A ponderação da evolução política alemã, não dispensa a análise das presenças de Sahra Wagenknecht e Alice Weidel.
A primeira, oferece um percurso consistente desde a sua militância comunista na Alemanha Oriental, tendo seguido todas as transformações do partido, até à rutura, consumada com a fundação do seu próprio partido, agora com a singularidade de trazer o seu nome.
Admiro-lhe a beleza, a elegância, a discrição e a consistência intelectual. Com o doutoramento em Ciências Políticas (o doutoramento na Alemanha não é raro desde Lutero) ela vem formular posições de austeridade severa relativamente à guerra da Ucrânia, aos refugiados e aos imigrantes. Tolera mal os desafios políticos e sociais do Islão dentro das fronteiras, sustentados em minorias de imigrantes. E defende a retoma das relações económicas com a Rússia, como qualquer pessoa sensata. Bate-se pela uniformização das retribuições mínimas do trabalho na União Europeia com um salário mínimo comum a toda a União de 14 euros por hora.
Isto, evidentemente e entre nós, deixará sem um pingo de sangue os homens da CIP e da CAP. Ora, organizem-se por modo a encontrar soluções de rentabilidade além do trabalho que ultrapassa a escravatura em violência e desprezo, designado pelo eufemismo de “mão de obra barata”, quer dizer, gente que trabalha e não tem dinheiro para se alojar com decência, para se alimentar normalmente e para sustentar os filhos. Nem na escravatura estavam em causa o alojamento, a comida e o vestuário. (Escravo era património que não devia desvalorizar-se). Sahra Wagenknecht tem razão. Estas situações são a negação do projeto europeu e a confissão da sua hipocrisia e do seu fiasco. Salário mínimo de 14 euros por hora, em todo o território da União. Como recusar?
Deve-se-lhe, portanto, a salvação da esquerda. Os sistemas políticos europeus não podem passar sem uma esquerda vigorosa e consistente, lavada das ficções da “terceira via”. A “terceira via” vai remetida a lugar onde melhor caiba. E tenho uma ideia de qual seja, mas não digo.
Recordo Sahra Wagenknecht a deixar constrangida outra antiga militante comunista da Alemanha Oriental, a quem desancava frequentemente com oratória parlamentar certeira e sulfurosa -Ângela Merkel.
No outro lado do leque político, Alice Weidel da AfD é outra figura interessante, por motivos diversos. Fez doutoramento em Economia e pretende também a recuperação dos fornecimentos russos de energia, como o pretenderá quem quer que não seja lunático.
Também mantém uma perspetiva severíssima relativamente à imigração e é alérgica aos imigrantes islâmicos de quem recorda que a inibiam na adolescência, pelo insulto soez, nas piscinas públicas. Quer aquela corja dali para fora e pode bem dar-se o caso de não ser meiga, se atingir a possibilidade de o decidir. A guerra na Ucrânia é para acabar e já, devendo cessar imediatamente as subvenções alemãs à clique de Kiev. Evidentemente. Há mais que fazer ao dinheiro, cada vez mais escasso.
No plano pessoal, o conservadorismo é de novo tipo. É mãe de dois filhos. E lésbica, vivendo com uma produtora de cinema com ascendência no Ceilão. As posições quanto aos imigrantes não têm portanto substracto racista. É inútil tentarem esse enquadramento.
Ainda no plano pessoal, amadureceu profissionalmente na Goldman Sachs. Isso, evidentemente, não tranquiliza ninguém, sabendo como sabemos que aquilo visa infiltrar os centros de decisão europeus. O apoio de Musk também inquieta (como não?) mas tranquiliza, por outro lado. É mais difícil, agora, manterem-se as fantasias que vão da dissolução da AfD até quaisquer batotas, avulsas ou sistemáticas, no registo e contagem de votos.
Não, os 20% de Weidel nas intenções de voto, erguem-se como uma ameaça letal ao SPD e ao CSU/CDU para quem a morte política não é imerecida.
A China não antipatizará com ela, embora a olhe em silêncio. Será dos raros dirigentes políticos europeus a falar mandarim e viveu na China – não sendo possível viver na China, sem nutrir a maior admiração por aquela terra, pela delicadeza quotidiana daquela gente e pelos níveis assombrosos de desenvolvimento atingidos.
A impostura dos “partidos cristãos” vai pois perder radicalmente a relevância até agora mantida. É uma bênção de Deus. Não há dúvida.
Mas ao lado, há as cedências parvas às conveniências de momento, onde Weidel corre riscos de perder mais do que ganha: dizer que Hitler era comunista é completa idiotice. Completamente escusada. O disparate talvez tenha a utilidade de reforçar Sahra Wagenknecht, a quem não podem imputar-se tolices.
Estas duas senhoras são já e serão por algum tempo figuras de peso notório na vida política alemã. Tal traduz já um primeiro objetivo de importância fundamental: outra esquerda e outra direita. E isso é, em si mesmo, um êxito e um alívio.
Quase 100 pessoas morreram em protestos incentivados pelo líder da extrema-direita moçambicana e ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, que se recusa a admitir a derrota nas eleições de 9 de outubro. Nos mais de quarenta dias de protesto já foram registradas mais de três mil prisões. Durante a tensa contagem de votos, que levou duas semanas para ser concluída, foram assassinados a tiros no meio da rua de duas figuras-chave ligadas ao Podemos, o principal partido da oposição.
Assim que os resultados foram conhecidos, o PODEMOS (Partido Otimista pelo Desenvolvimento de Moçambique), partido de Mondlane, que mal obteve vinte por cento dos votos, saiu às ruas de Maputo, capital do país, e de outras cidades. Desde então, tudo está paralisado.
Mondlane é empresário, banqueiro e pastor. Ele se apresentou como independente, apesar de pertencer à histórica oposição RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), uma organização de extrema-direita armada pela, na época, racista África do Sul e pelos Estados Unidos para lutar contra a FRELIMO durante a guerra civil de libertação.
O movimento da oposição de extrema-direita teve apoio de fortes panelaços dos bairros mais ricos da capital. Os protestos tornaram-se uma ocorrência diária, enquanto a repressão policial se torna mais forte chegando a usar munição letal e agredir os manifestantes. Mondlane, recentemente conclamou os seus seguidores para que continuassem os protestos por mais dois ou três meses.
Entretanto, o atual Presidente Filipe Nyusi, da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), e o candidato vencedor Daniel Chapo, por mais de setenta por cento dos votos, tentaram restabelecer a ordem no país. No dia 4 de dezembro, a oposição voltou a fazer uma nova semana contínua de protestos, enquanto o Governo alertou os cidadãos dos perigos que estão expostos se continuarem com a onda de violência. Na cidade de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, também conhecido como Cabo Esquecido, a mil e setecentos quilômetros de Maputo, os manifestantes bloquearam ruas, incendiaram pneus e ergueram cercas para dificultar a chegada da polícia. Cenas semelhantes foram vistas em outras cidades, mas em Pemba os manifestantes foram particularmente violentos. Isso levantou suspeitas de que eles poderiam ser militantes da Ahlu Sunnah Wa-Jamaa (Seguidores do Caminho Tradicional ou Defensores da Tradição), o Daesh (Estado Islâmico) khatiba que opera em Cabo Delgado desde 2017, tendo feito desta província a principal frente de suas operações, gerando milhares de mortes, o cerco de pequenas cidades, sequestros, assassinatos rituais (decapitações), saques, ataques contra igrejas e até mesquitas.
Outro acontecimento que ficou oculto por trás do processo controverso da eleição moçambicana foi a morte a 2 de novembro, em aparente acidente de carro, de Bernardo Constantino Lidimba, chefe do Serviço Estatal de Informação e Segurança (SISE). Isso aconteceu no departamento de Mapai, na província de Gaza, a quase 400 quilômetros de Maputo e a menos de 100 quilômetros da fronteira com o Zimbábue, quando o país estava, e ainda está, à beira da explosão. O SISE conta com uma equipe de cerca de 20.000 agentes, muito superior ao próprio exército, com cerca de 12.500 soldados.
Algumas versões indicam que Lidimba estava viajando para se encontrar com seu homólogo do Zimbábue, o chefe da Organização Central de Isaac Moyo, com quem estava planejando um golpe contra o enfraquecido presidente Nyusi. O Ministério da Defesa de Moçambique informou sobre uma tentativa de golpe de Estado organizada por fatores internos e também externos, de modo que um plano de contingência foi executado.
Os antecedentes históricos
Em abril de 2021, terroristas ocuparam a cidade de Palma, uma das mais importantes da província, com mais de sessenta mil habitantes, e Mocímboa da Praia, com pouco mais de trinta mil, o que forçou as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) a levar semanas para expulsar os mujahideen daquelas cidades e proteger as áreas circundantes. A tomada da cidade de Palma obrigou o governo do Presidente Nyusy a concentrar todas as suas forças para neutralizar os fundamentalistas, para o qual ele pediu a assistência dos governos de Ruanda e Zimbábue, além de contratar os serviços da empresa de segurança (mercenários) Dyck Advisory Group da África do Sul e do Grupo Wagner, agora conhecido como Africa Corps. Embora não tenham conseguido derrotá-los, forçaram os mujahideen a diminuir a intensidade de seus ataques.
Desde então, o grupo matou quase 5.000 pessoas, gerando mais de um milhão de pessoas deslocadas. A presença deste grupo terrorista em Cabo Delgado tem resultado na interrupção forçada das operações de várias empresas internacionais de gás que operam na costa da província. A atuação dos terroristas tem impedido a construção de uma megausina da Total Energies francesa na península de Afungi. Dificulta também a operação de um segundo campo de gás pela ExxonMobil, que será o maior investimento privado da história do continente a um custo total de cinquenta bilhões de dólares.
Em Moçambique, a exploração de gás natural, o seu recurso mais importante, é realizada principalmente por grandes empresas norte-americanas e europeias. As principais concessões de gás estão na Bacia do Rovuma, onde foram descobertas mais de 180 trilhões de pés cúbicos de reservas. Nesta área, a empresa francesa Total Energies, Eni da Itália e ExxonMobil dos EUA são as principais exploradoras, com o apoio financeiro do Eximbank e da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos. Estes compromissos financeiros representam um dos maiores investimentos do governo dos EUA no continente africano.
Apesar de sua riqueza em recursos naturais de alto valor, como gás natural, grafite, titânio e diamantes, Moçambique ocupa atualmente a 183ª posição de 193 países no Índice de Desenvolvimento Humano. A desigualdade e a pobreza estão entre as mais altas em nível global, com quase metade de seus 33 milhões de habitantes vivendo abaixo da linha da pobreza. Este é o resultado, que não pode ser contestado por ninguém, de anos de exploração pelo imperialismo das riquezas naturais do país que nada melhorou a vida da população.
(Hugo Dionísio, in Estátua de Sal, 05/11/2024, revisão da Estátua)
(Este texto resulta de um comentário a um artigo de Alexandre Dugin que publicámos sobre o Estado Profundo (ver aqui).
Pela sua atualidade – vide as eleiçoes americanas a decorrer -, e pela profundidade da análise – em algum contraponto contraditório com o autor -, resolvi dar-lhe destaque.
Não estando de acordo com toda a análise, não posso deixar de ver nela algum sentido e atualidade. Acusações de “irregularidades”, sempre que as eleições não dão para o lado pretendido pelos EUA, são já uma prática normal.
A assunção de que o Ocidente é “liberal” e vive na “ordem baseada em regras” que ninguém sabe quais são, mas sabemos todos quem as faz, também constitui, hoje, uma realidade evidente.
Um estado que assuma, desde logo, frontal e abertamente, a sua ideologia de classe e estabeleça as formas governativas que transmitem o poder a essa classe, é um estado mais honesto e menos insidioso do que o totalitarismo invertido, do qual filósofos americanos falaram. Não quer dizer que seja “totalitário” e não se enquadre num estado de direito, embora numa ordem jurídica com regras substancialmente diferentes.
Quem acreditar que o poder de Xi não se enquadra na lei e constituição chinesas, ou que os planos quinquenais e as regras institucionais não são criados de acordo com a lei chinesa, não conhece a China moderna.
O liberalismo é mais totalitário pois, entrando de forma subliminar, escondida, como uma “não ideologia”, como “um pragmatismo”, apanha as pessoas desarmadas e aliena-as de tudo o que é seu: das suas raízes, nacionalidade, género, cultura, produto do seu trabalho, tradições, crenças… Não existe nada mais totalitário do que uma forma governativa que molda, inexorável e de forma subliminar, as nossas vidas. Isto está estudado e refletido por muita gente, incluindo liberais como Ben Chul Han.
Para além da atribuição – determinística – da lógica totalitária ao comunismo e ao socialismo, apenas porque estes assumem uma ideologia, quando se tratam de ideologias libertadoras e quando o termo “totalitarismo” é uma invenção liberal para atirar contra os governantes que, na sua maioria democraticamente escolhidos (porque suportados na vontade popular, com ou sem eleições liberais – as eleições liberais são uma forma de escolha, apenas isso, estando a democraticidade na suscetibilidade de identificação entre o povo e uma forma de governo e a sua aprovação pela praxis diária ou por sistemas de sufrágio), esta análise não faz uma ligação entre a escolha de populismos reacionários, abertamente fascistas e neonazis e a onda de revisionismo histórico que o neoliberalismo promoveu, aliando-se, nesse revisionismo à extrema-direita.
Esse revisionismo, impregnado nos manuais escolares, associado à propaganda anticomunista e antissocialista, porquanto constituírem a única alternativa ao estado capitalista (mesmo que não lhe chamem socialismo, o caminho alternativo passará sempre pela socialização e coletivização da propriedade, por oposição á sua liberalização e privatização), criou as condições, não apenas para a legitimação da ordem neoliberal, mas para a procura de alternativas onde estas não existem e em modos que favoreçam, mesmo assim, as oligarquias.
Dugin sabe bem – porque é muito inteligente – que não se pode esperar de Trump, de Meloni, ou de Le Pen, políticas de classe a favor dos trabalhadores, que se afirmem através da transição da riqueza produzida, das classes proprietárias para o trabalho. E Dugin sabe que, a distribuição de mais riqueza pelos trabalhadores, só pode encontrar-se do lado socialista.
Na Itália de Meloni, na Hungria de Orban, a vida do povo continua má. Na Rússia melhora, mas suportada numa imensa propriedade pública, dos sectores estratégicos, e de um potencial instalado e sabedoria histórica, herdados da URSS. Ou seja, com uma contribuição importante de duas coisas: maior grau de socialização da propriedade que possibilita impostos mais baixos mantendo serviços públicos; menor incidência do revisionismo histórico, pois Putin percebe o papel da URSS, mesmo não se identificando ideologicamente com esse papel. Mas, como homem pragmático e inteligente, consegue refletir nos aspetos positivos de muitas das políticas prosseguidas. A educação soviética, de grande qualidade, protege o povo russo do revisionismo do plástico ocidental. Estas relações materiais – tal como a concentração de riqueza a operar-se no Ocidente e cuja tendência na Rússia e China são inversas – são decisivas para se perceber a procura pelos “populistas” de direita.
Quanto ao estado profundo e às análises que faz, Dugin está correto noutra coisa: num sistema socialista não existe estado profundo, pois este afirma-se como é; mas num estado fascista, o estado profundo existe na mesma, na medida em que o sistema apresenta-se com uma cara que não é a sua. Basta ver como operavam, aqui em Portugal, os fascistas. Mas, mesmo assim, num estado fascista é mais fácil reconhecer o poder real.
A forma mais insidiosa, enganadora e alienante, a forma superior do sistema capitalista, é a neoliberal. Especialmente o americano, em que uma candidata a presidente necessita de teleponto nos discursos. E é escolhida apenas e tão só, por ser mulher, o que constitui um desprezo absoluto pelas mulheres e pela sua capacidade e dignidade. Quantas mulheres nos EUA seriam mais capazes de serem presidentes do que Kamala? E quantas estariam dispostas a serem fantoches do poder real? Nesse caso, Trump é mais honesto, é o que é, e pretende não enganar. É interessante que, o aparentemente mais autoritário dos dois, é o que, democraticamente está mais em linha com as pretensões de mudança e é o que mais reflete as ansiedades de mudança nos EUA. Mas podemos confiar nele? Claro que não. Não apenas pelo que é, mas pelos valores que representa. Nos EUA, este é o máximo a que se pode democraticamente aspirar, em termos de mudança.
Bernie Sanders tentou algo mais humanista, e logo lhe disseram os barões neoliberais que, para isso, preferiam votar Trump. Votar Trump era, para eles, preferível do que votar social-democrata. Está tudo dito. Esta “democracia” já não suporta, sequer, a tese da convergência, de que fala Dugin. Apenas admite a acumulação rápida, a pilhagem e a concentração.
Os povos terão de se organizar e procurar outros escapes e alternativas onde estas não existam. Não podem esperar grandes mudanças em sistemas eleitorais neoliberais, pois esses estão feitos para a casa ganhar. O máximo a que pode almejar, apenas na Europa e outros países pluripartidários, consiste em paliativos sociais democratizantes. Mas logo serão derrubados, apesar do seu sucesso económico (vide Portugal e agora Espanha). O problema desta gente não é se a economia cresce, mas para quem cresce.
Esta dimensão da organização das massas também nada diz a Dugin, que olha para a política numa perspetiva messiânica, de cima para baixo, em que as elites dominam a partir de cima as massas. O seu olhar não é, ele mesmo, democrático. Daí que, uma vez mais, venha o erro do totalitarismo socialista ou comunista. Desvios de direita em sistemas destes também existem, desvios autoritários, indisciplina e revisionismos. Contudo, nenhum destes sistemas nasce e cresce sem ter organização das massas populares em torno de um projeto e um partido que o aplique; mobilização das classes populares e aliados pela conquista do poder; proteção do poder pela força da maioria, isto é, pela força das massas populares, que conquistam as ruas, as empresas, os meios de produção.
Existe algo mais democrático do que um poder construído assim? Claro que não. Só as classes populares unidas vencem a oligarquia minoritária. A maioria vence a minoria e o terreno revolucionário constitui o mais democrático e transparente dos terrenos.
Aí, revelam-se todas as identidades. Na prática revolucionária e na sua análise concreta, não é possível esconder a ideologia. Basta analisarmos o PREC em Portugal e o papel que o PS teve. Se assumisse o papel, que dizia representar, democraticamente, o PREC teria vencido e as forças reacionárias teriam sido eliminadas. Hoje não teríamos uma classe patronal atrasada, reacionária e mesquinha. Na pior das hipóteses ter-se-ia constituído uma burguesia mais progressista e aberta. Ao invés, ficámos com as estruturas mentais do antigamente. Essa conquista teria sido amplamente democrática, porque suportada na maioria. O que vem depois da revolução são formas de exercício do poder, mas a fundação desse poder é profundamente democrática.
No nosso país, o papel do PS consistiu na rejeição dessa construção democrática e na legitimação, cobarde, insidiosa, do poder reacionário instituído. É por isso que, hoje, 50 anos depois, temos um Chega ou uma IL. Na era liberal, em Portugal, na revolução francesa e americana, também o poder fundacional era democrático. A degeneração democrática deste sistema dá-se porque o capitalismo em que assenta o poder da burguesia, então aliada às classes populares através de promessas de liberdade, igualdade e fraternidade, acaba a subverter a democracia e a promover uma anormalidade e irregularidade democráticas, que favorece a reação.
Engels falou disto e Marx também. A irregularidade democrática em que vivemos (escolha superficial sem projeto; figuras sem projeto e sem vontade própria; partidos que governam com minorias parlamentares suportados no poder da elite; admissão de partidos fascistas e racistas; ataque à igualdade de tratamento na comunicação social) favorece a extrema-direita e os populismos reacionários e demagógicos.
A regularidade democrática, as regras claras, o jogo transparente, protege os revolucionários e os progressistas. Dugin também não foca este aspecto, de que Engels e Marx falaram a respeito da Comuna de Paris. E não fala destas coisas porquê? Porque não é um materialista. Dugin é uma espécie de hegeliano, que não rejeita a dialética, mas apenas a vê no espírito e na matéria. E como tal, adota uma posição messiânica, atribuindo mais importância às figuras do que às relações materiais subjacentes.
Não obstante, o artigo é excelente e tem um enorme potencial para nos fazer pensar e questionar. Não estar de acordo não significa não reconhecer a qualidade da análise. Apenas não me identifico com os pressupostos. Mas quem sou eu para criticar Dugin?