Serena Williams: o feminismo é uma arma, não é um álibi

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário,11/09/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

É a nova polémica americana. Na final do US Open, Serena Williams (Ver perfil aqui) foi penalizada por coaching – o treinador estava a dar-lhe indicações, ela alega que não as viu, o que é irrelevante. A tenista reagiu e partiu a raquete, o que foi, como não podia deixar de ser, penalizado. Perante mais uma penalização, ela dirigiu-se a Carlos Ramos, um dos melhores árbitros do mundo, e, com o dedo no ar, disparou: “Está a atacar o meu caráter”, “é um mentiroso”, “peça desculpa”, “como se atreve a insinuar que eu estava a fazer batota?”, “roubou-me um ponto, é um ladrão”, “nunca mais vai apitar um jogo meu!”. Foi de novo penalizada o que, com três advertências seguidas, lhe valeu um jogo de penalidade que fez a japonesa Naomi Osaka lançar-se para a vitória. As decisões do árbitro português foram validadas, com uma multa de 17 mil dólares.

O mote do que viria a ser uma polémica que ultrapassa o ténis foi dado pela própria Serena, ainda durante o jogo: “Eu sou mãe, prefiro perder do que roubar!” ou “É porque sou mulher e você sabe disso! Se fosse homem, não faria isso!” E depois da partida: “Perder um jogo por dizer aquilo não é justo. Quantos homens o fazem? Há muitos homens que já disseram muitas coisas por aí. É porque sou uma mulher e isso não é correto”. O seu treinador, Patrick Mouratoglou, falou dos “homens que se sentem ameaçados por mulheres de forte personalidade”. Formaram-se então as barricadas. Toni Nadal, pai de Rafael Nadal, e Martina Navratilova criticaram Serena Williams e o antigo árbitro Mike Morrissey e a Federação Internacional de Ténis (ITF) defenderam Carlos Ramos. Do lado oposto, Billie Jean King, James Blake, Sally Jenkins (colunista de assuntos desportivos do “The Washington Post”) e a World Tennis Association (WTA) elogiaram Serena Williams por expor a duplicidade de critérios.

Para ajudar à festa, um cartoon de Mark Knight, publicado no australiano “Herald Sun”, mostra Serena Williams a saltar em cima da raquete enquanto o árbitro fala com uma Naomi Osaka loira, pedindo-lhe para deixar a tenista norte-americana ganhar. Não é preciso argumentar muito para explicar os contornos racistas do cartoon. Ele sente-se mal se olha. O que não veio ajudar a um debate que se transformou num debate sobre machismo e racismo.

Um facto que ainda não vi ninguém desmentir: que há discriminação de género no ténis, tal como nas restantes modalidades. As mulheres recebem menos e é menor a tolerância para com as suas fúrias, que são um clássico nas grandes finais. A de Serena Williams está muito longe de ser épica ao pé de outras e até do seu comportamento de 2009, nas meias-finais diante de Kim Clijsters, em que foi multada 175 mil dólares, foi bem pior. Outro facto que ainda não vi desmentir: que todas as faltas marcadas existiram, que Carlos Ramos é conhecido por ser bastante rigoroso na aplicação das regras e que já o fora com estrelas masculinas como Rafael Nadal e Novak Djokovic. Se se pode falar de duplicidade de critérios na modalidade, é mais difícil fazê-lo quanto a este árbitro específico (o que não quer dizer que seja homogéneo, porque isso é coisa que não existe em nenhum arbitragem).

A luta pela igualdade das mulheres e dos negros está, sobretudo nos EUA, noutros lados e noutros momentos. Serena Williams não usou o feminismo como uma arma, mas como um álibi. Uma mulher emancipada reconhece os seus erros, porque conquistou esse direito e esse dever

Qualquer pessoa que veja aquelas imagens não vê um opressor perante uma vítima de discriminação, vê alguém com muitíssimo mais poder simbólico, mediático, real e financeiro a assediar com insultos, exigências de pedidos de desculpa e até ameaças de nunca mais arbitrar um jogo seu, uma pessoa que está a cumprir o seu dever profissional. Não acompanho suficientemente o ténis para saber se a discriminação das mulheres e das negras é muito marcada, mas o consenso nessa afirmação parece ser suficiente para assumir que sim. O que não é legítimo é transformar o insulto, o mau perder e o assédio sobre um árbitro numa denúncia de discriminação racista e machista. A luta pela igualdade das mulheres e dos negros está, sobretudo nos EUA, noutros lados e noutros momentos. Seria bom não a banalizar.

O que Serena Williams fez prejudica gravemente a luta feminista e pelos direitos dos afro-americanos. Porque ela não exigiu o direito à igualdade legal e de facto. Ela exigiu, como “mãe” (?), “mulher” e “negra” o direito a não cumprir as regras que foram escritas para todos. Não usou o feminismo como uma arma, mas como um álibi.

Instrumentalizou-o e, com isso, tirou-lhes força. E foi isso mesmo que várias feministas fora dos EUA (onde o debate deixou de se conseguir fazer de forma racional) disseram: uma mulher emancipada reconhece os seus erros, porque conquistou esse direito e esse dever.

Sim, os negros e as mulheres são discriminados nos Estados Unidos e no desporto internacional. Sim, a lei, seja a civil seja a desportiva, parece por vezes aplicar-se-lhes com maior severidade. Mas nem por isso Carlos Ramos deve sentir-se no dever de ser incoerente no seu rigor. E muito menos a porta-voz da igualdade pode ser quem deseja que as regras não se lhe apliquem. A isso chama-se oportunismo. Serena Williams não é uma vítima, é alguém que conquistou a pulso o que hoje tem. É responsável e responsabilizável pelo os seus atos. Mérito seu.

Salvem os homens!

(António Guerreiro, in Público, 15/06/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Quando, há poucas semanas, foi revelado um estudo que mostra que as mulheres em Portugal ganham menos do que os homens e estão sub-representadas nos postos de chefia, havia também aí uma informação implícita: a de que é grande a força da inércia, mantendo assim uma situação que irá chegar ao fim em pouco tempo porque já não há nada que a legitime e mantenha viva essa força; quando, na semana passada, foi anunciada a composição do novo governo espanhol, com mais ministras do que ministros, não havia razão nenhuma para percebermos essa novidade como demagógica inflação ideológica, mas como uma correspondência com a verdade do mundo em que vivemos.

A dominação masculina chegou ao seu fim, sem o estrondo de uma revolução, muito embora seja uma verdadeira revolução que veio interromper, no nosso tempo, o curso do mundo. Sociólogos e historiadores falarão, a propósito deste declínio surpreendente, na extinção da família em que se baseava o patriarcado e no esvanecimento da “lei do Pai” ou, literalmente, da própria figura do pai (quem não conhece hoje mulheres solteiras, com um filho ou mais, que abdicaram de atribuir uma função e pedir responsabilidades ao pai da criança?).

Eu preferia falar, aqui, de um outro fenómeno que é, desde há algum tempo, objecto de estudo: o falhanço dos rapazes, na escola, em comparação com o sucesso das raparigas (nesse estudo sobre o défice salarial das mulheres em Portugal, era também revelado este novo dado: as mulheres têm mais habilitações escolares e académicas do que os homens), o que já levou alguns governos a estudar a hipótese de criar quotas masculinas para alguns cursos.

Nos países ocidentais, a situação é esta: os rapazes atingem um nível de formação menos elevado, preferem fazer estudos mais breves e abandonam com mais frequência o percurso escolar. Segundo dados oficiais, em França, 43% dos alunos masculinos chumbam nas provas do final do ensino secundário (o baccalauréat), contra 20% das alunas; dois terços dos jovens que saem sem qualificação do sistema escolar são rapazes; nos Estados-Unidos, na Inglaterra, na América do Sul e mesmo na Ásia Central, as mulheres são maioritárias na Universidade. Na Austrália, tal como na maior parte dos países europeus, a diferença entre o número de homens e o número de mulheres que obtêm um diploma é de 10%  a favor das mulheres; e, na Noruega, essa diferença é de 18% .

Estes números são fornecidos num artigo assinado por Martin Dekeiser no último número (Maio-Agosto), da revista francesa Le débat. Nesse artigo, que faz parte de um dossier sobre Le maculin en révolution, somos ainda informados de que nos países mais desenvolvidos os homens começam a ter mais dificuldade em arranjar emprego do que as mulheres e de que nos Estados-Unidos, de 1970 até hoje, a contribuição das mulheres americanas para a economia doméstica passou de 7% para 43%.

Porquê este desinvestimento escolar dos rapazes e a cadeia de consequências que dele advém? Porque é que há uma tal diferença de atitude em relação à escola e à sociedade? Porque é que as raparigas com origem nos meios pobres são muito mais bem sucedidas do que os seus congénere masculinos na elevação social? As respostas a estas perguntas são ainda muito hesitantes, mas o que é de ciência certa é que a imaturidade prolongada é hoje uma marca muito mais saliente nos homens do que nas mulheres.

Eles tendem a ser incapazes de assumir a plena responsabilidade sobre o seu modo de vida. Não se trata daquela cultura “jovem”, que depois da Segunda Guerra inventou a adolescência como categoria sociológica e cultural. Trata-se antes de uma juventude retardada, só representável enquanto patologia social.

Se as mulheres mandassem no mundo ele seria melhor?

(Paula Cosme Pinto, in Expresso Diário, 11/06/2018)

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Imaginemos que um dia as mulheres acordavam com a possibilidade física de infligir uma dor atroz a alguém, ou até mesmo matar, com um simples estalar de dedos. E imaginemos que os homens não tinham esse poder. Como seria o mundo se os papéis de superioridade física se alterassem, e isso servisse de catapulta para uma alteração de statu quo entre homens e mulheres? Com as mulheres em posição de poder sobre os homens o mundo seria mais justo e equilibrado ou nem por isso? Esta reflexão já foi feita e o resultado é verdadeiramente perturbador.

O resumo que fiz em cima é o ponto de partida para o livro “O Poder”, de Naomi Alderman, que acaba de chegar a Portugal pela mão da Saída de Emergência. Li-o há uns meses ainda na versão em inglês e posso dizer-vos que é um verdadeiro murro no estômago, o tipo de livro que tem o condão de nos pôr a pensar nos mecanismos do poder e na essência do ser humano, para além do sexo com que se nasce. À partida podemos achar que a alteração da questão da superioridade física, que, historicamente, tem servido de rastilho para muitas das restantes formas de superioridade dos homens sobre as mulheres, poderia encaminhar-nos para um mundo mais igualitário. Mas será que a inversão dos papéis teria esse condão da bonança? Ou será também essa expectativa uma forma estereotipada de olharmos para as mulheres enquanto seres inatamente mais emotivos, harmoniosos e detentores de compaixão? Poderia ser esta alteração de protagonistas apenas um ponto de partida para uma nova abordagem ao abuso de poder?

Nesta distopia – publicamente aplaudida por Margaret Atwood, por exemplo – Naomi Alderman é exímia a mostrar-nos quão rápida poderia ser a alteração do mundo em que vivemos se as mulheres não tivessem mais de temer pela sua integridade física. De repente olhamos para uma Arábia Saudita onde as mulheres tiram a burca e começam a sua revolução, exigindo os direitos que lhes são devidos enquanto seres humanos, e tudo isto nos parece incrível. Tal como nos parece incrível que um grupo de mulheres vítimas de tráfico humano e exploração sexual na Europa de leste consiga escapar a anos de tortura com um simples estalar de dedos. Há momentos em que começamos até mesmo a sentir um certo prazer na possibilidade de vingança quando pensamos nas milhares de pessoas vítimas destes esquemas, escravizadas em pleno século XXI por homens que as tratam como gado. Confesso que pelo menos eu cheguei mesmo a sentir um certo regozijo quando me deparei com a cena de uma adolescente que é continuamente abusada sexualmente pelo próprio pai, e que o consegue matar em vez de ter de passar por mais uma nova violação.

São muitas as situações relatadas neste livro que nos fazem rapidamente pensar: era mesmo disto que precisávamos para que o mundo fosse um lugar melhor para quem nasce mulher. Mas ao mesmo tempo que Naomi Alderman nos faz pensar nas maravilhas que isto do fim da superioridade física masculina poderia operar nas estruturas de poder, que servem de alavanca a múltiplas formas de discriminação do sexo feminino, faz-nos também imaginar como poderia ser para os homens viverem constantemente com medo. Imaginemos então homens que passam a temer andar sozinhos na rua em sítios ermos ou à noite. Homens que temem passar por grupos de mulheres porque podem ser violados em grupo. Rapazes que passam a ter medo de frequentar escolas mistas, por exemplo, porque temem que as raparigas os possam magoar. Maridos que passam a ter medo das mulheres porque uma discussão pode escalar para uma cena de violência física em que elas ganham sempre graças à dor que conseguem facilmente infligir.

ERA MAIS FÁCIL FAZER UM LIVRO COM MULHERES HEROÍNAS

Estes são apenas alguns dos exemplos mais suaves, porque neste mundo hiptotético, a inversão do poder tem o condão de direcionar boa parte da população para a vingança. E o cenário, acreditem, pode ser bem pior. Imaginemos então um mundo onde surgem novas religiões agarradas ao dogma da Grande Mãe, usando as redes sociais para espalhar a “palavra da Senhora” em jeito de lavagem cerebral das massas. Um mundo onde os cargos de liderança política começam a ser maioritariamente femininos, tal como a composição das forças armadas. Um mundo onde se fazem golpes de Estado, e que por uma questão de segurança contra os ‘rebeldes do sexo masculino’, todos os homens ficam proibidos de ter passaporte, e obrigatoriamente sob a alçada de uma guardiã feminina. Um mundo onde mulheres escravizam e traficam homens. Um mundo onde os homens são tratados entre o abuso e a condescendência. Ou seja, um mundo onde muito do que acontece nos dias de hoje se repete, mas com os papéis invertidos, sempre com a desculpa de que o passado nos mostra que “se os homens discriminaram as mulheres durante séculos, não são dignos de confiança” e devem, portanto, ser considerados cidadãos de segunda. Tratados de forma diferenciada no que toca aos seus direitos, oportunidades e dignidade.

Naomi Alderman poderia ter optado pela forma mais fácil de fazer isto e descrever-nos um mundo idílico, onde as mulheres surgiam simplesmente como grandes heroínas, capazes de tornar as suas sociedades em sítios mais tolerantes, harmoniosos e equilibrados graças a todos os erros de que foram alvo durante séculos de existência. Mas isso continuaria a ser uma distopia bastante improvável. O caminho que esta escritora norte-americana escolhe é de longe mais pertubador, mas possivelmente mais próximo da realidade da natureza humana. Deixando claro que o grande problema nestas matérias passa sempre pelo usufruto do poder, quando este pende só para um lado da balança. Quem o tem não o quer perder porque teme o que lhe pode acontecer se estiver na situação contrária. E assim se vão alimentando as malhas da rede que permite que os privilegiados assim o sejam sempre, sem prejudicar o equilíbrio do desequilíbrio deste tabuleiro.

Embora depois de tudo que descrevi (e só não conto mais porque não quero ser spoiler), é talvez difícil compreender quão feminista é este livro. Mas é. Toda a construção da narrativa nos leva a relembrar não só as subtilezas das desigualdades do mundo contemporâneo entre géneros, como também nos leva a pensar sobre quão importante é levar a sério o feminismo enquanto ideologia que defende a igualdade de direitos, oportunidades e dignidade entre homens e mulheres. Em jeito de lição a não esquecer: o feminismo passa por repartir deveres e privilégios de forma equilibrada e igualitária, e nunca por retirar direitos a nenhuma das partes.

Sim, o feminismo passa obviamente por percebermos e assumirmos que as mulheres têm sido amplamente discriminadas ao longo da história até aos dias de hoje. Mas passa também por percebermos que parte dessa discriminação assenta em estereótipos e expectativas sociais distintas que recaem também sobre o sexo masculino, e que lhe são prejudiciais, embora noutras dimensões e com outras consequências. Passa por percebermos que não se trata de simplesmente transferirmos o poder de um lado para o outro, ou de mudarmos os protagonistas nisto de quem oprime e de quem é oprimido.

O feminismo passa por incluir homens e mulheres num diálogo aberto e abrangente que nos encaminhe para um mundo onde nenhum dos lados tema perder a tal posição de poder. Porque se existe alguma forma de equilíbrio entre pessoas, ela está no poder partilhado. Um poder que nos vê a todos como pares, independentemente do nosso género, etnia, orientação sexual, estatuto económico e demais fatores que ainda nos diferenciam, estigmatizam e espartilham enquanto seres humanos.

Sem surpresas, este livro já está a ser transformado numa série televisiva. Até lá, aproveitem as férias para uma leitura. Vale a pena refletir sobre isto.