A decisão sobre o aeroporto

(Nicolau Santos, in Expresso, 01/08/2015)

nicolau

Sérgio Monteiro é seguramente um dos melhores membros do Governo. O secretário de Estado dos Transportes conhece os dossiês, não hesita em decidir e não teme defender publicamente as suas opções. Dito isto, não quer dizer que decida sempre bem ou, pelo menos, não quer dizer que as suas decisões estejam acima de qualquer crítica. E o que disse a semana passada ao Expresso sobre o aeroporto de Lisboa é no mínimo discutível.

Disse Sérgio Monteiro, quando interrogado sobre se Portugal iria precisar de um novo aeroporto: “Não. A informação que temos, e com base na proposta que a ANA já nos fez chegar e que tem de ser construída num clima de consenso com os municípios de Lisboa e do Montijo, é que o somatório da capacidade da Portela com as operações que teremos no Montijo permite riscarmos completamente a necessidade de um novo aeroporto durante a vida deste contrato de concessão, ou seja, nos próximos 50 anos. É essa a expectativa.”

Não deixa de ser chocante que uma questão estratégica para o país tenha ficado nas mãos de um investidor francês, que tem óbvios interesses próprios na decisão.

Ora, o contrato de concessão assinado no final de 2013 previa que quando o movimento na Portela atingisse os 22 milhões de passageiros se iniciariam as negociações entre as partes visando a construção de um novo aeroporto ou encontrar uma solução alternativa. Como disse o presidente da ANA, Jorge Ponce de Leão, em entrevista ao “Diário Económico” em 15 de janeiro deste ano, “Os 22 milhões não dão origem a um novo aeroporto, os 22 milhões dão origem ao início oficial do diálogo entre o concessionário e o concedente no sentido de definir qual é a melhor solução de oferta adicional de capacidade para a região de Lisboa”.

Dando como boa esta versão, isso significa que as duas partes se deveriam sentar à mesa para decidir o que fazer. Não é isso, contudo, que diz Sérgio Monteiro. O que o secretário de Estado dos Transportes diz é que faz confiança na informação que a ANA lhe forneceu; e que a ANA lhe apresentou uma proposta que opta pela solução Portela mais Montijo, e que o Governo vai seguir essa orientação. Ora, se há infraestrutura que tenha vindo a ser debatida em Portugal é a necessidade da construção de um novo aeroporto, que data de 1969, ainda no anterior regime. E, como parece óbvio, para a ANA, que tem uma concessão de 50 anos, é muito mais prático rentabilizar as infraestruturas existentes do que ser obrigada a construir um novo aeroporto, que demorará alguns anos a estar operacional.

Pode ser que o Governo tenha estado, desde o princípio, convencido que esta é a melhor solução. Pode ser também que tenha optado por ela porque a construção de um novo aeroporto era uma bandeira do anterior Governo socialista. Mas não deixa de ser chocante que uma decisão que é estratégica para o país tenha ficado nas mãos de um investidor francês, sem nenhuma experiência na gestão de grandes aeroportos antes de ganhar o concurso para a ANA, e que o Governo tenha tomado como boa a proposta que lhe foi apresentada pelo investidor privado sem analisar de novo vários relatórios independentes existentes, elaborados por entidades públicas competentes e que defendem a importância estratégica para o país da construção de um novo aeroporto na região da Grande Lisboa.


Isto está a melhorar. Mas como?

O desemprego caiu para 12,4%, um valor mais baixo do que aquele que se verificava antes de 2011. Sim, de fora das estatísticas ficam os desencorajados e contam todos os que são alvo das políticas ativas de emprego. A taxa de desemprego real será inevitavelmente mais alta. Além do mais, os atuais valores de crescimento da economia ainda não são suficientes, historicamente, para conduzir a uma criação líquida de empregos. Mas mesmo eventualmente martelados, os números mostram uma tendência descendente. E vários indicadores evidenciam a recuperação económica. A pergunta é: mas que modelo é este, em que o crédito às famílias para compra de habitação cresceu 51,5% nos primeiros cinco meses do ano e o crédito ao consumo subiu 24,9%? São valores só verificáveis antes da crise de 2011. Em contrapartida, o crédito às empresas decresceu 30% (nas operações acima de um milhão a redução foi de 49,9% enquanto os empréstimos até 1 milhão estabilizaram). Financiar o consumo (só automóveis foram mais 100 mil no primeiro semestre) e a compra de habitação em detrimento da atividade produtiva, faz lembrar um filme de horror que todos já vimos.


A Ongoing è morta

Nuno Vasconcellos ia ser o Belmiro do século XXI e a Ongoing o maior grupo de media, telecomunicações e tecnologia do país. Não foi assim há tanto tempo. A Ongoing nasceu em 2004, tornou-se acionista de referência da PT, contratou ex-governantes (Agostinho Branquinho, Carlos Costa Pina), jornalistas às catadupas (José Eduardo Moniz foi o cabeça de cartaz) e espiões (Jorge Silva Carvalho à frente de um grupo de quatro), comprou jornais (“Diário” e “Semanário Económico”) e avançou para o Brasil. Pagava principesca e ostensivamente. Pelo meio, tentou controlar o Grupo Impresa e afastar Balsemão. Contratou advogados sonantes e intimidou jornalistas. Onze anos depois, os ex-políticos abandonaram o barco, os jornalistas também, o ex-espião está a contas com a justiça, as edições em papel do “Brasil Económico” e do jornal “Marca” foram encerradas e a Ongoing agoniza. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré. Ite, missa est.


Das seis joaninhas que viajaram

Entre Gdynia e Klaipeda

Só duas se salvaram.

Apanhou-as um vendaval de água doce.

Debatiam-se de costas.

Duas espernearam até morrer

Duas tombaram vencidas por uma tromba

de água

Gota redonda em cheio sobre o ventre preto.

Das quatro que morreram

E depois desapareceram na água salgada

Uma era muito estúpida

(num grupo é raro não haver gente estúpida

Que pode até chegar a pôr em perigo

toda a gente):

A dois milímetros da zona seca

Voltou para trás, caiu de costas, debateu-se

(quinze minutos pareceram quinze horas)

E morreu.

Assisti a tudo sem poder ajudar.

Já que não se pode modificar a realidade,

Ao menos se descreva o que se vê,

diz Fassbinder.

Se não estou em erro é Fassbinder.

Helder Moura Pereira, “As seis joaninhas”, in “Se as coisas não fossem o que são”, Assírio & Alvim.

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