Crise financeira: até o FMI teme o pior

(Yanis Varoufakis, in Outras Palavras, 07/10/2022)

Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.


Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

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Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.

Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.

Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.

E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.

Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.

Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.

Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.

Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.

As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.

Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou ou ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.

Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia.

Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.

A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.

De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.


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Dentro do pandemónio

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 01/10/2022)

A sabotagem dos pipelines Nordstream 1 e 2 cortou brutalmente o cordão umbilical energético da Alemanha com a Rússia. Parece óbvio para todos de que se trata de terrorismo com origem num “ator estatal”, como disseram de imediato os responsáveis dinamarqueses e suecos. Inevitavelmente, Zelensky acusou a Rússia. Mas esse reflexo de Pavlov carece de justificação.

Seria totalmente irracional que Moscovo destruísse não apenas uma copropriedade onde investiu 475 mil milhões de rublos, mas, sobretudo, seria absurdo que anulasse o seu instrumento principal de pressão contra as sanções da UE. Sem pipelines, Moscovo e Berlim ficam em mundos paralelos.

O jornal ECO noticiava que num tweet, Radoslaw Sikorski – ex-Ministro da Defesa e ex-MNE polaco, eurodeputado do PPE, e um peso pesado na política global -, agradeceu aos EUA os danos causados aos pipelines russos. Noutro tweet, Sikorski explicava que os “danos no Nordstream reduzem o espaço de manobra de Putin. Se quiser retomar o fornecimento de gás à Europa, terá de conversar com os países que controlam os gasodutos Brotherhood [Ucrânia] e Yamal [Polónia]”.

O “agradecimento”, gravemente acusatório a Washington, vindo de um seu fã incondicional, apenas o compromete a ele. Contudo, revela também como os demónios europeus estão à solta. O ódio à Alemanha, e não apenas à Rússia, faz hoje parte integrante da política oficial em Varsóvia, como ficou demonstrado no renovado pedido a Berlim por indemnizações pelas perdas da II Guerra Mundial.

A UE, que alguns adeptos do Dr. Pangloss consideram mais forte e unida do que nunca, recebe hoje sinais de menosprezo das chancelarias por esse mundo fora. Com a CE de Von der Leyen, a “Europa Alemã”, que segundo o malogrado Ulrich Beck resultou da gestão da crise do euro por Angela Merkel, está febril. Para merecer respeito em política é preciso conhecer os seus interesses cruciais. E saber defendê-los. A resposta europeia à invasão russa da Ucrânia foi desmesurada, ignorou completamente interesses e fragilidades, curvando-se num servilismo acrítico perante Biden. A coligação de Berlim destruiu, de um golpe, os alicerces de uma UE liderada pela Alemanha: segurança de abastecimento energético; estabilidade do euro; alguma (frágil) capacidade de manobra dentro da NATO. Sem estratégia e à deriva, os próximos meses dirão até que ponto é que a estrada de autoflagelação europeia terá alguma margem de mitigação.

A política em Portugal isolou-se numa exígua redoma de minudências. Os assuntos na agenda política minguaram. Para além de aceitarmos incondicionalmente a política monetária do BCE, já desistimos também de ponderar nas políticas externa e de defesa.

Estamos a caminhar para uma situação em que a possibilidade de uma guerra nuclear limitada na Europa vai em crescendo. E perante tal enormidade, escutamos o PM e o MNE a repetirem, mecanicamente, os mantras de Josep Borrell e de Jens Stoltenberg. Nem uma hesitação. Nem uma dúvida. Fica-nos como magna questão nacional, a eterna localização do novel aeroporto de Lisboa.

Mesmo sem devastação bélica, a Europa empobrecida talvez acabe até por tornar excessiva a atual capacidade da Portela. As torneiras que a Espanha fechou no Douro, congelando, com aviso prévio, a Convenção de Albufeira, dão-nos uma amostra da abundante solidariedade que nos aguarda num futuro cada vez mais fustigado pela crise ambiental e climática.

Portugal foge da realidade, mas esta nunca se esquecerá de nós.

Professor universitário


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Inquietudes existenciais: a Guerra financeira contra o Ocidente começa a morder

(Por Alastair Crooke, in A Viagem dos Argonautas, 19/09/2022)

A Europa afunda-se no papel de uma província distante e atrasada de uma “Roma Imperial em queda”.


O Clube de Roma, fundado em 1968 como um colectivo de pensadores líderes a ponderarem questões globais, tomou como seu lema a doutrina de que ver os problemas da humanidade individualmente, isoladamente ou como “problemas capazes de serem resolvidos nos seus próprios termos”, estava condenado ao fracasso – “todos estão inter-relacionados”. Agora, cinquenta anos depois, isto tornou-se uma “verdade revelada” inquestionável para um segmento chave das populações ocidentais.

O Clube de Roma atraiu subsequentemente a atenção imediata do público com o seu primeiro relatório, The Limits to Growth [Os limites do crescimento]. Publicado em 1972, as simulações de computador do Clube sugeriam que o crescimento económico não poderia continuar indefinidamente devido ao esgotamento de recursos. A crise petrolífera de 1973 aumentou a preocupação do público com este problema. O relatório tornou-se ‘viral’.

Nós conhecemos a história: Um grupo de pensadores ocidentais colocaram-se três questões: Pode o planeta manter um nível de consumo ao estilo europeu espalhado por todo o mundo? A resposta destes pensadores foi “claramente não”. Segunda pergunta: Conseguem imaginar os estados ocidentais a renunciarem voluntariamente ao seu nível de vida através da desindustrialização? Resposta: Um “não” definitivo. Será que um plano mais baixo de consumo e utilização de energia e recursos deve então ser coagido a populações relutantes? Resposta: Definitivamente ‘Sim’.

O segundo ‘grande pensamento’ do Clube surgiu em 1991, com a publicação de The First Global Revolution [A Primeira Revolução Global]. Nele assinala-se que, historicamente, a unidade social, ou política, tem sido normalmente motivada pela imaginação de inimigos em comum:

“Ao procurar um inimigo comum contra o qual possamos unir-nos, surgiu a ideia de que a poluição, a ameaça do aquecimento global, a escassez de água, a fome e afins, se encaixariam nessa busca. No seu conjunto e nas suas interacções, estes fenómenos constituem uma ameaça comum… [e] todos estes perigos são causados pela intervenção humana em processos naturais. Só através da mudança de atitudes e comportamentos é que eles podem ser ultrapassados. O verdadeiro inimigo é então a própria humanidade“.

Não é propósito aqui discutir se a “Emergência Climática” é bem fundamentada na ciência não politizada – ou não. Mas sim, para fazer notar que: “É, o que é”. A sua iconografia psíquica tem sido apanhada pelo culto da ‘Greta’.

Quaisquer que sejam os seus méritos – ou falhas – um estrato significativo da sociedade ocidental chegou à convicção – de que estão convencidos intelectualmente e em que acreditam – de que uma “Emergência Climática” deve ser tão manifestamente correcta que qualquer prova contraditória e o argumento devem ser rejeitados enfaticamente.

Este tornou-se o medo existencial ocidental: o crescimento populacional, os recursos finitos e o consumo excessivo significam o fim do nosso planeta. Precisamos de o salvar. Não é de surpreender em torno desta ‘forma de pensar’ estejam os primeiros temas ocidentais da política de identidade, a eugenia, a sobrevivência darwiniana dos eleitos (e a eliminação das iterações “menores” da vida) e o niilismo europeu (o verdadeiro inimigo é “nós”, nós próprios).

Evidentemente, a ‘outra’ faceta desta projecção ocidental da ‘realidade’, que se está a tornar fortemente visível, é o duro facto de a Europa simplesmente não ter qualquer energia pronta ou abastecimento de matérias-primas que possa explorar (tendo virado as costas à fonte óbvia). E como Elon Musk observou, “Para que a civilização continue a funcionar, precisamos de petróleo e gás“; acrescentando que “qualquer pessoa razoável concluiria isso“. Não só o petróleo e o gás devem continuar a ser utilizados para manter a civilização a funcionar, mas Musk disse que uma maior exploração “é justificada neste momento“.

Assim, os governos ocidentais devem ou expôr-se a uma miséria económica de uma tal amplitude que ponha à prova o tecido político democrático em qualquer país – ou enfrentar a realidade de que as questões de abastecimento de energia colocam efectivamente um limite à extensão do projecto “Salvar a Ucrânia” (sem provocar a revolta popular pelos aumentos de preços resultantes).

Esta “realidade” real que se está a desenrolar, naturalmente, também limita por extensão o objectivo geo-estratégico ocidental derivado associado à Ucrânia – que é salvar a “ordem das regras liberais” (tão central para as preocupações ocidentais). A ‘face’ oposta a este medo central é, então, a inquietude de que a ordem mundial já esteja tão quebrada – porque a confiança desapareceu – que a ordem mundial emergente não será de todo moldada pela visão liberal ocidental, mas por uma aliança de economias cada vez mais próximas económica e militarmente – cuja confiança nos EUA e na Europa desapareceu.

No nosso mundo anteriormente interligado, onde Zoltan Pozsar sugere que aquilo a que ele chama Chimérica (o termo para manufacturas chinesas, comodamente casadas com uma sociedade consumista americana); e Eurússia (onde a energia e as matérias-primas russas alavancaram o valor para a base produtiva da Europa) já não existem – foram substituídas pela “Chússia”.

Se a Chimérica já não funciona, e a Eurússia também não, inexoravelmente as placas tectónicas globais reposicionam-se em torno da relação especial entre a Rússia e a China (“Chússia”) – que, juntamente com as economias centrais do bloco BRICS agindo em aliança com o “Rei” e a “Rainha” no tabuleiro de xadrez eurasiático, forja-se um novo “jogo celestial” a partir do divórcio da Chimérica e da Eurússia …

Em suma, a estrutura global mudou, e com o desaparecimento da confiança, “o comércio tal como o conhecemos não vai voltar, e é por isso que a inflação crescente não vai ser domada tão cedo, … As cadeias de abastecimento globais só funcionam em tempo de paz, mas não quando o mundo está em guerra, seja uma guerra quente – ou uma guerra económica”, observa Pozsar, o principal guru do sistema financeiro ocidental.

Hoje, estamos a assistir à implosão das longas cadeias de abastecimento “just in time” da ordem mundial globalizada, onde as corporações assumiam que podiam sempre obter o que precisam, sem mover o preço:

“Os detonadores aqui [para implosão] não são a falta de liquidez e capital nos sistemas bancários e nos bancos-sombra. Mas uma falta de stocks e protecção no sistema de produção globalizado, no qual concebemos em casa e gerimos a partir de casa, mas nos abastecemos, produzimos e expedimos tudo desde o estrangeiro – e, onde as mercadorias, fábricas e frotas de navios são dominadas por Estados – Rússia e China – que estão em conflito com o Ocidente” (Pozsar).

No entanto, mais significativo é o ‘quadro geral’: Aquela interligação e confiança perdidas foram as que – muito simplesmente – protegeram a baixa inflação (fabricantes chineses baratos e energia barata russa). E da baixa inflação fluiu a peça companheira de taxas de juro baixas. Estas, em conjunto, compõem o próprio “material” do projecto global ocidental.

Pozsar explica:

“Os EUA ficaram muito ricos ao fazer QE. Mas a licença para QE veio do regime de ‘baixa inflação’ possibilitada pelas exportações baratas provenientes da Rússia e da China. Naturalmente, [situado no] topo da ‘cadeia alimentar’ económica global – os EUA – não querem que o regime de ‘baixa inflação’ termine, mas se a Chimérica e a Eurússia terminarem como sindicatos, o regime de baixa inflação terá de terminar, ponto final”.

Estes representam essencialmente as inquietudes existenciais orientalistas. A Rússia e a China, contudo, também têm as suas próprias – separadas – inquietações existenciais. Surge de uma fonte de ansiedade diferente. Trata-se de que as intermináveis e eternas guerras dos Estados Unidos, empreendidas para justificar o seu expansionismo político e financeiro predador, além da sua obsessão em espalhar uma manta da NATO que envolva todo o planeta, acabarão – inevitavelmente – um dia numa guerra que se tornará nuclear, e que arriscará o fim do nosso planeta.

Portanto, temos aqui duas ansiedades – ambas potencialmente existenciais. E desligadas; passando uma pela outra sem serem ouvidas. O Ocidente insiste que a Emergência Climática é primordial, enquanto que a Rússia, a China e os Estados insulares do mundo “Mackinder” lutam para forçar o Ocidente a abandonar a sua presunção de Missão global, a sua “Visão hegemónica”, e o seu militarismo arriscado.

A questão para a Rússia-China então, é como (parafraseando Lord Keynes) mudar a curto prazo as atitudes de longo prazo, datadas de séculos atrás, sem ir para a guerra. Esta última qualificação é particularmente pertinente, uma vez que um hegemon debilitado é mais propenso a atacar com raiva e frustração.

A resposta de Lord Keynes foi que era necessário “atacar” a todo o custo as percepções de longo prazo. Para fazer esta ‘operação’, a Rússia aproveitou em primeiro lugar o calcanhar de Aquiles de uma economia ocidental excessivamente alavancada que consome muito mais do que produz, como um meio de atacar, através da dor económica, as percepções incrustadas.

E em segundo lugar, apropriando-se ela própria da Emergência Climática, a Rússia retira ao Ocidente a antiga esfera global, como meio de minar a sua percepção de si mesma – desfrutando de alguma aprovação global imaginária.

A primeira via foi aberta pela Europa impondo sanções à Rússia. Provavelmente, o Kremlin antecipou amplamente a resposta de sanções ocidentais ao decidir lançar a Operação Militar Especial a 24 de Fevereiro (afinal de contas, houve o precedente de 1998). E, portanto, a liderança russa provavelmente também calculou, que as sanções iriam fazer ricochete contra a Europa – impondo uma miséria económica a uma escala que poria à prova o tecido político democrático, deixando os seus líderes a enfrentar um ajuste de contas com um público enfurecido.

A segunda via tem sido conseguida através de uma extensão concertada do poder russo através de parcerias asiáticas e africanas sobre as quais está a construir relações políticas – baseadas no controlo do abastecimento global de combustíveis fósseis e de grande parte dos alimentos e matérias-primas do mundo.

Enquanto que o Ocidente está a pressionar o “resto do mundo” para adotar os objectivos de Net Zero, Putin está a oferecer-se para os libertar da ideologia da mudança climática radical do Ocidente. O argumento russo tem também uma certa beleza estética: o Ocidente virou as costas aos combustíveis fósseis, planeando eliminá-los por fases, dentro de uma década ou mais. E quer que você (o não-Oeste) faça o mesmo. A mensagem da Rússia aos seus parceiros é que compreendemos bem que isto não é possível; as vossas populações querem electricidade, abastecimento de água limpa e industrialização. Podem ter petróleo e gás natural, dizem, e com um desconto sobre o que a Europa tem de pagar (tornando as vossas exportações mais competitivas).

O eixo Rússia-China está a empurrar para uma porta aberta. Os não ocidentais pensam que o Ocidente tem a sua alta modernidade, e agora querem afastar a escada por baixo deles, para que outros não se possam juntar. Eles sentem que estes “objetivos” ocidentais como as normas ESG (Environment, Social and Governance) são apenas outra forma de imperialismo económico. Além disso, os valores proclamados pelos não-alinhados de autodeterminação, autonomia e não-interferência externa, apelam hoje muito mais do que os valores “acordados” pelo Ocidente, que têm pouca adesão em grande parte do mundo.

A ‘beleza’ deste audacioso ‘roubo’ da antiga esfera ocidental reside em que os Produtores de matérias-primas produzem menos energia, mas embolsam rendimentos mais elevados; e desfrutam do benefício de preços mais elevados das matérias-primas que aumentam o valor das moedas nacionais, enquanto os consumidores recebem energia e pagam em moedas nacionais.

E no entanto … será esta abordagem russo-chinesa suficiente para transformar a mentalidade ocidental? Será que um Ocidente maltratado começará a ouvir? Possivelmente, mas o que parece ter abalado toda a gente, e pode ter sido inesperado, foi a explosão visceral de russofobia emanando da Europa na sequência do conflito na Ucrânia, e, em segundo lugar, a forma como a propaganda foi elevada a um nível que impede qualquer “marcha-atrás”.

Esta metamorfose pode demorar muito mais tempo – à medida que a Europa se afunda no papel de uma província distante e atrasada de uma “Roma Imperial” em queda.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

Fonte em: A Viagem dos ArgonautasPara lá da guerra na Ucrânia — “Inquietudes existenciais: a Guerra Financeira Contra o Ocidente Começa a Morder”. Por Alastair Crooke


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