Tanta verdade junta mereceu publicação – take XVIII

(Por DE, 15/09/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Carlos Matos Gomes ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 15/09/2022)


É um show triste e recorrente das instituições e dos figurantes de Bruxelas. Trata-se de atravancar toda e qualquer informação útil e esclarecedora no nosso espírito. A verdade tornou-se um luxo, um subterfúgio da censura assimilada. Só o show e a encenação, ao gosto e medida dos senhores do mundo, devem chegar ao público. CMG viu bem as cores e os requisitos da rasca apresentação teatral que distorce os nossos sentimentos, emoções, ideias, iludindo assim qualquer entendimento.

O modelo da Vogue, esposa do fantoche americano em Kiev, já precisa de uma mansão de 14 milhões de libras para iludir o tédio com o herói da NATO. Elucidativo. Donde vem o dinheiro do escroque tornou-se irrelevante. A diva casa com um comediante, que até piano tocava com o pénis, agora tem em casa um fantoche murcho. Amor e dinheiro só se dão bem na prostituição. Fez bem a Uschi dos Tanques* em levá-la a Estrasburgo, lá não faltam homens. Pelo menos não fazem figura de parvos com uma t-shirt verde militar.

Discordo de Carlos Matos Gomes ao afirmar que a EU vai pela trela da clique de Washington. A UE já não precisa de trela. Está melhor amestrada que um cão de caça de Carlos III. Já sabe a quem rosnar e ladrar, até os súbditos na Europa já a temem. A Comissão Europeia tornou-se um perigo para os povos europeus. Um assobio ou um olhar de Washington e lá vai ela de rabo levantado injuriar os russos. Cega de submissão nem sequer se apercebe que o bem-estar europeu começa na Rússia.

“Envie essas contas para Moscou, é onde elas pertencem”. A arrogância colonial em grande estilo. Quinhentos anos no self-service, mal o dono da loja surge com a fatura, eis a clique governante histérica, fanfarrona e sobranceira. Terão os povos europeus entendido a mensagem? Terão entendido que a democracia e os direitos humanos, com que estas figurinhas enchem todos os dias a boca nas televisões, não passam de uma farsa, um floreado hipócrita?

Todo o sistema neoliberal é uma falha. Um cadáver em decomposição ao ar livre, a empestar as sociedades humanas. Offshores, corrupção variada e a todos os níveis, sanções ilegais, guerras para alimentar a besta armamentista, saque de bens essenciais para a vida dos povos. No comando das operações, a semear o caos, a clique de Washington; à ilharga, a tropa fandanga de Bruxelas.

Num profundo desconhecimento dos mais comezinhos princípios de uma economia de mercado, querem impor um teto ao preço dos bens que compram. O exemplo da cabeleireira dado por CMG é ilustrativo. Estas figuras ignorantes em Bruxelas tentaram também impor um teto ao preço do gás da Noruega. A resposta do país nórdico foi “putinista”. O jornalismo dos mercados encaixou e engoliu o “putinismo” norueguês. Transpirou alguma coisa? Nada! A Uschi dos Tanques talvez estivesse na modista a ensaiar a sua farda ucraniana para poder fazer o teto ao preço do trabalho da costureira. O jornalismo, à sua volta, em saltinhos elegantes, a bajular. E lá vamos cantando e rindo… Lembram-se?
……..
* Uschi dos Tanques, “Panzer Uschi”, foi o nome dado a Ursula von der Leyen, enquanto ministra da Defesa no governo de Angela Merkel.


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Inquietações existenciais: A guerra financeira contra o ocidente começa a morder

(Por Alastair Crooke, in Resistir, 07/09/2022)

Esta metamorfose pode demorar muito mais tempo – à medida que a Europa se afunda transformando-se numa província distante e atrasada de uma “Roma Imperial” em decadência.


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Desacelerar para chegar ao destino

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 20/08/2022)

Cada vez mais o espaço mediático comum (formal e informal) se transformou num lugar de vertiginosa cacofonia. Depois da aparente quebra do ritmo de vida à escala planetária, durante os primeiros dois anos de pandemia, a velocidade anterior foi retomada com avidez e intensidade redobradas. Nem a guerra que se arrasta perigosamente na Europa, refreou o impulso para retomar a “normalidade” da paixão consumista, enchendo os aeroportos e as superfícies comerciais. Lentamente, vamos todos compreendendo que neste mundo cada vez mais pequeno e interdependente não existe nem rumo, nem caminho comum por deliberação. Vivemos em plenitude na distopia do mercado mundial. Em regime de piloto automático. Os neoliberais só podem estar contentes, pois o mercado triunfante apenas pede aos Estados que não se metam.

A ideia peregrina de que seria possível isolar com sanções países que desempenham funções essenciais na divisão internacional do trabalho, como a Rússia ou a China, sem efeito de ricochete, só poderia acudir às cabeças de governantes tornados ociosos por uma globalização em que a velocidade substitui a ponderação e o fatalismo dos automatismos dispensa decisões e responsabilidades.

Na maioria das pessoas, a capacidade de adaptação tende a ser superior ao poder de resistência. A primeira, pode ser amarga, mas garante a sobrevivência. O segundo, pode ser heroico, mas quando se ergue em ataque frontal contra obstáculos invencíveis, pode levar-nos à morte ou à loucura. O difícil, contudo, é continuar a caminhar, sem nos transformarmos em zombies (sintomática criatura do bestiário imagético contemporâneo). Nunca subestimemos a terapêutica possibilidade de sermos surpreendidos pelo inesperado deslumbramento de uma obra de arte.

Foi isso que experimentei ao visitar no MAAT uma extraordinária instalação vídeo da autoria de Alexandre Farto, um jovem artista português (n. 1987) já de renome internacional, mais conhecido pela assinatura artística “Vhils”. Chegou ao grande público através das suas intensas esculturas em baixo-relevo, em paredes urbanas pelo mundo fora. Este trabalho em vídeo, intitulado Prisma (e acessível até 5 de setembro), abre outras possibilidades de expressão para o seu génio. Resultou de recolhas de imagem realizadas entre 2016 e 2020 nas seguintes grandes urbes: Cidade do México, Cincinnati, Hong Kong, Lisboa, Los Angeles, Macau, Paris, Pequim e Xangai. O produto final traduz-se numa ampla, impressionante e labiríntica instalação, onde a luz provém inteiramente das telas.

O conjunto, permite ao observador uma comovente experiência de imersão nos diferentes segmentos de imagem, que nos interpelam a partir de diferentes ângulos e níveis de altura. São imagens que olhamos e nos olham. Os filmes correm num ritmo de câmara lentíssima, como se existisse uma dimensão intermédia entre o movimento e a absoluta imobilidade. Não é possível fazer uma só passagem. Apetece regressar sucessivamente. Suspender também o nosso tempo. Verificar se aquelas jovens chinesas conseguiram, finalmente, atravessar a passadeira, ou se o trabalhador hispânico, ainda ergue a bandeira de controlo da passagem de peões junto a uma obra. Imagens, quase como prova visível da unidade psicológica da humanidade. Talvez tenhamos mesmo de desacelerar na vida real, a começar pela economia, para evitarmos o precipício para onde a nossa acelerada vertigem nos parece conduzir.


Professor universitário


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