Do POIO do POIARES a outras BUNDAS!

(Joaquim Vassalo Abreu, 17/07/2017)

bunda

Não é por Carlos Drummond de Andrade que eu vou, descansem! Para plagiador já basta um outro que, ouvi dizer, plagiou não a Bunda, mas o poio saído de uma outra que o Poiares exibe em sua peluda cabeça…

Como devem ter reparado, tenho andado arredado destes lugares. É que estive cerca de dez dias no Algarve, de férias. TV no apartamento eu até tinha, mas nos oito dias não foi ligada uma vez sequer e jornais nem vê-los! Até o meu neto Pedro meteu férias dos desenhos animados. O apartamento serviu apenas para atenuar o cansaço (daquela “cansera”, como diz o Amigo Manuel Azevedo). E que “cansera” Amigo…

De Política só soube a do dia anterior à ida e a do dia anterior à vinda! À ida fiquei a saber que do Poiares saiu um Maduro poio (uma entrevista ou coisa assim…) que continha, no meio de um amontoado de excrementos, uma pífia pérola: “O Costa até pode ser mais habilidoso, mas o Passos tem mais visão de futuro”! Não quis saber de mais nada e disso muito menos!

Fiquei-me pela Praia de Monte Gordo- não sei de onde tal nome provém, nem procurei saber, pois de monte não notei vestígio algum e de gordo menos ainda- e, logo no primeiro contacto com aquela larga, profunda, enorme, mas aconchegante Praia, dei por mim, discreta e circunstancialmente, a rodar os olhos pela dita, uma praia longa, de fina areia e pé até perder de vista, e a pensar naquilo que nela mais abundava, para além da fina areia e da cálida água. E concluí isso mesmo: Nesta Praia o que mais abunda é a Bunda! E que nela, a Bunda, o que mais abundava era a falta de vegetação (tecido), o que faz dela uma paisagem à parte dentro da própria Praia.

A Bunda é constituída, ela sim, por dois montes: uns ainda de aspecto viçoso de quase virgens, tal a hirteza que demonstram; outros já com pequenos sinais de uso e ainda outros, estes mais calejados por tantos anos de “tik-tok”, “tik-tok”, mas todos separados por um estreito e suave vale, onde corre um imperceptível fio, comprimido pelas duas erguidas e simétricas margens, mas desaguando todos num largo e ostensivo estuário, um delta mesmo, direi eu!

Deltas esses do mesmo tipo, mas de variadas configurações: uns de nula vegetação; outros com ela mais aparada e tratada e outros ainda de fauna tão espessa, qual densa mata, que quase nem dá para perceber onde o mesmo desagua!

É a Bunda, a Bunda que só vemos fragmentando o olhar! Assim tipo “frames”! Um olhar que não pode ser fixo, sob pena de nela nos perdermos de ilusão. Mas da qual o olhar não podemos arredar, sob pena de numa delas esbarrar…

E “tik-tok”, “tik-tok”, lá vão elas saltitando cadenciadas numa alternância sem par, mesmo que par nunca deixem de ser. “Tik-tok”, uma sobe outra desce, uma contrai outra descontrai, uma amolece outra enrijece, mas ganhando, e sempre alternadamente, uma nova e graciosa alma.

Se olho em frente vejo Bunda, se desfaço o olhar e para o lado o viro Bunda vejo e se o dirigir para o infinito, uma infinidade de Bundas revejo! Que fazer, então?

A “Bunda é redunda”, dizia o Carlos Drummomd de Andrade, mas também é ímpar quando quer, isso digo eu.

Imaginem atravessar aquela Praia imensa de Monte Gordo em direcção à água, na tentativa de se abstraírem da visão de tanta Bunda e, para além de nesse imenso trajecto se refastelarem de Bundas, avistarem, mesmo que ainda de longe, umas senhoritas enlevadas em descontraída conversa, acerca dos seus pequenotes ali em frente fruindo as cálidas águas das poças que o mar antecipam, só poderá ser, e que, para enganar o cansaço daquela posição rígida, se resolvem colocar em posição de descanso. Uma perna para a frente, outra perna mais contraída para trás. O que é que daí resulta? Uma exposição de beleza sem igual: uma queda mais hirta aguentando o peso, enquanto a outro desanuvia e descontrai. O Drummond de Andrade também diz que “São duas luas gémeas em rotundo meneio de cadência mimosa”, e que bem que ele diz, mas às vezes descansam de tanta cadência, acrescento eu.

Mas, deambulando o olhar Bunda a Bunda, “redunda” ou rotunda, mas todas de natureza e graciosidade ímpares, não deixando contudo nunca de serem pares…cheguei ao fim das férias…

E, como disse, foi quando soube do segundo caso político da semana: o plágio do Passos ao poio que da bunda situada na cabeça do Maduro saiu! E da bunda da cabeça melada do Passos saiu a ideia de exibir o poio que a bunda da cabeça do Poiares expeliu…Uma escatológica depravação, foi o que foi!

É que o Poiares tem a sua bunda na cabeça. E é peluda! Que “HÓRROR”!!!

Até ao ano Monte Gordo! Mas não engordes mais, tá? E “tik-tok”, “tik-tok”, “tik-Tok”…lá vim eu a toque de caixa. Mas para o ano haverá mais, muitas mais bundas! Elas abundam e são eternas!

E assim foi a minha semana Política!

Pelo que : Abaixo o poio e Viva a Bunda!


Fonte aqui

Que horror, trabalhar menos horas?

(Francisco Louçã, in Público, 28/12/2016)

louca

Francisco Louçã

O susto parece ter-se instalado em algumas boas famílias, pois constou que em 2017 podemos ser obrigados a trabalhar menos horas. É algo exagerado, parece que o governo vai atalhar esses atrevimentos e manter a ordem sagrada, pese embora a umas intrigas parlamentares que se esvairão sem consequências de lamentar. Já basta a reposição dos quatro feriados e a redução das cinco horas a mais que tinham sido impostas à função pública, por aí se fica a correcção aos ímpetos troikistas.

Quanto a dias de férias, nem pensar em voltar ao que era naqueles tempos sombrios em que as instituições internacionais não tinham ainda corrigido este mar de vícios e depravação que era a lei laboral em Portugal. Em França são 28 dias e em Inglaterra 30, mas esses antros de perdição estão perdidos.

Ora, pergunto eu, será mesmo crime infecto acrescentar três dias de férias? Deve ser, tal a preocupação que se notou ao longo destes dias, com a invocação do Carmo e da Trindade se acontecer tal recuperação do que tínhamos (e sobrevivemos nesse passado obtuso). Mas nem sempre toda a gente pensou que menos horas de trabalho seria um perigo civilizacional.

John Maynard Keynes, economista britânico, publicou em 1930 um texto com esta tese: se em cem anos o nível de vida crescer oito vezes, então os nossos netos poderão trabalhar três horas por dia. Sim, leu bem, Keynes, um Lorde inglês, prometia aos netos que viriam a trabalhar 15 horas por semana. Escrevia ele que, com tal crescimento, as necessidades do “velho Adão” não exigiriam mais do que um trabalho residual e os netos poderiam dedicar-se ao lazer, à cultura e à vida, ou seja, viver melhor.

É verdade que o que definimos como consumos elementares se transformou. Metade da população mundial tem um smartphone e em 2020 poderá chegar a 80%. Todos os que não são pobres, se não mesmo alguns pobres, têm hoje acesso ou desejo de acesso a alguns bens que não são os do “velho Adão”. Mas, para usar esses consumos sofisticados, também precisamos do mais sofisticado dos bens, o tempo. Ou, como dizia o senhor Ford, “ao operário de pouco serve o automóvel se fica na fábrica de madrugada até ao pôr-do-sol”.

É claro que o tempo sempre foi uma disputa. De facto, trabalhava-se menos horas antes do desenvolvimento do capitalismo industrial. No século XIV, o horário médio seria de nove horas por dia, com feriados que chegariam a um terço do ano: em França, além dos 52 domingos, havia 38 feriados e 90 dias de descanso, 180 no total. O mesmo em Inglaterra.

Com o capitalismo, passou-se a 12 a 14 horas por dia e menos feriados, no século XIX isso dava cerca de 2900 horas anuais. Mas, nos finais do século XX, o tempo estava reduzido a 1300 ou 1400 horas nos países mais desenvolvidos. Foi um século de luta pelo tempo de trabalho. Portanto, Keynes tem razão factual, o horário tem vindo a diminuir, mesmo que ainda esteja longe das 15 horas semanais.

Diminui ainda muito mais se considerarmos como mudou a organização do trabalho doméstico, que envolveria algumas 60 horas semanais em 1900 e passou para 14 horas em 2011, no caso dos Estados Unidos, graças aos electrodomésticos. O mesmo se passou na Europa (mas não em todo o mundo).

Poderá ainda dizer-se que a cultura social cria uma espécie de “busyness”, a obsessão de estar ocupado, e que isso favorece tempos longos de trabalho formal e informal, ou de ocupação sob submissão hierárquica, novas formas de trabalho que estendem o dia do escritório para o lar. Sim, mas é também por isso mesmo que a disputa do tempo resume uma das escolhas sobre como vamos viver e de como se distribuirá o produto do trabalho. Não é caso para alarme, é só a vida.

Carta a Ludwig Pan, agrimensor e garimpeiro na Austrália

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 31/07/2015)

Pacheco Pereira

               Pacheco Pereira

Meu caro Pan,

Não sei que tempo tens aí ou se tens o tempo ao contrário visto que nessa Austrália está tudo de pernas para o ar. Mas duvido, nessas terras secas quando chove vai tudo parar ao mar e, quando não chove, estiola tudo. Ouro, continuas sem encontrar, enquanto por cá durante os próximos meses tudo é ouro, ouro “social” visto que vem aí uma legislatura “social”, ou não vem. Não vem, mas que importa, só se vai ver muito tempo depois e o esquecimento atenua-se com aumentos de três euros nas reformas. Não foi assim já? Além disso, é altura de lutar contra as desigualdades e a exploração, diz o outro dador de ouro. Ambos andam aí vagantes a prometer ouro, leite e mel, maná e outras coisas que escorrem do céu eleitoral. Não é nada que não se saiba por parte do Pedro e do Paulo. O outro anda algemado a essa coisa excitante que é um “cenário macroeconómico”…

O tempo agora é dos especialistas em calendários. Todos os nossos gurus, da primeira à quinta divisão, avançam com prazos e depois, como acontece sempre alguma coisa, estamos no reino das self-fulfilling prophecies. Tens 12 dias para apresentares uma ideia nova, tens uma semana para inverter as sondagens, tens um mês para mobilizar os indecisos e combater o voto em branco, tens dois meses para te candidatares. É a este nível que estamos. E que tal dizerem qualquer coisinha com substância, uma mentira um pouco melhor, um esforço para parecer que se é novo quando já se anda por cá há mil anos? O Camilo costumava dizer que comia os miolos destes gurus ao pequeno-almoço e que, depois, se encontrava em jejum natural. Isto está um deserto pior do que o teu, um ramerrame, uma pasmaceira, uma seca!

Podem acontecer as coisas mais graves, que já nem as vemos, quanto mais zangar-nos com elas. A oposição de Sua Majestade não quer ganhar eleições, Sua Majestade bicéfala não as quer perder. Assim ganha quem quer e não quem não quer. Certo, certinho. Pode não ser à primeira, mas é só esperar uns meses de grande confusão, que ganham à segunda. Nunca vi uma democracia mais afastada do seu povo, mais alheia às pessoas concretas, mais, no seu pior e péssimo e mau sentido, mediática. Uma nuvem de papel e electrões perpassa sobre o País e oculta tudo o que é relevante, importante, tudo o que conta.

O País tornou-se uma página de Facebook, com “gostos” falsos, com selfies imbecis, com insultos nos comentários e com “amigos” imateriais, egoístas (dá-me um like que eu dou-te outro), uma logomaquia que só espera pelo futebol para se tornar ensurdecedora.

Agora vai quase tudo para férias, as nossas férias nacionais, sem livros, sem nada que não seja sol e mar. Alguém espera alguma coisa de bom? Os que não vão para férias porque não têm dinheiro para isso, ficam invisíveis mais um mês. Aliás já estavam invisíveis antes, andam aí num universo paralelo, sem glamour, nem brilho, nem televisão, sem estarem na moda, os ex-atingidos pela crise. Nota bem, ex. Isto é por fases, agora estamos na positiva e as televisões vão andar saltitantes e a encontrar gente feliz nas praias. Sim, estamos a poupar mais, já não vamos comer tantas vezes fora, e temos menos dias de férias, mas, bem vistas as coisas, o que é preciso é ser feliz, confiar no futuro, ter esperança e colocar uma cara de smiley. A menina da televisão, leve e ligeira, sorri, com a mesma cara.

Segundo os nossos gurus as pessoas não estão estendidas na praia a chamar melanomas, estão a cogitar profundamente: Costa ou Passos? Voto no Livre ou no Bloco? Marinho e Pinto? Abstenho-me e mando estes políticos todos passear? Vou às urnas e desenho uma coisa feia no voto? Nas praias, quase se vê a espessura do pensamento atormentado com as decisões a sair de dentro da areia, dos corpos vermelhos. É tanto que o ar fica às fatias e há quem veja miragens.

Meu caro Pan, só faltava mais esta, entender que a nossa modorra de Verão é sábia. Decide-se o destino do País depois do entorpecente natural, mansinhos, bronzeados e zonzos quanto baste. Desde quando é que alguém que teve uns dias de repouso nervoso e ansioso, vota melhor? Quando se começarem a zangar com o trânsito, com a chuva, com a família, com os filhos, com o emprego, com o desemprego, com o mundo, já o mal está feito.

Eu sei que posso ir para aborígene. Não tenho muito jeito, mas lá se há-de encontrar uma cova. No fundo, é para isso que o nosso estimado Governo, mais a sua corte mediática, anda há muito tempo a treinar os portugueses, por isso, se calhar, não noto muita diferença.

Até breve, meu bom Pan.