ódio à flotilha vem de todos os lados, mesmo de quem chama a Netanyahu “fascista” e admite que Israel está a cometer genocídio.
O Bloco de Esquerda é hoje um partido totalmente irrelevante na sociedade portuguesa que só elegeu um deputado. Suscita tanta fúria porquê? Ou é Mariana Mortágua?
Os argumentos contra Mortágua vão desde “porque não foi para o Sudão” ou “para a Ucrânia” a “está a perturbar o processo de paz em curso”. Não sabia que Mortágua tinha tanta influência na resolução de conflitos, mas este ódio é um sintoma da degradação do espaço público.
Todas estas iniciativas são sempre políticas. Desde quando um acto ser “político” ou “ideológico” passou a ser crime de lesa-pátria? Odeiam Mariana Mortágua por causa do “imposto Mortágua”? Uma péssima notícia para quem ainda não deu por isso: o Governo de direita não acabou com “o imposto Mortágua”. Está em vigor, a menos que o Orçamento agora aprovado em Conselho de Ministros venha a aprovar a sua extinção.
Se a posição da direita, agora maioritária, pode não espantar ninguém (apesar de o Governo ter agora reconhecido o Estado palestiniano, historicamente quase toda a direita é aliada cega das actividades levadas a cabo pelas forças armadas israelitas), o caso da flotilha serviu para perceber como o secretário-geral do PS está perdido, sem rumo e tem só um objectivo neste momento: durar.
Se os ventos são agora desfavoráveis à esquerda, a direcção do PS parece achar que é o “parecer mais de direita” que fará com que o povo um dia o volte a agraciar com bênçãos.
O silêncio de José Luís Carneiro sobre a flotilha e a detenção de Mariana Mortágua e os outros portugueses em Israel — onde o ministro Ben-Gvir foi humilhar os participantes da flotilha acusando-os de ser “terroristas” — tem sido revelador deste medo que percorre algum PS.
Duvido que se o deputado em causa fosse André Ventura (detido na Venezuela, por exemplo, se lá fosse manifestar solidariedade com os presos políticos do regime) não houvesse uma palavrinha de solidariedade não só do PS como dos outros actores políticos em geral.
O incómodo de José Luís Carneiro voltou a ser sentido este domingo quando novamente fugiu às perguntas sobre o assunto, agora sobre a manifestação pela libertação dos portugueses e a mensagem de Ferro Rodrigues. Para Carneiro, “a actualidade política são as autárquicas” e não leu a mensagem de Ferro Rodrigues.
Para que o PS não saísse totalmente envergonhado deste episódio, perante o qual parte dos seus (ainda) eleitores se sentem perplexos, felizmente houve a mensagem de Ferro Rodrigues.
Ferro fez uma crítica dura à posição do líder do CDS e ministro da Defesa — que acusou os participantes da flotilha de “serem apoiantes de terroristas” — de ter “enorme gravidade e irresponsabilidade” e lembrou “o tratamento degradante que o ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, lhes deu, filmando-os ajoelhados e chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos”.
Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, com um ministro a humilhá-lo, a compaixão seria imensa neste país político. Todos os líderes se acotovelariam para manifestar sentida e penhoradamente a sua solidariedade e a exigir a libertação.
Mariana Mortágua, por estes dias, não é pop. Já foi, no tempo em que o Bloco valia 10% e permitiu a José Luís Carneiro tornar-se pela primeira vez governante. Infelizmente, além de Pedro Nuno Santos, que veio condenar os insultos a Mortágua que enchem as redes sociais e não só, praticamente só uma outra voz de decência se fez ouvir: a de Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, que não partilha uma única ideia política com Mortágua. “Chicão” disse na CNN sentir-se “revoltado” com quem “achincalha um conjunto de portugueses que teve a coragem de se opor a um genocídio”.
Não sei se o PS acha que tem mais votos nas autárquicas com este posicionamento. Pode sair-lhe o tiro ao lado.
Samah Matar, uma mãe palestiniana deslocada, com o seu filho Youssef, que sofre de paralisia cerebral e está desnutrido, numa escola onde pernoitavam, quando, em Julho, uma grave crise de fome atingia a Cidade de Gaza, por causa da guerra e do bloqueio movidos por Israel.
Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos.
Vimos com horror o massacre dos israelitas cometido pelo Hamas a 7 de Outubro de 2023. A barbárie que vitimou mais de mil civis atingiu um grau de crueldade inimaginável. Ninguém, no dia seguinte, negava a Israel o direito de responder tomando como alvo a organização terrorista. Hoje, dois anos depois, tornou-se escandalosamente difícil evocar o 7 de Outubro perante a destruição apocalíptica de Gaza. Porquê? Se não faz sentido estabelecer comparações morais entre crimes tão hediondos, as atrocidades do Hamas não são “piores” do que a matança da população palestiniana perpetrada pelo Exército israelita.
Afirmar o contrário é tentar justificar o assassínio de todo um povo. É supor que os israelitas têm o “direito de se defender” de qualquer modo, direito exclusivo que lhes adviria do seu passado histórico de discriminação e de sofrimento sem fim — e que culminou no Holocausto. Passado que fez do povo judeu a vítima eleita da injustiça dos poderes estabelecidos do Ocidente, isto é, vítima da humanidade inteira (e assimilar a humanidade ao Ocidente é já um preconceito eurocêntrico). Considera-se agora que a vida de cada judeu vale mais do que a de qualquer outro ser humano — julgamos assim redimir-nos do Holocausto, nós, herdeiros dos ocidentais culpados daquele crime.
É a crença no valor superior de um judeu — e, portanto, de um israelita — que justifica que se arrase Gaza com os seus dois milhões de palestinianos, que se abatam mulheres e crianças, que se atire a matar contra os que, esfomeados, acorrem aos locais de ajuda alimentar — e que se troque um soldado israelita por centenas de militantes do Hamas. A vida de um palestiniano vale menos do que a de um judeu. A vida de uma criança palestiniana vale menos do que a de uma criança israelita. Ora, a erosão deste princípio, produzida pela guerra de Gaza, faz com que se torne difícil lembrar o 7 de Outubro. Foi uma convicção deste tipo — mas, ao invés, desumanizando os judeus — que levou o anti-semitismo hitleriano ao Holocausto.
Poder para a guerra
Como foi possível esta reviravolta que converteu um povo mártir em responsável por um massacre tão abominável como o que sofreu na Segunda Guerra Mundial?
Ele, que devia ser o primeiro a afirmar e a praticar as normas mais básicas de respeito pelo outro, ergueu-se, arrogante e feroz, e decidiu vingar-se bombardeando e matando a que julga ser raça inferior. A lógica que levou os descendentes das vítimas dos campos da morte nazis a uma tal posição de poder prepotente mostra como o exercício do poder político, voltado essencialmente para fins de sobrevivência, se transforma em poder para a guerra, com todas as consequências bárbaras que acarreta, sobretudo quando detém uma enorme superioridade bélica.
A ameaça de morte de Israel brandida pelos Estados árabes foi constantemente amplificada pelo discurso paranóico do poder israelita que via nela a continuação do projecto de “solução final” do Holocausto; e, para dele definitivamente se livrar, virou-o contra o inimigo, começando pela expulsão brutal, em 1948, dos palestinianos e árabes das suas terras (Nakba), seguido pela política dos colonatos e pela transformação de Gaza num vasto campo de concentração. Projecto que culmina agora com a sua destruição. O processo que levou à guerra actual e à decisão de eliminar por completo a presença e a existência de um povo do seu território implicou a inversão imaginária da posição de vítima (do Holocausto) na de carrasco; e a inversão e projecção da ameaça de aniquilação total (reactivada pelo 7 de Outubro) sobre o inimigo árabe-palestiniano.
Palestinianos desesperam para receber alimentos de uma cozinha comunitária no final de Agosto — a fome atinge a Cidade de Gaza e as áreas vizinhas
Gaza tornou-se um campo de extermínio de ratos humanos que fogem para todos os lados enquanto são bombardeados pelos aviões israelitas que os abatem à vontade, às dezenas, todos os dias. No meio de escombros e de lixo, os palestinianos dormem ao relento ou em tendas, correm humilhados e esfomeados para a ajuda humanitária que não chega, vivem sem cuidados médicos, sem higiene, doentes, feridos, mutilados, constantemente escorraçados. Vão de um sítio para outro, supostamente seguro, mas onde são baleados, despedaçados, mais uma vez desapossados da sua condição de humanos.
Nas imagens e nos relatos que nos chegam, é como se víssemos desenrolar-se, a céu aberto, uma outra versão da vida dos prisioneiros de Auschwitz. Gaza transformou-se no laboratório social de um Mengele genocidário: testa-se a resistência de um povo que, morrendo todos os dias um pouco, há-de acabar por abandonar a sua terra ou ser expulso por cinco mil dólares por pessoa — deixando-a livre, para os grandes empreendimentos imobiliários construírem a “Riviera do Médio Oriente” sonhada por Trump.
À frente dos nossos olhos
Tudo isto se passa diante dos nossos olhos com a cumplicidade da Europa, dos Estados Unidos e das nações democráticas que se calam perante os crimes de Israel. Neste sentido, Gaza é hoje o revelador sintomático de uma situação geopolítica mundial abstrusa, absurda, que nos afecta a todos, individual e colectivamente: as relações de força que determinam as estratégias e acções políticas das grandes potências, que condicionam a guerra e a paz e, directamente, a vida dos indivíduos, cessaram de se mascarar com ideologias, doutrinas políticas, religiões ou normas de direito internacional, para aparecer na sua nudez, na sua crueza ou crueldade brutas — e serem aceites como “normais”.
A visibilidade (não a transparência) dos acontecimentos, processos e iniciativas que giram à volta dessas relações de força alcançou um tal grau de intensidade e extensão que os valores jurídicos e a moral política já não contam — vale apenas a força, não há sequer lugar para o cinismo, a mentira ou a denegação, que tendem a desaparecer, dissolvidos na universalidade e clareza da violência que ocupa todo o campo político. Putin e os seus “crimes contra a humanidade” perpetrados na Ucrânia; Netanyahu e o assassínio colectivo de uma população indefesa; a repressão brutal das revindicações femininas pela polícia de Teerão; a inimaginável crueldade dos taliban contra as mulheres afegãs; a morte pelas bombas e pela fome das crianças palestinianas são “admitidos” com indiferença pelas democracias ocidentais.
Putin, Netanyahu, Trump e outros autocratas e criminosos de gravata continuam a exibir-se na cena mediática internacional, atraindo simpatias, elogios, posturas reverenciais, como se nada fosse. Porque acontece que esses homens não são apenas pessoas, representam a força de uma política que impõe aos povos um estado de espírito. Os sistemas autocráticos actuais concentram todo o tipo de poder (político, militar, económico, judicial) num só indivíduo. Deste, dos seus interesses e da sua vontade, depende a vida de milhões de seres humanos — o destino dos ucranianos nas mãos de Putin; as vidas dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia sacrificadas para que Netanyahu escape à justiça do seu país. Estes factos escandalosos, a sua impunidade ofensiva, a ausência de uma instância que os impeça e os puna — quando, por outro lado, a sua presença é cada vez mais exigida pelo sentimento de injustiça que vai emergindo na opinião pública — são mais uma faceta do bloqueio e da passividade a que a consciência política das nações parece condenada.
Gaza reflecte uma situação planetária paradoxal: a democracia de Israel comporta-se como uma autocracia; o povo descendente da Shoah apoia a “solução final” que os seus dirigentes programaram para os palestinianos; as vítimas tornaram-se verdugos, o “bom” é agora “mau” e cruel — e são eles os nossos aliados, depositários do mais profundo legado de humanidade, aquele que, precisamente, deveria fundar a nossa fé na democracia, depois do Holocausto.
Neste sentido, Gaza espelha da forma mais aguda o que acontece hoje às democracias, minadas pela violência da extrema-direita: os seus mecanismos institucionais políticos e jurídicos tendem a funcionar ditatorialmente, enquanto o discurso e os rituais de ostentação se mantêm aparentemente “democráticos”, afirmando a liberdade para o povo. Uma mesma lógica distorcida tece o fio que liga afectiva e politicamente Netanyahu a Orbán, Orbán a Putin, Putin a Trump, Trump a Bolsonaro, a Milei e a Meloni. Mas essa lógica deixa atordoados os jovens que se iniciam na democracia: será mesmo Putin o responsável pela guerra da Ucrânia? As atrocidades do Hamas no 7 de Outubro não justificam a retaliação empreendida por Israel?
A moral política evaporou-se, os fins agora justificam os piores meios porque o que está constantemente em jogo é, alegadamente, a sobrevivência das nações — foi uma questão “existencial”, como diz Putin, que levou a Rússia a invadir a Ucrânia; é uma questão de “segurança nacional” que faz Trump afirmar que os Estados Unidos “precisam de ter” a Gronelândia; é a sobrevivência de Israel que legitima a sua política bélica contra os palestinianos e os árabes. Porque os fins são derradeiros, todos os meios — e, antes de mais, a guerra — são bons para os atingir.
No discurso polarizado extremista do MAGA invoca-se a necessidade de matar para o renascimento da América; e todo o discurso xenófobo e racista dos movimentos populistas europeus fazem da morte do inimigo a condição primeira da sobrevivência. Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos. O genocídio dos palestinianos viabiliza a vida do povo israelita — aceitá-lo é aceitar a nova ordem mundial.
A política da força
A impunidade com que Netanyahu, Putin e Trump conduzem a sua obra de destruição vem da supremacia que a violência adquiriu nas relações entre Estados. O império da força leva à impotência dos povos e dos indivíduos. Nunca como agora essa impotência se manifestou tão agudamente: desde as manifestações de centenas de milhares de bielorrussos, ou de iranianas, durante semanas e semanas, de que só resultaram a repressão brutal e o reforço dos regimes autoritários até ao massacre, executado na impunidade, dia após dia, aos olhos de todos, dos palestinianos de Gaza, é toda uma série crescente de crimes cometidos pela pura violência do poder que paralisa, sidera e petrifica as vontades. É um terror legal, de Estado, que se abate sobre a população mundial.
A violência é política, física e mental, intelectual e emocional, e violência bélica letal. Gaza concentra em si a visão da impunidade obscena de todos os assassinos e violadores do direito internacional. As resoluções da ONU ou do Tribunal Internacional de Haia, as iniciativas das ONG, as denúncias dos media, os protestos populares revelam-se impotentes para conter a injustiça. A violência desfaz o simbólico: as manifestações de massa, as greves da fome, as imolações públicas, os sacrifícios mais corajosos perdem toda a sua eficácia. A impunidade vem da estratégia da violência, mas também da espécie de dilema a que ela condena todo o tipo de resistência possível: porque é da sobrevivência da nação prepotente que se trata, ou se aceita a eliminação do inimigo — por qualquer meio —, ou se é eliminado por ele. Ou se apoia o morticínio dos palestinianos para salvar Israel e os reféns, ou se é destruído pelo Hamas. Ou o Governo americano (e os Governos europeus) expulsa os imigrantes (“assassinos e violadores”), ou o seu país desaparecerá.
Este dilema em forma de extremo duplo impasse violenta e bloqueia o pensamento e a acção, deixando o campo aberto à política da força que avança sempre arrasando tudo à sua frente, sem hesitações, sem culpabilidades nem escrúpulos. É a lógica da violência neofascista. É ela que está a reduzir Gaza a cinzas. É ela que sufoca os resistentes que, não se deixando vergar aos ditames desta lógica, procuram ainda meios de lutar contra a ignomínia que nos atinge a todos.
(Por Mustapha Stambouli, in Reseau International, 30/09/2025, Trad, Google)
Apresentado como a solução definitiva para o conflito israelense-palestino, o plano de Donald Trump propõe um conjunto de medidas destinadas a resolver as tensões entre a entidade sionista e os palestinos. No entanto, por trás das promessas de reconstrução e segurança, escondem-se aspectos que levantam muitas questões. Neste artigo, analisamos os pontos-chave do plano, destacando os perigos que ele representa para a soberania palestina e os riscos de agravar o conflito em vez de resolvê-lo.
Introdução
O plano de Trump para Gaza é apresentado como uma tentativa de resolver o conflito israelense-palestino impondo um amplo acordo de paz em Gaza. Mas por trás das promessas de reconstrução e segurança escondem-se elementos que levantam sérias preocupações quanto à sua justiça e viabilidade. Ao analisar os 21 pontos do plano, este artigo destaca os aspectos mais problemáticos, que correm o risco de agravar a situação em vez de resolvê-la.
1. Paz a qualquer preço: desmilitarização imposta
Um dos pontos mais controversos do plano é a desmilitarização do Hamas (Ponto 12). Forçar um grupo que se considera uma resistência legítima à ocupação israelense a se desarmar equivale a privar os palestinos de sua capacidade de se defenderem contra uma ocupação que já dura décadas. Essa demanda é vista não apenas como uma humilhação para o povo palestino, mas também como uma tentativa de suprimir qualquer forma de resistência legítima à ocupação. Além disso, o estabelecimento de forças de segurança internacionais (Ponto 14), lideradas pelos Estados Unidos, levanta questões sobre a verdadeira neutralidade dessas forças e o controle palestino que elas deixariam.
2. Reconstrução sem autonomia
O plano propõe a reconstrução de Gaza (Ponto 1), mas seria colocada sob supervisão internacional liderada pelos Estados Unidos e seus aliados, colocando em questão a soberania de Gaza e da Palestina como um todo. Em vez de plena autonomia para os palestinos, este plano cria um sistema em que a reconstrução ocorre sem qualquer participação ou controle local real. Gaza seria governada por um governo de transição composto por tecnocratas palestinos (Ponto 8), supervisionado por um comitê internacional. Isso reforça a ideia de que a Palestina é incapaz de administrar seus próprios assuntos sem a intervenção de atores estrangeiros, o que corre o risco de reduzir ainda mais a capacidade decisória palestina.
3. A exclusão da voz palestina
Outro grande problema é a falta de uma representação palestina verdadeiramente independente no processo. O plano prevê uma zona econômica com impostos e taxas reduzidos (Ponto 10) e outros incentivos econômicos para atrair investimentos estrangeiros, mas a que custo? A ausência de um diálogo inclusivo com as diversas facções palestinas — particularmente o Hamas e a Jihad Islâmica — leva a uma solução imposta externamente. Esse tipo de solução ignora as realidades políticas e sociais palestinas internas e só pode levar à instabilidade a longo prazo.
4. Um frágil equilíbrio de paz
A questão da segurança é central para o plano, com garantias de segurança por parte dos Estados regionais (Ponto 13) e a criação de uma força internacional temporária de estabilidade (Ponto 14). No entanto, o papel de liderança dos Estados Unidos nessa estrutura é problemático. Os Estados Unidos, tradicionalmente vistos como um aliado incondicional de Israel, têm pouca credibilidade como mediador imparcial. O plano de Trump não parece vislumbrar um verdadeiro equilíbrio de poder entre Israel e Palestina, mas sim uma imposição da vontade israelense sobre os palestinos, tornando quaisquer garantias de segurança desequilibradas e frágeis.
5. Uma promessa de futuro sem conteúdo prático
O ponto mais desestabilizador para o futuro dos palestinos é a promessa de um futuro Estado palestino (Ponto 19). Embora essa promessa pareça um passo em direção ao reconhecimento internacional de um Estado palestino, ela permanece muito vaga e condicionada a elementos que enfraquecem a autonomia palestina. Não há menção clara às fronteiras ou à soberania desse futuro Estado, e a prioridade parece ser dada às reformas internas palestinas (como a gestão de Gaza por um governo de transição) em vez da criação de um Estado verdadeiramente soberano.
6. Uma paz perfeita para a entidade sionista, incompleta para a Palestina
Por fim, este plano parece ser muito mais favorável a Israel do que à Palestina. A retirada gradual do exército israelense (Ponto 15) é um elemento positivo, mas não aborda as violações sistemáticas dos direitos humanos cometidas por Israel durante sua ocupação, nem as condições de vida insuportáveis dos palestinos nos territórios ocupados. De fato, em vez de propor um verdadeiro equilíbrio de paz, o plano propõe um status quo no qual Israel manteria grande parte de seu poder e os palestinos, na melhor das hipóteses, estariam sujeitos à tutela internacional com pouco poder político real.
Conclusão: Um plano de paz ou de submissão?
Em suma, o plano de Trump para o Oriente Médio, embora busque alcançar algum tipo de paz, assenta em fundamentos profundamente injustos. Ao apagar os direitos palestinos e forçá-los a aceitar a tutela internacional, corre o risco de prolongar o conflito em vez de resolvê-lo. Uma paz duradoura não pode ser imposta por meio de soluções externas ou compromissos unilaterais. Ela exige um diálogo genuíno e respeitoso entre os povos, o reconhecimento dos direitos legítimos dos palestinos e um compromisso genuíno com o fim da ocupação israelense.
Apêndice: Lista dos 21 pontos do plano Trump
0. Tornar Gaza uma zona livre de radicalismo e terrorismo.
1. A reconstrução de Gaza.
2. Após ambas as partes concordarem com o plano, a guerra termina imediatamente, as operações israelenses cessam e a retirada gradual de Gaza começa.
3. Dentro de 48 horas da aceitação pública do acordo por Israel, todos os reféns vivos e os corpos dos mortos serão libertados.
4. Após a libertação dos reféns, Israel libertou centenas de prisioneiros palestinos que cumpriam penas de prisão perpétua, bem como mais de 1.000 detidos de Gaza desde o início da guerra, além de devolver os corpos de centenas de palestinos.
5. Anistia condicional para membros do Hamas e facilitação para aqueles que desejam deixar Gaza.
6. O fluxo de ajuda para Gaza, pelo menos nos níveis estipulados no acordo de troca de reféns de janeiro de 2025 (600 caminhões por dia), com a reabilitação da infraestrutura e a entrada de equipamentos para remoção de escombros.
7. A ajuda é distribuída pelas Nações Unidas, pelo Crescente Vermelho e por organizações internacionais neutras, sem a intervenção de nenhuma parte.
8. A gestão de Gaza por um governo de transição composto por tecnocratas palestinos, sob a supervisão de um novo comitê internacional liderado pelos Estados Unidos em cooperação com parceiros árabes e europeus, até a implementação de reformas pela Autoridade Palestina.
9. O desenvolvimento de um plano econômico para a reconstrução de Gaza.
10. A criação de uma zona econômica com impostos e taxas reduzidos.
11. A ausência de deslocamento forçado de palestinos.
12. A proibição do Hamas de governar e sua desmilitarização.
13. Garantias de segurança dos estados regionais para assegurar que todas as partes respeitem seus compromissos.
14. A formação de uma força internacional temporária de estabilidade sob liderança americana e árabe para supervisionar a segurança e treinar a polícia palestina local.
15. A retirada gradual do exército israelense.
16. A possibilidade de implementação parcial do plano em caso de recusa do Hamas.
17. Israel se compromete a não realizar ataques no Catar.
18. Lançar programas para desmantelar o pensamento extremista.
19. Abrindo caminho para um futuro estado palestino.
20. Lançamento de um diálogo político entre Israel e os palestinos.