Entre a esperança e a necessária desconfiança – o acordo entre Israel e o Hamas

(Por Wellington Calasans in X, 10/10/2025)


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O anúncio feito ontem, 8 de outubro, de um acordo entre Israel e Hamas — mediado por Donald Trump e baseado em seu plano de 20 pontos — trouxe um suspiro coletivo de alívio.

Após mais de dois anos de uma guerra descrita por organizações de direitos humanos e uma comissão da ONU como de caráter genocida, milhares de palestinos mortos, a perspetiva de cessar-fogo, retirada parcial de tropas israelenses e troca de prisioneiros parece um raio de luz no horizonte devastado de Gaza.

Contudo, esse otimismo é necessariamente temperado por um realismo histórico, político e moral que não pode ser ignorado. Longe de parecer pessimista, soaria ingênuo ignorar a necessária desconfiança quando uma das partes se considera “povo escolhido” e enxerga um país inventado pela ONU como “terra prometida”.

Há razões para esperança. O próprio Hamas, em comunicado, afirmou ter agido com responsabilidade, consultando outras fações da resistência antes de aceitar os termos.

A inclusão de figuras como Marwan Barghouti e Ahmed Saadat nas listas de prisioneiros a serem libertados sinaliza uma concessão significativa por parte de Israel — algo que, em fases anteriores do conflito, parecia inimaginável.

Além disso, a pressão interna israelense, vinda de famílias de reféns e de uma opinião pública cansada da guerra, combinada com o desejo de Trump de consolidar uma vitória diplomática, criou uma janela de oportunidade rara.

A Rússia, por meio de Lavrov, reconheceu o plano como “a melhor opção que existe” em termos de aceitabilidade regional e não rejeição formal por Israel. A China, através de analistas nas agências oficiais de notícias, viu o acordo como “um momento muito importante para a paz”.

Mas é justamente no interesse verdadeiro pela paz que reside o cerne do pessimismo. A história recente está repleta de acordos rompidos por Israel. Em 2023 e em janeiro de 2025, cessar-fogos foram seguidos por intensificações da ofensiva militar.

Um levantamento detalhado aponta que Israel cometeu mais de mil violações de acordos anteriores, incluindo incursões, ataques aéreos e obstrução de ajuda humanitária.

Netanyahu, cuja sobrevivência política tem sido alimentada pela perpetuação do conflito, tem um histórico explícito de sabotar negociações de paz.

Durante anos, a sua política foi manter o Hamas no poder, inclusive facilitando o fluxo de dinheiro do Catar para Gaza, com o objetivo claro de dividir os palestinos e impedir a formação de um Estado palestino unificado.

Essa estratégia, como escreveu um analista, visava “preservar seu próprio domínio” — e o massacre de 7 de outubro, embora trágico, acabou servindo a esse fim, ao justificar uma campanha militar de proporções históricas, inclusive com provas robustas de que Israel atuou de maneira coordenada com o Hamas para o assassinato daquelas pessoas.

Mais perturbador ainda é o emaranhado de relações entre Israel e setores do Hamas. Embora o grupo seja retratado como inimigo absoluto, há evidências consistentes de que Israel infiltrou agentes em suas fileiras — e, inversamente, de que membros do Hamas operaram como informantes duplos.

Em maio de 2025, por exemplo, Israel prendeu uma fonte do Shin Bet em Gaza que se revelou agente duplo a serviço do Hamas. Por outro lado, o próprio Hamas já executou dezenas de supostos colaboradores israelenses em momentos críticos do conflito.

Esse jogo de espelhos sugere que, dentro do Hamas, há fações ou indivíduos cujos interesses pessoais, de sobrevivência ou de poder local se sobrepõem à causa coletiva do povo palestino — o que alimenta desconfianças legítimas sobre a representatividade e a integridade das negociações.

Além disso, o acordo atual deixa em aberto questões cruciais: o desarmamento do Hamas, a governança pós-guerra em Gaza e a retirada total das forças israelenses. Netanyahu já deixou claro que rejeita qualquer solução que leve à independência palestina, e seu gabinete inclui ministros de extrema-direita que ameaçam abandonar o governo caso haja “concessões excessivas”.

Tudo indica que o cessar-fogo pode ser, mais uma vez, uma pausa tática — uma forma de conter o desgaste internacional, apaziguar a pressão doméstica e reorganizar as forças para uma nova ofensiva, especialmente contra o que Israel chama de “infraestrutura residual” da resistência. Enquanto isso, alguma “falsa bandeira” é preparada.

Por isso, a cautela expressa pelas autoridades de Gaza — que pediram à população para não se mover livremente nas ruas principais, mesmo após o anúncio do acordo — é não apenas prudente, mas necessária.

A frase do dirigente do Hamas Izzat al-Rishq — “o que Israel não conseguiu alcançar por meio de genocídio, não conseguirá por meio de negociações” — ecoa como um lembrete: a resistência palestina não se rendeu; apenas aceitou uma trégua condicionada à implementação fiel do que foi acordado.

Em última análise, o acordo de 8 de outubro é menos um fim e mais um teste. Um teste de vontade política, de coerência ética e, sobretudo, de memória histórica. Se Israel repetir os seus padrões de violação, o ciclo de violência se reiniciará, mais brutal ainda.

Se, por outro lado, as partes — e especialmente os garantidores internacionais — impuserem o cumprimento integral dos termos, talvez se abra um caminho, ainda que tortuoso, para algo além da mera sobrevivência: a dignidade. Até lá, o otimismo deve ser mantido, mas com os olhos bem abertos — e os pés firmes na lição que a história insiste em ensinar.

Por tudo isso, chamar a este momento “acordo de paz” é precipitado. A prudência e a conduta das partes apontam para uma “trégua”. A comunidade internacional tem a chance de provar que pode fazer mais pelo povo da Palestina do que emitir “notas de repúdio”.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com o original

7 pensamentos sobre “Entre a esperança e a necessária desconfiança – o acordo entre Israel e o Hamas

  1. Essa “senhora” financiou também grupos de direita radical que espalharam o terror nas periferias das cidades venezuelanas.
    Em 2018 chegou a pedir ao carniceiro de Gaza uma invasão israelita do seu país.
    Se isso é lutar pela paz eu sou um jacaré.
    Quanto ao acordo de paz para Gaza e natural que quem não teve tomates nem vontade de impedir o genocídio se sinta aliviado.
    Vai deixar de existir imagens de gente a morrer de fome ou a bomba, a opinião pública dos seus países vai acalmar e ate Israel vai continuar a participar em competições desportivas como se os cerca de 200 mil palestinianos que mataram nos ultimos dois anos nunca tivessem existido.
    E vao poder voltar a chamar antissemita ao dono de um restaurante que ponha sionistas no olho da rua.
    O Hamas não teve outros remédio se não aceitar este balde de m*rda ou seria por toda essa canalha considerado culpado pela continuação do genocidio.
    Agora duvido muito que ele acabe.
    Quando temos um ministro das Finanças israelita a dizer que o Direito Internacional não se aplica aos judeus porque eles são o povo eleito e quanto toda aquela canalha acredita que aquela terra lhes foi dada por Deus não e preciso dizer mais nada.
    Acresce a isso o facto de Israel nunca ter cumprido acordo nenhum.
    Depois de acalmar um bocadinho e toda a gente ficar descansada dizem que levaram com um rocket em cima e vai outra vez tudo raso.
    Porque o povo eleito de Deus não precisa de prestar contas a ninguém na terra nem de cumprir acordos firmados com gentios.
    O que e preciso perceber que quando se trata de Israel temos de pensar como se pensava há quatro mil anos atrás. Porque e lá que Israel está.
    Israel não vive no Século XXI por isso é inútil imaginarmos que se vai reger pelas regras deste século ou pelo menos pela regra medieval do “pacta sunt servanda”, traduzindo, os pactos devem ser respeitados.
    Porque o povo eleito não tem obrigação de respeitar tratados firmados com gentios.
    Infelizmente não deixaremos de escrever sobre crimes israelitas.
    E gostava muito de nao ter razão.
    Quanto aos israelitas vao chamar antissemita ao diabo que os carregue já que não se decidem a ir ver se o mar da tubarão branco cheio de larica.

    • A “senhora” Coringa Malvado faz lembrar uma outra “grande líder”, “pacifista e democrata”, de seu nome Ursa von der Leyen.
      Nem sei como esta não arrecadou o Nobel da Paz, depois de tanto apelar à guerra contra a Rússia, ter lançado o programa de Rearmamento da Europa, ter cedido às tarifas de Trump e ainda submetido a UE ao investimento incomensurável em combustíveis fósseis e armamento americanos.
      Se a Coringa Machado apela a revoltas populares violentas, apoia milícias e golpadas, invasões estrangeiras e embargos e bloqueios e sanções internacionais ao seu próprio país, assim como pirataria costeira, parece cumprir todos os requisitos para lhe ser atribuído o galardão da “pomba branca”, e quiçá o da “pomba gira”.
      Ambas são condescendentes com o genocídio em Gaza, pelos encómios que dirigem ao criminoso de guerra e primeiro ministro do estado israelita Netanyahu, responsável por tantos crimes, tantos assassinatos e tanta destruição que já se perdeu a conta, e quem vai pagar (a conta) serão os inocentes e os desprotegidos, como sempre, que esta gente vai continuar a aparecer nos banquetes faustosos e nas galas douradas, mesmo visados por mandatos de captura internacional. Mas pronto, elas só não suportam o Maduro e o Putin, se for Podre como o Trampas e Netanyahu, papam tudo.

      • Caro companheiro de jornada, caíram-te duas gralhas na prosa. Onde escreveste galardão da “pomba branca” e, quiçá, o da “pomba gira”, imagino que quisesses escrever “bomba branca” e “bomba gira”.

        • Fui apanhado em flagrante de lido… merecia só por tal ir viver para a Venezuela, a espensas próprias, e com um alvo nas costas para ser atacado pelas forças especiais do Trampas ou as milícias pacifistas da Coringa Malvado… e assim a Ursa von der Lidl se livrava de ter as orelhas a arder volta e meia…

  2. Dizer que o Hamas “colabora” com Israel só porque há porcos da Mossad/IDF infiltrados em Gaza, seria como dizer que o Irão “colabora” com israel só porque houve porcos da Mossad/IDF infiltrados dentro do Irão durante o ataque dos EUA/israel contra aquele país.

    Afirmar que israel quer uma Palestina dividida entre Hamas e “autoridade” Palestiniana, é também um erro, só possível para quem não percebe que nenhum meteo quadrado de Gaza foi ou será colonizado, enquanto que a Cisjordânia “liderada” pelo Mahmoud Abbas está quase à beira de desaparecer, colonato após colonato, muro após muro, sem um pingo de resistência feita pela tal da “autoridade”.

    Como é óbvio, há um lado que resiste (Hamas) mas é infiltrado pelos porcos da Mossad/IDF, enquanto que do outro lado (na Cisjordânia) há apenas e só colaboração pacífica (submissa) com o opressor colonizador, ao ponto de ser a própria “autoridade” Palestiniana a ser quem oprime os Palestinianos que protestam contra a colonização israelita.

    Se o Hamas fez o 7-Outubro com grande sucesso, e isso só pode ser visto como sucesso e como o exercer de um Direito Humano à Resistência Violenta, tal como dita a Carta da ONU e já assim decidiu o ICJ (Tribunal Internacional de Justiça), não foi por ter a sua liderança a colaborar com os porcos nazi-sionistas genocidas como Netanyahu e companhia.
    Foi, isso sim, porque esses porcos decidiram que era o momento ideal para deixar acontecer a coisa, em vez de a impedir. Exatamente para depois poderem “justificar” a invasão milirar e o GENOCIDO que se seguiram.

    Tirando estas notas, de uma coisa o autor está absolutamente certo: o que se segue não é paz, é apenas uma pausa, e os EUA/israel vão inevitavelmente violar os acordos todos, diariamente, até provocarem o 7-Outubro seguinte.
    Sendo também possível que entretanto iniciem mais uma guerra em larga escala, desta vez contra o Irão, ou quiçá uma ocupação definitiva do Sul do Líbano e da Síria ainda antes dessa guerra final contra o Irão.

    E o que vai a tal de “comunidade internacional” fazer?
    Nada!
    Quem quer agredir, agride impunemente.
    Quem é agredido, ou se defende como pode (como o Hamas, Hezbollah, Ansar Allah, e IRGC fazem), ou torna-se uma vítima completamente desamparada.
    A China está a prestar atenção a Taiwan e Filipinas.
    A Rússia está emperrada na Ucrânia.
    No Brasil o Bolsonarismo ainda respira.
    Na India e Indonésia podem acontecer os próximos golpes à la Bangladesh e Nepal.
    A África do Sul pode vir a sofrer com o seu próprio “Mondlane”.
    A Venezuela pode ser invadida.
    A tentativa de golpe ainda decorre na Geórgia, e inevitavelmente voltará à Bielorrússia, e países da Ásia Central.
    A Moldávia já foi golpeada.
    A Argentina continua sob sequestro do agenre Milei.
    E os países Árabes ou Muçulmanos dão uma cambada de idiotas (tenho mesmo de dizer assim), ou demasiado corruptos com dolares6e shekels, ou demasiado covardes.
    A Europa é o “Mini Me” do império.
    E o império dos EUA e Reino Unido continuará impune em todas as agressões, terrorismo, golpes, guerras proxy, e GENOCÍDIO, onde muito bem entender.

    E não há ONU, porque não há humanidade. A única forma da ONU ser útil e efectiva, era se fosse controlada por uma espécie alienígena superior, armada até aos dentes ao ponto de tornar as nossas armas nucleares inúteis, e capaz de impor a decência a esta espécie estúpida de macaco chamada Homo Sapiens…

    PS: o prémio Nobel da “paz” vai para uma agente corrupta do império, golpista violenta, fascista, traidora, que quer sanções para o seu povo passar fome, quer uma invasão militar contra o seu próprio país, e quer chegar ao poder (enquanto vassala do Tio Sam) para dar as riquezas naturais da Venezuela ao imperador em Washington.
    Mais palvras para quê?
    Só para dizer que tudo quanto é mete-nojo na Europa está a bater palmas a mais uma vergonha desta academia de “ciências”.
    Um Nobel para o Obama e outro para a Corina Machado. A seguir ainda se lembram de dar um Nobel da “paz” ao André Ventura após ele ganhar a farsa eleitoral poruguesa e “libertar o país da opressão socialista e tirar o Putinismo (neutralidade militar) da Constituição”…

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