Quem se chega à frente?

(In Blog O Jumento, 03/10/2017)
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Há duas possibilidades para Passos Coelho ser arredado da liderança do PSD, ou o próprio se demite ou outros se candidatam ao cargo. Se Passos Coelho se demitir da liderança do PSD alguém terá de se candidatar, nem que seja o Zeca Mendonça das caneladas. Uma coisa é certa, sem perspetivas de virem a ganhar as legislativas ninguém no seu pleno juízo apresentará uma candidatura à liderança do PSD.
Alguém está a ver o Morais Sarmento deixar as dezenas de milhares de euros que ganha como advogado para ser líder do PSD onde ganha uns trocos, trabalha 15 horas por dia, sem direito a fins de semana e a férias? Alguém consegue ver o Santana Lopes deixar as mordomias da Santa Casa para se espetar outra vez na liderança do PSD?
É este o drama do PSD, ninguém credível aceita fazer um sacrifício quando tudo aponta para uma vitória do PS nas próximas legislativas. O último que teve a coragem de o fazer e aceitou liderar um PSD falido foi Marcelo rebelo de Sousa e todos sabemos o que aconteceu. Durão Barroso poupou-se e quando viu que podia ganhar as eleições rasteirou Marcelo.
Todos exigem que Passos se demita, mas a verdade é que mitos dos que fazem essa exigência estão desejando que tal não venha a suceder. A última coisa que Rui Rio quer neste momento é ser líder do PSD, é por isso que anda no jogo do toca e foge desde há muito tempo. Prefere ser a alternativa sem ter de dar a cara.
Se Passos não se demitir vai ganhar o próximo congresso com uma maioria digna da Coreia do Norte e os ex-líderes e putativos candidatos irão lá fazer o discurso da praxe, nenhum deles quererá ficar com a nódoa de não ter estado ao lado do partido, como se viu nestas eleições.

A não ser personalidades de pouco peso, ninguém tem pressa de assumir a liderança do PSD, fazem pressão com jantares em Azeitão (a versão da Mealhada do PSD) mas a verdade é que Rui Rio não dá a cara, há quase dois anos que anda por aí a brincar ao gato e ao rato, revelando falta de coragem para enfrentar Passos Coelho.

Todos dizem que querem que Passos saia, mas na verdade consideram cedo para exigir a sua saída. Preferem que seja o atual líder a aguentar o partido até que surjam sondagens oportunistas que digam  que com Rui Rio o PSD ganha e que com Passos o PSD perde. Nessa altura todos fugirão de Passos Coelho como se tivesse peçonha e até o pessoal do Observador descobre as qualidades de Rui Rio. O próximo líder começa da pior forma, aclamado por um bando de ratazanas em fuga.

O diabo chegou e vai levar Passos Coelho

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/10/2017)

Daniel

Daniel Oliveira

Não preciso de entrar em muitos pormenores. O PS ganhou câmaras, manteve todas as que eram importantes e reforçou maiorias. Subiu em votos, em mandatos, em tudo. Em qualquer critério que se queira utilizar é o grande vencedor da noite de ontem. Muito acima das melhores expectativas.

Em Lisboa e Porto, a vitória foi da continuidade. Rui Moreira conquistou a maioria absoluta. Com ela veio um discurso lamentável, que faz temer o pior para os próximos quatro anos. Fernando Medina venceu, apesar de ter caído em relação a Costa. Perdeu a maioria e precisa dos vereadores do PCP ou do vereador do BE para governar. Ainda assim, o PS tem todas as razões para sorrir nestas eleições. Mesmo no Porto, onde Manuel Pizarro perdeu, consegue, num contexto de reforço de Moreira, subir o seu resultado, muito provavelmente à custa da catástrofe eleitoral do PSD.

Mas estas eleições eram, acima de tudo, importantes para o PSD. Porque no Porto e em Lisboa a liderança do partido teve um papel fundamental. Teresa Leal Coelho e Álvaro Almeida foram escolhas de Pedro Passos Coelho. Escolhas de última linha que retratam, em concelhos onde a vitória era muito difícil, o isolamento do líder do PSD. Ninguém precisa de mostrar serviço a um líder que não se acredita ter grande futuro. E é isso que estas escolhas e os seus resultados disseram de Passos Coelho.

Sejamos justos: os resultados inacreditáveis de Teresa Leal Coelho e de Álvaro Almeida não são a medida da popularidade de Passos Coelho. As pessoas votaram mesmo nos candidatos e fizeram um julgamento dos atuais presidentes de câmara. Mas estes resultados dizem qualquer coisa sobre os candidatos que Passos conseguiu que dessem a cara pelo partido. Ninguém duvida que Santana Lopes, mesmo perdendo, teria muito mais votos na capital. Só que ninguém sente o dever de se sacrificar por um líder que é um fantasma político.

À evidente displicência com que Passos Coelho tratou as eleições autárquicas, talvez por estar convencido que o Governo cairia antes delas, juntaram-se condições nacionais muito adversas. A maioria do país está satisfeita com a situação económica, social e política e isso não facilita a vida de nenhum líder da oposição. Muito menos a de alguém que liderou um governo que, justa ou injustamente, as pessoas associam a um período negro. Muito menos a de alguém que tem como único discurso o anúncio da desgraça iminente.

A situação do PSD já seria trágica com os resultados em Lisboa e no Porto. Mas a cereja em cima do bolo estava guardada e anunciada: Assunção Cristas ficou muito à frente da candidata de Passos, atirando-a para a terceira força da capital. O resultado de Cristas reforça a sua liderança, abrindo finalmente o período pós-Portas, e dá um novo papel ao CDS na oposição. E isto é um problema para a direita: uma direita com um PSD muito fragilizado e um CDS a ser o protagonista de um filme que nunca acabará com a sua própria vitória não é um perigo para António Costa.

Depois de resultados nacionais péssimos e de ver as suas escolhas para Lisboa e Porto atiradas para terceiro lugar e, no caso da capital, para níveis semelhantes aos da CDU, qualquer líder normal do PSD seria obrigado a demitir-se imediatamente. Até Passos Coelho, que por se julgar portador de um desígnio histórico não é um líder normal, sabe que dificilmente ganharia o partido para um novo mandato. Mesmo assim, a sua reação é manter-se até ao próximo congresso, daqui a sete longos e penosos meses. Aí, deu a entender, não se recandidatará.

Adiando as suas próprias exéquias, Passos deixa o PSD sem liderança durante mais de meio ano. Enquanto ele coze em lume brando, o PSD coze com ele. A geringonça tem um ano para se organizar. Um ano perigoso, em que não existe a pressão da direita e o PCP está numa situação muito desconfortável. Mas isso fica para outro texto.

Os marujos de Cristas

(Por Soares Novais, in A Viagem dos Argonautas, 02/10/2017)

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Tal qual o previsto a Assunção comeu a coelhinha de cebolada. Sim, a Teresa. Aquela que aceitou ser leal ao Coelho e andou por Lisboa travestida de candidata. Não espanta: Assunção tem lábia e herdou do paizinho Portas o seu jeito para vender banha da cobra.

Assunção fez uma campanha ruidosa. Tal qual o povo gosta. Prometeu o céu e a terra; deu beijinhos e abracinhos; lapiseiras e papelinhos. Sempre de tacha arreganhada. Não fosse ela a versão feminina do Paulinho das Feiras – antes, claro está, de Portas cair nos braços do comendador da Mota-Engil e de ser afagado no longínquo México, entre uma e outra lição sobre petróleo e gás natural.

Ao invés, a coelhinha mais parecia a madre Teresa a peregrinar pela cidade de Ulisses. Abandonada pelo “aparelho” e entregue à sua sorte. Mesmo que tenha anunciado um alegado apoio de Marcelo, logo desmentido por comunicado presidencial; e de por uma vez ter contado com a companhia do pequenote de Fafe em Lisboa – não confundir com o morgado, de Camilo sff – e do Santana da “Misericórdia”, que sabiamente não aceitou trocar o seu chorudo salário por nova candidatura à capital.

Danada para a bricadeira, a Assunção do Caldas encerrou a campanha com uma ideia genial, anunciada a bordo de um barco no Tejo:

“Importa juntar empresas e investigação numa ‘cidade do mar’, num município liderante na estratégia azul, com o desporto escolar a dar carta de marinheiro no 12º ano para formar a geração oceânica.”

Para muitos tal “é uma ideia parva”. Não concordo. Para mim, tão genial ideia é, isso sim, uma cunha do paizinho Portas. Explico: entre os afazeres na Mota-Engil e um mergulho nas calientes águas de Cancun, Portas arranjou tempo para tomar uma “bica” e meter-lhe a dita.

Percebo-o: a futura “geração oceânica”  garantirá os marujos capazes de fazer zarpar os submarinos que ele comprou com o nosso dinheirinho. Mais vale tarde do que nunca.