Análise da Democracia: O Caos e a Ascensão da Extrema-Direita em Portugal

(Por António Carlos Cortez, in Diário de Notícias 25/05/2025)

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Só é possível resgatar a democracia portuguesa se fizermos uma análise profunda (quase apetece dizer, de teor psicanalítico, como a que Eduardo Lourenço propôs em O Labirinto da Saudade) quanto a aspectos recentes que têm vindo a descaracterizar-nos como colectivo. A essa análise deve presidir um verdadeiro espírito de combate por qualquer coisa mais que não é só a democracia e a liberdade, o SNS e a escola pública, mas sim a nossa própria existência enquanto portugueses. Tanto mais portugueses quanto acolhedores de outras culturas que aqui vivem connosco. A essa análise, porém, não devemos antepor qualquer idealismo e, seja à esquerda ou à direita, o que urgentemente se exige não é qualquer revisão constitucional, como a que a Iniciativa Liberal promete só para dizer que existe e que os seus próprios resultados não foram – como são – uma derrota. E é talvez por aí que podemos começar: que significa um partido destes num país em que as tradições liberais são, no mínimo, excreções de certas épocas da nossa História? Eram Garrett ou Fontes Pereira de Melo liberais (eles, combatentes pelo liberalismo como poucos foram)? Eram liberais, nas posições político-económicas homens como Francisco Sá-Carneiro, Balsemão ou, antes deles, Maria de Lourdes Pintassilgo?

O problema está em que, com décadas de cavaquismo e com a abertura do socialismo à chamada 3.ª via, as políticas neoliberais, de importação anglo-americana, vieram fazendo o seu caminho: com Thatcher o sistema de saúde britânico – uma das grandes conquistas pós-45 – eclipsou-se. Hoje só quem tem dinheiro pode almejar a ter assistência médica – pagando bem. As políticas neoliberais, com um Reagan que levou mais de cinco anos a admitir que a sida era um problema de Saúde Pública nessa década de recuos sociais que foram os anos de 1980, feriram de morte sindicatos e organismos de defesa do bem comum. Quer dizer: quando Eisenhower, em 1959/60, preparando Kennedy, considerou que era preciso que a democracia jamais ficasse nas mãos dos interesses do complexo industrial-militar, sabia do que falava: da consolidação do neoliberalismo, o qual, no nosso tempo, teve a melhor síntese do que verdadeiramente é nas palavras do papa Francisco: “O neoliberalismo é a economia que mata.” Mário Soares, por diversas vezes, vituperou a realidade da União Europeia: um conglomerado de tecnocratas que, desvirtuando o projecto de W. Brandt, Adenauer, Olof Palme, entre outros (Delors terá sido o último desse filão de políticos para quem a Europa era, para si, cumprir solidariamente), em vez dos povos europeus, em vez do humanismo, preferiam a lógica americana: a política nas mãos do dinheiro e, por isso, usou da metáfora: estávamos, nos primeiros anos de 2000, reféns de uma “economia de casino”.

Pois bem, em termos mentais, sócio-culturais, a ascensão da extrema-direita em Portugal deve explicar-se precisamente com base nas políticas neoliberais que enfraqueceram as políticas públicas. Não é preciso dizer que a banca e os privados, nos mais diversos sectores, viram quintuplicados os seus lucros. Não é preciso lembrar que a banca ganha – por dia!! – 13.000.000 de euros. A questão é mental, é de valores, mas não só financeiros. Para que Portugal possa vir a ser um país respirável, e, em 2070, um país onde as desigualdades não redundaram num quotidiano policial e violento (é para aí que caminhamos e essa estrada é a que o Chega verdadeiramente almeja, pois governar na anarquia é o sonho de qualquer fascismo, fingindo-se ser regime de ordem que, na essência, é a desordem social, a inversão e corrupção de toda a lei), só mesmo um exame – uma biópsia, como propõe Eça em Os Maias (1888) – urgente, de modo a que possamos entender as causas da nossa congénita decadência. Tenho dito e escrito: é de natureza ética a degradação social e política, económica e cultural que temos vivido. Sobretudo nos últimos 25 anos, à medida que foram sendo substituídas as gerações de decisores políticos. Que comparação um Francisco Lucas Pires com um Paulo Rangel? Que comparação um Hernâni Lopes com um Sarmento do actual Governo? Podíamos ir mais longe. Mas a questão é que o povo reproduz, ou espelha, no esplendor do caos consumista e aviltante em que vive, a qualidade dos políticos que elege. Há uma doença mental, que também de carácter, a corroer o modo como o português comum vota: se André Ventura não recolhe sequer 10% de votos nas zonas urbanas mais escolarizadas e onde se vive melhor, é nos bairros pobres das grandes cidades, é nesse Portugal rural abandonado à droga e à alienação dum marasmo que prostitui qualquer ideal de vida, que Ventura e a sua soldadesca cresce.

A questão é, de facto, de educação, de pedagogia. A nossa crise estrutural é de natureza mental. Isso vê-se no provincianismo das decisões políticas, sejam as efectivas ou as simbólicas (na Expo de Tóquio Portugal elimina a língua portuguesa em prol de tudo estar escrito em inglês!!). Estamos, como viu Eduardo Lourenço, reféns de um conceito: o de caos. Um caos que habitamos como se fosse o próprio esplendor. Porquê? Porque não houve, da parte do PS e do PSD, mas também de outras forças da esquerda (o PCP que teve autarquias nesse Alentejo dos anos 80 e 90 e 2000), o cuidado de salvaguardarem, com políticas sociais fortes e com política cultural digna desse nome, a própria essência do que significa viver-se em comunidade. Isso requer uma ética que em Portugal não existe: o português que vive dos subsídios, dos baixos salários, de horários laborais absolutamente esmagadores; as elites que têm casas na costa alentejana, propriedades luxuosas aqui e ali, as cúpulas dos partidos, há muito sem leituras e estudo regular das várias realidades do país, isso só se resolveria se e só se admitíssemos a podridão em que nos deixámos atolar.

Consumismo, acriticismo, gerações inteiras escolarizadas, mas absolutamente acéfalas, raptados pelo digital, à mercê do americanismo mais animalesco – o trumpismo de que a IL é a faceta hipócrita e o Chega a faceta bruta -, tudo se encaminha para um beco sem saída: um Portugal bestializado, na cauda da Europa para sempre, com as elites olhando sobranceiramente um povo que por detestarem ignoram e por ignorarem, detestam. Assim, não há política alguma, mas só taticismo, calculismo. Assim, sem valores a não ser o valor do dinheiro, que Portugal senão aquele que irá nascer do ódio, da ignorância e do ressentimento?

Professor, poeta e crítico literário

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.

Fonte aqui

Um naufrágio civilizacional

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 08/02/2025)


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Duas notícias recentes com o fundo das primeiras ações do governo Trump. As notícia de que o partido de extrema-direita de Nigel Farage se encontra em primeiro lugar nas sondagens na Grã Bretanha, que a AfD, o partido de extrema direita surge em segundo lugar nas sondagens na Alemanha, que a extrema direita de Beloni é governo em Itália, que o RN, de Le Pen, está no topo das preferências dos franceses, que a extrema direita atrai largas maioria de votantes nos países mais desenvolvidos na Europa, na Holanda, na Áustria, na Hungria, na Polónia, em Espanha. Neste fim de semana esta girândola de organizações ditas “patriotas” reúne-se em Madrid para concertar estratégias, numa reunião organizada pelo VOX, dos herdeiros do franquismo.

Existem muitas explicações para esta ascensão dos movimentos que ressuscitam o nazismo e surgem crismados com várias designações, direita radical, populistas, nacionalistas, patriotas, que apresentam temas comuns como o mal da sociedade: imigração, segurança, corrupção, direitos de minorias que constituem a cartilha da doutrina neoliberal que teve o seu primeiro ato de vitória com o golpe dos Estados Unidos de 1973 no Chile contra o governo de Allende e tem como finalidade última a instauração de poder oligárquico hegemónico. Um mundo em que uma oligarquia constitua o centro do poder, no mínimo no que hoje passou a ser designado por Ocidente Global.

O neoliberalismo, que também surge designado como neoconservadorismo não tem nada de novo: é a ideologia determinante da História. É a ideologia da História do Ocidente, da luta dos poderosos contra os povos e da resistência destes contra o poder das oligarquias, da minoria dos “ungidos” que assumiram o poder que querem conservar a todo o custo e por todos os meios. Sendo que apenas variam os meios e não os objetivos: o poder.

Os neocons, norte americanos ou europeus, são tanto herdeiros dos nazis, como dos senhores de pendão e caldeira da Idade Média, dos usurários que organizaram o sistema financeiro desde o escudo português, ao peso espanhol, à libra e ao dólar. Os “patriotas” europeus e os neocons americanos, reunidos sob o rótulo de liberais, defendem a concentração de poder numa elite, com todos os direitos, e a colocação da maioria na posição dos seres na posição dos servos a idade média, como propriedade da minoria, com um programa de vida de trabalharem muito e em silêncio, e morrerem cedo.

As novas tecnologias da informação têm servido, como no antecedente as religiões serviram, para obter a “obediência voluntária” da maioria, os servos, daí a utilização por parte destes movimentos caracteristicamente nazis de bandeiras que pretendem impor e cavalgar o medo do outro, do diferente, da igualdade, de explorar o velho princípio de dividir para reinar. De, dado não ser possível calar as multidões, ensurdecê-los com notícias falsas ou manipuladas.

O conclave de Madrid, dos ditos patriotas europeus, do neoconservadorismo imposto como religião oficial do império, faz parte de uma história com final conhecido: um confronto violento, sem piedade. Já estamos a assistir aos seus mais recentes métodos na defesa de velhos princípios nas manifestações no genocídio de Gaza, com o negócio de terras e riquezas naturais que já é publicamente assumida ser uma das causas da guerra da Ucrânia, o desmantelamento dos serviços públicos nos Estados Unidos e do estado social na Europa.

Para estes velhos movimentos elitistas (há quem pretenda iludir as opiniões públicas designando-os por populistas) a promoção de guerras é a finalidade última das suas ações, o meio de conservarem o poder. Não por acaso, a NATO, que é a nata fardada destes movimentos, pretende impor o aumento das despesas em armamento à custa das despesas sociais. O “pensamento ocidental” foi capturado por esta ideologia, assumindo-a como parte de si e como única via para manter o statuo quo, optando pelo imobilismo. A União Europeia defende este tipo de poder e de mundo pese embora a embalagem de democracia e de respeito pela vontade dos europeus com que surge embrulhada da arena do parlamento europeu, ou na sede da Comissão. As crises do subprime de 2008, as decisões sobre Portugal e a Grécia com o envio de cobradores implacáveis, a crise do COVID revelaram a essência do poder da União, concentrado no sacrário do Banco Central Europeu. Perante a crise resultante da emergência de novos centros de poder, a União Europeia promove a concentração da riqueza e do domínio numa minoria e é essa comunhão de objetivos que leva os seus líderes a normalizar os movimentos nazis, num processo de inclusão que é visível desde logo na terminologia que lhes é aplicada e no tempo de antena que lhes é concedido. É essa comunhão que leva a União Europeia a apoiar regimes nazis como o Ucraniano e o de Israel, porque eles servem a finalidade de acusar quem se oponha de ser inimigo da “liberdade”.

Lutar contra os movimentos nazis, com qualquer rótulo que se apresentem, é uma questão de sobrevivência de uma sociedade tendencialmente justa e igualitária.

A normalização destas organizações nazis pelos grandes meios de comunicação de massas faz parte da estratégia de obter a predisposição das vítimas para serem dominadas. E existe uma vertigem das sociedades para seguirem estas falsas estrelas e correrem atrás dos seus tambores de guerra.

Os slogans MAGA, Make America Great Again, servilmente copiado pelos nazis reunidos em Madrid com a fórmula MEGA, são exemplos da falácia em que os seus promotores querem envolver os seus futuros servos. A grandeza da América e da Europa assentou na ocupação violenta de um território, no caso norte americano, e na exploração colonialista, no caso da Europa.

Os ressuscitados movimentos neonazis e neocons, os oligarcas que os promovem, estão a propor que os cidadãos norte americanos e europeus sejam os índios exterminados e os africanos explorados. É esta a nova ordem do mundo que propõem e que impõem através dos seus aparelhos de manipulação. Um naufrágio civilizacional.

Composição – Tema: A família (6.º Ano) – aluna: Diana

(Carlos Esperança, in Facebook, 10/01/2025, revisão da Estátua)

(O texto que segue é uma alegoria elucidativa de muitos dos lugares-comuns que povoam o quadro mental de muita gente anónima que apoia a extrema-direita em Portugal. Mas as Dianas e os seus pais, acreditem, existem mesmo por esse país fora. O autor – que conheço pessoalmente e cujas ideias se encontram nos antípodas das do pai da Diana – conseguiu retratar brilhantemente essa triste realidade. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 11/01/2025)


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A minha família é composta pelo meu pai, a minha mãe e eu. Quem manda é o meu pai que tem um táxi que não é dele. A minha mãe trabalha em casas de senhoras ricas.

O meu pai é quem fala lá em casa, e manda calar a minha mãe; diz que, quando há um galo, não cantam as galinhas. Ele veio de Coimbra aqui para a Musgueira e trata os clientes e pessoas importantes de quem gosta por doutores. Os clientes gostam – diz o meu pai –, e fala dos doutores, mas às mulheres chama-lhes gajas. Aos homens de que não gosta chama-lhes nomes que a minha mãe diz que não devo dizer nas aulas.

O meu pai diz todos os dias que os políticos são mentirosos e vivem à custa dele, que a política é uma coisa suja, mas quando a minha mãe lhe disse que ele só falava de política, deu-lhe logo uma bofetada e nunca mais foi contrariado.

O meu pai só gosta do Dr. André Ventura; gosta tanto que até diz que o André, só André, sem doutor, vai acabar com os políticos, os ciganos e as eleições. Há um estrangeiro de quem gosta muito, o Dr. Trump, e odeia outro que trata por um nome que não digo, Putin, e chama putinistas aos que não gostam do Dr. Zelenski.

Eu não percebo nada de política, mas oiço o meu pai. Ele agora também passou a gostar do Dr. Elon Musk, creio que é assim que se escreve, eu já o vi na televisão. Deixou de gostar do Dr. Marcelo e passou a chamá-lo só por “o Marcelo, aquele filho de Putin”, mas ao Putin chama-o também filho disso ou coisa parecida.

Não percebo o meu pai; ele diz que as mulheres não podem compreender, quanto mais as garotas. Diz à minha mãe para votar no Chega, e que os partidos deviam ser proibidos. Ele gosta muito do Dr. Mário Machado porque quer acabar com os pretos e os ciganos, e, por bem fazer, às vezes prendem-no. Os juízes ainda são piores do que os políticos.

O meu pai gosta muito do Dr. Trump porque quer expulsar os pretos; o meu pai também não gosta de pretos, e anda desorientado porque o Dr. Trump parece gostar do Putin. Se o Dr. Trump deixar de gostar do Dr. Zelenski o meu pai passa a gostar só do primeiro.

O meu pai anda muito contente porque o Dr. Trump vai ficar com o Canadá e o Canal do Panamá e, se não lhe venderem a Gronelândia, conquista-a. Não é como nós, que não defendemos o nosso Ultramar, infelizmente perdido, e o entregámos aos pretos e aos russos.

O meu pai não gosta da Rússia, diz que a Irmã Lúcia, que agora é santa, disse que todo o mal vem da Rússia e que foi a Senhora de Fátima que lho disse. Portanto, é verdade.

Agora o meu pai anda perdido com a Ucrânia, o Dr. Trump, o Dr. Zelensky, o Dr. Elon Musk e o Putin. Só fala do futuro presidente. Vai votar no Dr. Almirante e ele e o André vão tornar Portugal grande outra vez e acabar com políticos, ciganos, pretos e traidores.

Ele também gosta muito do Dr. Milhazes, do Dr. Rogeiro e do Dr. Botelho Moniz que odeiam o Putin, mas gosta de uma senhora, e é mulher, uma tal Diana Soller, talvez por ter o meu nome, mas como as mulheres não pensam, diz que é o marido que a ensina.

Na próxima composição, esta já vai longa, vou contar outras coisas do meu pai, e tenho de perguntar à minha mãe se as posso dizer aqui na escola da Musgueira.

Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira.