Que horror, trabalhar menos horas?

(Francisco Louçã, in Público, 28/12/2016)

louca

Francisco Louçã

O susto parece ter-se instalado em algumas boas famílias, pois constou que em 2017 podemos ser obrigados a trabalhar menos horas. É algo exagerado, parece que o governo vai atalhar esses atrevimentos e manter a ordem sagrada, pese embora a umas intrigas parlamentares que se esvairão sem consequências de lamentar. Já basta a reposição dos quatro feriados e a redução das cinco horas a mais que tinham sido impostas à função pública, por aí se fica a correcção aos ímpetos troikistas.

Quanto a dias de férias, nem pensar em voltar ao que era naqueles tempos sombrios em que as instituições internacionais não tinham ainda corrigido este mar de vícios e depravação que era a lei laboral em Portugal. Em França são 28 dias e em Inglaterra 30, mas esses antros de perdição estão perdidos.

Ora, pergunto eu, será mesmo crime infecto acrescentar três dias de férias? Deve ser, tal a preocupação que se notou ao longo destes dias, com a invocação do Carmo e da Trindade se acontecer tal recuperação do que tínhamos (e sobrevivemos nesse passado obtuso). Mas nem sempre toda a gente pensou que menos horas de trabalho seria um perigo civilizacional.

John Maynard Keynes, economista britânico, publicou em 1930 um texto com esta tese: se em cem anos o nível de vida crescer oito vezes, então os nossos netos poderão trabalhar três horas por dia. Sim, leu bem, Keynes, um Lorde inglês, prometia aos netos que viriam a trabalhar 15 horas por semana. Escrevia ele que, com tal crescimento, as necessidades do “velho Adão” não exigiriam mais do que um trabalho residual e os netos poderiam dedicar-se ao lazer, à cultura e à vida, ou seja, viver melhor.

É verdade que o que definimos como consumos elementares se transformou. Metade da população mundial tem um smartphone e em 2020 poderá chegar a 80%. Todos os que não são pobres, se não mesmo alguns pobres, têm hoje acesso ou desejo de acesso a alguns bens que não são os do “velho Adão”. Mas, para usar esses consumos sofisticados, também precisamos do mais sofisticado dos bens, o tempo. Ou, como dizia o senhor Ford, “ao operário de pouco serve o automóvel se fica na fábrica de madrugada até ao pôr-do-sol”.

É claro que o tempo sempre foi uma disputa. De facto, trabalhava-se menos horas antes do desenvolvimento do capitalismo industrial. No século XIV, o horário médio seria de nove horas por dia, com feriados que chegariam a um terço do ano: em França, além dos 52 domingos, havia 38 feriados e 90 dias de descanso, 180 no total. O mesmo em Inglaterra.

Com o capitalismo, passou-se a 12 a 14 horas por dia e menos feriados, no século XIX isso dava cerca de 2900 horas anuais. Mas, nos finais do século XX, o tempo estava reduzido a 1300 ou 1400 horas nos países mais desenvolvidos. Foi um século de luta pelo tempo de trabalho. Portanto, Keynes tem razão factual, o horário tem vindo a diminuir, mesmo que ainda esteja longe das 15 horas semanais.

Diminui ainda muito mais se considerarmos como mudou a organização do trabalho doméstico, que envolveria algumas 60 horas semanais em 1900 e passou para 14 horas em 2011, no caso dos Estados Unidos, graças aos electrodomésticos. O mesmo se passou na Europa (mas não em todo o mundo).

Poderá ainda dizer-se que a cultura social cria uma espécie de “busyness”, a obsessão de estar ocupado, e que isso favorece tempos longos de trabalho formal e informal, ou de ocupação sob submissão hierárquica, novas formas de trabalho que estendem o dia do escritório para o lar. Sim, mas é também por isso mesmo que a disputa do tempo resume uma das escolhas sobre como vamos viver e de como se distribuirá o produto do trabalho. Não é caso para alarme, é só a vida.

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