(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 20/03/2020)
Pedro Santos Guerreiro
Não está nas primeiras páginas nem nas primeiras preocupações, mas este dinheiro todo tem de vir de algum lado. Lembra-se das dívidas soberanas? Dessa imensa abstração a que chamamos “os mercados”? Então lembre-se de outra coisa: é preciso salvar o euro. Outra vez. E isso já começou. Até porque desta vez não são só os “países periféricos”, são todos. Até porque desta vez inclui a Alemanha.
São tantos os anúncios de milhares de milhões daqui e dali que ninguém percebe nada — o desenho concreto torna-se pintura abstrata. Mas veja este número de ontem: 750 mil milhões de euros do BCE. Não pense em quantos aeroportos do Montijo daria para construir (daria para 580, mas também escusa de pensar no novo aeroporto, não vai acontecer agora), pense antes no que isso significa. Significa que as bazucas, os obuses e os canhões estão a sair do paiol não apenas para salvar a economia, mas para salvar o euro. Sim, esse mesmo, o tal que esteve por um fio até ao verão de 2012, durante as intervenções externas.
A crise de 2008 durou dois a três anos a chegar às dívidas soberanas, porque começou no sistema financeiro. Mas esta crise nasce na economia e é diferente, porque é simultaneamente de procura (compra-se menos, por quebra de rendimento e por medo) e de oferta (produz-se menos por paragem das fábricas, distribui-se menos porque as cadeias de abastecimento estão quebradas). Desta vez, o contágio não espera dois ou três anos, como em 2008: está a ser num ápice. Os mercados parecem loucos, os de ações, de obrigações, de matérias-primas e todos os seus derivados.
DE ONDE VEM O DINHEIRO?
De dívida, claro. Mas quem empresta?
Ninguém se atreve a fazer contas ou dizer as contas que faz, porque ninguém sabe quanto tempo durará e ninguém quer assustar outros com a sua própria escandalização. É como atirar uma pedra para um poço de que não se vê o fundo e ficar à espera de ouvi-la esmurrar a água. Mas as recessões mensais são uma escavação inédita. Mas as despesas do Estado com saúde, com segurança social e com a economia (incluindo a quebra de impostos e de contribuições) são uma gazua terra adentro.
É um exercício destravado sem fecho para balanço, com um jorro de défices mensais crescentes sobre um PIB minguante. Os défices de março e abril sobre o PIB hão de ficar para a História como o maior bungee jumping orçamental das nossas vidas. A corda é a dívida, que hoje nos salva e amanhã não nos pode enforcar. É por isso que as autoridades monetárias, europeias e governamentais, têm de perder hoje as regras de controlo sem perderem o controlo das regras. Amanhã pagaremos: a dívida de hoje são os impostos de amanhã. Estes são meses de mandar o défice à vida, mas não de rasgar as folhas seguintes do calendário.
Sim, mas quem empresta? Quem empresta ao Estado que “empresta” às empresas e às pessoas?
Os bancos centrais, que injetam liquidez direta e indiretamente — por exemplo comprando ativos e dando garantias de liquidez.
A União Europeia, que ou age em função do todo ou não é União Europeia. Não tanto através do seu próprio orçamento, que é relativamente pequeno, mas dando garantias e servindo de intermediário, o que implica criar finalmente instrumentos de dívida poderosos como os eurobonds, obrigações europeias para dar potência às impotências nacionais.
Os próprios mercados, pela deslocação das massas de dinheiro que estão a sair de títulos de risco como ações e procuram refúgios. Sim, há perdas gigantes, mas o dinheiro não desaparece todo, circula pelo mundo, quem vende ações investe noutros sítios, como obrigações do tesouro, ouro ou divisas, mesmo se sabemos que há sempre garimpagem por oportunidades de enriquecimento súbito que despontam em alturas de pânico.
SALVAR O EURO
Glossário: comprar ativos, comprar carteiras de crédito, é na prática emprestar dinheiro; flexibilização quantitativa é na prática emitir moeda (coisa que os bancos centrais nunca admitirão); emitir eurobonds é na prática mutualizar o risco, apondo o menor risco coletivo ao maior risco individual.
Os mercados estiveram quase “fechados”. Nos últimos dias houve crise de liquidez nas obrigações, depois das declarações desastrosas de Christine Lagarde, pelas quais pediu depois desculpa, que prejudicaram os países com mais risco, como Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Os juros das dívidas públicas começaram a subir e, sobretudo, a diferença entre os juros destes países e os da Alemanha (os “spreads” das dívidas) aumentaram muito.
As taxas continuam historicamente baixas, mas por exemplo o IGCP (que tem feito um excelente trabalho) quis colocar (pedir emprestado) 1,5 mil milhões de euros há dias e só conseguiu mil milhões. Não é preocupante, é um sinal. Se a zona euro não der cobertura por exemplo a Itália, o país entra em colapso financeiro.
Foi assim que surgiram os 750 mil milhões do BCE, que significam que o banco central quer “aguentar” o mercado, está disposto a comprar dívida para compensar a fuga ou paralisia de investidores. Assim, há uma compensação da quebra de procura, o preço não despenca e continua a haver financiamento. As medidas são extraordinárias, como devem ser: o BCE compra dívida pública (empresta a Estados) mas também de empresas (empresta-lhes dinheiro) e baixa as exigências de garantias colaterais aos bancos (empresta-lhes mais facilmente).
Estas medidas são boas, tanto que “os mercados” desataram a subir desde esta quinta-feira, mesmo se esta arritmia diária segue e continuará a seguir como carrinhos numa montanha russa. E significa que, financiados pelo banco central (na Europa como em todo o mundo ocidental), os Estados têm financiamento para o que precisam: as políticas orçamentais, através da baixa de impostos e do aumento dos seus gastos. E que os bancos não terão falta de liquidez nem serão obrigados a automaticamente aumentar o capital quando perderem ou suspenderem cobranças de créditos a clientes que não podem agora pagá-los.
O BCE já corrigiu o tiro. Falta ainda assumir dívida europeia. Virá o tempo de um “plano Marshall”. E, sobretudo, fazer com que os Estados da UE coordenem as políticas orçamentais e económicas, ou será cada um por si. Os défices de França, de Espanha, de Itália já dispararam, o da Alemanha também subirá. E sim, a Alemanha é uma peça-chave em tudo isto. Pela força económica e pela força política. E porque, como desta vez também a atinge com força, pode tomar decisões coletivas que antes rejeitou.
Estamos ainda no princípio, a pedra atirada ao poço está ainda longe de socar a água. Serão necessárias mais medidas e sobretudo mais coordenação. Se assim não for, podem voltar a mudar o nome à UE, não para voltar a CEE, mas para assumir ser apenas CE: uma Comissão Europeia, mas não uma União. Pior que um Brexit seria ruir por dentro. Seria a ruína.
União Europeia, precisamos de ser mesmo União Europeia. Europa, não precisamos de ti como se fosses outra que não nós. Precisamos que nós sejamos tu e que tu sejas nós.
Vejamos. A UE, como qualquer instituição capitalista é disfuncional, geradora de desigualdades, económicas e políticas. E o euro insere-se aí. Só que as desigualdades são dinâmicas espacialmente e, socialmente, em cada espaço.
Uma grande questão é que não há um pingo de esquerda na Europa, capaz de construir uma alternativa. Tempos atrás vi um texto dos trotskistas franceses com o apoio dos congéneres europeus (entre eles o conselheiro Louçã), muito ideológico mas desfasado da realidade. E aqui em Portugal, há anos que o PCP mingua em torno da sua fabulosa consigna do “política patriótica de esquerda”; enquanto a Catarina vasculha no vasto leque de disfunções vigentes para as apresentar no próximo telejornal. E o Costa passados 4 anos, naturalmente, dispensou-os, como previ em 2015, (Ver texto aqui)
Ora sem movimentação social não há alternativa viável. E qualquer alternativa menos má poderá ser um cenário deste tipo – União dos Povos da Europa ou o nacionalismo à solta. Sobre os contornos desse cenário, ver aqui.
Mas e então? Portugal, sem UE teria caído num regime “musculado”, sem dinheiro, sem capitalistas que se enxerguem, com baixos níveis educacionais e periférico. Foi o Fundo de Coesão (antes da adesão formal) que encheu de fôlego o cavaquismo, na sequência da enorme crise económica de 1983/85, durante a qual o povinho perdeu 15% do poder de compra.
Portugal, com ou sem UE, seria sempre – como é – um corredor atravessado pelas redes logísticas das multinacionais. Bem vemos o que aconteceu com os “nossos” banqueiros e os empresários de referência; recentemente vimos o Ludgero Marques (a que em tempos chamei Rei da Torneira quando ele animava aquela coisa da Concertação, como magno representante da indústria) vender a Cifial a chineses e o Quintas e Quintas faliu deixando na lista dos credores, os eternos sacrificados (Estado e Seg Social). Isso tem uma história que fica para depois; como pode ficar adiada a história das nacionalizações e da venda posterior, para safar os deficits públicos.
Sobre as nacionalizações este texto terá uns 10 anos.
As cabeças pensantes da lusa pátria pensaram que – à data da adesão – ficariam com a posição privilegiada de ser o país mais pobre e com os salários mais baixos da UE a 15. Azar! Caiu o Muro de Berlim e… a concorrência aumentou sobretudo de gente que aceita salários mais baixos (agora, em muitos casos, já são mais altos do que aqui) e com qualificações médias muito superiores.
Sobre os níveis educacionais pode ver-se a situação, num texto recente, aqui. e sobre os salários, aqui.
Agora umas notas sobre o euro. Suponhamos que vigorava por aqui o velho escudo.
Os valentes empresários, mormente os do import-export encheriam a pança com jogadas de subfacturação ou sobrefaturação, respetivamente na exportação e na importação; como é óbvio, e no exterior ninguém quereria negócios em escudos. O turismo, ah o turismo, seria porreiro amealhar fora dos circuitos moeda forte e depois negocia-la para animar compras em mercado negro, a quem não tivesse esse acesso facilitado. Como é habitual em países de moeda sem curso internacional, há um mercado paralelo em moeda forte.
A esmagadora maioria da população receberia os seus rendimentos em escudos e, para ter acesso a certas coisas negociaria com redes de contrabandistas. Uma outra questão interessante – Espanha o grande comprador e vendedor teria ainda euros ou voltava à peseta? E uma terceira, de impacto assombroso: como se pagaria a dívida? (aliás deixou de se falar de dívida pública embora cada português continue a pagar 800 euros/ano de juros).
Como os trabalhadores seriam pago em escudos, a desvalorização da moeda provocaria uma boa inflação; e daí protestos e repressão.
A UE e o euro não são flores que se cheirem mas o nacionalismo e uma moeda própria… A saída, só no âmbito de uma União dos Povos da Europa; mas pensar nisso exige pensamento estratégico, geograficamente abrangente e fora/contra as classes políticas europeias. O que, teoricamente, deveria estar facilitado pela ausência de uma esquerda na Europa; mas que não está, embora haja muito folclore e parvoíce nas sequelas da onda Greta.
Quanto ao projeto da UE, desvalorização interna, o euro e os novos Viriatos, pode ler aqui.
(Por Júlio Marques Mota, in A Viagem dos Argonautas, 25/04/2019)
Júlio Marques Mota
Sobre o 25 de Abril de 1974, o de portas mil que ao povo se abriram, já várias crónicas escrevi, sobre o de agora o meu protesto é lavrado através de uma outra pessoa, Thomas Fazi, e de um outro país, a Itália, uma vez que a descrição do autor sobre este país, com as devidas adaptações, se adaptaria à perfeição ao caso português. (Ver o texto de Fazi). https://aviagemdosargonautas.net/2019/04/25/a-crise-organica-de-italia-por-thomas-fazi/
Sobre a Itália e a Itália uma pequena síntese do que nos diz o
autor:
“O marxista italiano Antonio Gramsci cunhou o termo “crise orgânica” para
descrever uma crise que difere das crises financeiras, económicas ou políticas
“comuns”. Uma crise orgânica é uma “crise abrangente”, abrangendo a totalidade
de um sistema ou ordem que, por qualquer razão, deixou der ser capaz de
gerar consenso social (em termos materiais ou ideológicos). Tal crise põe a nu
contradições fundamentais no sistema que as classes dominantes não são capazes
de resolver. As crises orgânicas são ao mesmo tempo económicas, políticas,
sociais e ideológicas – em termos gramaticais, são crises de hegemonia – e
geralmente levam à rejeição de partidos políticos estabelecidos, políticas
económicas e sistemas de valores. No entanto, estas crises não levam necessariamente
ao colapso rápido da ordem dominante. Gramsci descreveu estas situações como
interregna em que “o velho está a morrer e o novo ainda não pode
nascer” e durante o qual pode aparecer “uma grande variedade de sintomas
mórbidos.
Gramsci estava a falar de Itália em 1910. Um século depois, o país
enfrenta outra crise orgânica. Mais especificamente, é uma crise do modelo
pós-Maastricht do capitalismo italiano, inaugurado no início da década de 1990.
Esse modelo, defendo, pode ser descrito como um tipo peculiar de capitalismo
comprador – um termo geralmente usado no contexto do antigo sistema colonial
para descrever um regime no qual as classes dominantes de um país se aliam a
interesses estrangeiros em troca de um papel subordinado dentro da hierarquia
dominante de poder. (…)
Como Fritz W. Scharpf, antigo director do Max Planck Institute for the
Study of Societies (MPIfG), muito bem explicou o regime do euro pode ser
entendido como um processo de “convergência estrutural forçada”,
destinado a impor o modelo económico do Norte da Europa, o de crescimento
sustentado pelas exportações e pela maximização do lucro (modelo
bem representado por países como a Alemanha e os Países Baixos), às muito
diferentes economias políticas dos países do Sul, como a Itália, que tendem a
ser muito mais orientadas pela procura interna e pelos salários. Scharpf
observa que “o impacto económico do atual regime do euro é fundamentalmente
assimétrico. Ele encaixa-se nas condições estruturais e nos interesses
económicos das economias do norte da Europa e entra em conflito com as
condições estruturais das economias políticas do sul, que assim são
condenadas a longos períodos de declínio económico, estagnação ou baixo
crescimento. (…)
Compromissos vinculativos da UE permitem que os
governos implementem reformas impopulares em casa, enquanto se empenham
em ‘transferir a culpa’ para a ‘UE’, mesmo que eles próprios tenham
desejado tais políticas” (sublinhado do autor).
Em lado nenhum isto é mais claro do que no caso
italiano. E isso provavelmente porque a economia mista da Itália do pós-guerra,
centrada no Estado, foi vista pelas elites dominantes do país como sendo
particularmente incompatível com o paradigma neoliberal que surgiu na década de
1980. A Itália era vista como tendo forte necessidade de “reformas” de
longo alcance, embora nenhum consenso popular apoiasse tais políticas. Assim,
Maastricht passou a ser visto por uma grande parte do establishment italiano como o meio pelo qual se
iria alcançar uma transformação radical – ou neoliberalização – da economia
política do país. Guido Carli, o ministro da Economia da Itália, altamente
influente de 1989 a 1992, não fez segredo disso. Nas suas memórias, Carli
escreveu:
“A União Europeia implica … o abandono da economia mista, o abandono do
planeamento económico, a redefinição das modalidades de composição da despesa
pública, a restrição dos poderes das assembleias parlamentares a favor do
governo. . o repúdio do conceito de disposições sociais livres (e a subsequente
reforma dos sistemas de saúde e de segurança social) . . . . a redução da
presença do Estado nos sistemas financeiros e industriais . . . o abandono dos
controlos de preços e das tarifas.”
É evidente que Carli entendia a União Europeia, antes de mais, como uma
forma de liderar nada mais nada menos do que a transformação total da
economia italiana – uma transformação que não teria sido possível, ou teria
sido extremamente difícil, sem as restrições externas autoimpostas
(condicionalidade externa ) criadas primeiro por Maastricht e depois pelo euro.
(…)
Capitalismo
Comprador na Itália
Do ponto de vista do establishment, o facto de a UEM implicar também a
desindustrialização e a “mezzogiornificação” do país – em benefício das
empresas alemãs e francesas, que adquiriram um grande número de empresas (ou
nelas adquiriram participações significativas) em Itália e noutros países
periféricos – e a sua despromoção para um papel subordinado dentro da
hierarquia de poder europeia, foi um pequeno preço a pagar pela vitória da
guerra contra o trabalho no país. Nesse sentido, o regime económico da
Itália pós-Maastricht pode ser comparado a uma forma de capitalismo comprador –
um regime semicolonial em que as classes dominantes do país estão
essencialmente aliadas a interesses estrangeiros em troca de relações de classe
internas mais favoráveis. Ironicamente, a esquerda pós-comunista desempenhou um
papel crucial na legitimação da narrativa da condicionalidade externa; no início
da década de 1990, a sua subordinação ideológica ao neoliberalismo era tão
profunda que os seus principais representantes tinham vindo a acreditar
que a União Europeia era realmente uma oportunidade a não perder para a
Itália se juntar finalmente à família dos países “modernos” e “virtuosos”. Não
é coincidência que o “tratamento de choque económico” da década de 1990
(particularmente o desmantelamento e a privatização da outrora vasta gama de
indústrias estatais da Itália) tenha sido promovida, em grande parte, pelos
governos de centro-esquerda.
Vemos a mesma lógica da restrição externa que está a ser aplicada
hoje. Está cada vez mais claro, por exemplo, que a chamada crise da dívida
soberana de 2010-11 não foi uma resposta “natural” dos mercados à dívida
pública “excessiva” da Itália, mas foi em grande parte “projetada” pelo Banco
Central Europeu (BCE) para forçar os países a implementar a austeridade. (…).
A crise da dívida, combinada com a reação tardia do BCE, levou os media
italianos a lançarem apelos apopléticos para se conter o défice através
de medidas de austeridade de emergência e a lançarem o governo
“tecnocrático” de Mario Monti. (…) Como diz um relatório recente do BCE,
“embora o euro seja uma moeda fiduciária, as autoridades orçamentais dos
Estados-Membros do euro renunciaram à possibilidade de emitir dívida que possa
ser passível de incumprimento “.
Isto dá um enorme poder ao BCE, não eleito e não
responsável, que pode (e usa) os seus poderes de emissão de moeda para impor as
suas próprias políticas a governos recalcitrantes (como fez na Grécia em 2015,
quando cortou a sua liquidez de emergência aos bancos gregos, a fim de pôr o
governo Syriza em extrema dificuldade e forçá-lo a aceitar o terceiro
memorando de resgate) ou mesmo para forçar os governos a resignarem , como fez
na Itália em 2011. Como o Financial Timesreconheceu
recentemente, o BCE efetivamente “forçou Silvio Berlusconi a deixar o cargo em
favor de Mario Monti, não eleito”, ao fazer da sua saída a condição
prévia para um maior apoio do BCE aos títulos e bancos italianos. (…)
Essa experiência foi um lembrete revelador para a classe política
italiana do pacto faustiano que tinham assinado ao aderirem à zona euro. Ao
renunciarem à soberania económica do seu país, fizeram também depender a sua
sobrevivência política da boa vontade de tecnocratas não eleitos. (…). Mas
agora que as contradições fundamentais do sistema europeu têm estado a vir à
tona, as elites políticas italianas viram-se sem as ferramentas
económicas necessárias para manter o consenso social. Como escreve Scharpf, em
países como a Itália, a união monetária não implicou simplesmente enormes
custos socioeconómicos, mas também teve “o efeito de destruir a legitimidade
democrática do governo”.
Um corolário desta perda de legitimidade democrática é que os apelos à
lógica do constrangimento externo já não têm o mesmo peso que costumavam ter.
Os cidadãos – não apenas na Itália – estão cada vez menos dispostos a
justificar o status quo com base em regras arbitrárias e punitivas e diktats
externos, cuja natureza política (ou seja, não neutra) se torna cada vez mais
evidente. (…)
À medida que cada vez mais pessoas começam a reconhecer a natureza
antidemocrática e neocolonial da União Europeia, estas táticas de medo deixam
de funcionar.“
Muito do que é dito neste texto de Fazi poderia ser visto através do caso
português. Deixemos o leitor encontrar essas relações com a leitura integral do
texto de Thomas Fazi.
O que nos cabe aqui lembrar é a posição de Centeno e de António Costa relativamente à Itália em que estes assumem que Portugal é um caso exemplar de que se podem respeitar as regras de Bruxelas e prosseguir uma política económica que nos permita sair da crise.
Como se alguma vez fosse possível ver que num quadro recessivo geral, uma economia como a nossa arrasada por uma austeridade selvagem aplicada intensamente durante 4 anos, imposta exatamente por Bruxelas e aplicada pelos seus leais servidores, em que a coluna da dignidade se vergava por completo aos interesses, à mentalidade e aos objetivos da Troika, potência ocupante, pudesse sair da crise através da aplicação de uma politica económica austeritária, recessiva e contracíclica como tem sido seguida por Portugal.
Aliás, num documento oficial , vai-se ao ponto de se defender uma política austeritária, recessiva e contracíclica porque estaríamos já a caminhar para os bons tempos e é nestes que se fazem poupanças, se corta na dívida. Ninguém viu até hoje um país a sair da crise neste quadro e com estas políticas. Seguramente não!
Descansemos. Vêem-no Centeno, António Costa , vêem os candidatos ao Parlamento Europeu que calcorrearão as estradas de Portugal a pregar louvores à Europa que nos massacra. Não o vêem os trabalhadores deste país, não o vêem os professores de todos os graus de ensino, não o vêm nem os utentes nem os profissionais do Serviço Nacional de Saúde e qualquer que seja a sua especialidade no campo da saúde, não o vêem os utilizadores e os profissionais dos serviços públicos de transportes, não o vêem os trabalhadores desprotegidos por um Código do Trabalho que os não protege, não o vêem todos aqueles que com formação superior lhes é oferecido trabalho precário e como tal remunerado, e podíamos continuar… Tanta gente que não vê o que a maioria dos nossos políticos dizem que vêem.
Mas os nossos políticos continuam a afirmar alto e bom som que continuam no bom caminho ao caminharem, num quadro recessivo geral na Europa e em particular em Portugal, a procurar alcançar um orçamento público equilibrado, onde objetivamente o Estado se anula como ator económico quando nem regulador quer ser. Desta filosofia politica central do défice zero na politica de Bruxelas, um excerto do programa de estabilidade do governo português é disso um bom exemplo:
“A necessidade de, nesta fase, manter saldos primários positivos resulta do modo como nos últimos 25 anos foram financiadas as despesas da Administração Pública em Portugal. Entre 1995 e 2015 (Gráfico II.1.4) quase 20% dessa despesa foi financiada com dívida, através da geração de um défice das Administrações Públicas médio de 5% do PIB em cada ano. Nesta legislatura esta percentagem reduziu-se para menos de 4% (Gráfico II.1.4). Sem o impacto das medidas temporárias registou-se em 2018 um excedente. A alteração no financiamento da despesa pública verificada ao longo desta legislatura consiste numa verdadeira alteração da pressão fiscal no futuro. A totalidade da despesa pública hoje é financiada com receitas do próprio ano. Isto libertou, apenas entre 2015 e 2018 cerca de 6.000 milhões de euros anuais de impostos no futuro. Esta é a diferença entre a pressão fiscal permanente em 2015 e 2018. Em apenas três anos devolveu-se às gerações futuras o equivalente a todo o orçamento da Educação em Portugal. A pressão fiscal permanente está no valor mais baixo desde que há dados comparáveis, ou seja, desde 1995. A fatia de impostos futuros que é gasta pelos contribuintes de hoje está no seu valor mais baixo, o peso dos impostos futuros encontra-se em mínimos históricos. Assim, as gerações futuras poderão gerir as suas decisões entre consumo presente e futuro com uma liberdade que os exercícios orçamentais atuais não permitem.( o itálico é nosso)“
PROGRAMA DE ESTABILIDADE, 2019-2023.
Tudo isto nos faz lembrar um
conto de Andersen As roupas novas do Imperador de que aqui
vos deixo um excerto :
“— Mas que roupas tão bonitas! —
exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é
um fato sumptuoso!
— O pálio sob o qual Vossa
Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre de
cerimónias.
— Já estou pronto! — afirmou o
imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!
E mais uma vez deu uma volta em
frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas.
Os camareiros que iriam segurar
na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e
depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que
alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.
E assim caminhou o imperador, em
procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à
janela exclamavam:
— Oh! Como são maravilhosas as
roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe
fica bem!
Ninguém queria que pensassem que
não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou
incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma
vez sido tão gabada como esta.
— Ah! O imperador vai nu! —
exclamou uma criança.
— É apenas a voz da inocência! —
desculpou-se o pai da criança.
Mas as pessoas começaram a passar
palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.
— O imperador vai nu! Aquela
criança ali afirma que o imperador vai nu!
Par fim, já todas as pessoas
gritavam:
— O imperador vai nu!
O imperador sentiu-se embaraçado,
pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:
— Tenho de manter-me firme até ao
fim da procissão.
E assim prosseguiu, ainda mais
emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não
existia.
Contos de Andersen, Porto, Ed.
AMBAR, 2002.
Há quem veja uma coisa e há os
que por interesse ou por medo veem uma outra coisa. A correspondência à
situação presente parece-nos, pois, imediata.
E com isto boa leitura do texto
de Fazi, uma boa comemoração do 25 de Abril de 1974 e um profundo
sentimento de revolta perante a situação de Portugal no Abril de agora, é
tudo o que vos desejo.