Opressão “democrática”

(Hugo Dionísio, in Facebook, 09/01/2023)

As mentiras não são democraticas – SOS

O tratamento que a imprensa corporativa do Atlântico Norte deu à questão do cessar-fogo de 36 horas (de 6 para 7 de Janeiro), é um retrato fiel do uso destes órgãos para fins eminentemente propagandísticos. Perante a proposta de cessar-fogo, não foi apenas Biden que a ridicularizou, referindo que o seu homólogo estaria a tentar “ganhar oxigénio”. Foi o próprio regime banderista que declarou rejeitá-la.

Refira-se que, esta “rejeição”, muito raramente foi noticiada na imprensa do Norte Atlântico, em termos tão explícitos, como pudemos encontrar em órgãos noticiosos que operam fora desta órbita, como é o caso da Al-Mayahdeen ou mesmo da Al-Jazeera. O facto é que, não só assistimos a uma ridicularização da proposta unilateral, como não assistimos a qualquer consternação pela rejeição da proposta por uma das partes.

Passado o período das 36 horas, o que sucedeu? O que já se esperava. A intenção de aproveitamento, de uma suposta baixa de guardas, esbarrou num estado de alerta permanente e numa capacidade de resposta rápida, associada à prontidão ofensiva das frentes ligadas aos “músicos” mercenários. Foi simples: “já que não aceitam, também não pensem que aqui vamos estar de pernas abertas”. E a devastação fez-se sentir com 5 aviões derrubados e mais de 600 militares eliminados. E então sim, aí veio a consternação.

Assistimos a um desfilar de acusações porque as forças proponentes “não cumpriram” o seu próprio cessar-fogo. E até já se fala de queixas internacionais. Ou seja, rejeitaram o cessar-fogo e agora estão chateados porque os proponentes não o cumpriram. Mas o que esperavam? Que se deixassem atacar? Que aplicassem um rígido cessar-fogo unilateral enquanto a outra parte aproveitava para atacar sem dó nem piedade? Lógica da batata: “foi uma armadilha”! E se foi? Não serão as armadilhas próprias do combate? E porque rejeitaram a proposta de cessar-fogo? Não o fizessem, e já teriam moral para se queixar. Agora, não aderir e acusar a outra parte de recuar na sua pretensão…

Mas se o desespero é evidente, à medida que se aproxima o general Inverno, e as remessas multimilionárias de material de guerra nem suficientes são para repor o que foi perdido. A questão que se deve colocar é a seguinte: quanta mais destruição é necessária para que o regime banderista e os seus promotores considerem a hipótese de fazer a paz e não a guerra?

Imaginem que o dinheiro usado para comprar, preparar e reparar os 367 aviões, 200 helicópteros, 2,856 drones, 400 sistemas de defesa aérea, 7,460 tanques e outros veículos blindados, 972 lançadores de mísseis, 3,793 canhões e morteiros e 7,978 unidades de equipamento especial (julgo que jipes, pickups e outros), já destruídos pelas forças moscovitas neste conflito, ao invés de ser usado para a guerra, tinha sido usado para a paz? Imaginem que os acordos de Minsk não tinham servido para ganhar tempo para construir este exército (já confirmado por Merkel e Hollande), mas para evitar a guerra, como pretendia o povo e alguns envolvidos?

Para se ter uma ideia do que vale isto tudo, este exército, já destruído, equivale, a números calculados por diversos especialistas, a um ou dois Produtos Internos Brutos do país, quantia gasta durante 8 anos, desde que conquistaram o poder, em 2014.

Temos, pois, um país que estava em paz com os vizinhos, cujo governo, em 2014 – após um golpe de estado e extinção forçada de 13 partidos da oposição, que representavam cerca de metade da respetiva população (considerando as eleições de 2012) -, entra numa deriva militarista que resulta, não apenas, numa guerra civil contra uma das duas etnias mais representativas, como empreende um esforço económico absurdo para construir um exército absolutamente desproporcionado, face à sua dimensão.

Este país, à data, em paz com os vizinhos e, por isso mesmo, sem razões para esta deriva militarista, é vítima de um golpe de estado, trabalhado a partir do exterior, perpetrado para o dividir e o fazer entrar numa deriva belicista e por procuração, que se sabia ser, ela própria, desestabilizadora. O regime saído de 2014 faz isto tudo contra as pretensões do seu povo, prometendo a paz e a reconciliação nacionais, quando se preparava, apenas e só, para a guerra.

Este país, que o Ocidente coletivo diz representar a guerra da “democracia” contra “as autocracias”, manteve-se durante penosos oito anos como o mais pobre e corrupto país da Europa, usando fundos intermináveis para possuir uma das forças armadas mais preparadas DO MUNDO! A suposta “democracia” ocidental não impediu este povo de ser miserável, de se usarem centenas de milhares de milhões de euros em armas e preparação para a guerra, enquanto o FMI – pilar da sua destruição – sugava a propriedade pública que ainda restava, colocando-a nas mãos de obedientes oligarcas. Hoje a Blackrock tem uma parte importante das terras mais produtivas do país. Tudo se paga e a “democracia” garante-o.

Para se ter uma ideia da “importância” da “democracia” ocidental para este país, vejamos que, à data de 1991, este país tinha, de acordo com alguns estudos, o melhor nível de vida da URSS. No final de 2020, este país “democrata” não apenas tinha um PIB per capita 5/6 vezes inferior ao dos seus desavindos vizinhos “autocratas”, como as instituições, economia, cultura, infraestruturas desses dois países estão muito à frente das suas. A “democracia” ocidental não impediu este país de se manter atrasado, devastado e de ser terreno fértil de máfias da prostituição, armas e droga.

Mas se a situação deste país é em si emblemática sobre o papel e objetivos da implantação artificial (porque promovida a partir do exterior) da “democracia” ocidental, olhando para os países que dizem promover tais “valores” da “democracia” e dos “direitos humanos”, constatamos que, mesmo aí, nem todos se podem gabar de serem protegidos por tão “avançado” regime.

Assim, por muitos “valores” que sejam propagados, a verdade é que a “democracia” não impediu os EUA de: manter a pena de morte; abrir e manter em funcionamento um campo de concentração e detenção sem acusação ou direito a defesa, como Guantánamo; implementar legislação que permite a tortura em interrogatórios; criar uma forma de processo-crime sem garantias para o arguido quando se trate da acusação e espionagem ou de terrorismo – o espionage act que vitima Julien Assange; implantar e manter um apartheid sobre os negros e índios, que ainda hoje persiste em muitos estados e sectores sociais; manter sem sistema de saúde mais de 40 milhões de americanos; manter milhões de americanos a viver em tendas, nas ruas, em automóveis, roulottes ou casa pré-fabricadas sem saneamento básico.

Mas se isto não chegar, gostava de deixar uma questão: que outra “democracia” ou “autocracia” se pode orgulhar de possuir a maior população prisional do mundo? Com 5% da população mundial, os EUA têm atrás das grades 25% da população prisional mundial, sendo que, uma esmagadora maioria são negros e latinos. A “democracia” possui um sistema de encarceramento em massa superior e a fazer inveja a qualquer “autocracia”.

Esta mesma “democracia” ocidental, sempre tão leve e descomprometida para a elite ocidental, é tão pesada para o sul global. Afinal, esta mesma “democracia” não impede os países que a propagam, de aplicarem sanções a mais de 50 países pobres, matando de fome e privação alimentar centenas de milhares de crianças, jovens e mulheres, todos os anos. Nestes mais de 100 anos de sanções “democráticas”, são incontáveis os milhões de mortos, doentes e miseráveis causados por tanto respeito pelos “direitos humanos”.

Foi este mesmo respeito pelos “direitos humanos” que justificou – e justifica – as guerras de agressão a dezenas de países. Entre os mais recentes temos o Iraque, a Síria, o Iémen, o Afeganistão, a Jugoslávia, a Sérvia, a Líbia, num desenrolar de bombardeamentos “democráticos” que mataram e destruíram as vidas de dezenas de milhões de seres humanos, muitos deles arriscando as suas vidas em botes de borracha. Depois de verem os seus países destruídos pela pilhagem desenfreada iniciada há cerca de 500 anos, ainda são acusados pela extrema-direita – a face mais agressiva do sistema económico capitalista ocidental – de quererem “invadir” o Ocidente. O mesmo Ocidente que tanta “democracia” lhes levou.

A “democracia” ocidental também não impediu que em 1948 tenha sido implantado um estado apartheid na Palestina. Este estado, não apenas matou e deslocalizou milhões de seres humanos para aí se implantar, baseando as suas ações numa ideologia teocrática que busca na bíblia – e noutros textos religiosos – a base da legitimidade do seu supremacismo racial, e que se mantém até hoje, agravando-se sucessivamente, à custa de armas, entre elas, as nucleares. Hoje, com um governo de extrema-direita, com gente que defende a exterminação do povo palestiniano.

A mesma “democracia” que hoje justifica o “desacoplar” dos países “autocráticos”, classificados como tal, apenas e só, porque não sucumbem à pilhagem dos seus recursos; pilhagem que os manteria na profunda miséria de onde vieram por ação “protetora” dos “direitos humanos”, é aquela que agora é responsável pela degradação – injustificada e inexplicada – das condições de vida dos povos europeus, arrastados para uma luta que não é a sua, nem lhes interessa minimamente.

Considerar que temos de morrer à fome para proteger a “democracia”, deve fazer-nos questionar o papel que hoje tem a própria “democracia”. É que, a “democracia”, não pode constituir um emaranhado de palavras vazias, usadas para justificar todos os fins.

A “democracia” tem de constituir um instrumento do desenvolvimento das condições de vida e de trabalho dos povos, um instrumento e não um fim em si mesma. Tratada como um fim em si mesma, a democracia deixa de o ser, para se transformar num ritual vazio de sentido ao serviço de fins nada democráticos. É o problema da forma e da substância. E um exemplo desta contradição, que encontra no modelo ocidental um fim em si mesmo, é a comparação do comediante encartado, a Churchill.

Esta comparação, totalmente vazia de sentido, não deixa de comportar em si a contradição que a origina e que radica na desvalorização da própria democracia enquanto instrumento ao serviço do desenvolvimento. Se o objetivo é valorizar o comediante, tal só é possível perante a fábula. E, neste caso, podemos dizer que uma fábula – a de que Churchill era democrata – origina outra fábula – a de que o comediante é democrata e está ao serviço do seu povo.

Para se ter uma ideia do que valia a “democraticidade” de Churchill, basta olhar para o que foi o domínio britânico na India. Não é necessário ir a mais nenhum lado. De acordo com um estudo académico realizado, (ver aqui), no pico do poder imperial na India, entre 1880 e 1920, morreram 165 milhões de pessoas em resultado do agravamento das condições vida resultantes da pilhagem de recursos e da repressão.

Este é apenas um pequeno exemplo da brutalidade genocida do imperialismo. Churchill, não apenas o abraçou, como o continuou e como foi peça-chave no agravamento da repressão contra a luta de Gandhi, sendo ator principal de uma sangrenta história que, a contar-se e a recordar-se, faria esmorecer qualquer defensor do imperialismo. A “democracia” de Churchill não impediu a matança, o genocídio material e moral, de continuarem. Hoje, e a provar que a repetição histórica é uma farsa, o comediante de serviço, usa os recursos do Império para conduzir o seu povo para a morte, o seu próprio povo. Actor-chave na deriva belicista, no incumprimento dos acordos e Minsk, na promessa incumprida de paz e na utilização de fundos que fariam falta para desenvolver o seu país, na aquisição de armas, o Churchill farsola abraçou o projeto, continuou-o e deu-lhe ainda mais gás. A “democracia” não o impediu de o fazer.

Outro exemplo do valor da “democracia” ressalta de um olhar sério para a votação das resoluções, que se vai fazendo na Assembleia Geral da ONU. Rapidamente se chegará à conclusão do papel atual, que os poderes de facto, conferem à “democracia” e aos “valores” ditos “ocidentais”. Do ambiente aos direitos humanos, passando pela economia e política, o mundo divide-se constantemente em dois, uma minoria a que chamamos de “Ocidente coletivo” e uma maioria imensa a que chamamos de “Sul Global”, (ver aqui).

 Será que a “democracia” pode estar ao serviço da opressão e mesmo assim ser democracia?


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O suicídio da social-democracia — onde está a Internacional Socialista?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/12/2022)

(Texto brilhante do Coronel Matos Gomes. Um grande bem-haja a uma das poucas vozes lúcidas que consegue desmontar a narrativa que nestes tempos negros a comunicação social nos quer impor, e que quase todo o espectro político subscreve e para a qual nos convoca.

Estátua de Sal, 23/12/2022


As burguesias: industriais, proprietários de bens de raiz, de rendimentos palpáveis, comerciantes regionais, altos funcionários foram o motor das sociedades capitalistas e demoliberais que tomaram o poder na Europa após as revoluções dos séculos XVIII em França, na Inglaterra e na Alemanha e no século XX na Rússia. Foram as classes médias europeias (as burguesias) que decidiram o colonialismo para se apropriarem das matérias-primas de África e que estiveram na origem de duas guerras mundiais.

O colonialismo e a Segunda Guerra estão na raiz da atual ordem no mundo. O colonialismo resultou das necessidades de matérias primas pela indústria da revolução industrial e a Segunda Guerra resultou das respostas das burguesias nacionais aos movimentos operários (os camponeses transformados em operários — proletários) que geraram o complexo fenómeno que por facilidade designamos comunismo. O nazismo foi uma resposta ao comunismo, a outra foi a social-democracia — os católicos referem a democracia cristã e a encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII e publicada em 1891, mas esta é mais uma “orientação” para limitar a exploração gerada pelo liberalismo capitalista do que para alterar a ordem social e a hierarquia das classes.

(Adivinho o comentário: compara o nazismo à social-democracia! — não, o que quero dizer é que o mesmo problema (no caso a revolta dos proletários) pode originar diferentes soluções políticas e que reconhecer a diversidade de opções é a base do pluralismo. Depois há soluções melhores, piores e péssimas.)

Partindo desses pressupostos, chegamos ao artigo de Alexis Corbiére no Nouvelle Observateur, L’Obs para os amigos e ao artigo de Novembro: Porque não sou social-democrata. (Ver artigo aqui).

O que me atraiu de novo para o artigo que lera de raspão na data da publicação foi (tem sido) a quantidade de comentários de pessoas que facilmente se identificam com o Partido Socialista a apoiar o seguidismo da União Europeia aos Estados Unidos contra a Rússia e a criticar quem não o faz (eu, no meu caso). O que me motivou a voltar ao artigo do L’Obs foi o exacerbado americanismo dos sociais-democratas portugueses, em consonância com os sociais-democratas europeus. O SPD, o partido social democrata alemão, é o mais forte apoiante da política americana e da NATO. Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO era (talvez ainda seja) social-democrata. Os sociais-democratas da Suécia são agora a favor da entrada na NATO. Quanto aos partidos socialistas (sociais democratas) de Portugal e da Espanha são desde a sua fundação (ou refundação no pós guerra) fiéis seguidores da política dos EUA, foram-no durante as transições para a democracia, foram-no mais tarde na Sérvia, no Afeganistão, na Síria, e agora na Ucrânia.

Deve haver uma razão para esta opção de escolha de uma tutela americana em vez de uma autonomia europeia no xadrez mundial (que eu defendia) e essa não será certamente a da defesa de princípios morais. Os Estados Unidos carregam um historial reconhecidamente alargado de violações dos mais elementares princípios de democracia política e de defesa dos direitos do homem e até de violência interna, desde a liberal lei das armas à pena de morte e a um dos mais ignóbeis sistemas prisionais do planeta, desde o poder das igrejas e seitas à concentração dos grandes meios de comunicação num reduzido e exclusivo grupo de milionários, o que torna a ideia de liberdade de imprensa bastante contestável e pueril.

Então porque se agacham tanto os sociais-democratas europeus perante os Estados-Unidos?

Vamos ao artigo do L’Obs: “Antes de mais e para evitar falsos debates, é necessário recordar (ou redefinir) o que é a social-democracia do pós-Segunda Guerra na Europa Ocidental, o único espaço do planeta onde ela existiu: um modelo que combinou uma estratégia política reformista e uma forma de organização assente nos laços estreitos entre um partido de massas e um movimento sindical também poderoso. A convergência destas duas unidades permitiu a constituição do modelo de consenso que sustentou o estado de bem-estar aos operários e outros assalariados — salários, férias, reformas, serviços públicos de saúde e previdência social, habitação, educação. Este modelo assente na extensão de bens sociais aos trabalhadores desviou-os do comunismo. Era esse o objetivo da social-democracia, que se implantou, como é visível num mapa da Europa, nos países junto à fronteira do designado Bloco Leste, em particular na Alemanha e nos países nórdicos. (A Inglaterra desenvolveu um sistema próprio, específico, como as medidas em polegadas e milhas e as roscas dos parafusos no sentido sinistrorsum). Os países latinos nunca implantaram uma social-democracia nos termos em que ela existiu na Alemanha e nos países nórdicos. Os partidos socialistas francês e italiano nunca foram partidos de massas e a sua ligações ao sindicalismo foi sempre fraca. Os partidos comunistas francês e italiano foram, na verdade o mais próximo da social-democracia que existiu na Europa latina, mas não podiam ser aceites como tal e participar dos governos porque eram “comunistas” e os Estados Unidos não permitiam a associação da imagem de social-democracia ao comunismo, que para eles tinha um significado estratégico de ligação ao inimigo, a URSS.

É na estratégia da guerra fria que reside a atração e a dependência dos partidos sociais-democratas e “socialistas” europeus e não deixa de ser curioso que os partidos “menos” sociais-democratas, de maiores diferenças de classe e mais acérrimos defensores da propriedade privada de bens estratégicos e de alto valor social, se designem socialistas (caso de Portugal, Espanha, Itália, a Grécia e até a França), enquanto os países mais industrializados e mais igualitários optaram pela designação de social-democrata. Os ingleses não são nem uma coisa, nem outra, são “trabalhistas”!

A vitória do “bem-estar” social-democrata, de welfare state europeu foi conseguida à custa da alienação de um “bem”: a componente de força militar, sem a qual qualquer Estado deixa de ser soberano, mesmo que limitadamente (tão limitadamente quanto a força de que dispuser).

Os partidos sociais-democratas, responsáveis em boa medida pela “construção europeia” do pós-guerra, com personalidades tão marcantes como Willy Brandt, por exemplo, optaram — se voluntária e conscientemente, se por imposição americana é outra questão — por abdicar do instrumento decisivo da soberania, a força e trocaram-na por aquecimento nas casas, reformas na velhice, férias pagas, um VW ou um Opel na garagem, por vezes um BMW ou um Mercedes.

O que os sociais-democratas ganharam a distribuir comodidades, perderam em soberania! (o desarmamento alemão do pós-guerra não se deve apenas ao receio da Alemanha armada, mas à transferência de recursos para o bem estar que “apaziguou” a sociedade alemã e a levou a aceitar o domínio americano com as bases no seu território).

A Europa está hoje a pagar essa opção social-democrata (alemã, holandesa, belga, austríaca) de desarmamento militar e ideológico. Em termos políticos tem de obedecer a quem possui força — os EUA. Tem de seguir quem impôs, pela força, a ideologia dominante do neoliberalismo, do mercado, do individualismo. Tem de funcionar nos parâmetros do pensamento dominante e “politicamente correto”. Está tudo ligado: política, militarismo, moda, ideologia para conseguir a domesticação dos europeus sem grandes reações. (O nazismo desenvolveu-se neste caldo.)

Pensar a social-democracia hoje é pensar num longo processo de decadência, de envenenamento ou de morte por inação conduzido pela social-democracia, o melhor dos sistemas, se fosse sustentável, se fosse possível abdicar da força para sobreviver num mundo de espécies que vivem em estado de competição — o que Darwin descobriu há 200 anos.

Pensar a social-democracia hoje é reconhecer que ela se suicidou, deixou de ser viável apesar da partilha equilibrada de riqueza e a organização racional da vida no planeta serem cada vez mais prementes e com elas a resposta às necessidades dos novos e velhos trabalhadores e a integração de vagas de migrantes. E não é viável porque a social-democracia fez um outsourcing da força que sustenta a soberania e a liberdade de ação. Resta aos sociais-democratas de hoje, para manterem a face, fazerem-se adeptos dos Estados Unidos de motu próprio, colocarem-se a seu lado para aparecerem na fotografia de família.

Estas figuras tiveram nomes de penetras para as classes baixas e de emergentes para aspirantes a nova classe.

O consenso social-democrata dos 30 anos gloriosos assentava na ilusão do crescimento económico eterno e ilimitado e num consenso sobre a partilha da riqueza entre o capital e o trabalho. Esse consenso funcionou até aos anos 80 do século passado, o fim da ameaça do comunismo — de facto da URSS enquanto superpotência — fez os Estados Unidos e os seus ideólogos neoliberais concluir que a social-democracia europeia, o bem-estar dos europeus, era um custo que podia ser evitado dado já não existir o perigo das classes trabalhadoras serem atraídas por uma ilusão que se desfizera, a URSS. A nova ilusão que seria muito mais rentável e permitia concentrar a riqueza mais rapidamente era o neoliberalismo.

O par Ronald Reagan e Margaret Tatcher patrocinaram a nova ordem económica e ideológica baseada na liberalização dos movimentos de capitais, da livre troca generalizada (Organização Mundial do Comércio), destruição das proteções sociais na Europa, de modo a transformarem o mundo num mercado (o velho sonho imperial dos ingleses vitorianos), onde não há lugar para a social-democracia.

Aos militantes sociais-democratas europeus resta hoje elogiar a desigualdade e a competição em nome da liberdade (de ser explorado) e defender a intervenção militar do império em nome de princípios que ele se encarrega de negar. Tornaram-se neoliberais e militaristas. A decadência dos partidos sociais-democratas e socialistas é fruto do beco da dependência real em que se meteram, ou foram metidos, e da incapacidade de gerarem um ideologia para o mundo de hoje.

É interessante recordar a hibernação de uma organização de que muito poucos já ouviram falar: a Internacional Socialista! — sumiu-se, deixou de ter utilidade.

Por fim, a França, que nunca foi social-democrata, foi soberanista e o soberanismo é a base do seu comportamento desde antes de Napoleão e até depois de De Gaulle tenta remar contra a maré, com limitações conhecidas. Mas ainda tem quem pense. O que já é um feito nestes tempos de pensamento único.

Não são boas notícias, mas são as que me parecem as verdadeiras.


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O dia zero da candidatura de Passos a Belém (a propósito da eutanásia)

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 10/12/2022)

(Também convémn voltar, de vez em quando, à “pequena política nacional”. Esta de que o Passos se prepara para nos melgar de novo merece um grito de alerta às hostes. E nada melhor que este: Vade retro, Satanás!

Estátua de Sal, 10/12/2022)


Caro leitor, cara leitora:

A lei da eutanásia lá foi aprovada, como se esperava, apesar de mais uma tentativa de adiamento do Chega, agora acompanhado pelo PSD.

A proposta de referendo-à-última-hora com que o PSD surpreendeu o país pareceu uma bizarria. A verdade é que, sendo a maioria dos deputados do PSD a favor do referendo – como se viu na votação da proposta do Chega –, Luís Montenegro não se preocupou com o assunto até à véspera da aprovação. Um bocado absurdo, vamos lá, mesmo que Luís Montenegro defenda o referendo à eutanásia há “dez anos”, como o próprio diz, ou pelo menos desde 2017, segundo os registos.

Posso estar totalmente enganada, mas ao ler o artigo que Pedro Passos Coelho publicou no Observador, acho que percebi melhor o que aconteceu a Luís Montenegro para desejar “mostrar serviço” em cima do acontecimento. Deve ter-se apercebido do trovão que se aproximava e achou que tinha que mostrar uns pós de iniciativa política. E daí a proposta de referendo à última hora.

Passos Coelho é contra referendar a eutanásia e não é o primeiro artigo que escreve sobre o assunto. Mas, com as críticas que deixou à direita por não ter tido iniciativa na luta contra a eutanásia, desafiando uma frente unida a pedir que a lei venha a cair, no fundo apresenta-se como o homem que, no futuro, irá corporizar a defesa da reversão da lei. O mais provável é que seja em Belém, embora alguns no PSD ainda acreditem que voltará a ser candidato à liderança do partido.

As frases de Passos Coelho são duras contra a actuação da sua família política: sem nomear o PSD, critica que não tenha uma “posição de fundo sobre a matéria” e propõe a reversão no futuro: “Era bom que se soubesse que haverá quem não se conforma nem desiste de, no futuro próximo, pôr em cima da mesa a reversão da decisão que o Parlamento se prepara para tomar, como numa democracia madura”.

É verdade que deram jeito ao Chega, com Ventura a ironizar com o PSD, que deu liberdade de voto aos seus deputados, e que, apesar de a maioria ter votado contra, decidiu não fazer a tradicional declaração de voto. Ventura fez e assumiu o compromisso de fazer o que pediu Passos Coelho: “O antigo líder do PSD pediu o compromisso assumido de todos os partidos de direita para que revertam a decisão. Não é militante nem presidente do Chega. Aceito o desafio, assim outros o façam”. Montenegro não disse o que faria e teve o seu primeiro embate de frente com o antigo primeiro-ministro, de quem foi líder parlamentar. Passos não prometeu que “iria andar por aí”, como um dia Santana Lopes, mas já anda.

Hoje foi o dia zero da candidatura de Passos Coelho a Belém, semanas depois de Marcelo ter prenunciado a sua candidatura, como fazia nos tempos em que era comentador. Não sei se Passos tem votos suficientes para ser eleito Presidente da República – até porque os socialistas estão há 20 anos de fora do Palácio de Belém e agora deveriam estar a esmerar-se para um regresso.

Falta muito tempo, é certo. E se não sabemos o que nos acontece daqui a um mês, ou mesmo amanhã, discutir cenários sobre presidenciais é uma coisa que me delicia (temos que confessar que delicia todos os jornalistas de política, esses seres que muita gente detesta ou pelo menos considera um bocado esquisitos, da mesma forma que também vêem os políticos) na plena consciência de que num instante tudo muda. Esta frase era o “mantra” do i, o jornal onde trabalhei de 2009 a 2018, e é uma perfeita definição da vida, incluindo da vida política.

Mas, com todos os riscos que comporta fazer previsões a quatro anos em política, parece neste momento claro que, caso Passos Coelho se candidate a Presidente da República, terá o apoio de André Ventura. Irá federar a direita, quase de certeza. Resta saber onde está quem possa federar a esquerda – as sondagens para o protocandidato Augusto Santos Silva não indiciam qualquer vitória. E não vale a pena o PS recordar ou tentar consolar-se com os 8% com que Mário Soares, que no dia 7 de Dezembro passado faria 98 anos, partiu para a candidatura presidencial de 1986. Só mesmo Mário Soares para poder inverter aquilo e o modelo foi descontinuado.

Tenha um bom fim-de-semana.


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