As consequências económicas globais do encerramento do Golfo Pérsico

(Larry C. Johnson, in A Viagem dos Argonautas, 23/03/2026)


Como é que a interrupção das exportações de petróleo, gás natural liquefeito e ureia vai ter efeitos em cascata pela economia mundial.


O Golfo Pérsico é a massa de água mais consequente da economia global. A sua saída estreita — o Estreito de Ormuz, com apenas 33 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito — funciona como uma válvula por onde flui uma quota extraordinária da energia e dos insumos agrícolas mundiais. Um encerramento prolongado dessa válvula pelo Irão desencadeará um choque económico com poucos precedentes históricos.

Analisemos as três categorias de mercadorias mais expostas a essa perturbação: petróleo bruto e produtos petrolíferos refinados, gás natural liquefeito (GNL) e ureia, o fertilizante nitrogenado do qual a agricultura moderna depende. Em conjunto, estes três fluxos sustentam não apenas os mercados energéticos, mas a segurança alimentar global, a produção industrial e a estabilidade orçamental de dezenas de nações.

Ler artigo completo aqui.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O grande circo geopolítico ou Trump e a arte da destruição criativa

(Luís Rocha, in Facebook, 20/03/2026, Revisão da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O ano de 2026 que, saudades, não nos vai deixar.

Um ano em que a geopolítica se tornou, finalmente, o espetáculo de revista de um império que sempre prometeu ser. E no centro do palco, com a sua cabeleira dourada e o seu ego Big Mack, quem mais senão o nosso querido Donald J. Trump. O homem que, com a subtileza de um javali numa loja da Vista Alegre, decidiu redefinir as relações internacionais como quem joga bingo. A diplomacia, é uma chatice. Os tratados, guardanapos de papel usados. A ONU, de certeza um clube literário para desocupados. O que importa é a força bruta, o grito mais alto e, claro, a vitória, mesmo que seja uma vitória pírrica sobre a decência.

Assistimos, com um misto de horror e fascínio mórbido, à sua cruzada contra o Irão. Uma nação que, por mais teocrática e repressiva que seja, ousou não se curvar. O que para Trump é um insulto pessoal, uma afronta ao seu estatuto de “melhor negociador de todos os tempos”. Os ataques coordenados, a retórica estridente, tudo aponta para um desmembramento que, se concretizado, abrirá as portas do inferno.

No entanto o Irão, na sua milenar sabedoria persa, parece conter em si a teimosia de uma mula e a resiliência de um camelo. E, ironicamente, essa teimosia pode ser a nossa última esperança contra a barbárie que se avizinha. Sim, a barbárie que usa gravatas até aos joelhos e tem acesso a códigos nucleares.

Depois de Teerão, quem se segue na lista de “maus” a serem disciplinados, será Cuba, claro. A ilha que, apesar de todos os embargos e sanções, insiste em não se tornar um resort de golfe. Trump, com a sua visão estratégica de jogador com dados viciados, já prometeu “fazer algo muito em breve” com Cuba. Talvez a transforme no 51º estado, ou a venda ao México para pagar o muro que nunca irá construir. As opções são infinitas quando se tem a imaginação de um megalómano e o poder de uma superpotência.

Venezuela, México, Canadá, até a Gronelândia, todos estão na mira do homem que não aceita um “não” como resposta à sua insanidade.

E a Espanha, que ousou criticar Israel e denunciar um genocídio? Essa pagará caro a sua insolência. A vingança, para Trump, é um prato que se serve gelado, de preferência, com umas tarifas estratosféricas e absurdamente infantis.

Aquele aglomerado de nações que, na sua riqueza e fragilidade, se tornou o alvo perfeito para o predador, chamado União Europeia, que não espere pela demora. Por mais que Ursula von der Leyen e a sua comitiva se desdobrem em salamaleques e bajulações, a verdade é que a Europa é vista como uma presa fácil. Rica, mas fraca. Próspera, mas desprotegida. Um convite irrecusável para uma “operação de desmantelamento concertada”. Para quê a solidariedade e a cooperação quando se pode ter tudo à força.

 A Europa, na sua eterna ingenuidade, ainda acredita no diálogo e no bom senso. Trump, por outro lado, acredita na cultura da marreta. E a marreta, é a sua política externa demolidora.

No fim, o que nos resta é a esperança de que o Irão resista. Que o regime dos ayatollah, na sua peculiar forma de resistência, consiga atrasar o inevitável. E, confesso que nunca na vida julguei vir a escrever estas palavras. Porque se o império do capricho triunfar sem oposição, se a força bruta se tornar a única lei, então o mundo será um lugar muito menos interessante. E muito mais perigoso.

Preparem-se, pois, para a próxima temporada do Grande Circo Geopolítico. Os bilhetes já estão esgotados, e o espetáculo promete ser… Explosivo. Mas não se sentem muito à frente pois pode haver radiação…

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://relacoesexteriores.com.br/ataques-dos-eua-ao-ira…

https://www.aljazeera.com/…/well-be-doing-something…

https://au.finance.yahoo.com/…/spain-nchez-says-trump…

https://moderndiplomacy.eu/…/europe-draws-a-line-on…

https://energymixweekender.substack.com/…/winners-and…

A guerra que já estava perdida antes de começar

(Luís Rocha, in Facebook, 18/03/2026, Revisão da Estátua)

This is what the “America first” looks like 🙂

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há guerras que começam com mísseis, outras com discursos patrióticos ou nacionalistas, e depois há aquelas que começam com um homem a olhar para o espelho e a ver um génio estratégico onde, na realidade, está apenas um vendedor de carros usados com acesso a um botão perigosamente nuclear. Esta pertence, sem margem para dúvida, à última categoria.

Durante anos, andaram a provocar o Irão como quem atira amendoins a um tigre enjaulado, convencidos de que a jaula era eterna, inquebrável e, sobretudo, americana. Sanções aqui, assassinatos ali, ameaças embrulhadas em conferências de imprensa com bandeirinhas atrás. Tudo muito civilizado, muito democrático, muito “ordem internacional baseada em regras”, regras essas que curiosamente mudam sempre que Washington muda de humor. Ou de parvo na Casa Branca.

E depois há o outro artista desta opereta. Benjamin Netanyahu, ou, para os amigos, Bibi, o homem que olha para o Médio Oriente e vê um tabuleiro de Risco onde todas as peças lhe pertencem por direito divino, histórico, bíblico e, já agora, também imobiliário. A sua visão é tão simples, que é quase básica. Expandir, esmagar, controlar, e chamar a isso segurança.

Uma espécie de colonização com drones, muito moderna, muito higiénica, muito televisionável.

E como qualquer bom espectáculo de variedades precisa de um ajudante, entra em cena Donald Trump, o equivalente geopolítico de um caniche obediente com acesso a um arsenal industrial militar. Um tipo que confunde diplomacia com chantagem de casino mafioso e estratégia com birra de reunião de condomínio.

E a relação entre ambos verifica-se apaixonante. Bibi aponta, Trump ladra. Bibi pressiona, Trump assina. Bibi acena com a ameaça iraniana, e Trump, de coleira bem ajustada, decide que a melhor forma de mostrar força é fazer exactamente o que lhe pedem. Uma demonstração impressionante de soberania de bordel. Alugada.

E assim se constrói uma guerra idiota.

Mas o mais fascinante, verdadeiramente fascinante, é a surpresa. Aquela expressão quase infantil de espanto quando o Irão responde. Como se fosse impensável que um país com décadas de resistência, com uma estrutura militar assimétrica sofisticada e com uma paciência quase civilizacional decidisse, finalmente, devolver o golpe.

“Mas como?!” perguntam eles.

Como? Talvez porque passaram anos a tratá-lo como um alvo e nunca como um actor de cultura milenar e com uma taxa de literacia de 94%. Mau regime, mas muita cultura e inteligência. Coisa pouca.

Entretanto, o Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa grande parte do sangue energético do planeta, transforma-se num aperto de garganta global. E aí, subitamente, a guerra deixa de ser um vídeo de propaganda e passa a ser um problema sério. Daqueles que fazem tremer bolsas, governos e certezas.

Mas há um detalhe ainda mais triste nesta tragédia. O império que se julgava omnisciente começa a revelar não fraqueza material, mas algo mais perigoso, uma espécie de alucinação patriótica.

Enquanto se entretém a bombardear desertos e a distribuir democracia com mísseis, os Estados Unidos MAGA vivem mergulhados numa narrativa quase mística onde continuam a ser o centro do mundo, o árbitro da história, o adulto na sala, mesmo quando ninguém lhes pediu para organizar a festa.

Uma nação ideológica convencida de que manda no mundo por decreto divino, enquanto o resto do planeta começa, discretamente, a ignorar as ordens.

Não por rebeldia ideológica, mas por simples e clara exaustão.

E aqui está o verdadeiro ponto que vai doer. Esta guerra não está a ser perdida no campo de batalha.

Está a ser perdida na incapacidade de compreender o adversário. Na arrogância de achar que superioridade tecnológica resolve tudo. Na ilusão de que poder militar substitui inteligência estratégica.

Donald Trump, no meio disto tudo, continua obviamente fiel a si próprio. Burro que nem uma maçaneta. A tomar decisões como quem escolhe ingredientes numa pizza, a reagir em vez de pensar, a confundir ruído com força. Um homem que transformou a política externa numa extensão do seu ego e que agora descobre, tarde demais, que o mundo real não assina acordos de guerras parvas.

Já o Bibi segue firme, consistente na sua visão colonizadora que avança, envolta na narrativa da segurança. Obstinado mas desaparecido das conferências de imprensa.

Fazendo prova de vida através de clipes gerados por IA.

Fazendo supor que possa realmente ter sido “escolhido” para estar junto do criador.

No fim, quando o pó assentar, se assentar tão cedo ou se alguma vez assentar, não será a vitória que ficará na memória.

Será a estupidez.

Aquela estupidez persistente, arrogante, quase artística, de acreditar que se pode incendiar uma região inteira e sair de lá com as mãos limpas e a reputação intacta.

E talvez, só talvez, alguém pergunte, com um ligeiro atraso histórico, se o verdadeiro problema seria realmente o Irão.

Ou se seria a convicção delirante de que o mundo inteiro existe para ser gerido por um homem superlativamente patético ao serviço de outro com inclinações genocidas e delírios de superioridade religiosa.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-24316661

https://www.reuters.com/world/middle-east

https://www.theguardian.com/world/iran

https://www.aljazeera.com/middle-east

https://www.cfr.org/backgrounder/what-strait-hormuz

https://www.brookings.edu/topic/middle-east

https://www.csis.org/regions/middle-east