O caso Montenegro: Uma provocação política

(Por Vital Moreira, in Blog Causa Nossa, 07/03/2025)


(Hoje damos espaço quanto baste à política nacional. O artigo abaixo leva-me a perguntar: Quem é que “soprou” à generalidade dos políticos e dos “comentadeiros” que o povo não quer eleições? Cá para mim o “sopro” vem de Bruxelas, e até o Dr. Vital Moreira “sopra” no mesmo sentido… Eles não o dizem, mas não vem mesmo nada a calhar haver eleições em que vai ser inescapável ter que se discutir se queremos continuar a mandar milhões para a Ucrânia, se queremos mandar jovens para a guerra, e se queremos debilitar ainda mais o Estado Social para cumprir os planos de rearmamento da Ursula e do Costa.

Agradeçamos, pois, ao Montenegro. À custa da dele tentar salvar a sua pele, pode ser que nos ajude a salvar a nossa… 🙂

Estátua de Sal, 09/03/2025)


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1. Ecoando a posição defendida por Montenegro, há quem entenda que o Governo precisa da confiança do Parlamento para poder continuar a governar e a executar o seu programa. 

Mas há aqui um óbvio equívoco político: no nosso sistema constitucional, os governos não precisam da confiança parlamentar para governar; só precisam de não ter a sua desconfiança (e se manifestada por maioria aboluta), o que obviamente não é mesma coisa. É esse regime de não-desconfiança – que foi uma opção constitucional deliberada (eu estive lá!) -, que permite os governos minoritários.

De resto, este Governo “passou” na AR sem nenhum voto de confiança ou de aprovação; e se tal voto tivesse existido, não teria passado. Na apresentação do Governo à AR, o líder do PS declarou então que não votava a rejeição do programa de governo (proposta por vários partidos) e que, portanto, não inviabilizava o Governo, mas advertiu enfaticamente que não votaria qualquer moção de confiança que o Governo viesse a solicitar à AR. Foi na base desse compromissso explícito que o Governo “passou”, apesar de ser o mais minoritário que tivemos. E foi o mesmo espírito de compromisso do PS com a estabilidade que permitiu ao Governo passar o teste do orçamento em dezembro e, por estes dias, passar incólume as moções de censura de que foi alvo, sempre mercê da abstenção do PS.

Montenegro deve, portanto, o lugar de PM e a subsistência do Governo a esse compromisso com o PS, que este perseverou em respeitar. 

2. Mas é justamente esse compromisso que, menos de um ano depois, ele e o PSD agora deitam ao lixo, deslealmente, ao apresentarem uma moção de confiança e ao exigirem ao líder do PS que cruze a sua “linha vermelha” e declare, através do voto, a sua confiança no Governo. 

Montenegro não pode ignorar que o único Governo minoritário da nossa história democrática que avançou para uma moção de confiança (o I Governo de Mário Soares, em 1977), perdeu-a e viu-se demitido, pelo que não foi seguramente por acaso que nenhum dos vários governos minoritários posteriores (do PS e do PSD) repetiu a ousadia. O atual PM vai manifestamente contra a lógica e contra a história, ao desafiar a oposição a dar-lhe a confiança política, de que, aliás, não precisa (como mostrei acima), e com uma agravante em relação a 1977: Soares não apostava em eleições nem sabia antecipadamente o resultado da votação e tinha a esperança de que o PCP se abstivesse (o que não veio a acontecer), enquanto agora Montenegro posta diretamente nas eleicoes, porque sabe antecipadamente que a sua moção não vai passar. 

Ora, continuando Montenegro a denegar o esclarecimento cabal, que o PS reclama (e bem!), sobre a sua ligação efetiva à empresa “familiar” que ele criou para continuar a exercer a anterior sua atividade profissional, este pedido de confiança, que é especialmente dirigido contra o PS, a quem ele deve a investidura parlamentar, tem de ser designado como o que é: uma provocação política qualificada.

Se houvesse dúvidas, esta conduta politicamente pouco digna mostra que ele não merece mesmo a confiança que pede à oposição.

Adenda 1

De uma leitora atenta recebi o seguinte comentário: «A moção de confiança do PSD, para ir para eleições, é uma declaração de guerra ao PS e ao País, mas penso que o PS não tem de travar a guerra no campo que ele quer e na hora que eles desejam, sacrificando o País, mas sim no campo e no tempo mais favorável ao PS. Por isso, penso que a melhor solução não é votar contra a moção, mas sim a abstenção, que continua a não dar a confiança pedida e poupa o país a eleições, que ninguém quer. A seguir, avançar a todo o vapor para o inquérito (…) e, no final, avançar, se for caso disso, com uma moção de censura». Como já deixei entendido em nota anterior, subscrevo este argumento. O melhor modo de evitar que o PM fuja do apuramento das graves suspeitas que sobre ele impendem – que é o seu grande objetivo – é manter a AR e o Governo em funções, aliás com chumbo na asa. No fundo, votar contra a moção, indo para a dissolução parlamentar e para eleições, pode parecer politicamente mais coerente, mas é dar a Montenegro o que ele quer.

Adenda 2

Um leitor acha que Montenegro está «aterrorizado com o inquérito parlamentar às suas ligações com a sua empresa familiar», e que, por isso, mesmo que a moção de confiança não seja rejeitada, por abstenção do PS, ele irá demitir-se na mesma, para forçar a dissolução da AR. Não é de excluir tal hipótese, mas, se tal suceder, fica claro que o seu interesse não era obter a confiança política da AR, como proclamou, mas sim, mesmo, cancelar o escrutínio sobre ele. Além disso, se perdesse a moção de confiança, sendo demitido pela AR, ele sempre tenderia a imputar a responsabilidade pela crise política à oposição, e em especial ao PS, por ter recusado a confiança pedida, enquanto que se for ele próprio demitir-se para fazer dissolver o parlamento, a responsabilidade pela crise política fica inequivocamente com ele. Não é a mesma coisa, para a opinião pública e para os eleitores.


O caso Montenegro: A empresa “avatar”

1. Expresso de ontem volta a fazer derivar indevidamente a provável violação da exclusividade governativa pelo Primeiro-ministro, do facto de ele ter continuado a ser o dono da Spinumviva, em parceria com mulher e filhos. 

Ora, se isso bastasse, então não haveria mais nada a apurar, visto que é incontestável que a empresa foi criada por ele e que a tentativa de a transmitir à mulher é nula, sem nenhum efeito, pelo que continuou a pertencer-lhe. Mas, como tenho procurado explicar desde o início, a propriedade de uma empresa por um governante não basta, só por si, para violar a regra da exclusividade. 

Entendamo-nos, portanto: 1º – como qualquer cidadão com meios para o fazer, o PM pode ter licitamente as empresas que quiser, desde um restaurante a uma clínica, a título pessoal ou através de uma sociedade, e beneficiar dos respetivos proventos, desde que não lhe caiba a respetiva gestão; 2º – no caso da Spinumviva, porém, todos os indícios (incluindo os serviços prestados, os seus clientes, a sede no seu domicílio pessoal e o contacto dela por via do seu telefone pessoal) apontam para que tal empresa não passou de uma solução de fachada, uma ferramenta, para permitir que ele próprio continuasse a prestar os SEUS serviços profissionais aos SEUS clientes por interposta sociedade, ou seja, entre outras vantagens, para fingir uma separação pessoal em relação à sua atividade.

O “avatar” de Montenegro…

Em suma, não tendo nenhuma autonomia em relação ao seu fundador, a Spinumviva não era mais do que uma metamorfose na apresentação externa daquele, um “avatar” do advogado Luís Montenegro, para continuar a sua atividade profissional e beneficiar do seus proventos.

2. Há duas noções que todo o estudante de direito aprende logo no 1º ano do curso, como exemplos de “patologia jurídica”: o “abuso de direito” e a “fraude à lei”. O que eu defendo, face aos indícios conhecidos, é que, muito presumivelmente, a Spinumviva constitui um caso de abuso da personalidade jurídica coletiva, instrumentalizada para defraudar a regra da exclusividade do PM (além das não negligenciáveis vantagens fiscais e da possibilidade de imputação de despesas pessoais à pseudossociedade).

Recorrendo à conhecida relação “principal-agente”, que é corrente na economia e na ciência política, no caso da Spinumviva (como se argumenta AQUI), o seu criador manteve-se como o “principal” da organização, sendo os seus colaboradores na prestação do serviço puros “agentes” seus (mas sem os custos da “assimetria de informação”, normalmente associada a este tipo de relações, dados os conhecimentos do “principal” neste caso), enquanto os familiares não passaram de simples figurantes na encenação, sem nenhum papel na empresa.

Em suma, como venho escrevendo, tudo indica que a Spinumviva é uma ficção de sociedade comercial, sendo verdadeiramente uma longa manus ou um alter ego de Montenegro.

3. Se os indícios são fortes, a sua comprovação, porém, só pode ser conseguida através da análise aos contratos, às comunicações, à agenda e à contabilidade da suposta empresa, para verificar o seu negócio, as suas receitas (e seu destino) e suas despesas (incluindo na aquisição de bens e serviços). 

Parece óbvio que a moção de confiança precipitadamente apresentada por Montenegro – que, a ser rejeitada, levaria à dissolução parlamentar – só pode ter por motivo principal fazer caducar o inquérito parlamentar requerido pelo PS para apurar essas questões, para se furtar ao seu escrutínio.

Resta, por isso, saber se, perante a má-fé do Governo, não seria melhor para o PS, em vez de manter forçadamente a antiga posição de voto contra, optar pela abstenção, impedindo a dissolução parlamentar e permitindo manter o inquérito parlamentar, desfeiteando a manobra política do Governo.

Adenda

Esta extraordinária declaração de Luís Montenegro, de que «não fez nem mais nem menos do que faz qualquer português» é uma confissão implícita. Na verdade, como escrevi no início deste “caso”, aquilo que muitos profissionais liberais fazem – que é criar empresas pessoais/familiares para prestarem os seus serviços em nome delas, serem pagos através delas e beneficiarem de redução de impostos e da imputação de despesas pessoais – podia ser feito pelo advogado Luís Montenegro, mas não podia ser continuado pelo PM, sob pena de violação da exclusividade a que está obrigado e de conflito de interesses, entre o interesse público que lhe cabe prosseguir e os interesses económicos dos clientes que lhe pagam as generosas avenças.  Ao contrário do que defende Montenegro, o PM não pode fazer o que “qualquer português” pode fazer, quanto mais não seja por uma questão de ética política, que neste caso foi manifestamente posta na gaveta.

6 pensamentos sobre “O caso Montenegro: Uma provocação política

  1. Um empregado das Finanças aqui há uns anos, nos anos da troika, sem saber o que fazer há vida com o ordenado congelado ha anos, pediu licença aos superiores para dar formação na sua área de licenciatura dado que até tinha um curso de formador. A resposta foi um não redondo com a competente ameaça de processo disciplinar se fizesse tal coisa, dada a exclusividade a que esses estão obrigados.
    Mas essa chico espertice não e nova.
    Quando Duarte Lima fugiu a umas mais valias logo Manuela Ferreira Leite veio em sua defesa dizendo “quem e que ainda não meteu um shampoo no IRS?”.
    Como se fosse a mesma coisa e como se fossemos todos aldraboes.
    Agora está e de mestre. Eu nem sabia que tinha uma imobiliária.
    Enfim, o homem devia ir ver se o mar da choco.

  2. “Esta extraordinária declaração de Luís Montenegro, de que «não fez nem mais nem menos do que faz qualquer português» é uma confissão implícita.”

    Mais do que uma confissão implícita, é um insulto aos portugueses. Que ele e os amigos, patronos, clientes, sócios ajam dessa maneira, e não vejam os problemas criados, demonstra ignorância, pateguice, chico-espertice e só revela o ponto a que chegou a partidocracia em Portugal,
    o desprezo pelas regras de boa conduta e a falta de escrúpulos, sobretudo nos partidos ditos do “arco da governação” (mais uma expressão “inventada” pelo inefável Paulo Portas, que tem também a da célebre “geringonça” – quando está o CDS-PP no Poder, é um partido do “arco da governação”, quando há um entendimento dos partidos da esquerda, mesmo que os ministros sejam todos do PS, é uma “geringonça”. Resta saber se o PPM faz parte do “arco da governação” ou da “geringonça”. A direita portuguesa é tão boçal e chico-esperta que até dá asco!)

  3. Sobre o desinteresse de Trump em continuar a financiar a NATO: acabo de ouvir na televisão a candidata do PS à Câmara de Lisboa a declarar como inevitável o aumento da despesa militar na Europa, Portugal incluído, ainda que à custa da fragilização do Estado Social! E ainda lamentou “o expectável aumento dos extremismos” como “externalidade negativa” (sic) dessa (des)orientação política…
    E é neste estado que está o partido da “ética republicana” que quer governar o País!

    • Só há um partido com assento parlamentar que não subscreve essa lógica dos “moderados do armamentismo, do militarismo e do belicismo”… é o PCP. Tudo o resto defende o mesmo, ainda agora Luís Montenegro foi a Bruxelas defender até o envio de militares portugueses para a Ucrânia, vê tu bem, e Nuno Melo aparece num vídeo do Ministério da Defesa usando crianças fardadas a brincar dentro de carros de combate como instrumentos de propaganda, vê tu bem!
      Aliás, nunca hei-de perceber como é que se pode ser “moderado” e defender “a guerra o tempo que demorar, custe o que custar”… lérias dos partidos do sistema!

  4. A actual crise política criada pela pessoa do primeiro-ministro tem-nos proporcionado o exercício da hipocrisia política da mais ostensiva e descarada. O mesmo político que, enquanto oposição, explorava ad nauseam os chamados casos e casinhos para desgastar o governo PS, muitas vezes sem fundamento e fazendo eco de denúncias anónimas vertidas na imprensa, surge agora como protagonista de uma flagrante violação da ética política. E que ainda por cima espelha um calculismo e propósito de favorecimento pessoal que, em minha opinião, a colocam entre os casos mais acintosos do nosso historial político. E vai-se esperar para ver se além da questão ética não está em causa também algum ilícito criminal.
    Revolta ainda mais o desplante com que o partido em causa tem procurado sacudir responsabilidades e imputar ao PS a culpa pela eventual necessidade de novas eleições. Considero o PSD o partido da direita portuguesa que mais personifica alguns traços idiossincráticos menos desejáveis na nossa sociedade. À excepção do epifenómeno Chega, claro.
    Concluindo, o PS não pode favorecer qualquer resolução que permita ao governo uma saída airosa. Deve votar contra a moção de confiança e não desistir da comissão de inquérito, independentemente do curso dos acontecimentos.

  5. E provável que o PS, fiel a si próprio, opte pela posicao bandalha da abstenção, inaugurada pelo nada saudoso Antonio José Seguro nos orçamentos assassinos dos anos da troika.
    Mas, mesmo que vaiamos a votos, estamos lixados.
    O único partido que nunca alinhou no “para a Ucrânia rapidamente e em força pela derrota da Rússia” foi penalizado nas urnas justamente por isso e nada indica que o cenário tenha mudado.
    Por isso, qualquer que seja o resultado, estamos lixados com f muito grande.
    Slava bovinini.

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