Muitas razões para ser feminista

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 14/02/2019)

abreu

Entre outras conclusões, o estudo As Mulheres em Portugal, Hoje, que foi lançado esta semana, veio uma vez mais confirmar as enormes assimetrias existentes entre homens e mulheres na nossa sociedade, incluindo no que diz respeito ao trabalho não pago e à partilha das responsabilidades familiares.

Na amostra incluída no estudo, as mulheres despendem em média mais do triplo do tempo dos seus companheiros na execução de tarefas domésticas. Os casais equilibrados a este nível existem, claro, mas são bastante minoritários: cerca de 30%.

Há muito que sabemos que assim é – tanto intuitivamente como através de outros estudos semelhantes realizados no passado. O Inquérito Nacional aos Usos do Tempo de 2015, por exemplo, concluiu que as mulheres portuguesas dedicam em média uma hora e quarenta e cinco minutos por dia a mais que os homens à realização de trabalho não pago (tarefas domésticas e prestação de cuidado): são 4h23m por dia em média para as mulheres face a 2h38m para os homens. Os homens despendem em média mais tempo a realizar trabalho pago, mas essa disparidade é em média de apenas 27 minutos por dia. Considerando todo o trabalho (pago e não pago), as mulheres portuguesas despendem assim em média mais de uma hora a mais por dia do que os homens a trabalhar, com tudo o que isso implica em termos de cansaço e menor tempo para lazer e cuidado de si próprias.

Claro que esta não é a única dimensão da dominação sobre as mulheres que existe na nossa sociedade. Trata-se também de receber em média remunerações menores no exercício de funções semelhantes; dos maiores constrangimentos na utilização do espaço público em liberdade e segurança; das representações sociais que levam a que certas profissões e papéis sociais, nomeadamente os que permitem aceder a mais poder, sejam maioritariamente desempenhados por homens; do olhar social muito mais limitativo sobre as mulheres em inúmeras esferas, incluindo a sexual; ou, como tem sido confirmado de forma especialmente trágica nas últimas semanas, pela muito maior sujeição à violência e abuso em contexto doméstico.

Mas a dominação sobre as mulheres é também, como vimos em cima, um sistema de exploração: tem como uma das suas dimensões o facto destas serem compelidas a realizar esforço e trabalho suplementar. Em média, é mais de uma hora de esforço e trabalho a mais por dia, o que é absolutamente naturalizado pela maioria da sociedade – incluindo pela maioria das mulheres, o que apenas mostra a força das representações. É sintomático que muitos dos comentários críticos nas redes sociais às conclusões do estudo publicado esta semana tenham vindo de mulheres, de alguma forma incomodadas pelo facto destas assimetrias serem expostas à luz do dia.

Apesar do caminho que já foi percorrido no sentido da igualdade e da emancipação em muitas esferas, é imenso o que falta fazer. O primeiro passo consiste em tomarmos consciência das assimetrias, percebermos os mecanismos que as sustentam e comprometermo-nos com a necessidade de eliminá-las. Ser feminista é, simplesmente, reivindicar a abolição destes padrões de dominação, exploração e violência. Continua a haver muito boas razões para sê-lo.

Podemos levar o #MeToo até Neruda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/12/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

A polémica começa de forma simples: há uma proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda. A proposta não espanta. O Nobel de 1971 é provavelmente o chileno mais conhecido no mundo. Só que Neruda confessou, no seu livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão, onde desempenhou funções diplomáticas em 1929: “Era como se ela fosse uma estátua. Manteve os olhos bem abertos o tempo todo, sem reagir de forma nenhuma ao que estava a acontecer. De certo modo, ela fez bem em desprezar-me.” E isto tem feito crescer um movimento de mulheres contra a homenagem ao poeta. Numa estranha “aliança” com muitos políticos de direita e saudosistas da ditadura que, por razões óbvias, não apreciam Neruda e já tinham vetado esta denominação em 2015.

Uma das expressões que mais me irrita da vulgata política e não só é a de que a História julgará determinado acontecimento ou pessoa. A História não julga. Ou pelo menos não julga com Justiça. A História olha para o passado com os olhos do presente. E olhará para o presente com os olhos do futuro, nunca compreendendo plenamente o que hoje acontece. Pode olhar através da lente moral ou da lente política dos vencedores. Mas tem sempre essa distorção. E quando se trata de homenagear figuras do passado, o passado é quase irrelevante. As homenagens que fazemos serve para sublinhar valores conquistados no presente ou no passado próximo. Apenas reivindicamos o passado em nome deles.

Mas este processo tem de ser, apesar de tudo, cuidadoso. Se não devemos erguer heróis ignorando os seus crimes, devemos evitar julgamentos anacrónicos, que esquecem que há valores que hoje temos como indiscutíveis e que não o eram no passado. Mas, acima de tudo, não podemos olhar para as figuras históricas como figuras totais. Elas foram relevantes por alguma razão, não foram relevantes por todas as razões. E é pelas razões que as levaram a ser relevantes que as temos de evocar.

Não faz sentido homenagear um político se foi um tirano. Mas podemos homenagear um político que, apesar de ter sido um grande estadista, plagiou um texto. Não faz sentido homenagear um escritor se foi um plagiador. Mas podemos homenagear um escritor que tenha sido um fascista. Não faz sentido homenagear um padre, que se dedica a pregar a moral, que tenha sido um pedófilo. Mas faz sentido homenagear um cineasta que abusou de um menor. Há, claro, casos de fronteira. Elias Kazan foi um dos maiores realizadores da história do cinema. Mas a sua colaboração com o macartismo fez muito mal ao cinema. Do ponto de vista plástico, Leni Riefenstahl deixou uma obra notável. Mas é impossível separar essa obra – e não apenas a realizadora – do nazismo.

No essencial, o que quero dizer é julgamos um escritor como escritor, um político como político. As biografias podem contar todas as facetas dessas pessoas e isso ajuda-nos a humanizar os heróis e os vilões. Mas cada homenagem que fazemos não é uma beatificação. E não podemos revisitar todos os que deixaram marcas fortes na história do mundo à luz dos critérios morais de cada momento. Houve feministas racistas, houve abolicionistas homofóbicos, houve ativistas LGBT misóginos, houve revolucionários que juntaram tudo isto. Até porque todas as lutas não ganharam a mesma relevância na consciência de todos os que lutaram por um mundo melhor. E houve, entre todos, pessoas que cometeram crimes. Se assim foi com ativistas, com mais aguda consciência política, imagine-se com aqueles que são recordados por razões bem diferentes. Caso a causa animal venha a ser realmente triunfante, imagine-se apagar todas as homenagens a Hemingway ou Picasso porque enalteceram a tourada.

Apesar de todos os riscos neste tempo de indignação fácil, o #MeToo é um movimento globalmente positivo. Todas as injustiças, que nos obrigam a não ser meigos com linchamentos virais, não podem esconder o mais relevante: a voz das mulheres está a ganhar uma força que desconhecíamos. Sendo elas metade da humanidade, os efeitos serão profundos, por vezes assustadores, seguramente revolucionários. Com todos os perigos que estas mudanças trazem sempre, este sobressalto é indiscutivelmente positivo. Mas essa luta não pode ser totalitária. Ela não pode fazer esquecer todas as outras dimensões da história e da vida.

Podemos sublinhar que Neruda violou. E, já agora, que só o sabemos porque ele o escreveu. Mas não podemos, porque não faz sentido, fazer disso o mais relevante do que ele nos deixou. Se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém.

Com o risco de uma luta para que o futuro seja diferente se transformar num interminável ajuste de contas com o passado que nos encaminha para a amnésia coletiva, sem pontos de referência que sobrevivam à limpeza.

A violência sobre as mulheres

(Carlos Esperança, 09/10/2018)

mulheres2

A ancestral misoginia, a perpetuação de preconceitos religiosos e os constrangimentos sociais são obstáculos à emancipação da mulher e uma forma de perpetuar a violência machista e reduzir metade da humanidade à subalternidade ou, mesmo, à escravidão.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é pacificamente aceite e respeitada. Toleram-se países e Estados que oprimem a mulher, em nome da diversidade cultural e do inaceitável respeito por crenças religiosas que são a matriz de Estados teocráticos.

Há jurisprudência portuguesa recente que envergonha quem a produziu, mas damo-nos conta da afronta, incompatível com o ordenamento jurídico do país laico que somos. Há países onde a discriminação é legal e a violência um direito do macho.

Não há regimes dignos, magistrados sensatos, sociedades sãs, religiões respeitáveis ou famílias dignas que discriminem em função do sexo.

Dito isto, não devemos permitir que os movimentos que se batem pela igualdade, tantas vezes com risco de vida dos seus membros, pactuem com atos de puro oportunismo, que visam a exibição de relações sexuais mutuamente consentidas e desejadas, às vezes com décadas de intervalo, invocando violência, real ou imaginária, para chantagem, vingança e/ou obtenção de vantagens patrimoniais.

Alimentar a voragem da comunicação social com descrições sórdidas e litigâncias que a morbidez popular consome, não é um combate pela libertação feminina, é um obstáculo à luta, em curso, contra a discriminação, que exige um permanente combate.

Há casos que contribuem para atrasar a igualdade que se promove e desacreditam a luta que se trava.

Os casos mediáticos estão frequentemente contaminados por vingança e oportunismo, e raramente conduzem à reparação da ignomínia ancestral à escala planetária, mas o pior que pode acontecer é a substituição da pena por mera indemnização pecuniária, dando a impressão de que os danos por violação, como nos acidentes, podem ser ressarcidos em numerário.

Exige-se discernimento nesta como em todas as lutas justas.