Os novos descontentes com a globalização

(Joseph Stiglitz, in Expresso, 14/08/2016)

Autor

Joseph Stiglitz

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NOVA IORQUE — Há quinze anos, escrevi um livrinho chamado “Os Descontentes com a Globalização”, que descrevia a oposição crescente do mundo em desenvolvimento às reformas globalizantes. Isto parecia um mistério: tinha sido dito às pessoas dos países em desenvolvimento de que a globalização melhoraria o bem-estar global. Então porque é que tantas pessoas se tinham tornado hostis à mesma?

Agora, aos opositores da globalização nos mercados emergentes e nos países em desenvolvimento associaram-se dezenas de milhões, provenientes dos países avançados. As sondagens de opinião, nomeadamente um cuidadoso estudo da autoria de Stanley Greenberg e dos seus associados para o Roosevelt Institute, demonstram que o comércio está entre as maiores fontes de descontentamento para uma grande parte dos americanos. Na Europa, são visíveis opiniões similares.

Como pode algo, que os nossos líderes políticos — e que muitos economistas — disseram que iria melhorar a situação de toda a gente, ser tão odiado?

Uma resposta eventualmente recolhida junto dos economistas neoliberais que defenderam estas políticas é que a situação das pessoas melhorou. O problema é que as pessoas não sabem disso. O seu descontentamento é um assunto para ser tratado por psiquiatras e não por economistas.

Mas os dados sobre o rendimento sugerem que são os neoliberais quem beneficiaria com a terapia. Grandes segmentos da população nos países avançados não têm estado numa boa situação: nos EUA, aos 90% mais pobres foi imposta uma estagnação de rendimentos durante um terço de século. O rendimento mediano para os trabalhadores masculinos a tempo inteiro é na realidade inferior, em termos reais (ajustados pela inflação), do que era há 42 anos. Para os mais pobres, os salários reais são comparáveis ao seu nível de há 60 anos.

Os efeitos dos problemas e da deslocação económica, que muitos Americanos estão a sentir, aparecem até nas estatísticas da saúde. Por exemplo, os economistas Anne Case e Angus Deaton, que foi laureado com o Nobel deste ano, demonstraram que a esperança de vida em determinados segmentos de americanos brancos está a decrescer.

As coisas estão um pouco melhores na Europa; mas só um pouco melhores.

O novo livro de Branko Milanovic, “Desigualdade Global: Uma Nova Abordagem para a Idade da Globalização”, fornece algumas perspetivas indispensáveis, olhando para os grandes vencedores e perdedores em termos de rendimento, durante as duas décadas entre 1988 e 2008. Entre os grandes vencedores, está o 1% global, os plutocratas mundiais, mas também a classe média das novas economias emergentes. Entre os grandes perdedores (aqueles que pouco ou nada ganharam) estão os mais pobres e as classes médias e trabalhadoras dos países avançados. A globalização não é o único motivo, mas é um dos motivos.

Segundo o pressuposto dos mercados perfeitos (que subjaz à maior parte das análises económicas neoliberais), o comércio livre igualiza os salários dos trabalhadores não qualificados de todo o mundo. O comércio de bens torna-se um substituto para o movimento de pessoas. A importação de bens provenientes da China (bens que requerem um grande número de trabalhadores não qualificados para serem produzidos) reduz a procura por trabalhadores não qualificados na Europa e nos EUA.

Esta força é tão potente que, se não existissem custos de transportes, e se os EUA e a Europa não tivessem qualquer outra fonte de vantagem competitiva, como a tecnologia, isto acabaria por ser como se os trabalhadores chineses continuassem a migrar para os EUA e para a Europa até que as diferenças salariais fossem inteiramente eliminadas. Não é de estranhar que os neoliberais nunca tivessem publicitado esta consequência da liberalização do comércio, já que afirmaram (poderíamos dizer que mentiram) que a todos beneficiaria.

A globalização é parte do que está a acontecer; a inovação tecnológica é outra parte. Mas devia ter-nos beneficiado

O falhanço da globalização, quanto ao cumprimento das promessas dos políticos tradicionais, certamente que minou a confiança no “sistema”. E as generosas ofertas de resgates dos governos aos bancos que provocaram a crise financeira de 2008, enquanto os cidadãos normais tiveram em grande parte que se desenvencilhar sozinhos, reforçou a opinião de que este falhanço não teria sido apenas uma mera questão de equívocos económicos.

Nos EUA, os republicanos no Congresso até se opuseram a que fosse dada assistência a quem fora diretamente prejudicado pela globalização. Em termos mais gerais, os neoliberais, aparentemente preocupados com os efeitos adversos dos incentivos, opuseram-se a medidas de assistência que poderiam ter protegido quem perdeu.

Mas não é possível ter tudo ao mesmo tempo: para que a globalização beneficie a maioria dos membros da sociedade, devem ser implementadas fortes medidas de proteção social. Os escandinavos entenderam isto há muito tempo; isto fazia parte do contrato social que mantinha uma sociedade aberta — aberta à globalização e às mudanças tecnológicas. Os neoliberais noutras paragens não o entenderam, e agora, em eleições pelos EUA e pela Europa, estão a ter o que merecem.

Claro que a globalização é apenas uma parte do que está a acontecer; a inovação tecnológica é outra parte. Mas toda esta abertura e disrupção devia ter-nos tornado mais ricos, e os países avançados podiam ter adotado políticas para garantir que os ganhos eram amplamente partilhados.

Em vez disso, insistiram em políticas que reestruturaram os mercados de formas que aumentaram a desigualdade e que prejudicaram o desempenho económico global; o crescimento acabou por abrandar, à medida que as regras do jogo foram reescritas para defender os interesses dos bancos e das empresas (dos ricos e poderosos) à custa de todos os outros. O poder negocial dos trabalhadores foi enfraquecido; nos EUA, pelo menos, as leis da concorrência não acompanharam a evolução; e as leis existentes foram aplicadas de forma inadequada. A “financialização” continuou num ritmo rápido e a gestão empresarial piorou.

Agora, como saliento no meu livro mais recente, “Reescrever as Regras da Economia Americana”, as regras do jogo têm de ser alteradas outra vez, e desta vez devem incluir medidas para domar a globalização. Os dois novos grandes acordos em que o Presidente Barack Obama tem insistido, a Parceria Trans-Pacífica entre os EUA e 11 países da Orla do Pacífico, e a Parceria Trans-Atlântica para o Comércio e Investimento entre a UE e os EUA, são passos na direção errada.

A principal mensagem de “Os Descontentes com a Globalização” era que o problema não residia na globalização, mas na forma como o processo estava a ser gerido. Infelizmente, a gestão não mudou. Quinze anos depois, os novos descontentes vieram recordar a mensagem às economias avançadas.


(Prémio Nobel da Economia, professor universitário na Universidade de Columbia.© Project Syndicate 1995–2014)

A Crise

( HEINER FLASSBECK, in Expresso Diário, 08/08/2016)

BCE

Excelente texto para se perceber os problemas atuais que a União Europeia defronta e para se perceber também a razão porque a Alemanha continua a querer obrigar os restantes países a prosseguirem as políticas austeritárias. Na verdade, só ela ganha mantendo esse cenário à tona de água. (Estátua de Sal).


Pedimos a um especialista alemão que escrevesse sobre o futuro do Deutsche Bank a propósito da sombra que também sobre ele agora cai nesta Europa da crise monetária. Heiner Flassbeck, economista, ex-secretário de Estado das Finanças e ex-conselheiro de Oskar Lafontaine sobre a reforma do Sistema Monetário Europeu, respondeu-nos que o Deutsche Bank é um pormenor num contexto alargado. E contrapropôs este texto longo, técnico, duro e obrigatório que analisa em profundidade a origem da crise do euro e consequentemente da Europa. Flassbeck coloca a Alemanha no coração da origem da crise da moeda única, revela o segredo do crescimento alemão nos últimos 15 anos (“o país tem operado uma política de ‘pedinchar ao vizinho’, mas só de pois de ter ‘pedinchado ao seu próprio povo’ essencialmente através do congelamento dos salários – este é o segredo do sucesso alemão dos últimos 15 anos”) e diz que sem um ajustamento da maior economia europeia o fim da União ganha contornos de possibilidade real. A perspetiva de desintegração e o decorrente colapso da união já não podem ser ignorados, defende Flassbeck.


Os últimos sete anos têm sido um período tumultuoso para a Europa e o desassossego está longe de ter acabado. A crise global que começou em 2007 conduziu a um choque financeiro agudo em 2008-9, o qual inaugurou uma recessão em todo o mundo. A Europa – incluindo a Alemanha – foi atingida em pleno quando o crédito contraiu e o comércio mundial retraiu. A verdadeira crise na Europa, no entanto, começou em 2009-10 quando a recessão induziu o agravamento das finanças públicas, desencadeando uma crise gigantesca na zona euro.

Crise sem fim à vista

Havia poucas dúvidas no início de 2015 de que a crise da União Económica e Monetária Europeia (UEM) não tinha desaparecido. Medidas pouco ortodoxas tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE), em particular a sua promessa de fazer “o que fosse necessário” para estabilizar o sistema monetário em 2012, acalmaram os mercados financeiros e forneceram espaço para que a política económica agisse de forma estabilizadora.

Apesar disso, ao nível das instituições europeias parece estar a crescer a consciência de que são necessárias mudanças radicais para tornar o sistema mais resistente. E até além da obsessão tradicional com os défices fiscais e dívidas dos governos, a adoção de um mecanismo de aviso precoce para lidar com o núcleo do problema foi acionado com bastante rapidez. A introdução de um Procedimento por Desequilíbrios Macroeconómicos, destinado a lidar com os saldos de conta corrente existentes e futuros e orientar os Estados-membros no sentido de um comércio mais equilibrado, significou algum progresso na compreensão de que uma união monetária requer, acima de tudo, coordenação da evolução dos preços e dos salários.

Os princípios monetários nucleares da UEM

Uma união monetária é antes e acima de tudo uma união de países que querem abdicar das suas moedas nacionais com o objetivo de criar uma moeda comum. Abdicar de uma moeda nacional implica renunciar ao direito de as autoridades nacionais imprimirem moedas e notas e, deste modo, implantar dinheiro nacional (dinheiro fiat). Entrar numa união monetária também implica abdicar dos objetivos de inflação nacionais e concordar com uma meta de inflação comum de uma união.

Quais são as maiores determinantes da inflação? A prova mais importante é a correlação alta e estável entre a taxa de crescimento do custo das unidades de trabalho (CUT) e a taxa de inflação. Os custos da unidade de trabalho parecem ser a determinante crucial dos movimentos gerais de preço nas economias nacionais, bem como em grupos de economias. Se a forte correlação entre o CUT e a inflação fosse reconhecida e colocada no coração da análise macroeconómica, tornar-se-ia claro que o principal requisito para unidade monetária de sucesso não seria o controlo sobre os assuntos monetários, mas a gestão das receitas e dos salários nominais. Para ser específico, o objetivo de inflação comum para a UEM foi definido pelo BCE a uma taxa próxima de 2%. Isto implicava que a regra de ouro para o crescimento salarial em cada economia seria a soma do crescimento de produtividade nacional mais 2%. Por esta medida, não ocorreriam as grandes discrepâncias de inflação que levam às discrepâncias de competitividade entre os Estados-membros.

A Alemanha como fonte da crise da zona euro

As preparações para a UEM foram profundamente falhadas porque em vez de se discutirem em detalhe as implicações de uma união monetária e em vez de se criarem as instituições necessárias para gerir com sucesso uma tal união, o debate político e as decisões tomadas nos anos até 1997 – altura em que os critérios para a entrada tinham de estar cumpridos – na realidade focaram-se na política fiscal. Enfatizou-se em particular a limitação dos défices do sector público a 3% do PIB, enquanto a necessidade de evitar os diferenciais de inflação e garantir a capacidade de os Estados-membros cumprirem ao longo do tempo os objetivos comuns de inflação foram olhados como questões muito menos importantes para o suave funcionamento da UEM.

“Ninguém melhor que um alemão”

Entrevistámos o economista norueguês Erik Reinert (ler AQUI) a propósito de um curso que deu na universidade de verão do ISEG. A dada altura, explicando a essência da crise financeira europeia, largou a frase que escolheríamos para título: “Só a Alemanha lucra com o euro”. E disse que os media alemães não escrevem sobre o tema. “Aliás”, sublinhou, “só há um alemão que o assume, o economista Heiner Flassbeck”. Fomos procurá-lo para que escrevesse um artigo para o Expresso. Quando contámos a Reinert que Flassbeck tinha aceitado o nosso pedido, ele confessou: “Ainda bem que o apanharam, ninguém melhor que um alemão para o dizer”

A Alemanha, com a sua intolerância absoluta a que a inflação excedesse os 2% e a sua tradição monetarista dogmática, silenciou qualquer outro ponto de vista sobre a inflação. No entanto, a Alemanha, o maior país da União Europeia e o bastião da estabilidade de várias décadas, decidiu experimentar um novo modo de combater o seu alto nível de desemprego. Em conjunto com os empregadores, o Governo pressionou os sindicatos para tentar restringir o crescimento nominal e real dos salários.

Diferenças sensíveis

A nova abordagem alemã ao mercado de trabalho coincidiu com a introdução formal da união monetária, o que levou consequentemente a enormes divergências nos custos nominais de unidades de trabalho entre os membros da UEM. A principal causa destas divergências foi o simples facto de os custos nominais das unidades de trabalho, a mais importante determinante de preços e competitividade, se terem mantido essencialmente sem oscilações desde o início da UEM. Em contraste, a maioria dos países da Europa da Sul tinha um crescimento nominal dos salários que excedia o crescimento da produtividade nacional mais o objetivo de inflação acordado em comum de 2% por uma margem baixa, mas bastante estável. França foi o único país que cumpriu exatamente o objetivo de crescimento nominal dos salários. Os salários franceses subiram em paralelo com a performance da produtividade mais o objetivo de inflação do BCE a uma taxa perto de 2%.

Embora a divergência anual entre os aumentos nos custos de unidades de trabalho fosse relativamente pequena, a dinâmica dessa “pequena” divergência anual é capaz de, com o tempo, produzir diferenças enormes. No final da primeira década de UEM, o custo e diferença de preço entre a Alemanha e a Europa do Sul chegava aos 25% e entre a Alemanha e França chegava aos 15%. Por outras palavras, a taxa de câmbio real da Alemanha tinha baixado muito significativamente, embora as moedas nacionais já não existissem na UEM. A divergência no crescimento dos custos das unidades de trabalho já não existiam no seio da UEM. A divergência no crescimento dos custos das unidades era naturalmente refletida nas divergências de preço equivalentes. Assim, a UEM como um todo alcançou quase na perfeição o objetivo de inflação de 2%, mas as diferenças de inflação nacionais no seio da união foram muito sensíveis.

É inegável que a depreciação real que aconteceu na Alemanha teve um enorme impacto nos fluxos de comércio. Com os custos de unidades de trabalho na Alemanha mais baixos relativamente aos dos outros países por uma margem crescente, as exportações alemãs floresceram enquanto as importações abrandaram. Os países na Europa do Sul e também França e Itália começaram a registar défices comerciais e de conta corrente crescentes e sofreram enormes perdas nas suas quotas dos mercados internacionais. A Alemanha, ao contrário, conseguiu preservar a sua quota apesar da competição global crescente com a China e com outros mercados emergentes. Num casulo, a Alemanha tem operado uma política de “pedinchar ao vizinho”, mas só de pois de ter “pedinchado ao seu próprio povo” essencialmente através do congelamento dos salários. Este é o segredo do sucesso alemão dos últimos 15 anos.

O comércio dentro da Europa tinha sido bastante equilibrado até ao início da união monetária e ao longo de muitos anos antes disso. A UEM marcou o início de um período de desequilíbrios rapidamente crescentes. Até após o choque da crise financeira e dos seus devastadores efeitos no comércio mundial, que são claramente visíveis no equilíbrio alemão, a tendência de fundo manteve-se sem mudar. A conta-corrente alemã continuou a aumentar depois de 2010 e até alcançou um novo recorde em 2015, da ordem dos 250 mil milhões de euros, um valor próximo de 9% do PIB.

A Alemanha tem de se ajustar

Num mundo de taxas cambiais flutuantes ou ajustáveis, nenhum país pode ganhar uma vantagem permanente relativamente a outro país se este último tivesse a opção de ajustar as suas taxas cambiais de acordo com os diferenciais da inflação. Isto significa que seriam inúteis todas as tentativas para melhorar a competitividade por via de corte ou moderação de salários na UEM como um todo. E, no entanto, esta foi precisamente a abordagem escolhida pela Europa como saída para a crise. Foi também uma má opção porque o corte salarial na maioria dos países devedores conduziu a quebras severas na procura doméstica, que é mais importante do que a procura externa. A restrição dos salários foi contraproducente em economias com uma taxa de exportação do PIB muito inferior a 50%.

Numa união monetária, um país com uma taxa de exportação baixa que enfrente problemas de défice de conta-corrente muito alto devido a uma moeda implicitamente sobrevalorizada fica sem saída. O ajuste dos salários para baixo, por vezes erroneamente chamados “desvalorização interna”, não só não é solução como também destrói tanto a procura interna como a produção antes que venha a trazer algum alívio através de aumento das exportações.

É por isto que o processo de ajustamento no seio da UEM tem de ser pelo menos simétrico. Significa que o país que tenha implicitamente desvalorizado a sua taxa cambial – a Alemanha – teria de fazer um forte esforço de ajuste crescente, isto é, aumento de salários, enquanto outros países teriam de ajustar lentamente para baixo.

O incentivo mais fiável para o sucesso dos esforços de ajustamento em ambos os casos seria de novo o objetivo de inflação. Se o objetivo de inflação comum não fosse questionado, para restaurar a competitividade internacional dos défices dos países seria necessário aumentar os custos das unidades de trabalho e inflação no país com excedente ao ponto de se conseguir alcançar o balanço externo em ambos os lados da união monetária (incluindo os primeiros dez anos).

UEM dirige-se para o desastre

Em meados de 2016, o desemprego na UE continuava nos 10%. Em Espanha e na Grécia, o desemprego estava acima dos 20% e o desemprego jovem era superior a uns extraordinários 50%. Mais do que qualquer outra coisa, estes números mostram o insucesso da UE na luta contra este problema que emergiu como a “crise da zona euro”. Enquanto a queda significativa de crescimento e emprego foi inicialmente provocada pela crise global de 2007-9, após 2010 as nações devedoras da UEM ficaram privadas de meios para combater a recessão e foram forçadas a adotar políticas pró-cíclicas numa escala que não se via desde os anos 30.

O mantra alemão que diz “a austeridade é a única solução” foi aplicado a todos os países, que foram forçados a pedir ajuda quando acabou o seu acesso aos mercados globais, ou quando ele lhes foi vedado de facto pelas altíssimas taxas de juro. A obsessão com os aparentes problemas fiscais dominou o debate e as condições que foram exigidas pela troika e pelo Eurogrupo para abrir os cofres das nações credoras concentrou-se na consolidação a qualquer preço e o mais rápido possível dos orçamentos públicos dos países do défice.

As divergências acumuladas durante os primeiros anos da UEM e a terrível natureza dos programas de ajustamento puseram em questão a própria sobrevivência da UE.

Com a persistência do domínio alemão dos mercados de exportação e dada a recusa alemã de ajustar o seu próprio modelo económico, o futuro da zona euro parece sombrio. A falta de instrumentos de política para atacar a recessão, o condicionamento dos programas de ajustamento impostos às economias em crise, o próprio ajustamento “estrutural” disfuncional e a perspetiva de deflação continuada aumentaram os custos de permanecer na UEM ao ponto de a subida política da direita ameaçarem a democracia e a União Europeia. O insucesso na descida das taxas de desemprego e a crescente pobreza abriu caminho aos partidos de direita populistas e antieuropeus, tanto nos países credores como nos devedores. Contra esse perigo, os benefícios de ser membro da UEM são pequenos e, mais importante ainda, estão a diminuir depressa.

Em resumo, as divergências acumuladas durante os primeiros anos da UEM e a terrível natureza dos programas de ajustamento puseram em questão a própria sobrevivência da UE. E, no entanto, os líderes europeus parecem alheios a isso. Parecem ainda menos disponíveis para empreenderem um esforço político para inverter a economia em geral e impedir as divergências crescentes no seio da UEM. A perspetiva de desintegração e o decorrente colapso da união já não podem ser ignorados.


Terna é a noite

(Por Júlio Gomes, 24/06/2016)

exit

Resolvi dar a este texto o título de um conhecido romance de F. Scott Fitzgerald apesar de não ir tratar problemas de conjugalidade doentia, alcoolismo ou esquizofrenia. Contudo, depois de refletir um pouco mais, cheguei à conclusão que os temas estão mais próximos do que se poderia julgar.

 Estive pela noite dentro a seguir os desenvolvimentos do resultado da votação do referendo na Inglaterra. Brexit or not Brexit that was the question. Não me custou nada, pois, e faço já a minha declaração de interesses, sou um inveterado noctívago.

Foi curioso observar como à medida que o tempo passava e os votos iam sendo contados, a nuvem diáfana de fantasia com que a comunicação social embala as almas para que sorvam as narrativas mais convenientes, se foi esboroando. Com base numa sondagem, feita pela internet, divulgada 10 minutos após o fecho das urnas e que dava 52% aos defensores do remain contra 48% dos defensores do leave, os comentadores e políticos de serviço deram o facto por adquirido e foram descansar tranquilos.

As televisões deixaram de seguir os resultados. Nem o Rogeiro, nem o Rodrigues dos Santos em directo de Londres, nada. Achei estranho e fiz o chamado raciocínio abdutivo, na senda do frade Guilherme de Baskerville, essa sedutora personagem de O Nome da Rosa: se o Brexit não é notícia para os canais que incensam o status quo, só pode ser porque os resultados do referendo não lhes devem ser favoráveis. E assim era.

A partir da 1h da manhã mudei de armas e bagagens para a CNN e para a SKY NEWS, canais para os quais o referendo só saía da grelha para cumprir breves compromissos publicitários. E a partir dessa hora o leave tomou a dianteira sendo apenas ligeiramente ultrapassado aquando da saída dos resultados da Escócia que, como se sabe, é declaradamente europeísta.

Pelas quatro da manhã, o leave liderava com 52%, uma empresa de sondagens colocava em 80% a probabilidade de vencer, os mercados agitavam-se e a libra ia caindo ao segundo na cotação contra o dólar, sendo a queda, a essa hora de 10,47%. De vez em quando dava um pulo à SIC Notícias e à TVI 24 e foi delicioso rever partes da Quadratura do Círculo e da Prova dos Nove, analisando o que os comentadores da direita (Paulo Rangel e Lobo Xavier) tinham dito horas antes, dando como certo que a Inglaterra se iria manter na União Europeia e aduzindo grandes argumentos de autoridade opinativa sobre a racionalidade pragmática do povo inglês! Deu-me vontade de rir.

Às cinco da manhã, a CNN dava já a probabilidade de 85% para a vitória do leave. A libra já caía 11,7% contra o dólar, e a CNN começou a ouvir analistas que pudessem explicar o fenómeno da vitória do leave, tendo em conta que, perante tantos inconvenientes que foram apontados ao Brexit, ameaças dos políticos, das grandes empresas, da Comissão Europeia, do Obama, como é que mesmo assim o povo inglês tinha escolhido dessa forma.

Nenhum conseguiu dar uma explicação convincente. Todos continuaram a considerar o resultado como uma espécie de zombie e tsunami político. Interessará perceber porquê. É essa parte que passarei a abordar.

As razões que levaram os ingleses a querer sair da União Europeia só podem ser entendidas à luz da perceção de que o projeto da Europa comum está morto e, portanto, abandonar um defunto à sua sorte não é um ato de desumanidade, nem de falta de solidariedade, mas sim uma decisão racional de luta pela sobrevivência.

 O projeto europeu, tal como existe hoje, não é mais que uma espécie de ressurreição do pangermanismo dos finais do século XIX, alargado a todos os povos da Europa, desta vez os povos germânicos e não germânicos. Ora, a Inglaterra, que travou e liderou duas Guerras Mundiais contra a Alemanha, não poderia continuar dentro de uma nau cujo porto de destino, é seguramente, a conquista pela via económica de todos os países da Europa pelos desígnios expansionistas da Alemanha. Primeiro serão os da zona Euro, os restantes, seguir-se-ão pela lógica normal das leis da economia. Não é preciso balas e muito menos tanques.

A vantagem da Inglaterra é ser uma Nação antiga, de ancestrais e entranhadas práticas democráticas e parlamentares, um povo antigo possuidor de um espírito de insularidade orgulhoso, senhorial porque imperial durante séculos. Só à luz dessa matriz de leitura se pode compreender a escolha do povo inglês.

Mas a União Europeia, e os fazedores de opinião mainstream, teimaram em menosprezar e ignorar essa grelha de leitura, provavelmente por incapacidade de perceber a História e de saírem do quadro mental restrito em que navegam o qual reduz todas as explicações para as decisões humanas a meros exercícios contabilísticos de deve e haver. Uma espécie de reducionismo da racionalidade humana a um mosaico a ser modelado por um qualquer sistema de equações, lineares ou não, pouco importa. É por isso que toda a problemática europeia do momento se limita a saber quem paga o quê, quem recebe o quê, quanto custa o quê: o economicismo no seu pior. As questões sociais, mais que esquecidas, são hoje atacadas em nome dos deficits de décimas. As gerações novas são sacrificadas e deixaram de ter futuro à vista e sem projeto ficam reféns de perigosas e fanáticas narrativas. E quando os jovens deixam de ter futuro são as Nações que deixam de ter devir e desígnio e acabam por morrer.

Claro que a economia é importante. Mas quando os fins da economia deixam de ser os seus agentes (sejam trabalhadores ou não), e passam a ser um obscuro projeto de dominação a prazo de um país sobre outros, sacrificando a forma como a humanidade e a liberdade dos cidadãos é ou não respeitada, seja no quadro alargado da vida, seja apenas no quadro da produção económica, claro que a própria produção económica entra em declínio, os extremismos ressurgem, as tensões de todo o tipo emergem, e as surpresas aparecem.

A saída da Inglaterra da União Europeia pode ser o choque com a realidade necessário para poder servir de detonador à reflexão dos restantes povos da Europa, quanto à necessidade questionar profundamente o que é hoje a União Europeia e o que tem para oferecer aos cidadãos. Pelos vistos, pouco ou nada tem para oferecer, já que nada conseguiu oferecer ao povo inglês que o levasse a permanecer, a não ser ameaças, medos e chantagens.

Voltando ao princípio e ao tema do romance de F. Scott Fitzgerald e explicando as similitudes metafóricas com o que ocorreu hoje. De facto, a vitória do Brexit, veio pôr a nu a conjugalidade doentia, que está a afetar o relacionamento dos países dentro da União Europeia, tal como algumas declarações de responsáveis europeus (nomeadamente do inefável Juncker) só podem ser explicadas como lapsos derivados de alcoolismo latente, sendo a obstinação dos responsáveis políticos da Europa em prosseguir o projeto europeu nos moldes atuais um ato de pura esquizofrenia.

Só espero que os políticos, as manobras de bastidores, as forças da City de Londres, não venham agora tentar nos detalhes das negociações, que irão ser complexas, demoradas e sobretudo inéditas porque se trata de um território jurídico nunca antes desbravado, tentar subverter a decisão que o povo inglês, soberanamente tomou.

Porque não é a Inglaterra e o seu povo que deve ser censurada pela sua opção.

Parafraseando Shakespeare, esse inglês de exceção, poder-se-á dizer, não que algo está mal no reino da Dinamarca, mas sim que algo está mal no reino da União Europeia.