Um programa paradoxal

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 01/08/2015)

Pedro Adão e Silva

                    Pedro Adão e Silva

Depois de uma legislatura a dar cabo dos alicerces do Estado social, a coligação propõe-se na próxima legislatura resgatar o Estado social que procurou desmantelar.


O programa da coligação PàF encerra em simultâneo três paradoxos. Um que remete para o tipo de programa; outro para o timing da apresentação; e finalmente outro para a marca programática que foi enfatizada.

O tipo Encontro-me entre aqueles que ingenuamente se convenceram de que depois de uma legislatura marcada pelo memorando e após o PS ter apresentado um cenário macroeconómico que estimava o impacto das suas opções políticas, não mais seria possível aos partidos que ambicionam governar apresentarem-se a eleições com programas assentes em declarações vagas e compromissos intangíveis. Se refiro o memorando é porque, independentemente do acerto das suas opções ou da exequibilidade das metas definidas, este assentava numa quantificação de objetivos que era inovadora no processo político em Portugal. Com opções programáticas distintas, foi isso que o PS fez com o cenário macroeconómico: definir um conjunto de objetivos e quantificar os seus impactos esperados. Trata-se de uma opção que favorece o escrutínio público (o que aliás o PSD promoveu ao enviar um sem número de questões ao PS) e que deveria influenciar os restantes programas eleitorais. A coligação PàF preferiu apresentar um programa à antiga como se nada tivesse mudado.

O timing Um programa apresentado a 29 de julho só pode estar pensado para não gerar debate e dá garantias de que as medidas nele inscritas não serão avaliadas. Faz sentido. Há muito que se percebeu que, por vontade da coligação, a campanha se centraria numa narrativa sobre o passado (“recebemos o país na bancarrota por culpa dos socialistas”, “restaurámos a confiança” e “agora o país está melhor”) e não numa visão para a próxima legislatura — até porque essa já está inscrita no Programa de Estabilidade. Ora as legislativas são sempre uma avaliação do passado combinada com uma leitura das propostas para o futuro.

Um programa apresentado a 29 de julho só pode estar pensado para não gerar debate e garantir que as medidas não serão avaliadas

A marca Na apresentação do programa, a coligação quis puxar pela dimensão social. É uma opção que tem sentido tático: se já está fixado o núcleo duro eleitoral do PSD/CDS, é agora necessário crescer ao centro, mobilizando os que se reveem no papel do Estado social. Percebe-se como um programa apresentado tardiamente favorece esta opção — ninguém vai ter tempo de escrutinar as políticas sociais que constam de facto do programa (se o exercício for feito, percebe-se que o que impera é a opção privatizadora e a transferência de recursos públicos para um Estado social paralelo), além de estarmos face a uma tentativa atabalhoada de ocultar os compromissos assumidos no Programa de Estabilidade. Mas sobra, a este propósito, uma contradição insanável: depois de uma legislatura a dar cabo dos alicerces do Estado social, a coligação propõe-se na próxima legislatura resgatar o Estado social que procurou desmantelar. É garantidamente confuso, será credível?

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3 pensamentos sobre “Um programa paradoxal

  1. Na base do programa que classifica de paradoxal está uma avaliação sobre quantos votos perderá a coligação por o apresentar com tantos vicios ou, em alternativa, quanto lhe custaria eleitoralmente se fosse inteiramente transparente nas suas intenções. A decisão resultante será cínica, mas foi friamente tomada.
    Cameron recusou-se terminantemente a entrar em debates televisivos e portanto em defender os seus cinco anos de governo, recusando-se também a revelar onde, quando e como efectuaria cortes na despesa pública ao ritmo de 12 biliões de Libras/ano durante a próxima legislatura. Proclamou mesmo ser o Partido Conservador o “Verdadeiro Partido dos trabalhadores”. O mesmo cínismo portanto e o prémio foi, como sabe, uma maioria absoluta.

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  2. Partir da base actual (como “todos” notam de péssima) e construir um cenário de crescimento generoso, parecia-me um contra senso e demonstrativo duma demagogia, que ninguém quer; ninguém não é bem o termo, os adeptos do dão sebastião Costa gostaram e conseguiram construir uma narrativa que lhes agradou, baseado no estado caótico e horrivel em que estamos e que milagrosamente passa a grande crescimento logo que o desejado nasça no nevoeiro.

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  3. Programa paradoxal não, programa de campanha eleitoral, a apostar na credulidade popular para não dizer coisa mais feia, e fazer de nós todos idiotas completas!

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