Amamos a Europa e no fim ganha a Alemanha

(Por Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 26/03/2019)

Ricardo Paes Mamede

António Costa anda à procura do tom certo para enfrentar as eleições europeias. Nuns dias jura amor à Europa. Noutros, denuncia a integração europeia como um campeonato em que todos jogam e no fim ganha a Alemanha.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Há duas formas de ler esta hesitação. Numa versão benigna, os socialistas portugueses reconhecem que o funcionamento da UE e da zona euro é hoje uma fonte de problemas para as democracias europeias, mas acreditam que é possível mudar as instituições no sentido desejado. A hesitação de António Costa também pode ser apenas um sintoma de desorientação, típico de quem não quer abandonar o sonho mas não consegue ignorar a realidade.

Poucas vezes um secretário-geral do PS foi tão explícito sobre a natureza da UE como Costa na entrevista que deu ao Público no passado fim-de-semana. O Primeiro-Ministro entende que a união monetária não esbate as assimetrias entre países, pelo contrário acentua-as. Que a Alemanha e outras economias centrais têm sido as ganhadoras deste processo. Que a liberdade de circulação de pessoas no seio do mercado comum tem um efeito centrípeto, atraindo os indivíduos mais qualificados para os países ricos, em detrimento das economias periféricas. Que o aumento de competitividade das economias centrais tem sido obtido à custa da perda de competitividade de países como Portugal. Que a UE tem favorecido o avanço dos populismos, ao não combater as desigualdades e ao adoptar processos institucionais que reduzem as escolhas democráticas.

A dureza destas críticas é notável, se tivermos em conta o euro-entusiasmo que sempre marcou as posições socialistas sobre a UE. Na verdade, António Costa deixa nesta entrevista uma crítica ao seu próprio campo político. Segundo afirma, a social-democracia europeia (onde se incluem os partidos socialistas e trabalhistas) ainda está a pagar o preço da ilusão que alimentou na década de noventa sobre as virtualidades da arquitectura institucional da UE.

Nesse período, quando se tomaram muitas das decisões mais relevantes sobre a união monetária, os partidos desta área política estavam em larga maioria no Conselho Europeu.

Apesar da dureza das críticas e da penitência pelas ilusões passadas, António Costa mantém-se firme na apologia dos “valores da Europa”, que considera serem a “essência da União Europeia”. Nesta entrevista não fica claro quais são esses valores, para além de uma defesa genérica da democracia liberal. De resto, o líder socialista deixa claras as dificuldades em obter consensos sobre outras matérias essenciais, como o desenvolvimento de um pilar social da União, a redução das desigualdades sociais e regionais, a política económica a seguir, e tantas outras questões decisivas. Também não ilude o predomínio das posições conservadoras nos órgãos de decisão da UE. Neste contexto, torna-se ainda mais difícil obter avanços relevantes que tornem a União Europeia num espaço de efectiva coesão económica e social.

Aparentemente, as dificuldades não reduzem o optimismo de Costa. O Primeiro-Ministro identifica vários sinais de esperança na evolução recente do processo de integração europeia. Diz que as imperfeições da zona euro e os custos que acarretam são hoje reconhecidos por países como a Alemanha e a Holanda. Que um novo espírito de diálogo permite agora falar abertamente da criação de um orçamento europeu ou da conclusão da União Bancária. Que a abertura à solução política em vigor em Portugal demonstra que há hoje maior aceitação de vias alternativas para a governação de cada país.

A tradução prática deste novo espírito de diálogo não é muito auspiciosa. Parece que a proposta de criação de um orçamento da zona euro, após vários anos de discussão, está em condições de avançar. No entanto, segundo o Primeiro-Ministro, o valor previsto para este orçamento é de 23 mil milhões de euros, um valor correspondente a 0,2% do PIB da zona euro, insuficiente para desempenhar funções de estabilização económica. De resto, também não se espera que o orçamento venha a desempenhar essas funções, que permitiriam minimizar os efeitos de choques económicos negativos em países específicos. O seu objectivo é financiar algumas reformas em cada Estado Membro que sejam reconhecidas pelos restantes países como necessárias ao bom funcionamento da UE. Logo veremos o que isto significa.

Convidado a identificar uma decisão concreta que traduza o novo espírito de diálogo, Costa refere a criação do “mecanismo europeu de emergência da protecção civil” como “um salto extraordinário”. Será com certeza uma evolução importante. Não é a resposta necessária à longa lista de problemas que afectam a arquitectura da zona euro.

É fácil perceber a tendência que os socialistas têm para enfatizar os pequenos avanços numa UE que continua a ser um instrumento de concentração de poder de alguns grupos e países. Depois de dedicarem grande parte do seu tempo, da sua energia e do seu capital político a tentar obter certos avanços, os socialistas sentem necessidade de valorizar perante si próprios e perante os outros os resultados obtidos. Muitas vezes têm razões para isso, já que as alterações que obtêm são arduamente conquistadas, implicando cedências relevantes na perspectiva dos líderes de outros países. Isso não significa porém que, em termos substantivos, tais avanços sejam impressionantes ou suficientes para dar resposta aos problemas da integração europeia.

Convenhamos, é muito difícil defender uma União assim. É politicamente arriscado querer ser “o partido que mais ama” uma instituição com estas características num dos países que mais tem sofrido as suas consequências. Nesse sentido, António Costa é corajoso. Se acredita realmente na possibilidade de introduzir mudanças substanciais na UE e na zona euro, é outra questão.

Economista e Professor do ISCTE-IUL

A economia portuguesa – a causa das coisas, debate e soluções – réplica

(Por Vítor Lima, 14/03/2019)

(N.E. – Este artigo surge em resposta ao artigo de Paulo Marques aqui publicado (ver aqui). 

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Certamente que Portugal tem algo para vender, como todos os locais do planeta. Mas tem um problema histórico – falta de empresários para um desenvolvimento capitalista. Salazar não passou de querer um país agrícola modernizado favorecendo o Duarte Ferreira e a CUF para que isso acontecesse, sem nunca se preocupar com a formação da plebe, largamente analfabeta. Caetano pensou num salto em frente com a metalurgia pesada, os petróleos e a química, mas a reabertura do Canal do Suez (1) fez falir o projeto. E daí que, no seguimento do 25 de Abril se tenha procedido à socialização dos prejuízos e empresas falidas com o nome nacionalizações; a que se seguiu a recapitalização do sobrante com dinheiro público, forte redução do peso dos salários logo em 1976.

Tudo isso com a unanimidade da classe política. Morando na Baixa lisboeta em 1975, recordo perfeitamente grupos e manifestações de TODOS os partidos glorificando as nacionalizações; uma época em que o CDS falava de criação de uma sociedade sem classes. Embora muito jovem mas já com formação na área da economia e com uma dura experiência política no lombo (dois anos de prisão pela PIDE) via naquilo algo de estranho

Os deficits elevados nunca mais pararam, apesar da ladainha das privatizações, dos altos níveis de carga fiscal (o IRS e o IVA – os impostos que mais doem na plebe – cresceram 44% desde 2010); da entrada do capital estrangeiro nos sectores que contam, a terminar na banca; da utilização do não cumprimento das obrigações fiscais e contributivas para se ser “competitivo” (o stock de dívidas das à Segurança Social é da ordem dos 12000 M… mais ou menos 12 meses de pensões!)… uma situação incompreensível para amigos alemães

Claro que não há nem haverá fecho ao exterior. Aliás, Portugal é essencialmente uma economia ibérica como se pode ver aqui:

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/06/centro-e-periferias-3-portugal-uma.html

https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/03/comercio-internacional-quem-ganha-e.htm

O Japão aproveitou a reconstrução política e material do pós –guerra, teve no MITI um centro de planeamento; aproveitou a proibição de gerar forças armadas; e desenvolveu tecnologias a partir da desenvolvida nos EUA. Uma lição que a China aproveitou e desenvolveu

A Coreia (do Sul, claro) baseou-se também na ocupação militar dos EUA, dos regimes ditatoriais e uma militarização e forte repressão do trabalho (física e salarial), orquestrada por uma relação íntima entre o Estado totalitário e os chaebol.

Na última das ligações acima referidas mostra-se implicitamente que a Commonwealth pesa pouco no comércio externo da GB, para a qual só o Canadá tem relevância cimeira. A cópia CPLP é apenas um powerpoint
Claro que são os Estados que criam a moeda (no caso da eurozona, com o aval do BCE). Quer nos EUA, quer na Europa criação de moeda vem servindo para alimentar os mercados financeiros e a especulação e pouco mais. Se a moeda servisse apenas as funções – transação e referencial dos preços, crescendo em função da massa dos negócios de base real nada de mal surgiria daí. Mas, são os bancos que criam massa monetária a seu gosto e, de modo incontrolado a partir das redes informáticas. Há um ano escrevi sobre isso:

https://grazia-tanta.blogspot.pt/2018/02/os-dez-anos-de-crise-ganhadores-e.html

Quanto ao plano política doméstico, só dá para rir. Uns partidos mais à direita outros menos; nenhum é de esquerda.
Houve durante a troika a ideia peregrina (à”esquerda”) de uma auditoria à dívida e que consistia em o governo Passos criar uma instituição para a fazer !!!

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/05/a-iac-mandou-toalha-ao-chao.html

Outra é a da sua reestruturação o que subentende que é legítimo a plebe pagar dívidas de capitais de que em nada beneficiou… admitindo que ela será pagável, ahahah. No meu blog há mais de uma dezena de textos sobre a dívida (pública, privada, à segurança social…)
– – – –

Quanto à União dos Povos, claro que é uma estratégia que colocará em causa o actual ordenamento político da Europa de onde está a surgir o empobrecimento, a irrelevância geopolítica que faz da Europa um atrelado dos EUA para comprar a cangalhada militar das Boeing e ter o continente semeado com instalações militares que só dividem a Europa sob o argumento do perigo russo.

O caminho actual significa uma área comercial atrelada à China pela Rota da Seda (se os EUA não a boicotarem); uma irrelevância demográfica e racista, suficientemente estúpida perante o crescimento demográfico da Ásia e da África
– – – –
Os Estados sempre serviram – essencialmente – para financiar e apoiar os capitalistas – diretamente sob fundos comunitários, subsídios, isenções, contratos, parcerias público-privadas e corrupção: entretanto vão mantendo escolas e universidades (caras e recheadas de tipos biscateiros da classe política), um SNS que mais parece um passador de dinheiro para os privados, um sistema de justiça caro, burocrático onde só se safa quem puder pagar a advogados (os capitalistas, claro), uma tropa que serve para as missões da NATO e que deveria ser extinta, com a inclusão numa proteção civil e numa guarda costeira… em vez de se atolarem em corrupção (Tancos, os 80 envolvidos num processo na FA, os submarinos…) para além das vítimas mortais de comandos psicopatas.

(1) N.E – Omisso no texto original mas penso ser o Canal de Suez que o autor quer referir.


A economia portuguesa – a causa das coisas, debate e soluções

(Paulo Marques, 13/03/2019)

(N.E. – Este artigo surge em resposta a um artigo de Vítor Lima aqui publicado (ver aqui). 


 

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Portugal tem, ou não tem, produtos que os consumidores estrangeiros querem consumir? Tem ou não tem recursos para o fazer? O que há de comum nas intervenções do FMI (incluindo a última) é a emissão de dívida e a dependência de moeda estrangeira (muito mais forte) que não se controla, assim não há país que resista.

Nem está em causa o “fechamento ao exterior”, seja lá o que isso for, certamente não seria o dia zero – as regras da WTO mantêm-se. Há que recordar o que já deixei aqui sobre a Ásia (agora parcialmente):

«The popular impression of Korea as a free-trade economy was created by its export success. But export success does not require free trade, as Japan and China have also shown. […], tariff protection and subsidies were not there to shield industries from international competition forever, but to give them the time to absorb new technologies and establish new organizational capabilities until they could compete in the world market.»

De resto, se a Commonwealth sobreviveu ao fim do comércio com o Reino Unido de um dia para o outro, nada impede que um governo preparado (tudo o que May não faz) seja bem sucedido, já que mesmo assim o pior impacto do Brexit apresentado pelo Remain… é muito abaixo dos 10 anos de austeridade. Os exportadores teriam que ser obrigados a pagar impostos como os restantes, acabando-se o casino especulativo da banca financeira e da fuga de capitais.

Quanto à economia, quem a financia é o estado, e não ao contrário. O estado cria dinheiro financiando a satisfação das suas necessidades e dá-lhes valor impondo obrigações fiscais. Com a visão neoliberal, nunca há dinheiro para nada a não ser subsídios ao capital, fazendo explodir as dívidas públicas e privadas. A catástrofe inflacionista é que nunca ninguém a vê, apesar de anunciada durante décadas – nem o zero visto no QE ensinou nada a ninguém.

Isso de o BCE apoiar o país, só se for para rir, já que nem metade daquilo para que está mandatado tenta cumprir (o pleno emprego), e o resto só quando não lhe desagrada o discurso.

Sai o Coelho, mas a TINA continua. Nem o PC, Amaral ou Louçã ouviram falar em MMT, já Mamede vai lá chegando, e ainda é novo. Haja esperança. Há, evidentemente, limites à capacidade dos Estados, mas não são, nem há dados que o sustentem, de criar moeda própria. É sim de recursos, e não é verdade que a desvalorização seja um poço sem fundo – continuamos a ter uma economia moderna com muito para vender e para comprar os recursos que não temos (petróleo).

Ainda agora vi o Sr. Marcelo a falar na roupa, nos sapatos, na cortiça, no vinho,… para pedir mais desvio de recursos do Estado (segundo as regras institucionais, das pessoas) para o capital – para isso há sempre dinheiro, como já disse.

Não é uma questão de deixarmos de ser pobres (mas ainda assim entre os mais ricos do mundo), é uma questão de saber se a possibilidade de uma classe média (cada vez com menos posses e mais dívidas) adquirir a última tecnologia vale o preço da nossa taxa de desemprego (“estrutural”, lol) e emprego precário (e cada vez mais à jorna), bem como tudo o que daí advém (incluindo a falta de habitações bem como a privatização da saúde e da segurança social).

Aliás, nem é essa a questão. Como se vê por todo o lado, o neoliberalismo tem os dias contados pela extrema-direita mercantilista, já que a esquerda nem vai a jogo – sim, o Ventura é uma anedota… hoje. Amanhã teremos a nossa Le Pen, depois de os outros países lá chegarem primeiro, como de costume.

(Já agora, há muitos produtos que têm custos diferentes consoante as capacidades dos compradores do país… o que não é possível em Portugal, pelo que pagamos muito acima de países com ordenados semelhantes – viva o mercado único).

«A União dos povos europeus é uma ideia de superação das pátrias, dos nacionalismos, do capitalismo, dos tentaculares e opressivos aparelhos de estado».

Isso é muito bonito, mas é impossível em termos de igualdade com os mesmos acordos para todos. Não existe, nem existirá tão cedo, um povo europeu que considere o seu vizinho como igual. A tentativa à força gera coisas como os PIGS e os preguiçosos do sul; isto quando não é mesmo para perseguir e matar. Terá que se destruir o que há para refazer grupos separados e cooperantes em diferentes matérias.

«… perante a AT e o aparelho de estado, soberanamente utilizado pela classe política, ninguém escapa à sua supervisão, eunucos políticos ou não.»

E ainda bem. Segundo a ortodoxia, é assim que se financia o estado (e, como se sabe, não há dinheiro), há é que controlar aquilo que a Holanda, Alemanha e Finlândia não querem que se controle. Se prefere que se continue a comprar políticos, governadores do banco central, jornalistas, reguladores e por aí adiante à porta fechada, olhe, eu não.

«Sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança.»

Um sonho de grilhões cada vez mais apertados não é um sonho.