Estamos assistir ao fim do capitalismo, e com ele as suas consequências

(André Campos, in comentários na Estátua de Sal, 17/11/2022)

O capitalismo só foi possível com a energia barata. A festa acabou!

Guerras, fomes, revoluções, etc., etc., são os efeitos secundários do fim do capitalismo. O declínio energético conduzirá ao caos socioeconómico global e, por conseguinte, a um declínio da população mundial. Não é impossível que a população mundial caia para menos de um ou dois mil milhões de pessoas em poucas décadas, se a humanidade não encontrar uma nova fonte de energia ilimitada e de progresso tecnológico para alimentar e cuidar da população mundial. Acredito que isto vai acontecer… ordem através do caos, por falta de uma palavra melhor e pela loucura de alguns bilionários megalómanos e, na sua maioria, psicopatas.

Certamente o capitalismo trouxe um certo progresso na nossa maneira de ver as coisas. Mas hoje, é um dos motores da nossa desintegração civilizacional! Atualmente, o conceito de interesse geral já não está na ordem do dia. E o sistema oscila entre dois conceitos de sociedade: a sociedade universal e individualista. Tudo depende da origem étnica e cultural do cidadão-consumidor.

”O capitalismo é a espantosa crença de que o pior dos homens fará o pior das coisas para o maior bem de todos” – Keynes.
Devemos voltar ao básico: o capitalismo não é nosso amigo, as guerras industriais mostraram-no, a produção de armas de destruição maciça denuncia o absurdo do “nosso” comportamento. O nosso consumo industrial tem como consequência devorar o mundo de forma abusiva, excessivamente em relação às nossas necessidades reais e sacrificamos o futuro das gerações futuras sem voltarmos à razão, desde que deixemos os homens e as ideias que são esmagados pelas consequências dos seus atos e pelas práticas que geram. Quando levarmos isto a sério, tanta água poluída terá corrido sob a ponte que não haverá mais água para nos mostrar a clareza do que precisa de ser feito.
Bertrand Russell: “O problema com este mundo é que os tolos estão certos e as pessoas sensatas são duvidosas.”
O liberalismo é anarquia organizada para que os ricos tenham tudo a ganhar, mas as suas almas e os pobres tenham tudo a perder.
O mundo livre deve ser o nosso farol para não deixarmos o caminho certo.
A loucura liberal está a afundar o interesse geral ao perseguir a ordem pública dos lobos esfomeados e esfomeados dentro de si, pilhando os recursos das gerações futuras. O nosso progresso cega-nos e engana os nossos princípios para favorecer a velocidade do lucro. Nada temos a invejar às sociedades arcaicas e bárbaras baseadas em sacrifícios humanos no que diz respeito às nossas guerras.

A riqueza e a pobreza atraem o indivíduo abaixo e para além da humanidade comum sem se encontrarem. O idiota é o indivíduo que não sabe que está privado do que quer e não é capaz de cuidar de outra coisa que não sejam os seus assuntos privados. O individualismo é o triunfo da liberdade do indivíduo para cuidar apenas de si próprio, é uma reivindicação dos ricos, os ricos reivindicam a sua superioridade social e o domínio da sua ordem.
A recusa de submissão, das nossas elites e daqueles que lucram com o sistema, à realidade que se impõe sobre a razão que deveria ter estado no comando, é a nossa maior ameaça. Paul Virilio denunciou-o sem que tivéssemos tomado todas as medidas construtivas: O dano colateral do progresso “é mascarado pela propaganda do progresso que mascara o acidente do progresso” …Um mundo de progresso que mascara o acidente do progresso… “Não é uma questão de ser contra o progresso; é uma questão de ser contra o progresso de uma catástrofe que é paralela” e consubstancial ao progresso. E aí os ecologistas que são a parte do acidente, o acidente de poluição, não estão à altura desta dimensão escatológica e receio que o niilismo regresse com um programa do fim. Há aqui uma grande questão com a globalização, com a incerteza da democracia neste momento, com a fraqueza da democracia.

Esquecemos o essencial e afundamo-nos na escuridão porque cavar o nosso tempo perdido para o dourar é apressarmo-nos a entrar na boca dos nossos problemas.

O mal absoluto do nosso tempo são os bilionários que estabelecem monopólios, destruindo o capitalismo ao impedir a concorrência e corrompendo os governos para escapar aos impostos e restrições legais.

Isso aconteceu nos EUA no final do século XIX e início do século XX. Os multimilionários da época eram os Vanderbilt (caminho-de-ferro), Rockefeller (petróleo), Carnegie (aço), J.P. Morgan (banca), Thomas Edison (eletricidade, entre outras coisas). Os seus monopólios permitiram-lhes fixar preços e empobrecer as massas que exigiam condições de vida mais humanas, mas em vão, apesar das greves e revoltas sangrentas. Entre eles, Morgan, Carnegie e Rockefeller representavam mil biliões de dólares numa América onde 90% da população vivia com um rendimento inferior a 100 dólares por mês.

Para evitar ter o governo americano contra eles, à medida que as eleições de 1896 se aproximavam e o candidato democrata, William Bryan, prometia reformas, formaram uma coligação, (diríamos agora uma conspiração) dotada de vários milhões de dólares para ter o seu homem eleito como presidente. Esse homem era William McKinley. Subornaram a imprensa, ameaçaram os seus empregados com despedimento se Bryan fosse eleito; como a votação não era secreta, a ameaça foi eficaz. É claro que McKinley foi eleito e tudo permaneceu na mesma. Os bilionários ficaram mais ricos. J.P. Morgan, para além das suas actividades bancárias, criou, através de aquisições e fusões, a US STEEL que se tornou a maior empresa siderúrgica dos EUA. Durante os quatro anos seguintes, um jovem político republicano, Theodore Roosevelt, tornou-se governador do Estado de Nova Iorque e começou a regular os monopólios. Nas eleições federais de 1900, os bilionários retomaram as suas manobras, mas sem conseguirem corromper Teddy Roosevelt; assim, para o neutralizar, foi-lhe oferecido o posto de vice-presidente, o que foi mais honorário do que real. Na eleição de 1900, McKinley foi reeleito, mas em 1901, durante uma viagem, Leon Frank Czolgosz, um trabalhador despedido por J.P. Morgan quando a U.S.STEEL foi criada, matou McKinley que morreu oito dias depois. O vice-presidente reformista, Teddy Roosevelt, tornou-se presidente.

Um pesadelo para os bilionários. Apesar das manobras destes tiranos, começou uma guerra total e, após vários processos judiciais de alto nível, os monopólios foram desmembrados. Se não fosse esta situação imprevisível e única, não teria havido classe média nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar, e o apetite destes ogres teria sido infinito.


Hoje, os herdeiros destes tiranos, Bill Gates, George Soros, Jeff Bezos, Warren Buffet, Elon Musk, Mark Zuckerberg e o grupo de Davos aprenderam a sua lição. Corromperam todos os principais meios de comunicação social ao serem seus proprietários, corromperam todos os partidos políticos e sindicatos e neutralizaram todos os potenciais opositores.

Nada impede, pois, o seu desejo de pilhar empresas estabelecidas através da uberização, de roubar recursos nacionais e internacionais, de roubar poupanças através da especulação bolsista e da inflação desenfreada, etc.


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Crise financeira: até o FMI teme o pior

(Yanis Varoufakis, in Outras Palavras, 07/10/2022)

Subitamente — e contra todos os prognósticos — o FMI, o xerife da ordem económica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.


Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.

Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?

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Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.

Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.

Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.

E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.

Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.

Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.

Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.

Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.

As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.

Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.

Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou ou ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.

Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia.

Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.

A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.

De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.


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Dentro do pandemónio

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 01/10/2022)

A sabotagem dos pipelines Nordstream 1 e 2 cortou brutalmente o cordão umbilical energético da Alemanha com a Rússia. Parece óbvio para todos de que se trata de terrorismo com origem num “ator estatal”, como disseram de imediato os responsáveis dinamarqueses e suecos. Inevitavelmente, Zelensky acusou a Rússia. Mas esse reflexo de Pavlov carece de justificação.

Seria totalmente irracional que Moscovo destruísse não apenas uma copropriedade onde investiu 475 mil milhões de rublos, mas, sobretudo, seria absurdo que anulasse o seu instrumento principal de pressão contra as sanções da UE. Sem pipelines, Moscovo e Berlim ficam em mundos paralelos.

O jornal ECO noticiava que num tweet, Radoslaw Sikorski – ex-Ministro da Defesa e ex-MNE polaco, eurodeputado do PPE, e um peso pesado na política global -, agradeceu aos EUA os danos causados aos pipelines russos. Noutro tweet, Sikorski explicava que os “danos no Nordstream reduzem o espaço de manobra de Putin. Se quiser retomar o fornecimento de gás à Europa, terá de conversar com os países que controlam os gasodutos Brotherhood [Ucrânia] e Yamal [Polónia]”.

O “agradecimento”, gravemente acusatório a Washington, vindo de um seu fã incondicional, apenas o compromete a ele. Contudo, revela também como os demónios europeus estão à solta. O ódio à Alemanha, e não apenas à Rússia, faz hoje parte integrante da política oficial em Varsóvia, como ficou demonstrado no renovado pedido a Berlim por indemnizações pelas perdas da II Guerra Mundial.

A UE, que alguns adeptos do Dr. Pangloss consideram mais forte e unida do que nunca, recebe hoje sinais de menosprezo das chancelarias por esse mundo fora. Com a CE de Von der Leyen, a “Europa Alemã”, que segundo o malogrado Ulrich Beck resultou da gestão da crise do euro por Angela Merkel, está febril. Para merecer respeito em política é preciso conhecer os seus interesses cruciais. E saber defendê-los. A resposta europeia à invasão russa da Ucrânia foi desmesurada, ignorou completamente interesses e fragilidades, curvando-se num servilismo acrítico perante Biden. A coligação de Berlim destruiu, de um golpe, os alicerces de uma UE liderada pela Alemanha: segurança de abastecimento energético; estabilidade do euro; alguma (frágil) capacidade de manobra dentro da NATO. Sem estratégia e à deriva, os próximos meses dirão até que ponto é que a estrada de autoflagelação europeia terá alguma margem de mitigação.

A política em Portugal isolou-se numa exígua redoma de minudências. Os assuntos na agenda política minguaram. Para além de aceitarmos incondicionalmente a política monetária do BCE, já desistimos também de ponderar nas políticas externa e de defesa.

Estamos a caminhar para uma situação em que a possibilidade de uma guerra nuclear limitada na Europa vai em crescendo. E perante tal enormidade, escutamos o PM e o MNE a repetirem, mecanicamente, os mantras de Josep Borrell e de Jens Stoltenberg. Nem uma hesitação. Nem uma dúvida. Fica-nos como magna questão nacional, a eterna localização do novel aeroporto de Lisboa.

Mesmo sem devastação bélica, a Europa empobrecida talvez acabe até por tornar excessiva a atual capacidade da Portela. As torneiras que a Espanha fechou no Douro, congelando, com aviso prévio, a Convenção de Albufeira, dão-nos uma amostra da abundante solidariedade que nos aguarda num futuro cada vez mais fustigado pela crise ambiental e climática.

Portugal foge da realidade, mas esta nunca se esquecerá de nós.

Professor universitário


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