As eleições, a guerra e o PCP

(José Goulão, in AbrilAbril, 20/06/2024)

O primarismo da manipulação está ao nível da propaganda salazarista, quando os comunistas «comiam criancinhas» e se «viam livres dos velhos com injecções atrás da orelha». Mesmo assim, a manobra inspirada em Goebbels continua a fazer o seu caminho.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há situações na sociedade da «democracia liberal» capazes de atingir picos de absurdo e de falta de pudor político que esgotam a paciência do mais pacato dos cidadãos.

Situações que podem ser fruto do vício político-económico-mediático de confundir o desejo com a realidade; da necessidade de praticar plenamente a ditadura económica neoliberal num quadro de fascização política; de um costume tão enraizado que os praticantes nem dão por ele – um comportamento pavloviano; ou situações que correspondem, nas suas versões mais trabalhadas, ao cumprimento estrito das orientações disseminadas pela miríade de centrais de propaganda política e militar imperial, colonial e globalista.

Não sou militante comunista; circunstâncias que não vêm ao caso fizeram com que assim seja, enquanto sigo o meu caminho profissional de referência, o de ser politicamente incorrecto. Isso não significa que não ache legítimo e compatível com a independência jornalística a opção de militância de um bom número de camaradas, por sinal os principais exemplos do bom jornalismo que ainda se pratica.

As recentes eleições europeias podem ter sido a gota de água, a rotura do limite pessoal de paciência. Talvez porque no meio do aparato circense próprio das campanhas eleitorais do regime, formatadas para ensinar ao povo o que o povo deseja sem o saber, tenha sido possível, em alguns debates e no meio de tanta imbecilidade, tomar o pulso ao nível de irresponsabilidade e de repulsa pela decência da sociedade política em que vivemos.

Esporadicamente vieram à tona alguns temas que têm a ver com a vida quotidiana e até com a própria sobrevivência da humanidade – embora isso não seja inquietação maior da nossa belicosa classe política.

Falou-se de guerra, mas evitou-se o perigoso tema da paz, cuja defesa pode até acarretar acusações de traição à pátria; prestou-se a indispensável vassalagem à União Europeia, fugindo como diabo da cruz da impossível conciliação entre soberania nacional e federalismo; discorreu-se sobre as  ameaças da extrema-direita com a prestável colaboração da extrema-direita lusitana, que afinal nada tem a ver com a extrema-direita nem com as heranças de Pinochet e Salazar; recitaram-se os habituais mantras das alterações climáticas, embora não tanto como os «ecologistas» à moda da sueca Greta e seus patrões Gore, Gates, Soros e o fascista Schwab do Fórum Económico Mundial desejariam; e consagrou-se a NATO, essa fábrica de heróis que, depois do engano de 25 de Abril de 1974, nos devolveu às guerras coloniais e poderá até levar jovens portugueses a «defender a pátria» na Ucrânia.

Salazar mandava: «a pátria não se discute»; o regime de democracia liberal ordena: «a NATO e a Ucrânia não se discutem». E cá vamos, cantando e rindo.

Por vezes, nunca com prioridades, afloraram-se temas, dir-se-iam marginais, como os salários ínfimos dos portugueses, a situação dos trabalhadores (e não colaboradores), tratados pela União Europeia como potenciais escravos, a tragédia, igualmente escravocrata, do trabalho precário, de como a educação vai mal, a habitação pior, a saúde péssima.

Com a lógica própria do espírito de campanha, esses assuntos foram sempre impertinentes, ou mesmo abusivamente levantados por uma única força política e abafados tão depressa quanto possível pelas impaciências de quase todos os participantes e as urgências cronométricas dos moderadores.

A única força política que a tal se atreveu foi o Partido Comunista Português, em boa verdade a CDU – mas permitam-me os autênticos e legítimos Verdes e esse espelho de democracia que é a Intervenção Democrática que agora me foque principalmente no PCP, do alto dos seus 103 anos de luta pela liberdade, a democracia e pela soberania nacional; demonstrando que o combate pela democracia é inseparável da luta antifascista, correlação de que a classe política não pode ouvir falar.

João Oliveira, pela sua maior exposição mediática como cabeça de lista, mas também os outros candidatos da CDU, levantaram os problemas reais dos portugueses, esclareceram, desmontaram a hipocrisia dominante e governante. Fizeram-no dentro de condicionalismos, muitos deles ilegais, sobretudo no que diz respeito aos comportamentos mediáticos. Apesar disso, João Oliveira conseguiu fazer-se ouvir, não se deixou intimidar, meteu na ordem adversários que não sabem o que é debater ideias e até moderadores treinados nos mais primários tiques anticomunistas. Como disse lucidamente João Ferreira, na noite eleitoral na RTP, já é mesmo preciso ter coragem e um indomável espírito de combate para enfrentar o aparelho que montou e impõe ferreamente uma opinião única cuja contestação é silenciada, caluniada e até perseguida segundo os cânones autoritários da democracia liberal – isto é, neoliberal, o fascismo económico.

Inimigo a abater

O PCP foi sempre o alvo mais cruelmente perseguido pelo salazarismo; e agora continua a ser vítima de uma sanha que Oliveira Salazar não desdenharia, um inimigo a abater, um problema a liquidar para que a providencial democracia liberal deixe de ser incomodada.

Os comunistas portugueses lutaram 53 anos sob o regime fascista. Foram lançados nas masmorras, torturados, perseguidos, assassinados durante décadas negras sofridas pelo povo português. O PCP ajudou a juntar forças e a fazer avançar a consciência antifascista e da paz nas entranhas da guerra colonial. 

Que me perdoem os heróicos militares revolucionários, mas o PCP foi determinante para o apodrecimento e queda do fascismo, foi essencial para a fulminante adesão popular que complementou, deu alento e consolidou a vitória do movimento militar. Tudo fez, e faz, para que ainda se mantenham conquistas revolucionárias, apesar do novembrismo revanchista, desde logo contribuindo para que este não consumasse plenamente o regresso ao passado, como desejaram os que cavalgaram o golpe guiados pela máquina de conspiração norte-americana, da NATO e seus aliados internos.

A legalização do PCP e a libertação dos presos políticos foram, em si mesmas, vitórias populares, conquistas de Abril. Desengane-se quem pensa que eram dados adquiridos com a queda do fascismo. Sectores «continuistas» como os spinolistas tentaram travar e anular o movimento popular à partida, procurando estabelecer uma «democracia» sem o PCP, que não deixaria de ser uma «democracia ocidental», uma democracia liberal como se usa agora dizer. Já em pleno marcelismo circulara a ideia de uma hipotética «transição» com alguns partidos, mantendo ilegal o PCP.

Em paralelo, hoje há na classe política quem sonhe em afastar o PCP de todos os órgãos de poder, designadamente da Assembleia da República e do Parlamento Europeu. Na recente campanha valeu tudo, até fazer eco, como aconteceu com a agência Lusa, de uma publicação atlantista e imperialista, Politico, que identificou os eurodeputados comunistas entre os «maiores amigos de Putin».

Nos centros de decisão da democracia liberal não há muito pudor em excluir o Partido Comunista da intervenção directa nos mecanismos de poder. Reduzi-lo a um partido não parlamentar já seria uma grande vitória para o fascismo em ascensão, sintonizado com a tradicional política da NATO. E o espectro político, do Bloco de Esquerda ao Chega, que considera «democrático» e «civilizado» o regime nazi-banderista da Ucrânia, que começou por ilegalizar o Partido Comunista até suprimir mais de uma dezena de organizações políticas opositoras, não manifestaria incómodo se os comunistas portugueses desaparecessem dos parlamentos onde estão representados. 

No entanto, a História demonstra que o PCP lutou, implantou-se, não se deixou abater e cresceu durante 53 anos sem ter qualquer deputado nem poder actuar à luz do dia. 

A NATO, como já não é segredo, tem organizações clandestinas, como a Gladio, cuja função é impedir que os partidos comunistas da Europa intervenham nos centros governamentais de decisão. A violação dessa norma compulsória, por exemplo, esteve na origem do assassínio do primeiro-ministro democrata-cristão italiano Aldo Moro, em 1977.

Fazer sumir o PCP dos assentos parlamentares não é mais do que uma aplicação simples da ordem atlantista. Os ferrenhos da NATO prefeririam a ilegalização, mas vê-lo fora das instituições já seria uma enorme vitória.

Comentadores, analistas e académicos equipados com tapa-olhos, como as mulas e burros que puxam as noras, escandalizam-se com o facto de o PCP ser contra a NATO, um pecado lesa-pátria, lesa-civilização ocidental, lesa-democracia liberal. No entanto, os comunistas não poderiam ter outra posição, porque conhecem as lições do passado tão bem como as do presente. Não esquecem que o fascismo salazarista foi parte fundadora da Aliança Atlântica, distinção que deu gás suplementar ao regime quando ele tremia como varas verdes depois da derrota de Hitler e no turbilhão democrático do fim da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, aplicando o velho dito popular «amor com amor se paga», se a NATO combate o PCP, natural é que o PCP seja contra a NATO. Mas há mais: a esquerda onde o PCP se enquadra repudia a «ordem internacional baseada em regras» como um embuste ocidental para não respeitar o direito internacional; e defende a negociação e a paz como os princípios dos princípios para buscar a solução de qualquer conflito, enquanto os atlantistas dão prioridade à guerra para que no final seja encontrada a «paz».

Ao nível de «comer criancinhas»

Em todas as campanhas eleitorais a estratégia anticomunista vai sendo apurada ao ritmo da fascização do meio político, no interior do qual foram outorgadas chancelas «democráticas» anticonstitucionais a organizações retintamente salazaristas. O desenvolvimento do fascismo, porém, acelerou-se desde que se iniciou a guerra na Ucrânia – em 2014, não em 2022.

O processo gradual de imposição da opinião única neoliberal graças à acção conjunta do poder económico, da classe política e do aparelho mediático de propaganda criou o dogma de que os pontos de vista dissonantes da NATO e da União Europeia representam uma adesão às teses do inimigo, uma identificação com o diabo de estimação, Vladimir Putin, incarnando agora a «ameaça russa», tal como em seu tempo acontecia com o regime soviético. 

Ora, alguma vez pode ser levada a sério ou faz algum sentido a acusação de que o PCP, um partido que defende o socialismo e luta pela erradicação do capitalismo, pode apoiar um sistema que está nos antípodas dos seus princípios de luta, um regime capitalista oligárquico, assente numa tradição retrógrada e no fundamentalismo cristão ortodoxo, como o chefiado por Vladimir Putin? O primarismo da manipulação está ao nível da propaganda salazarista, quando os comunistas «comiam criancinhas» e se «viam livres dos velhos com injecções atrás da orelha». Mesmo assim, a manobra inspirada em Goebbels continua a fazer o seu caminho.

O Partido Comunista é sempre o «inimigo interno», sequela da «caça às bruxas» praticada pelo macarthismo norte-americano, uma «quinta coluna» que precisa de ser removida para que o país cumpra, sem estorvos de maior, a sua política de guerra na Ucrânia, a cumplicidade para com as atrocidades do sionismo na Palestina, as sanções criminosas contra os povos de países indisponíveis para se acomodarem à canga colonial e imperial.

Salazar e Marcello Caetano sentenciavam que «quem não está connosco está contra nós». A democracia liberal ordena da mesma maneira: quem defende a paz e o diálogo na Ucrânia, quem sempre se bateu, ao longo de mais de 70 anos, contra o colonialismo sionista e pela liberdade do povo palestiniano, está o lado de Putin e do Hamas, isto é, contra nós.

Como tal, há que apontá-lo a dedo na praça pública, fazer tudo, até desprezar a Constituição e as leis eleitorais, para o maltratar e vilipendiar. Há que manipular, mentir, difamar, caluniar, silenciar ou deturpar as suas posições, criar uma imagem de pária que está a mais na política e que serve para perturbar a tão idílica harmonia nacional – todos com a União Europeia, todos com a NATO. 

O fascismo económico neoliberal tem no fascismo político o seu cenário de sonho. Um passo significativo nessa direcção é o cavalheirismo com que a classe política do burgo aceitou a integração e os horizontes governamentais da Iniciativa Liberal e do Chega. Naturalmente, ambos vieram engrossar e reforçar as hostes da guerra contra o PCP: no regime de Pinochet, inspirador dos bem-falantes do fascismo Armani, o Partido Comunista foi proibido e perseguido, os seus militantes e simpatizantes fuzilados no estádio nacional e muitos continuam dados como «desaparecidos»; no salazarismo que serve de referência a Ventura e sequazes, o PCP estava na clandestinidade; e, mesmo já legalizado, não foi poupado à destruição de dezenas de centros de trabalho conduzida por grupos terroristas nos quais se destacaram criminosos que hoje são honrados e venturosos deputados da República.

Ao mesmo tempo que, depois da porta impudicamente aberta pelo Tribunal Constitucional, a classe política acolheu fraternalmente a chegada dos grupos fascistas, a comunicação social e aparelho de propaganda da democracia liberal empenhou-se em passear o Chega e a Iniciativa Liberal ao colo, promovendo-os inicialmente como coisas curiosas e «interessantes» num cenário político estagnado e monótono; e agora como fortalezas do regime, intrépidos apoiantes e praticantes da opinião única, juízes com direito pleno na campanha terrorista contra o PCP. Principalmente quando se trata da guerra da Ucrânia, onde Zelensky é um irmão do peito que dá asas a grupos nazis em toda a Europa; ou da situação na Palestina, em relação à qual as duas variantes do neo-salazarismo se comportam como genuínos militantes do terrorismo sionista – com toda a legitimidade, porque se trata de uma variante do fascismo.

As esquerdas que também colaboram

À esquerda, a pulverização política esquerdista serviu sempre o anticomunismo, porque muitos dos grupos que proliferaram a seguir ao 25 de Abril, hoje fundidos nas organizações mais reaccionárias, desempenharam a preceito o papel atribuído e claramente exposto, por exemplo, na criação de condições propícias ao reviralho de 25 de Novembro de 1975.

Ainda que hoje o panorama seja diferente – apesar de continuarem perceptíveis no PS algumas manifestações doentiamente anticomunistas – a esquerda parlamentar, incluindo grupos que confundem a esquerda com o palrar dos chefes e se derretem com as simpáticas palmadinhas nas costas prodigalizadas pelos media e pela classe política, cumpre a sua parte no anticomunismo.

Uma das estratégias das esquerdas não-comunistas ou anticomunistas que mais serve os interesses do capitalismo neoliberal é a fragmentação das causas que dizem defender, multiplicando focos de luta em vez de incidirem sobre o essencial, isto é, a defesa da paz, a denúncia da guerra e de todos os negócios que dela tiram proveito, a verdadeira salvaguarda dos direitos humanos – de todo e qualquer ser humano – o respeito pelo trabalho e os trabalhadores, o combate sem tréguas contra as desigualdades, em suma, o foco centrado na luta sem descanso pela transformação progressista da sociedade e contra o capitalismo.

O PCP trabalha e combate nesse sentido, porque das causas centrais derivam todas as outras, nenhuma das quais se resolve isoladamente sem alterar profundamente as estruturas sociais e desmantelar o capitalismo. Além disso, clarifica e defende o conceito de liberdade tal como está implícito nos objectivos e conquistas do 25 de Abril: uma liberdade para as pessoas e que deve sobrepõe-se sempre às «liberdades» do mercado, das empresas, do dinheiro.

O racismo é uma doença social inerente ao capitalismo, tal como a marginalização das minorias, o desrespeito pelos direitos da mulher, apesar de inscritos nas leis; o mesmo acontece em relação ao ambiente e às alterações climáticas, à salvaguarda dos animais e da vida selvagem, à segurança alimentar, ao tratamento humanizado e igualitário das migrações e dos migrantes.

O capitalismo, isto é, a «nossa» democracia, garante que tem soluções ambientais mágicas e resolverá o drama das alterações climáticas, mas agrava quotidianamente a situação e gera ainda mais fortunas com os «novos» negócios «verdes». Não existem quaisquer sinais, no regime em que vivemos, do retrocesso de doenças como o racismo e a xenofobia ou os preconceitos contra a comunidade LGTB+ – pelo contrário, avançam a ritmo alarmante. Por muito que as leis os garantam e as quotas sejam tratadas como uma ideia genial, os exemplos de violação dos direitos das mulheres são constantes. Em relação aos movimentos migratórios, ao respeito pelos direitos e a integração social dos migrantes basta olhar à nossa volta e passar os olhos pelas notícias. O problema continuará a agravar-se, com consequências imprevisíveis, porque a idolatrada NATO cria e alimenta guerras sem fim, gerando intermináveis vagas de refugiados em todo o mundo.

As esquerdas das causas fraccionadas não são transformadoras, não ameaçam o capitalismo, não travam nem invertem os sentidos sociais mais negativos, com a agravante de baralhar prioridades, cultivarem a confusão, dispersarem esforços quando a delicadeza e profundidade dos problemas exigem união, organização e convergência de esforços, não a mesquinhez de a «nossa» causa ser mais importante do que todas as outras. E, não poucas vezes, essas esquerdas, sejam falsas ou fofinhas, tão acarinhadas pela trapaceira indústria mediática, servem a classe dominante nas suas campanhas contra os comunistas.

A recente campanha eleitoral exibiu-nos um Livre cheio de ecologias e ademanes de esquerda ao mesmo tempo que defende o fundamentalismo federalista europeu. Ora o quotidiano da União Europeia não deixa dúvidas: ou se é de esquerda ou se é federalista. O federalismo, aliás, é aplicado sub-repticiamente, com as conhecidas e desastrosas consequências para o povo português, mas essa responsabilidade não tem o Livre a coragem de assumir.

O Bloco de Esquerda mantém um flirt com a NATO. As simpatias com o regime de Kiev, que proíbe partidos, assumiu uma censura oficial, restringe o direito à opinião livre e faz circular uma lista à mercê de bufos com os nomes de opositores a liquidar, não traduzem uma escorregadela ocasional. A incapacidade para assumir que a situação na Venezuela é essencialmente uma consequência das asfixiantes e desumanas sanções norte-americanas e da União Europeia; a atracção pelo federalismo europeu; a cumplicidade com o comportamento ocidental destruidor na Síria; e a posição carregada de ambiguidade em relação à operação criminosa da NATO para destruição da Líbia, e que abriu as portas de sucessivas vagas de refugiados em direcção à Europa, identificam um comportamento padrão: afinal, a coerência não é o forte dos bloquistas.

O PAN, que não sabe muito bem onde se situa no quadrante político, acha meritoriamente, pela voz do seu ex-candidato europeu, que a guerra é uma coisa má porque afecta o meio ambiente e os ecossistemas. A morte de centenas de milhares de pessoas parece ser um inconveniente colateral.

Esquecer as pessoas, desprezar a sua qualidade de vida, os seus direitos humanos sociais e políticos, a afirmação plena da sua dignidade através da saúde, de habitação condigna, de trabalho e salários decentes, da educação e cultura livres, abertas, sem censuras e propiciadoras de elevados índices intelectuais; a negação de condições de segurança e de verdadeira fruição da vida durante o processo de envelhecimento – tudo isto representa a essência do capitalismo. A relação entre o capitalismo e o ser humano é como a da água com o azeite – a incompatibilidade por definição. As esquerdas não-comunistas não são, na prática, anticapitalistas.

O povo tem onde apoiar-se

O PCP actua e luta nos antípodas do cenário próprio da sociedade capitalista, agravado quando a versão fundamentalista neoliberal se expande com ambições globalistas. O PCP é o principal alvo a abater, a alavanca popular capaz de emperrar a máquina trituradora patrocinada por todo o dinheiro disponível no mundo, a voz que nem o salazarismo silenciou.

Por muito que a classe política se desdobre em manobras legais e ilegais para o neutralizar; que a teia mediática propagandística multiplique as mais deslavadas mentiras e as mais vergonhosas calúnias; por muito que os poderes de Estado permitam, fiquem  insensíveis e silenciosos quando esbirros estrangeiros em Portugal ao serviço do nazi-banderismo de Kiev reclamam a sua ilegalização, a exemplo do que fizeram no seu país, o PCP não se intimida, resiste e não deixa o povo desamparado sob os ataques cerrados do autoritarismo conjugado da União Europeia, NATO e outras centrais do imperialismo. Prossegue dia-a-dia, sem esperar pelos circos das campanhas eleitorais, o seu trabalho de formiga esclarecendo, informando, alentando, unindo, organizando, mobilizando, lutando em todas as frentes sociais e políticas, como quem faz acção cívica de cidadão a cidadão para que a democracia liberal, corruptela e cemitério das esperanças libertadas com o 25 de Abril de 1974, entregue de vez a alma ao criador; e seja substituída por uma genuína democracia participativa, antifascista, respeitadora da Constituição e das autênticas liberdades, onde o povo, livremente informado e esclarecido, seja quem mais ordena. Pode parecer impossível, mas as ruas e praças do país encheram-se num ápice quando os corajosos e inesquecíveis cidadãos fardados do MFA avançaram para derrubar a besta fascista, feito histórico em que muitos não acreditavam. 

O povo que fez o 25 de Abril continua, contudo, a ser vítima das famílias oligárquicas, agora ainda mais poderosas, com a cumplicidade de uma classe política usurpadora e que odeia as pessoas. Nada nos convence, porém, que seja impossível, num mundo dinâmico e em mudança permanente, voltarmos a viver novos dias das surpresas. O PCP, independentemente das circunstâncias e das perseguições, continua a cumprir a sua tarefa; os mais desfavorecidos, apesar do poder de uma propaganda tóxica de alcance global, saberão sempre onde apoiar-se. É assim há 103 anos.


Banda sonora para um genocídio

(José Goulão, in AbrilAbril, 16/05/2024)

Para orgulho de todos nós, foram portuguesas as vozes que melhor se ouviram, vozes de cidadãs, de mulheres de paz, que tiveram a coragem de se distanciar da cumplicidade objectiva da EBU e afins com a carnificina e a limpeza étnica que o regime sionista comete há 76 anos na Palestina.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui


É compreensível que o leitor não tenha estômago, tempo e paciência para frequentar anualmente esse happening de decadência cultural, cívica e humanista a que chamam Festival da Eurovisão. Numa outra perspectiva, porém, saiba que não é fácil encontrar um concentrado tão perfeito, directo e completo para ilustrar o estado de degradação a que chegou a «civilização ocidental», aquela que diz carregar os valores que enformam a sociedade perfeita e o ser humano ideal.

Num Festival da Eurovisão resumem-se os comportamentos, os tiques e as práticas inerentes à necessidade de continuar a impôr à generalidade do mundo um conceito civilizacional, cultural e humanista superior, único e inquestionável. O Festival da Eurovisão tem, por isso mesmo, uma virtude insubstituível: dá-nos a oportunidade de observarmos um Ocidente desnudado de cuidados e disfarces hipócritas usados em circunstâncias não enquadráveis na área do entretenimento, deixando cruamente perceber aquilo em que se transformou – exactamente o contrário do que diz ser.

Que o espectáculo e as incidências em seu redor sejam uma réplica da mediocridade tóxica que Hollywood exporta como arte oficial do neoliberalismo globalista e das oligarquias dominantes, não temos de nos surpreender. É a ordem natural e colonial das coisas, a cultura formatada para transformar as grandes massas de cidadãos em rebanhos de imbecis da mesma maneira que o aparelho transnacional mediático gera exércitos de ignorantes, pessoas desabituadas de se interrogarem sobre as realidades que as cercam.

Ora, a União Europeia de Radiodifusão, esse antro de perversão ética conhecida anglo-saxonicamente por EBU, é um braço qualificado da central globalista de propaganda que reúne as rádios e televisões públicas dos países europeus, todos eles europeus de gema como, por exemplo, Israel e a Austrália, talvez num futuro próximo a Nova Zelândia, o Canadá, os Estados Unidos. Aliás, todos estamos informados, através de uma prática quotidiana que se prolonga há séculos, de que o Ocidente é onde o Ocidente quiser.

Cabe à EBU organizar anualmente o Festival da Eurovisão onde, no essencial, se promovem o ruído em vez da música, versículos delicados como martelo-pilão no lugar da poesia e a incandescência de luzes que cegam aconselhável para criar um ambiente irracional de plena fruição niilista.

A EBU abusa do seu direito discricionário ao transformar a música, a poesia e a encenação no equivalente ao fast food das artes de palco – nada disso deveria esperar-se do tão falado serviço público. É verdade que o espectador só consome se quiser, tem sempre a possibilidade, graças às benesses do mercado, de emigrar para as estações privadas – que lhe servem mais do mesmo porque assim determinam a lei do lucro e o culto da cabeça oca. O consumidor não se sente satisfeito? Culpa do próprio, esquisito ou demasiado exigente.

Nada de políticas

O Festival da Eurovisão tem um dogma existencial: é um acontecimento apolítico. E a EBU assume esse estatuto até às últimas consequências, afinal com a mesma seriedade com que a «civilização ocidental» defende os direitos humanos.

Para que as tentações políticas sejam expurgadas do sistema, a EBU censura, persegue, ameaça, expulsa, mente, mas graças a esses comportamentos tão inequivocamente democráticos cumpre-se o desígnio sagrado.

Provavelmente, o festival deste ano foi o mais elucidativo quanto ao que representa a EBU como instrumento da «nossa civilização», dos nossos valores. A Rússia foi liminarmente excluída do concurso por ter invadido a Ucrânia; à Bielorrússia aconteceu o mesmo, embora não se saiba muito bem o que fez, talvez penalizada por ser aliada de Moscovo.

Nunca a EBU admitiu excluir a Ucrânia por conduzir há dez anos uma guerra contra as populações civis de vastas regiões do país, aliás de acordo com as consignas nazis e racistas do «nosso» regime de Kiev. Como entidade apolítica, não cabe à EBU inteirar-se dos crimes cometidos por um regime nazi; aliás, no ano em que foi invadida pela Rússia, a Ucrânia teve o privilégio visivelmente apolítico de ganhar o Festival da Eurovisão.

Este ano, os ambientes em redor do festival toldaram-se um pouco mais porque alguém, completamente a despropósito e parece que confundindo o que não pode ser confundível, alegou que também Israel deveria ficar de fora do concurso devido ao genocídio e à limpeza étnica que continua a praticar contra o povo palestiniano.

Nada disso, contrapôs a EBU, excluir Israel seria o mesmo que politizar o festival. Além disso, é completamente descabido comparar o caso de Israel ao da Rússia. Explica a EBU que o festival é um concurso de estações públicas de rádio e TV e não de países. A organização deve avaliar se os comportamentos dessas empresas respeitam as normas apolíticas do concurso e, analisando as circunstâncias, concluiu que a televisão pública sionista se comporta como deve ser, o que não acontece com a da Rússia, que apoia a invasão da Ucrânia.

Deveremos deduzir que a televisão israelita trata de maneira objectiva e apolítica as operações militares de chacina em Gaza, além de funcionar sob censura militar. Faz todo o sentido.

Em matéria de coerência, o comportamento da EBU não fica por aqui. Alguém lembrou aos organizadores do festival que, se o certame se disputa entre empresas de rádio e televisão, por que razão se usam as bandeiras dos países e não as das instituições concorrentes? Não será isso uma opção política e até nacional-populista? A EBU respondeu que se trata de uma falsa dúvida, sem qualquer lógica. E mais não disse.

Mulheres corajosas e de paz

Apesar destas convincentes explicações, continuou a haver gente recalcitrante quanto à presença de Israel no concurso, pessoas visivelmente antissemitas, quiçá simpatizantes do Hamas, como informados comentadores, organizadores, generais e politólogos desde logo sugeriram.

Para desgosto da EBU e de vários outros meios dotados com a vocação civilizacional do Ocidente, o rebanho em construção tem ainda muitas dissidências. Demasiadas dissidências – até, imagine-se, entre membros dos júris nacionais, e mesmo entre os concorrentes. Assim como há aqueles participantes que ainda insistem em apresentar música e poesia, sujeitando-se, inapelavelmente, à secundarização e ao desrespeito pelo seu trabalho, há também os que não desistem de pensar, de se interrogar e até de invocar a paz – o que levou a EBU a sacar da censura e da ameaça de penalizações tal como, em seu tempo, Hitler puxava da pistola quando ouvia falar em cultura.

Felizmente, para orgulho de todos nós, foram portuguesas as vozes que melhor se ouviram, vozes de cidadãs, de mulheres de paz, que tiveram a coragem – é preciso ter coragem num terreno de tal maneira minado – de se distanciar da cumplicidade objectiva da EBU e afins com a carnificina e a limpeza étnica que o regime sionista comete há 76 anos na Palestina. «A paz prevalecerá», proclamou a autora-intérprete Iolanda ainda em palco, no final da sua belíssima actuação. A cantora Mimicat, como porta-voz do júri nacional, enviou igualmente uma mensagem de paz, salientando que o fez ciente de que «somos um país que acredita na liberdade e na paz».

As vozes bem audíveis destas duas mulheres resgataram, em cenário global, a letra da Constituição e a dignidade do país de Abril que tantas vezes são hipotecadas, por sistema, tacanhez e subserviência, pelos titulares dos mais elevados cargos políticos.

Sabemos que Mimicat e Iolanda não são exemplos isolados; no meio artístico e musical português há muitos actores, actrizes, compositores, cantores e cantoras que usam os seus talentos sem esquecer causas nobres como a paz, a solidariedade e as liberdades, algumas tão ameaçadas como são as de opinião e expressão. E usam-nos com muita qualidade, para benefício de todos nós e até para prestígio do país.

O chamado «voto do público» ou «televoto» em Portugal, porém, não alinhou com as posições humanistas das representantes portuguesas, seguiu antes o «fenómeno» registado em quase todos os lugares onde houve «votações», isto é, a contagem de chamadas telefónicas em massa num processo hermético no qual os espectadores não têm acesso a qualquer garantia de fiabilidade dos resultados. A canção de Israel, isto é, a delegação sionista no festival, foi a que recebeu mais «votos» em 15 das contagens realizadas, incluindo Portugal, contrariando de maneira bastante acintosa a escassa receptividade que teve entre os júris nacionais.

Sendo quase certo que nenhum «votante» saberá sequer alinhar duas notas da cantoria sionista, que passaria despercebida não fosse o alarido em seu redor, estamos perante um voto politicamente induzido num certame «apolítico».

E aqui, perante a enxurrada de supostas chamadas telefónicas de apoio à presença sionista, deixando toda a concorrência a uma distância inusitada e sem qualquer nexo com os pareceres dos jurados em cada país, várias hipóteses de explicação podem aventar-se: uma fraude em massa no processo telefónico assegurada em cada terminal de contagem; uma monstruosa mobilização de «votantes» patrocinada pela mafia sionista transnacional (não confundir com as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo); ou – o que será o mais inquietante – uma grande manifestação de apoio das populações europeias, e de outras zonas do mundo, à delegação de um país comprovadamente responsável por uma política genocida e sangrenta conduzida sob os olhos do mundo inteiro. Se for este o caso, teremos de reconhecer que a imagem de Israel «concorrente perseguido» cultivada por toda a estratégia «apolítica» da EBU e, sobretudo, a poderosíssima vaga mediática internacional para branquear os crimes sionistas têm um êxito assombroso. À luz desta hipótese, o estado de indigência e insensibilidade de grandes massas internacionais perante os crimes de guerra sionistas está muito mais avançado do que seria de supor.

Um microcosmos

A EBU, ao aglutinar as estações públicas de rádio e televisão dos países «civilizados», é um microcosmos do aparelho de imposição da corrente política e geoestratégica neoliberal, de mentalidade colonial, dominante no chamado «Ocidente global».

Daí que o carácter «apolítico» invocado a todo o momento seja parte da sua estratégia de manipulação, uma falsificação grosseira da realidade.

Na preparação e emissão do Festival da Eurovisão, tal como acontece regularmente noutros anos, talvez com menor evidência, tornou-se claro que as preocupações «apolíticas» dos organizadores do certame tentaram esconder um apoio político específico à participação sionista, desde logo estampado nas alegações esdrúxulas, segundo as quais as razões que determinaram a exclusão da Rússia não se aplicam ao Estado de Israel.

Depois assistiu-se a uma perseguição e a uma actividade censória doentias contra tudo o que fosse, ou mesmo parecesse, uma contestação da política genocida israelita ou um gesto de solidariedade para com o povo palestiniano. Ou até contra uma simples proclamação em defesa da paz – um conceito que, como salta cada vez mais aos olhos de todos, se tornou verdadeiramente subversivo ou um sintoma de traição em todo o Ocidente.

Os esbirros da EBU abandonaram todos e quaisquer filtros de conveniência quando se tratou de censurar a eito para proteger Israel. O som das emissões nas meias-finais, nos ensaios e na final foi manipulado de modo a diminuir ou abafar os apupos e os protestos na sala contra a presença israelita; a actuação de um intérprete convidado na abertura de uma das sessões foi apagada dos registos oficiais do festival porque o cantor exibiu uma pulseira com símbolos associados à causa palestiniana; são conhecidas igualmente várias tentativas dos organizadores para ocultarem que a representante portuguesa Iolanda actuou com as unhas solidariamente decoradas com simbologia palestiniana. A publicação do vídeo oficial da sua actuação foi protelada até ao momento em que a RTP, honra lhe seja feita, decidiu intervir.

Durante uma conferência de imprensa, o representante holandês teve um gesto espontâneo que a enviada de Israel e os fiscais da organização interpretaram como sendo hostil à presença sionista. Ao cabo da perseguição que logo lhe foi movida acabou por ser expulso, vítima de uma provocação montada num ápice e à qual não teve experiência para resistir. Por ironia do destino, o rapaz fora apurado para a final com uma espécie de redacção pateta e pueril sobre as delicodoces maravilhas da União Europeia capaz de derreter até às lágrimas qualquer federalista mais sensível. De nada lhe valeu: calaram-no sumariamente e nem sequer recebeu qualquer conforto solidário da TV pública neerlandesa, além de fazer agora parte da avultada lista mundial de antissemitas assim definidos pelas autoridades sionistas. Um rol que, aliás, acaba de ser engrossado com a presença de um «sionista cristão» de luxo, o presidente dos Estados Unidos, Joseph Biden, ao cometer o pecado de ameaçar (apenas ameaçar, como é óbvio) suspender a entrega de armas ao regime sionista para continuar o seu genocídio do povo palestiniano.

Comentadores geopolíticos norte-americanos asseguram que o sionismo internacional controla o aparelho mediático e a política externa dos Estados Unidos. Têm certamente as suas razões para o afirmar.

A realidade internacional que podemos acompanhar e escalpelizar em todas as suas cambiantes confirma-nos isso e vai mais além. Não existe actualmente qualquer entidade no mundo, qualquer lei ou mesmo qualquer «regra» da ordem internacional definida pelos Estados Unidos capaz de conter o comportamento arbitrário, criminoso e ilegal do regime de Israel. O sionismo internacional assume, através das práticas do governo israelita, as mais gravosas decisões contra as mais elementares normas de convívio internacional, de respeito pelos povos, pelas pessoas, pelas leis, pelos direitos humanos.

Cumprindo a regra de ouro do sionismo como uma variante de fascismo, o regime de Israel comporta-se como se não fosse deste mundo, respondendo apenas perante um deus, como invocam muitos dos seus dirigentes mais representativos.

Os episódios do Festival da Eurovisão, em escala reduzida mas com um impacto internacional considerável, mostram que os tentáculos sionistas actuam em todas as áreas onde seja oportuno e conveniente mostrar quem manda. Neste caso, ganhar o certame não era sequer uma prioridade. Bastou mostrar que uma delegação sionista estará presente sempre que queira, independentemente das circunstâncias, das atrocidades cometidas pelo país, e que a sua vontade nunca deixará de prevalecer sobre quaisquer contestações.

Somando exemplos sobre exemplos de comportamentos que tentam branquear os crimes israelitas, os mais atrozes desde os tempos de Hitler, parece cada vez mais difícil adivinhar no horizonte as hipóteses de conter este rolo compressor, assassino e, comprovadamente sem limites.

A «civilização ocidental» cria os seus monstros, alimenta-se deles, associa-os à própria sobrevivência. E nada garante, levando a sério declarações e intenções só aparentemente tresloucadas proferidas por expoentes sionistas, que não venha a ser vítima deles.

Em louvor da guerra

(José Goulão, in AbrilAbril, 03/05/2024)

Hoje já não há cravo capaz de disfarçar as multidões de «filhos da mãe» que para aí andam, farsantes que dissolvem o 25 de Abril no 25 de Novembro; para eles bastava que o salazarismo/marcelismo imitasse a sábia transição conseguida pelo franquismo aqui mesmo ao lado.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Ao olhar desapaixonadamente para a relação entre a Revolução de 25 de Abril de 1974 e o cenário político, social, económico e militar hoje existente em Portugal não será abusivo concluir que o maior engano dos militares revolucionários, ou talvez o seu mais desmedido atrevimento, foi o de terem marcado tão fortemente o movimento transformador com a intenção de instaurar políticas de paz e de independência nacional.

Por alguma razão, a nova classe política emergente a partir de Novembro de 1975 os quis mandar rapidamente para os quartéis. Paz e soberania nacional não estavam, como hoje se percebe, nos programas dos políticos com ambições de poder que então já se perfilavam para tomar conta do 25 de Abril e torneá-lo à sua maneira, de acordo com as instruções dos patrocinadores externos. Não contavam, é certo, com o fulgor e a rapidez com que o povo se uniu ao MFA, fazendo seu o programa dos corajosos militares e defendendo-o nas ruas, nos locais de trabalho e nas organizações populares nascentes, começando assim a modelar verdadeiramente um novo país.

Os ambiciosos políticos que pouco ou nada fizeram para abalar os alicerces do fascismo, e que ainda hoje têm pudor em qualificar assim o regime beato-salazarista, foram inegavelmente apanhados de surpresa pela súbita dinâmica militar e popular. O carácter verdadeiramente revolucionário e de ruptura que começou a ser afirmado no próprio dia 25 de Abril trocou as voltas aos que ainda em pleno período da «primavera marcelista», nas margens do regime ou em exílios bastante cómodos e tranquilos, tomaram posições para tirar proveito de uma desejada «evolução na continuidade».

Contavam que o poder lhes chegasse às mãos durante essa fase, logo que fosse possível isolar os «ultras» e «duros» da ortodoxia salazarista, no quadro de uma democracia parcialmente pluripartidária e parlamentar abençoada pelos Estados Unidos e a NATO, na qual os «donos disto tudo» não sofressem quaisquer danos e incómodos graças a uma transição suave e cordata feita sem acordar o povo. Nessa restaurada democracia de uma «nova república» não deveriam caber o Partido Comunista Português e outras correntes antifascistas que pudessem representar uma oposição real susceptível de inquietar o atlantismo e, sobretudo, perturbassem os interesse do império e a «civilização ocidental». 

As normas oficiais e, sobretudo, clandestinas da Aliança Atlântica nessa matéria eram (e são) taxativas e custaram até a vida ao primeiro-ministro italiano Aldo Moro, apesar de ser democrata-cristão: na Europa Ocidental nenhum partido comunista poderia aproximar-se da órbita de qualquer governo; se os comunistas continuassem ilegais, melhor seria. A perseguição permanente e incansável da classe política em funções e do respectivo aparelho de propaganda contra o PCP durante as últimas cinco décadas, recorrendo a métodos sujos e inegavelmente inspirados no «antigo regime» para o fazer desaparecer do Parlamento, é a variante dessa estratégia seguida desde que o partido foi legalizado.

Do romantismo ao golpe

A História ensina-nos que os movimentos efectivamente revolucionários e transformadores estão muitas vezes à mercê da ingenuidade, do idealismo e  de algum romantismo dos seus principais actores, confiantes na justiça e na razão das suas causas perante as correntes contra-revolucionárias; estas, passada a fase inicial de choque, não tardam em reorganizar-se na base da experiência, do golpismo, do medo, boato, intimidação, violência, mentira e da ausência total de princípios. Sem esquecer a sua capacidade de se mimetizar para se inserir nos círculos revolucionários com o objectivo de os dividir e minar.

Tudo isso aconteceu em Portugal, ao longo de quase 600 dias. A aliança entre os militares de Abril e o povo que espontaneamente aderiu ao seu movimento não soube defender-se para avançar na construção de uma democracia em que o poder participativo dos cidadãos não se dissolvesse nas manobras políticas dos que, sequestrando os verdadeiros ideais de Abril, conseguiram simultaneamente dividir os militares, difamar, intimidar, manipular e neutralizar a dinâmica popular. As circunstâncias que diferenciaram a verdadeira revolução de uma palaciana transição de regime foram-se diluindo, com grande envolvimento, ingerência e conspiração dos «nossos amigos e aliados» – conseguindo até arrastar grandes massas para o campo da contra-revolução.

Eis que chegou então o comício de Julho de 1975, antecâmara do golpe de Novembro desse ano, iniciativa montada pelo embaixador norte-americano Frank Carlucci juntamente com Mário Soares e na preparação da qual participaram activamente a entranhada rede de manipulação da Igreja Católica e os partidos de direita, arrebanhando militantes e caceteiros para a Alameda Afonso Henriques, em Lisboa.

O comício foi oficialmente «do PS», organizado no terreno pelo actual secretário-geral da ONU, António Guterres (boas acções merecem melhores recompensas). Mário Soares, com a verve mais agressiva que nunca, e também a mais fiel à sua essência política e pessoal, chamou «paranóicos» ao primeiro-ministro Vasco Gonçalves e ao secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, recorrendo ele próprio à paranóia mais corrente em Portugal fazendo crer que o país estava sob «a ameaça de uma ditadura comunista». Tese com caboucos de farsa cujo êxito dos efeitos tóxicos gerados terá sido decisivo na promoção de Carlucci a director da CIA e que, ao ser inventada como pretexto para o golpe de 25 de Novembro de 1975, falsificou definitivamente a História «oficial» de Portugal. A receita mistificadora está a ser intensamente reavivada em Portugal, prometendo fazer dos 50 anos do 25 de Novembro uma contundente ofensiva sem limites contra o essencial da Revolução de Abril e as forças consequentemente antifascistas, sobretudo o Partido Comunista Português.

Na Alameda gritou-se orquestradamente «se este não é o povo, onde é que está o povo?», substituindo o povo de Abril pelo povo de Novembro – que a partir daí desapareceu completamente do cenário de intervenção política e deixou de ter qualquer papel nas decisões com real influência na vida dos cidadãos. Ou seja, o tal povo de Novembro, concebido em formato de figuração de uma super-produção hollywoodesca, serviu de instrumento para nos amarrar a uma classe política estrangeirada e apátrida que, na verdade, odeia os militares de Abril e serve de tapete às ditaduras da NATO e da União Europeia. 

O tempo e essa classe política que a partir de 25 de Novembro de 1975 tomou conta dos destinos da nação – anulando-a – têm contribuído, cada um à sua maneira, para corrigir e apagar os supostos anacronismos e os alegados «desatinos» do movimento revolucionário, esmagando a ilusão da «populaça» quando esta, senhora das ruas e verdadeiramente representada nos órgãos de poder, chegou a pensar que podia e devia ter voz activa nas decisões políticas, sociais e económicas do país.

Os contornos dessa classe política com identidade e vida próprias apareceram publicamente pela primeira vez no comício da Alameda, ainda assim demasiado tarde para alguns que tentaram entronizá-la logo em Setembro de 1974 e em Março de 1975; essa elite que, sem qualquer verdadeiro controlo democrático, assumiu a «vocação para governar», teve até agora cinco décadas para formatar o país segundo as normas inquestionáveis da democracia liberal e ocidental ditadas pelos interesses imperiais e coloniais.

Começa a «correcção»

As privatizações, que não tardaram a iniciar-se depois de instaurada a «normalidade democrática» novembrista, permitiram que os donos da economia e das finanças recebessem de volta, a preços praticados em qualquer feira da ladra, os bens que as nacionalizações lhes levaram em tempos de «insanidade» popular: enquanto os latifundiários, os respectivos herdeiros e outras castas que não resistiram aos apelos do ruralismo, do turismo e da ecologia fashion tomaram conta dos montes e das planícies  do Ribatejo e do Ribatejo, desintoxicando-as de quaisquer vestígios nocivos da Reforma Agrária. Até que agora ali chegou o Chega para assegurar que esta mudança ciclópica – para citar Marcello, padrinho de Marcelo xenófobo – se processe como deve ser, à moda do antigamente, realidade de que os alentejanos e ribatejanos de todas as gerações não tardarão a aperceber-se.

O desenvolvimento destes caminhos para a plena entrada em vigor da democracia liberal, movimento que alguns mal intencionados qualificam como «contra-revolução», teve não só o apoio mas também a ajuda e quantas vezes o protagonismo das instâncias internacionais «nossas amigas e aliadas», solidariedade que, naturalmente, se aplica apenas à classe política porque esta conhece, define e fomenta com rigor absoluto o que o povo deseja, o que merece, quais as suas necessidades e como deve comportar-se. Por isso ouvimos tantas vezes os governantes, políticos, banqueiros, grandes patrões, analistas, jornalistas de referência sentenciar que «os portugueses sabem», os «portugueses querem», «os portugueses nunca permitiriam» e outras certezas e representatividade só ao alcance das elites, genericamente conhecidas como «o arco da governação». Estatuto que, a bem dizer, dispensaria as eleições porque, mais coisa menos coisa, sabemos os resultados que irão dar, com maior ou menor «estabilidade política», problemazinho que, caso surja, se resolve ao sabor de manigâncias para as quais a classe política já nasceu ensinada.

Cravo vermelho ao peito…

As instâncias internacionais foram generosas para com este recanto lusitano desde os primeiros minutos revolucionários. A sua presença, física ou apenas como espectro, fez-se sentir em cada momento das transformações, com especial esmero por parte da NATO e da Embaixada dos Estados Unidos da América, a funcionar como centro operacional de conspirações e acções em relação às quais a História real – não a oficial – já tem hoje poucas dúvidas, incluindo quanto aos protagonistas nacionais e internacionais, encabeçados pelo diligente embaixador Carlucci; o qual celebrou nos seus aposentos com o seu mais chegado colaborador, Mário Soares, os passos bem sucedidos da contrarrevolução.

Só o espírito benfazejo do atlantismo e de Carlucci & CIA permitiram travar os «desmandos» do 25 de Abril, obra de um povo indomável que acreditava nas possibilidades de construir um futuro melhor depois dos anos de chumbo salazaristas.

As invocações do 25 de Abril que hoje se observam em salamaleques políticos, comentários afascistados, narrativas e relatos alarves de ignorância, quando não insidiosos de veneno, dispendiosas campanhas de cartazes outdoors e outras tropelias afins parecem verdadeiros milagres, mas não passam de lamentáveis exercícios de hipocrisia, de pretextos para atacar, com espírito novembrista, as forças e personalidades mais consequentes da Revolução. Celebra-se a Revolução e, ao mesmo tempo, defende-se o fascismo económico neoliberal; saúda-se o programa do MFA e festeja-se o desaparecimento de Portugal na voragem federalista europeia; lembram-nos o fim da guerra colonial, mas não escondem o contentamento pelas oferendas de milhões de milhões de dólares e euros ao nazismo ucraniano, que patrocinam e armam, e pelo envio de tropas portuguesas para outras novas guerras coloniais.

Alguns figurantes e membros da classe política, hipocritamente tomados pelo espírito destes tempos, chegam a elogiar o facto de os militares de Abril terem defendido o empenhamento de Portugal no combate ao colonialismo e ao imperialismo; e são exactamente os mesmos que silenciam o genocídio colonial sionista na Palestina, concordam com o roubo das riquezas do Sahara Ocidental pelos países da União Europeia, com responsabilidade igualmente portuguesa. Os admiradores do fascismo económico de Pinochet, de Thatcher, Reagan e outros comparsas não hesitam até em identificar-se com os ideais do 25 de Abril.

Muitos dos que, quando chega esta altura do ano, não deixam de erguer os cravos vermelhos, evocam um 25 de Abril que nunca conheceram nem querem conhecer, e até emitem uma ou outra tirada antifascista, são os mesmos que não estão preocupados com o facto de Portugal ter o maior fosso de desigualdades na União Europeia, estar desaparecido como país, transformado num protectorado da eurocracia, da NATO, de troikas, do FMI e do Banco Central Europeu, asfixiado por uma moeda alheia, condenado a não passar de uma reserva turística; além de se ter transformado numa entidade orgulhosamente belicista. A «democracia participativa», um objectivo central dos militares de Abril que os deputados constituintes ainda inscreveram na Constituição, só não é um nado-morto porque nunca chegou a nascer. O 25 de Novembro agiu prontamente e, em vez de a conceber, preferiu dar à luz o monstro da classe política. Nada com que devamos surpreender-nos nestes tempos em que a propaganda, a mistificação e a mentira são, afinal, quem mais ordena.

Há coisas que nunca mudam enquanto tudo parece mudar. Hoje, como há 50 anos, continua de uma actualidade gritante aquela oportuníssima canção em que José Barata Moura nos diz que «Cravo vermelho ao peito/A todos fica bem/Sobretudo dá jeito/A certos filhos da mãe». Em 1974, os «filhos da mãe» eram os salazaristas órfãos do velho regime, que se escondiam atrás do cravo enquanto mergulhavam de cabeça no PPD e no CDS, onde alguns ainda estão, outros deixaram semente e ainda outros assumiram mesmo a identidade salazarista fundando a Iniciativa Liberal, o Chega e mais algumas coisas do género.

Hoje já não há cravo capaz de disfarçar as multidões de «filhos da mãe» que para aí andam, farsantes que dissolvem o 25 de Abril no 25 de Novembro; para eles nem teria sido necessária uma revolução para derrubar o fascismo, bastava que o salazarismo/marcelismo imitasse a sábia transição conseguida pelo franquismo aqui mesmo ao lado.

A paz, esse anacronismo

Paz e independência nacional: dois dos princípios fundadores e identificadores da Revolução de 25 de Abril de que povo se apropriou rapidamente e com todas as suas forças. A paz matou a guerra colonial, devolveu os militares ao país acabando com a chacina a que o povo português e os povos das então colónias estavam submetidos pelo fascismo.

Sem a Revolução, e com a tal transição «ordeira», que ainda assomou através da Junta de Salvação Nacional mas que o povo logo marginalizou e rejeitou, a «solução» colonial teria sido bem diferente, tendo em conta as estratégias de António de Spínola que estavam a fazer o seu caminho. Estas ideias não passavam de um colonialismo com outra designação, mais gravoso até do que as modalidades neocoloniais postas em prática na sequência da independência de numerosos países africanos; o que certamente implicaria a continuação da guerra. A paz foi uma conquista inesquecível de Abril, mas afinal perecível nas mãos da classe política. 

A promessa de independência nacional foi outro enorme motivo de esperança trazido pela sua Revolução. Os conceitos de paz e de independência nacional sobreviveram ao 25 de Novembro ainda a tempo de serem inscritos na Constituição da República, que entrou em vigor em 2 de Abril de 1976. Tal como o conceito de democracia representativa.

A Constituição, porém, foi transformada num instrumento volátil, um obstáculo para espezinhar sempre que convenha à classe política, sobretudo em matérias como a submissão aos interesses e ordens das oligarquias económicas e financeiras, à ditadura do mercado e perante as exigências ditatoriais da NATO e da União Europeia.

A Lei Fundamental determina o empenhamento de Portugal no combate pela abolição do colonialismo, do imperialismo «e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração»; na dissolução dos blocos militares; na criação de uma «ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça entre os povos».

Comparemos agora a Constituição com o comportamento da classe política e dos órgãos de poder. Verificamos que foram devidamente corrigidos e «reformulados» pela prática política os objectivos, os anseios que possam ter sido considerados como frutos de enganos, exageros, romantismo e irrealismo dos capitães de Abril e dos próprios deputados constituintes. O país entrou «na ordem» como se não tivesse havido Revolução, como se não existisse Constituição da República.

País? Qual país? Em vez da independência nacional, certamente um conceito anacrónico, Portugal dissolveu-se na União Europeia, não tem moeda, não está autorizado a elaborar livremente o Orçamento de Estado e a gerir a dívida soberana; é uma base, uma caserna e um destacamento da NATO; destruiu o aparelho produtivo; vendeu ao desbarato os mais poderosos instrumentos da sua economia e das suas finanças; entregou a exploração dos bens e infra-estruturas a gigantescas oligarquias transnacionais; a sobrevivência dos meros resquícios de nação depende do seu funcionamento como reserva turística; um país com quase 900 anos de história não passa de uma peça do colonialismo e do imperialismo globalistas. 

A defesa de uma política de paz foi, afinal, um engano dos militares de Abril, o erro mais grave em termos de perspectiva histórica num país fundador da NATO, uma opção ditada apenas pelo imediatismo de acabar com uma guerra invencível. A classe política quer fazer-nos acreditar nisso em cada dia da sua actividade.

O que essa casta nos assegura, em suma, é que nenhum país pode prescindir da guerra. A guerra é fundamental para alimentar o patriotismo mesmo que já não exista pátria. A guerra é uma fábrica de heróis, de feitos históricos, é o principal alimento da história de uma nação que se leve a sério (ainda que não passe de um holograma). O culto da guerra prestigia-nos entre os «nossos aliados», torna-nos presunçosamente grandes em influência mesmo que pequenos em área, moderniza-nos o equipamento militar, permite-nos ser generosos em dinheiro e armas para com «amigos» em dificuldades, mesmo que sejam nazifascistas, como a Ucrânia e Israel. Em boa verdade, até os administradores dos grandes fabricantes de armamentos têm de pagar as contas quando chega o fim do mês.

Não há forma de atingir a paz sem fazer a guerra, diz-nos qualquer ministro de Lisboa a Kiev, de Camberra a Washington, de Seul a Tóquio. A guerra permite-nos defender interesses económicos, mesmo que não sejam os nossos, em qualquer parte do mundo: novamente em África – um regresso bastante simbólico – no Afeganistão, na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo, no Iraque, ou mesmo enviando barcos da Polícia Marítima caçar, internar em campos de concentração ou mesmo devolver à procedência e à morte refugiados de guerras em que estamos meritória e orgulhosamente presentes. Sem guerra não poderíamos cultivar o «nosso jardim» e protegê-lo da selva que o cerca e ameaça; não podíamos salvaguardar e expandir a nossa «civilização ocidental», a única que pode e deve existir para assim afirmarmos os «nossos valores», a «nossa superioridade moral», a nossa «cultura humanista», que tem sido um exemplo para o mundo nos últimos cinco séculos. 

Benjamin Netanyahu, que todos consideramos um grande humanista e um ainda maior democrata, explicou-nos há dias que as suas práticas genocidas e de limpeza étnica têm como preocupação fundamental a de «defender a civilização ocidental». É difícil encontrar uma circunstância mais relevante para exemplificar «a nossa superioridade moral», as «virtudes humanas» que florescem no nosso «jardim».

A guerra é igualmente fundamental para expandir a única democracia permitida, a nossa, através das regiões submetidas a ditaduras, quantas vezes encobertas por regimes mistificadores facilmente identificáveis porque ali os resultados nas urnas nunca são aqueles que desejamos, os únicos aceitáveis para que os interesses dos «nossos amigos e aliados» sejam respeitados. Há quem chame colonialismo e imperialismo a estes procedimentos, acusação que corresponde a conceitos velhos e anacrónicos através dos quais se pretende denegrir a expansão da «nossa superioridade moral» e que, infelizmente, contaminaram o pensamento dos capitães de Abril e a própria Constituição.

Colocar a paz à frente da guerra é uma atitude subversiva, uma ideia de lunáticos que devem considerar-se perigosos para o sistema. Portugal está em guerra, cercado – os inimigos ameaçam de todos os lados. Felizmente temos a União Europeia e a NATO para nos valerem: se tão desinteressadas instituições não nos tivessem acudido para emendar e apagar os efeitos dos dislates pacifistas e progressistas de Abril, onde é que nós já estaríamos?!…