No momento em que escrevo, são 22h15, hora do leste dos Estados Unidos. A guerra na Europa terminou oficialmente às 23:01 horas, hora da Europa Central, do dia 8 de maio de 1945. Em Moscovo, eram 00:01 horas, do dia 9 de maio de 1945. É por isso que os russos comemoram o dia 9 de maio, enquanto o Ocidente comemora o fim da guerra no dia 8 de maio.
Se perdeu o meu artigo, publicado na semana passada, “A grotesca mentira de Donald Trump sobre o papel dos EUA no teatro europeu na Segunda Guerra Mundial”, deixo aqui o link do artigo para sua conveniência. Dentro de poucas horas, mais de 100 milhões de russos vão reunir-se e marchar em memória dos seus antepassados que fizeram sacrifícios inimagináveis para derrotar o regime nazi de Hitler. Como observei no meu artigo (ver acima), os nazis, juntamente com os seus colaboradores romenos, italianos e húngaros, assassinaram entre 16 milhões e 19 milhões de civis russos.
Apenas um outro país sofreu baixas civis comparáveis… a China. De acordo com fontes académicas, cerca de 12 milhões de civis chineses morreram em resultado de ações militares japonesas, políticas de ocupação, massacres e fome e doenças induzidas pela guerra entre 1937 e 1945. Algumas fontes sugerem que o número total de mortes de chineses (incluindo civis e militares) pode chegar aos 20 milhões, sendo a grande maioria civis. Só o Massacre de Nanquim resultou na morte de pelo menos 100.000 a mais de 200.000 civis chineses e soldados desarmados em apenas algumas semanas, no final de 1937 e início de 1938.
Esta é uma das razões pelas quais o líder chinês, Xi Jinping, está em Moscovo. Tanto Putin como Xi compreendem que os invasores estrangeiros deixaram uma cicatriz permanente na psique cultural do povo russo e chinês… uma cicatriz que não é rapidamente apagada com o passar do tempo.
Nos EUA, a grande maioria das pessoas esqueceu o sacrifício que 189.577 soldados, aviadores e marinheiros americanos pagaram com sangue em batalhas no Norte de África, em Itália e no resto do teatro de operações europeu. Alguns preocupam-se, mas a maioria dos americanos não sabe de nada e continuou com as suas actividades normais hoje sem parar para reflectir sobre o fim da guerra na Europa. Se Donald Trump estivesse a falar a sério sobre honrar o sacrifício deles, deveria ter declarado o dia 8 de maio como feriado federal e ter realizado cerimónias no memorial da Segunda Guerra Mundial e no Cemitério de Arlington… Não fez nenhuma das duas coisas.
Gostaria de fazer uma pergunta aos meus concidadãos americanos, mas primeiro deixem-me definir os parâmetros. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a população dos Estados Unidos era de aproximadamente 130 milhões de pessoas. A título de comparação, a população da Rússia e da Ucrânia (onde se deu a maior parte das batalhas com os nazis) era de 150 milhões (110 milhões de russos e 40 milhões de ucranianos). Então eis a questão… Como teriam reagido os americanos depois de perderem 20% da sua população numa guerra com a Alemanha, e com os nossos aliados russos a iniciarem um programa no final dessa guerra que recrutou e contratou oficiais alemães como activos de inteligência? Isso irritar-los-ia? Isso fá-los-ia questionar as intenções da Rússia em relação à segurança nacional dos EUA?
Vista deste ângulo, temos uma perspectiva totalmente nova sobre o início da Guerra Fria. Porque foi isso mesmo que os Estados Unidos fizeram por cortesia da Operação Paperclip. A Operação Paperclip foi um programa secreto de inteligência dos EUA lançado em 1945 para recrutar cientistas, engenheiros e técnicos alemães — muitos dos quais trabalharam para a Alemanha nazi — e trazê-los para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Mas fizemos mais do que isso. A OSS, mais tarde substituída pela CIA, recrutou e geriu uma horda de antigos oficiais das SS especificamente pela sua experiência de espionagem da União Soviética.
Enquanto o povo russo se reúne a 9 de maio para recordar o enorme sacrifício dos seus pais, mães, avôs, avós e bisavós, recordam também que os Estados Unidos, apesar de serem aliados na guerra para acabar com Hitler, rapidamente mudaram de posição após a guerra e começaram a atacar a União Soviética. Eles lembram-se, nós não.
As palavras de Putin durante as comemorações do 9 de Maio, evocando a Rússia como “barreira impenetrável” contra o nazismo, a russofobia e o antissemitismo, devem ser lidas com o peso da História e não com a ligeireza seletiva que hoje domina muitos discursos políticos no Ocidente. A verdade é que, por mais que se tente obscurecer ou relativizar, a Rússia – especialmente o povo russo e os povos eslavos em geral – suportaram o fardo mais pesado da guerra contra o nazismo, tanto em perdas humanas como em resistência moral e militar.
Com o colapso da URSS, a Rússia iniciou um percurso ambíguo, sim, mas voltado para uma maior integração com a Europa e para o comércio internacional. No entanto, nunca abdicou da defesa da sua identidade histórica, marcada por resistências sucessivas às invasões napoleónicas, ao delírio expansionista do Kaiser, à brutalidade do Terceiro Reich e, mais recentemente, às tentativas de contenção e cerco geopolítico por parte da NATO. Essa resiliência não pode ser ignorada. Ela assenta em séculos de sofrimento e resistência, e é por isso que a memória da Grande Guerra Patriótica ainda molda o imaginário coletivo russo – com razão.
Putin relembra ao mundo, com firmeza, que a luta contra o fascismo e o ódio é uma tarefa permanente. Quando menciona a operação militar contra o regime de Kiev como continuação desse combate, podemos e devemos discutir os métodos e as consequências, mas não podemos ignorar a realidade complexa que se vive na Ucrânia, onde símbolos e figuras do colaboracionismo nazi, como Stepan Bandera, são ainda hoje reabilitados e celebrados em segmentos do Estado e das Forças Armadas. É um facto incómodo, mas real.
Neste contexto, é legítimo afirmar que a Rússia, com as suas contradições, continua a desempenhar um papel de resistência – não apenas militar, mas simbólica – contra o ressurgimento da extrema-direita europeia. Enquanto muitas democracias ocidentais se mostram complacentes, ou mesmo cúmplices, com o avanço de partidos abertamente xenófobos e revisionistas, Moscovo continua a assinalar com clareza e solenidade a vitória sobre o fascismo como um valor fundador da sua identidade nacional.
Este 9 de Maio deve, portanto, servir não só para lembrar os horrores do passado, mas também para refletir sobre o presente. Que lição retiram hoje os países da União Europeia da memória da Segunda Guerra Mundial?
Quando os valores democráticos são usados como fachada para tolerar – ou mesmo legitimar – o avanço de ideias que os negam, algo está profundamente errado. Nesse contraste, a firmeza russa, por mais criticada que seja no plano diplomático, emerge como um lembrete incómodo: a memória histórica não pode ser seletiva, e a luta contra o fascismo não pode ser apenas retórica.
Não é apenas ingratidão… Antes fosse! São muito mais profundas as causas efectivas do desprezo, incompreensão, rejeição e repugnância, manifestadas pelas elites políticas de EUA e EU, em relação às comemorações do dia da Vitória, o dia em que a URSS colocou um fim a um dos mais hediondos regimes saídos das entranhas da história humana e, seguramente, um testemunho do expoente máximo a que pode chegar a brutalidade ocidental, alimentada pelas raízes económico-sociais fundadoras do capitalismo e do imperialismo.
Daí que o Dia da Vitória também se devesse designar de “Dia da Vergonha”, o dia em que um estado anti-imperialista, anticolonialista, atacado na sua essência mais profunda com a mais agressiva das armas que o capitalismo ocidental é capaz de produzir – o terror nazifascista -, perdeu 27 milhões dos seus melhores filhos e filhas, para nos salvar a todos de um problema para o qual não contribuiu minimamente. A vergonha ocidental não acaba nos crimes que cometeu contra a Humanidade; a Rússia obriga o Ocidente a viver e reviver anualmente o reconhecimento de que também ele foi salvo, de si próprio, pela vítima das suas agressões.
Esta dualidade explicará muito do ressentimento publicamente demonstrado, da vergonha escondida de uns e da angústia de outros, em relação à história da Segunda Guerra Mundial. Como é que o regime mais odiado, diabolizado e vilipendiado pela mais avançada forma de capitalismo, o capitalismo ocidental – o que se percebe – foi também o que mais contribuiu para o combate, contra uma força opressora produzida no seio dos regimes – ocidentais – que se apresentavam como “moderados, democráticos, civilizados”?
Não deixará de constituir uma ironia histórica que a Humanidade se tenha sentido tão ameaçada por um dos produtos mais emblemáticos do fanatismo ocidental e que, ao mesmo tempo, essa Humanidade tenha sido salva por um regime que, esse mesmo Ocidente, dizia querer destruí-la. É a história do diabólico criminoso que, afinal, se torna no mais abnegado e altruísta dos salvadores. É a epítome perfeita do ditado que diz “a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima”. Como é que o maior criminoso de todos – o mais vilipendiado dos regimes – foi capaz de tão enorme altruísmo, não se limitando a expulsar o agressor da sua casa, mas indo ao limite das suas forças para definitivamente o derrotar? E como é que o mais bondoso e humano dos regimes, foi capaz de produzir, apoiar e alimentar tão hediondo ser, mostrando-se não apenas incapaz de o destruir sozinho, como tendo de assistir à sua destruição por aqueles de quem dizia nada de bom ser possível?
Como pode conviver a Alemanha actual, governada pelos descendentes daqueles que compunham as garras do monstro nazi, com traumas como os que somos forçados a assistir, quando nos deparamos com imagens dantescas de ossadas humanas empilhadas, dessecadas e despidas de toda e qualquer dignidade? Imagens que hoje nos vêm parar às nossas TV’s, passadas em Gaza, e as quais o ocidente, todo o ocidente, varre para debaixo do tapete que esconde os seus inúmeros e históricos crimes?
Como gostariam – os que apoiam a segunda iteração do 3.º Reich, revivida a partir dos despojos históricos da 14ª Divisão da Galícia e preservados em algumas das mais privilegiadas e “civilizadas” metrópoles da grande civilização liberal -, de apagar da história os retratos vívidos que deveriam suscitar outra coisa que não fosse a sua imensa vergonha e constrição, tal como fazem em relação aos mortos do Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria ou à reprodução ao vivo e a cores, do terror nazi no século XXI, desta feita perpetrado por quem se sabe ser a vítima do primeiro!
Pessoas depositam coroas de flores sobre os restos mortais dos torturados no campo de extermínio de Majdanek. Ano de 1945. Temin Viktor Antonovich. https://russiainphoto.ru/exhibitions/1042/#5
Habituados a escolher os seus heróis e a esconder, quando não sob a luz da recuperação providenciada pelo infame revisionismo histórico, os seus próprios demónios, a Europa ocidental, ventre fértil do fascismo da primeira metade do século XX, criado e crescido sob os auspícios da elite anglo-saxónica mais proeminente e alimentado pela mais orgulhosa prole estado-unidense, é obrigada a conviver com quem não lhe deixa esconder os seus crimes, a sua imensa culpa.
Afinal, quando considerado apenas o peso demográfico das mortes soviéticas na Segunda Guerra Mundial, estima-se que este país tenha perdido cerca de 26,6 a 27 milhões de pessoas durante a guerra, o que representava aproximadamente 13,7% da sua população em 1940. Tais perdas englobaram tanto militares quanto civis, sendo que cerca de 8,7 milhões eram soldados mortos em combate, enquanto o restante se deveu a massacres, fome, doenças, trabalho forçado e outras consequências diretas do conflito, ou seja, na sua maioria civis inocentes, como os que hoje morrem em Gaza, às mãos dos que são acerrimamente defendidos pelos netos dos que praticaram tão vil terror contra a URSS.
Talvez a forma seja mesmo essa. Com 13,7% da população perdida, não deve ser difícil a alguém imaginar que não existia um único cidadão soviético, um único cidadão ex-soviético e, mais certamente ainda, nenhum russo ou bielorrusso, que não tenha gravado na sua estrutura mental, familiar, social, carnal, o peso do drama que viu o seu ponto final no dia 9 de Maio de 1945. Nenhum. E se alguém tiver dificuldade em visualizar o que foi tamanha destruição e mortandade, não precisará de ir muito longe no tempo. Uma vez mais, qualquer um de nós voltou a ter hoje o negro privilégio de vivenciar e assistir, desta feita ao vivo e a cores, em uma pequena amostra territorial, do que há-de ter sido o dano infringido pelo terror nazi à então URSS. Com as suas quase 100.000 mortes e outros tantos desaparecidos, cerca de 10% a 15% da população de Gaza já terá sido dizimada pelo exército sionista. Alguém pode pedir a um cidadão de Gaza que não sinta tão grande tragédia? Para quem tiver dificuldade em perceber o que custou o terror nazi ao povo russo e soviético, que ligue a TV!
O problema é que o terror nazi, filho predilecto do fascismo, irmão do sionismo, como muito bem provaram Cinthya Chung e Mathew Heret nos seus profundíssimos trabalhos sobre o tema, versões de uma opressão engendrada nos clubes selectos de Londres e nas caves obscuras dos Sirs ingleses, foi apenas um capítulo – o mais horrendo – do sofrimento com que o bloco imperialista ocidental quis punir um povo que teve a veleidade de produzir algo tão grandioso como a Revolução Russa e não se contentar com ela, mas levar avante as mais profundas transformações sociais que o mundo viu, em tão pequeno espaço temporal.
Por terem tido a veleidade de desafiar o imperialismo ocidental que amordaçava e manietava a Rússia pré-revolucionária, os povos russo e soviético foram obrigados a conviver com invasões sucessivas do seu território perpetradas por 14 potências imperialistas (1917-1922). Tendo sobrevivido a essa ameaça mortal e a todas as que se lhe seguiram, mascaradas sob muitas formas, a ameaça nazifascista foi a que lhe foi preparada com mais afinco.
O ódio, a raiva, a arbitrariedade, discricionariedade e a violenta voluptuosidade com que o exército nazi “premiou” a população soviética só pode ser entendida à luz da frustração e humilhação com que o Ocidente foi obrigado a alimentar o monstro nazi, para então o atirar à jovem pátria soviética. A ameaça de perda de um prémio apetecido, foi transformada num ódio tão profundo como o que hoje tenta isolar a Federação Russa e classificar o seu líder – Vladimir Putin – como o mais sanguinário tirano da História humana. O Nazismo, como o Banderismo, são ambos filhos dessa ganância, são ambos filhos desse ódio.
Daí que seja tão injuriosa como justificada a sanha raivosa com que o Ocidente, através dos olhos de figuras acéfalas, olha para as solenes comemorações do Dia da Vitória. A Federação Russa, ano após ano, impede o Ocidente de esquecer o mal que lhe fez, o mal que fez ao mundo e à Humanidade. Com essa lembrança, a Federação Russa, âncora actual desse combate ancestral contra a tirania imperialista, por mais que também a classifiquem como tal, lembra também ao Ocidente o seu caracter eminentemente criminoso.
Quando a repetição histórica é uma característica dos crimes ocidentais (pilhagem, escravatura, guerras mundiais, sanções, embargos, guerras por procuração, revoluções coloridas, destruição de países), tal significa que o crime não é um acidente na História do Ocidente dominado pela cultura anglo-saxónica. É uma característica que lhe é inerente e que deve ser relembrada.
Ao observamos as ameaças de Zelensky a quem participa nas comemorações do Dia da Vitória, as ameaças de punição de Kaja Kallas para os líderes de países candidatos à adesão à UE que participem nas comemorações de Moscovo, verificamos que esta Europa quer esquecer-se dos seus crimes, quer apagar os factos, a História, que tão grande embaraço lhe causa. É interessante sentir que Ursula Von Der Leyen e companhia, quando confrontados com tão significativa data, se comportam como alguém que, lembrado das suas vergonhosas raízes, ao invés de se mostrar humilde e merecedor de perdão, tenta libertar-se delas, da pior das formas possíveis: através do esquecimento alheio e do ataque às vítimas!
Mas como fazê-lo quando quem lho lembra é, de todos os países europeus, não apenas o maior, mais rico e poderoso, como o que mais sofreu com a ofensa? Como resistir – e combater – um oponente que reiteradamente faz questão, não apenas dignificar os seus mártires e respectivos descendentes, como de mostrar a todos, aos sete ventos e aos cinco continentes, a conduta vergonhosa a que o Ocidente oligárquico, capitalista, neoliberal, é capaz de chegar quando se trata de defender os seus ilegítimos interesses?
E como poderia a Rússia esquecer-se de tal ofensa? Apenas e só a União Soviética foi responsável por mais da metade de todas as mortes ocorridas na Segunda Guerra Mundial, que totalizaram cerca de 50 milhões globalmente. A Rússia, só por si, terá ficado com mais de 1/3 à sua conta. Como poderia a Bielorússia não participar no Dia da Vitória quando perdeu cerca de 25,3% de sua população?
Exemplo do infame esquecimento que a EU e EUA querem imprimir sobre o passado é o da Ucrânia. Tendo perdido cerca de 16,3% da sua população, este país que não existiria sem a URSS, é hoje usado num duplo sentido. Por um lado, alvo de traição pelas suas elites oligárquicas, volta a ser armado e fanatizado, tal como o havia sido a Alemanha nazi, para ser atirado à Federação Russa. Pegando nos resquícios históricos do colaboracionismo nazi, o mesmo que alimenta a loucura nazifascista que reemerge na Polónia, Estónia, Lituânia, Finlândia, Letónia e na própria Alemanha, os EUA, auxiliados pela sempre solícita UE, não apenas recriaram o ambiente bandeirista da Segunda Guerra Mundial, como transmitiram o vírus a uma parte importante da população ucraniana e, mais grave ainda, a toda a UE.
Na Ucrânia actual assistimos a tudo o que a UE gostaria de fazer à Rússia, quando lhe jogasse a mão: proibir-lhe os partidos patrióticos, como fez o Banderismo na Ucrânia, encerrar-lhe os órgãos de comunicação social e perseguir-lhe a língua, religião e cultura, como fizeram a Ucrânia bandeirista e a UE de Von Der Leyen.
A Ucrânia é hoje também o laboratório vivo do processo de revisionismo e reescrita histórica. As vítimas passaram a agressores e os agressores a heróis. Estátuas de criminosos de guerra e genocidas, inclusive de ucranianos e judeus, passaram a erguer-se no país. Símbolos nazis foram gravados a letras de ouro à vista de todos, perante o total acriticismo ocidental. A Alemanha que pune criminalmente a utilização de símbolos nazis, esquece-se do seu vergonhoso passado quando vai a Kiev. Em Kiev, ao invés de responsabilizada e relembrada dos crimes cometidos, para que nunca mais se cometam, ao invés, é idolatrada e a sua história recuperada.
O mecanismo é simples e foi usado de forma muito repetida. Primeira compara-se o nazi-fascismo ao comunismo e, diabolizando o segundo, normaliza-se o primeiro; depois, compara-se a URSS à Alemanha nazi e, diabolizando a primeira, recupera-se a segunda. A partir de então fica a via aberta para a reescrita da História e para o esquecimento colectivo do passado.
O sistema está tão aperfeiçoado que já não é apenas na Ucrânia que se esquecem os crimes que a própria sofreu às mãos do imperialismo ocidental. É no próprio Japão, país vítima de duas bombas atómicas ali lançadas pelos EUA, de duas tecnologias diferentes, para que não restassem dúvidas sobre a que melhor cumpriria os desígnios belicistas a partir de então prosseguidos. Neste Japão esquecido do seu passado, da sua história, do seu sofrimento, o Primeiro-ministro é capaz de falar uma hora sobre Hiroshima e Nagasaki, sem nunca falar de quem lançou tais bombas e, no final, falar apenas de quem as não lançou: a Rússia.
Se dúvidas houvessem sobre a eficácia de tal método, vejamos como a UE apaga hoje Gaza da sua memória, quando Von Der Leyen se oferece para ajudar Israel a apagar fogos que, segundo consta, os próprios colonos que ocupam à força território palestino, fizeram propagar. Veja-se como uma alemã de gema, que apoia a mais vil renascença histórica do nazismo na Ucrânia, se mostra tão solícita a “ajudar” um povo que foi uma das principais vítimas da ideologia que ela hoje apoia e tenta esconder dos olhos mais atentos.
E o que dizer de um Ocidente que apoiou o apartheid na África do Sul, aparecer depois a idolatrar Mandela, para depois novamente poder apoiar outro apartheid em Israel? Que bom é poder praticar crimes e depois, ao invés de ser punido, punir e culpar as vítimas e auto anunciar-se como herói salvador. Que bom é poder, uma e outra vez, poder destruir nações inteiras, sancionar, embargar, e acusar outros de o fazer, aparecendo como salvador. Que fantástico é poder ingerir em processos eleitorais alheios, à vista de tudo e todos (como na Geórgia em que altos responsáveis da UE desfilaram em manifestações da oposição) e acusar outros de fazer aquilo que se diz não ter feito. Como é bom ter o poder de anular eleições e impedir candidatos de concorrerem e, ao mesmo tempo, sem um pingo de vergonha, chamar ditador a quem é eleito pelo seu povo e libertador a quem se perpetua no poder, tendo caducado o seu mandato.
Este Ocidente que se julga dono da História, que de uma assentada faz a sua auto-penitência, não para que aprenda alguma coisa com ela, mas apenas para que se sinta livre para praticar, uma e outra vez, os actos que o deveriam envergonhar, quer fugir do convívio com a lembrança repetida dos seus crimes. É isso que procuram EUA e UE de cada vez que se mostram incomodados com a comemoração do 9 de Maio como o Dia da Vitória. Afinal, a cada comemoração, a Rússia lembra a todo o Ocidente, a todo o mundo, que não apenas sabe quem cometeu os crimes, como demonstra toda a sua força e resolução para que tais crimes não voltem a ser perpetrados.
A cada Dia da Vitória é como se o povo russo dissesse aos seus algozes: eu sei quem vocês são, sei o que pensam de mim, sei o que querem e aviso-vos de que, se cá vierem, vão ter a punição que merecem. Vejam esta parada, vejam este exército vitoriosos, vejam este orgulho…. Vejam o que vos espera, se voltarem outra vez a tentar fazer de nós os vossos escravos.
Esta é a razão pela qual a UE está tão impregnada de ódio e tão afundada no Titanic ucraniano. O instrumento que criou para calar este “malcomportado” aluno russo, este insubmisso escravo, este aprendiz indisciplinado da gloriosa civilização liberal, está a fracassar de forma contundente. Se os EUA de Trump tentam escapar através da própria emulação na qualidade de “mediadores” 2.0 (o 1.0 é na Palestina), à UE nada mais resta do que a vitória, ou a derrota. Tal como o original havia levado a Rússia quase à derrota, também o Ieltsin ucraniano está quase a consegui-lo.
E é aqui que esta gente se torna perigosa. Gente mimada, habituada a ter tudo à sua maneira, “educada” nas melhores escolas e universidades que o dinheiro pode comprar, desfilando nos órgãos de comunicação social que a oligarquia pode dominar e beneficiando da manipulação que as melhores agências de comunicação podem vender, viu serem desmontadas todas as suas estratégias de desestabilização do seu prémio mais apetecido: a Rússia. Mas a Rússia não apenas desmontou a armadilha que lhe estava dirigida; a Rússia remontou a armadilha ao contrário! E de que forma! Não a conseguindo desmontar, é a sua própria existência que fica em risco. Interessante é assistir ao feitiço que se vira contra o feiticeiro. A UE poder destruir-se pela armadilha que havia criado para partir a Rússia aos bocados.
Mas não se fica por aqui a afronta. Quando constatamos que Ibrahim Traoré – qual herói de uma jovem África – se desloca a Moscovo para participar nas comemorações do Dia da Vitória, não podemos senão pensar que, uma vez mais a Pátria russa enterra uma espinha na garganta daqueles que todos os males pensaram poder fazer e nenhuma penitência ter de praticar. Ao receber o jovem e promissor chefe de estado do Burkina Faso, que fez mais pelo seu povo num ano – como nacionalizar o ouro e pagar a dívida soberana – do que os fantoches financiados pela França, Vladimir Putin volta a afrontar as mesmas elites que foram responsáveis pelo terror nazi-fascista. Neste caso, do “herói” nacional francês, Napoleão.
E não reescrevam a História. Foi a bandeira da URSS – e não outra -, que foi hasteada no alto do Reichtag com a tomada de Berlim aos nazis em 1945.
Não sendo o mesmo país que era a URSS, esta afronta, acompanhada por outros resistentes do imperialismo e da mais impune e desumana repressão de que é capaz, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte (que sofreu às mãos dos EUA níveis de terror similares aos que sofreu a URSS ás mãos do nazifascismo), Irão e muitos outros, a Rússia volta uma vez mais a afirmar-se como bastião e refúgio de povos oprimidos pela ganância neocolonial. A Rússia volta a dizer ao Ocidente: enquanto eu existir, serão obrigados a viver e a lembrar a vossa vergonha!
E é com esta vergonha que os EUA e a EU não querem conviver. O Dia da vitória para a Rússia, equivale ao dia da vergonha para o Ocidente!