Carta a Ludwig Pan, agrimensor e garimpeiro na Austrália

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 31/07/2015)

Pacheco Pereira

               Pacheco Pereira

Meu caro Pan,

Não sei que tempo tens aí ou se tens o tempo ao contrário visto que nessa Austrália está tudo de pernas para o ar. Mas duvido, nessas terras secas quando chove vai tudo parar ao mar e, quando não chove, estiola tudo. Ouro, continuas sem encontrar, enquanto por cá durante os próximos meses tudo é ouro, ouro “social” visto que vem aí uma legislatura “social”, ou não vem. Não vem, mas que importa, só se vai ver muito tempo depois e o esquecimento atenua-se com aumentos de três euros nas reformas. Não foi assim já? Além disso, é altura de lutar contra as desigualdades e a exploração, diz o outro dador de ouro. Ambos andam aí vagantes a prometer ouro, leite e mel, maná e outras coisas que escorrem do céu eleitoral. Não é nada que não se saiba por parte do Pedro e do Paulo. O outro anda algemado a essa coisa excitante que é um “cenário macroeconómico”…

O tempo agora é dos especialistas em calendários. Todos os nossos gurus, da primeira à quinta divisão, avançam com prazos e depois, como acontece sempre alguma coisa, estamos no reino das self-fulfilling prophecies. Tens 12 dias para apresentares uma ideia nova, tens uma semana para inverter as sondagens, tens um mês para mobilizar os indecisos e combater o voto em branco, tens dois meses para te candidatares. É a este nível que estamos. E que tal dizerem qualquer coisinha com substância, uma mentira um pouco melhor, um esforço para parecer que se é novo quando já se anda por cá há mil anos? O Camilo costumava dizer que comia os miolos destes gurus ao pequeno-almoço e que, depois, se encontrava em jejum natural. Isto está um deserto pior do que o teu, um ramerrame, uma pasmaceira, uma seca!

Podem acontecer as coisas mais graves, que já nem as vemos, quanto mais zangar-nos com elas. A oposição de Sua Majestade não quer ganhar eleições, Sua Majestade bicéfala não as quer perder. Assim ganha quem quer e não quem não quer. Certo, certinho. Pode não ser à primeira, mas é só esperar uns meses de grande confusão, que ganham à segunda. Nunca vi uma democracia mais afastada do seu povo, mais alheia às pessoas concretas, mais, no seu pior e péssimo e mau sentido, mediática. Uma nuvem de papel e electrões perpassa sobre o País e oculta tudo o que é relevante, importante, tudo o que conta.

O País tornou-se uma página de Facebook, com “gostos” falsos, com selfies imbecis, com insultos nos comentários e com “amigos” imateriais, egoístas (dá-me um like que eu dou-te outro), uma logomaquia que só espera pelo futebol para se tornar ensurdecedora.

Agora vai quase tudo para férias, as nossas férias nacionais, sem livros, sem nada que não seja sol e mar. Alguém espera alguma coisa de bom? Os que não vão para férias porque não têm dinheiro para isso, ficam invisíveis mais um mês. Aliás já estavam invisíveis antes, andam aí num universo paralelo, sem glamour, nem brilho, nem televisão, sem estarem na moda, os ex-atingidos pela crise. Nota bem, ex. Isto é por fases, agora estamos na positiva e as televisões vão andar saltitantes e a encontrar gente feliz nas praias. Sim, estamos a poupar mais, já não vamos comer tantas vezes fora, e temos menos dias de férias, mas, bem vistas as coisas, o que é preciso é ser feliz, confiar no futuro, ter esperança e colocar uma cara de smiley. A menina da televisão, leve e ligeira, sorri, com a mesma cara.

Segundo os nossos gurus as pessoas não estão estendidas na praia a chamar melanomas, estão a cogitar profundamente: Costa ou Passos? Voto no Livre ou no Bloco? Marinho e Pinto? Abstenho-me e mando estes políticos todos passear? Vou às urnas e desenho uma coisa feia no voto? Nas praias, quase se vê a espessura do pensamento atormentado com as decisões a sair de dentro da areia, dos corpos vermelhos. É tanto que o ar fica às fatias e há quem veja miragens.

Meu caro Pan, só faltava mais esta, entender que a nossa modorra de Verão é sábia. Decide-se o destino do País depois do entorpecente natural, mansinhos, bronzeados e zonzos quanto baste. Desde quando é que alguém que teve uns dias de repouso nervoso e ansioso, vota melhor? Quando se começarem a zangar com o trânsito, com a chuva, com a família, com os filhos, com o emprego, com o desemprego, com o mundo, já o mal está feito.

Eu sei que posso ir para aborígene. Não tenho muito jeito, mas lá se há-de encontrar uma cova. No fundo, é para isso que o nosso estimado Governo, mais a sua corte mediática, anda há muito tempo a treinar os portugueses, por isso, se calhar, não noto muita diferença.

Até breve, meu bom Pan.

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