Davos: Fórum do entretenimento mundial!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 19/01/2023)

É de rebentar a rir até não podermos mais! Já passei a fase do choro, da raiva e da depressão. Desta feita, a estratégia a utilizar só pode ser a da ridicularização.

Não sei o que é mais ridículo, se o tempo de antena que a imprensa corporativa do Atlântico Norte dá ao Fórum Económico Mundial – que de “mundial” tem muito pouco, não passando de uma feira das vaidades da vassalagem mais rica do império -, ou o facto de desfilarem notícias, comentadores da ordem e eloquentes conclusões sobre as “preocupações” e “soluções” manifestadas pela aristocracia bilionária e seus capatazes. Ao mesmo tempo, tentam fazer-nos acreditar que uma gente que vive absolutamente à margem das dificuldades do comum dos mortais e da esmagadora maioria da Humanidade, quer, de facto, salvar o mundo. É de doidos!

Ouvir o milionário John Kerry, do clã Clinton, ex-candidato a presidente dizer “é o que somos”, a propósito de poderem ridicularizar o facto de gente como ele querer um mundo melhor, salvar o planeta, entre outros objectivos nada consonantes com a sua prática política; ouvir Mário Centeno (ex-chefe do Eurogrupo) dizer qualquer coisa como “afinal isto (referindo-se à economia) pode não correr assim tão mal”; ouvir o mentor, Schwab, dizer que Davos tem “um espírito positivo”… ; é melhor do que assistir aos melhores filmes dos Monty Pyton. É uma comédia sem fim, regada com vinhos e whisky – será que podem comer caviar? – que custam mais do que um trabalhador médio ganha num ano.

Uma das questões fundamentais – jamais colocadas pelos mesmos órgãos que nos querem fazer acreditar nos nobres objetivos de Davos -, consiste em perguntar: “Afinal, para que Humanidade se dirigem as reflexões desta gente”? É que, partindo dos temas que ocupam a agenda da edição deste ano e da lista de “convidados” e principais oradores, imediatamente percebemos que a “Humanidade” a que se dirigem, não é a mesma que povoa este imenso planeta, mas apenas uma minúscula parcela.

O conflito no leste europeu dominou a maioria das intervenções. Ora, acreditar que, para a maioria da Humanidade, esse conflito tem importância, é viver numa bolha fechada e absolutamente opaca. Uma rápida busca pelos principais órgãos de comunicação dos países do Sul Global (85% da humanidade) e todos percebemos que, o conflito em causa, não apenas não está nas prioridades do dia, como nem sequer nas do ano. Simplesmente, quase não se fala do assunto e quando se fala, nem sempre o fazem em termos que agradem à elite que domina as nossas vidas e que nos condena, todos os dias, a uma vida pior.

Os “iluminados” que falam em Davos, falam por quem, afinal? Em jactos pessoais ou institucionais, que poluem numa viagem o que um automóvel de um trabalhador polui em anos, a Davos, vão os representantes, capatazes (CEO, CFO, CTO…) daquela percentagem de seres “excepcionais” que se apropriaram de 63% da riqueza produzida desde 2000, em plena pandemia de Covid, enquanto os salários dos trabalhadores europeus estão estagnados há 20 anos e os dos americanos há 50. E é a Oxfam, financiada em parte pela NED (o mesmo é dizer pela CIA), que o vem dizer, no seu último relatório. É também a mesma Oxfam que vem dizer que 50% da riqueza está concentrada nas mãos desse 1% da população. Os tais que adoram Davos.

E o autismo é de tal ordem que temos de ouvir a anglo-germânica Ursula Von der Lata gabar-se de que a UE “aplicou as mais fortes sanções, fazendo o regime de Moscovo enfrentar 10 anos de regressão económica e falta de tecnologias críticas na sua indústria”. Mas, afinal, de que mundo fala ela? Estará a Europa – que ela governa com uma procuração passada por Washington -, em condições de se gabar de tal coisa? Estará a situação económica da Europa melhor do que a do país que ela acusa de ter pela frente “10 anos de retrocesso económico”? Esse país que, apesar das piores sanções da história do imperialismo, teve apenas uma quebra de 2,1% do PIB e uma inflação de 11%, prevendo-se já este ano crescimento e uma inflação de 3 a 4%. Estará a UE em condições de poder regozijar-se com tal realidade? Afinal, como está a economia da UE?

Não estará a indústria da UE, por causa das sanções arquitectadas pelos seus mestres, a enfrentar insolvências e deslocalizações? Não está a Alemanha a colocar empresas em lay-off para poder fazer face à falta de gás e aos elevadíssimos preços que, por causa das suas políticas, triplicaram? Não estará a inflação na UE a galopar, o desemprego a aumentar e a economia a retrair-se? Não estará isto tudo a acontecer quando a UE sanciona, ao invés de ser sancionada? Não representará, esta realidade, um falhanço total das ações da Comissão Europeia na proteção do seu espaço? Sendo o país mais sancionado da História, não poderá o maior país do mundo regozijar-se, por oposição, não apenas pela capacidade de resistir ao maior ataque económico e militar desde a Segunda Guerra Mundial, mas, e apesar disso, por conseguir diversificar mercados, fornecedores e até aumentar a produção em áreas chave? O que diz isto, de uns e outros?

Poderá um europeu médio, nos dias de hoje, dizer que nada mudou na sua vida, nos últimos anos, como nós vimos acontecer com transeuntes entrevistados nas ruas de Moscovo, no programa de Tucker Carlson? Deveria dar que pensar. E o que diz isto de Ursula e das suas gentes? Do seu autismo, arrogância, autocracia e falso triunfalismo?

Diz Úrsula que “existem nações a observar com muita atenção o conflito” e que “não se pode permitir que achem que podem invadir quando quiserem”, e por isso – qual louca a lembrar o papel de Jack Nicholson em “Voando sobre um ninho de cucos” -, “a Rússia tem de ser punida”! Afinal, de que nações fala ela? Não serão nações que, ao contrário das dela, nunca invadiram qualquer país, pelo menos nos últimos séculos? E como se arroga ela de um qualquer direito universal para punir nações inteiras? Afinal, quais são as nações que invadem a seu bel-prazer, senão as que a suportam? Eis o caricato da questão: é que ela parece mesmo acreditar nas suas próprias mentiras! E isso é trágico, porque por muito louca que a achemos, ela, uma corrupta empedernida, contra a qual estão a decorrer investigações conduzidas pelo próprio Tribunal de Contas europeu, manda nas nossas vidas, fazendo-o sem qualquer escrutínio ou avaliação!

Ficasse o discurso por aqui e já não seria mau. Mas quando vamos para o dualismo maniqueísta das “democracias” contra as “autocracias”, está tudo arrumado.  Eu gostaria de saber qual foi o processo de consulta utilizado para que os povos europeus se pronunciassem sobre a necessidade de embarcarmos nesta guerra – sim, porque somos parte desta guerra –, e nos sujeitarmos ao ricochete das sanções, trocando uma dependência de gás barato, por uma de gás três vezes mais caro e de pior qualidade. Alguém colocou esta questão aos povos? Será que os europeus pretendiam pagar mais caras as suas casas, energia, alimentação e outros bens essenciais, como resultado da guerra económica movida? Ou, ao contrário, o que é veiculado na Imprensa corporativa do Atlântico Norte, não será que isto tudo acontece “por causa da guerra”, nunca expondo quais os mecanismos através dos quais a “guerra” nos afecta?

Será democrático, uma elite tomar todas as decisões, para mais uma elite não eleita, baseando-se na manipulação que faz através de órgãos de comunicação totalmente arregimentados, incapazes de uma mensagem dissonante e, mesmo quando a apresentam, logo a enquadram com o necessário comentador que tem a função de “explicar” ao público espectador como a enquadrar na narrativa oficial fornecida?

Como podem admirar-se, os poderes instituídos, da enorme crise que os grupos económicos que exploram a actividade de imprensa atravessam? Em Portugal, desde 2017, os principais grupos tiveram 191 milhões de euros de prejuízos. Porque será?

Imaginem um qualquer trabalhador, ou estudante, abaixo dos 50 anos, com estudos, capacidade de pesquisa de informação, conhecimentos informáticos suficientes para contornar os condicionamentos do Google e outros motores de busca da Califórnia, e com uma rede de amigos, de todo o mundo, com quem se relaciona em plataformas de comunicação. Essa pessoa, habituada a receber e a procurar e pesquisar a informação que pretende, ao contrário do espectador tradicional acima dos 50 que se habituou apenas a receber, seja através da TV, da imprensa escrita ou das sugestões do Google e plataformas sociais da Califórnia – que funcionam num circuito fechado em conexão com as primeiras -, olha para notícias como “Moscovo bombardeia central nuclear de Zaporizhzhia”, isto depois de os mesmos terem noticiado que essas mesmas forças tinham controlado a central logo nos primeiros dias da operação, ou “Moscovo pode ter rebentado o Nord Stream”.

Se formos para outras áreas, somos confrontados com contradições como as que se têm visto aquando das manifestações violentas no Irão, que os porta-vozes atlantistas apoiam sem excepção, mas que, quando as manifestações violentas acontecem na Europa, nos EUA ou em países nos quais perpetram golpes institucionais, como o Peru ou a Bolívia, nesses casos condenam a violência, apelando à “ordem democrática”. Isto já para não falar do apagamento da Palestina, cuja repressão e genocídio acontece há mais de 70 anos, ou nas guerras de agressão contra inúmeras nações, cujas consequências devastadoras para as respectivas populações nunca são apontadas como “crimes de guerra”.

Perante tanto brincar com a nossa inteligência e tão descarada hipocrisia, não admira a crescente desconfiança na imprensa corporativa do Atlântico Norte e a sua identificação como braço armado comunicacional da elite autocrática e neo-feudal da classe rentista que se formou com a financeirização da atividade económica mundial.

Mas o circo de Davos significa muito mais. Quem olhar atentamente, não deixa de identificar a desgraça da vida de muitos que aí desfilam. Fernando Haddad, ministro de Lula, disse em Davos, numa mensagem muito pouco velada, aos seus interlocutores a norte da América, que o Brasil pretende adiar a conferência dos BRICS de 2024 para 2025, pois, segundo as suas palavras, como têm de organizar o G20, não querem fazer coincidir dois eventos desta magnitude num mesmo ano. Esta posição levantou suspeitas, sobretudo entre alguns parceiros BRICS, após o que sucedeu em 8 de Janeiro no Brasil e após o mais que certo envolvimento das agências de segurança imperiais na organização do sucedido e do seu financiamento. Para muitos, o 8 de Janeiro, foi um sério aviso a Lula: “ou te alinhas”; ou “descarrilas de vez”. Pouco dado a comédias como as de Davos, a Casa Branca passa as suas mensagens através de actos sempre caracterizados por enorme contundência: “é só estalar os dedos e já foste”!

Esta acção de Haddad mostra bem o que é Davos, realmente. Um desfile de prestação de juramentos de vassalagem, mesmo que envergonhados e habilidosos, aos poderes de facto, em oposição frontal aos crescentes espaços de verdadeira cooperação internacional, despidos do tradicional dividir para reinar do imperialismo ocidental, como é o caso dos BRICS. Como em qualquer cerimónia de juramento real, há sempre que contar com os tradicionais e imprescindíveis bobos da corte. Afinal, quem, no meio de tanta miséria, nos faria rir, senão as Ursulas deste mundo? Não obstante, esta ação de Haddad, não deixa de nos trazer uma certa sensação de negritude… E não é de humor negro! É que a sujeição de muitos quadros do PT à doutrina identitária neoliberal – que celebra a liberdade individual enquanto oprime a colectiva, o que, por sua vez, impede a primeira -, não tem nada de engraçado. É uma tragédia para a América Latina.

Daí que a grande ironia que Davos nos traz, e que quem o noticia é incapaz de nos contar, é que, em Davos, programa-se, não a “salvação do mundo” e muito menos a sua libertação, mas a sua continuada e renovada submissão aos interesses que até aqui o trouxeram.

Davos é como um qualquer circo… Como em qualquer circo, no meio de todo o espectáculo, é na parte dos palhaços que mais rimos, e é também nessa parte que melhor percebemos o que o circo é! Entretenimento!

O entretenimento esconde as condições nefastas em que o circo opera! E quem melhor do que os palhaços, para o disfarçar perante as crianças?

Eis, pois, Davos no seu esplendor!

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A nova direita radical

(António Guerreiro, in Público, 12/01/2023)

António Guerreiro

Os movimentos da direita radical de hoje não participam da cultura de direita de uma aristocracia reaccionária que não tinha nenhum espírito de revolta.


Manifestações e invasões violentas das sedes do poder democrático praticadas por uma massa tão alienada nos seus meios que deixou de reflectir sobre os seus fins, como aquelas que se verificaram há dois anos em Washington e agora em Brasília, podem ser vistas como um fenómeno da era digital, potencializadas pelas redes sociais e os novos meios de comunicação. Mas as bases “mitológicas”, mais do que ideológicas, desta direita radical, nos seus expedientes — a propaganda, a mentira, a difusão das teorias do complot, a indução de reacções emotivas e regressivas — não tem nada de novo, é mais um retorno do mesmo.

Percebemos isso perfeitamente quando lemos o diagnóstico que Adorno fez da ascensão de um partido neonazi, o NPD, nos anos 60 do século passado, na República Federal da Alemanha. Foi numa conferência, em Viena, no ano de 1967, que o filósofo falou para um auditório de estudantes sobre os “Aspectos do Novo Radicalismo de Direita”: foi este o título da conferência e é este o título do texto transcrito e publicado pela primeira vez sob a forma de livro em 2019 (em Portugal, caso raro, esse livro foi logo publicado no ano seguinte, pelas Edições 70; tradução de Mariana Toldy e Teresa Toldy), com um longo e excelente posfácio do historiador Volker Weiss.

Muito antes dos processos de difusão de fake news, Adorno identifica o recurso à mentira como um instrumento fundamental desta direita radical, isto é, a difusão reiterada de informações falsas, às vezes grosseiras, outras vezes difíceis de comprovar. A mentira é um dos meios, não o único, que alimenta os mecanismos da propaganda, aptos a fomentar os comportamentos emotivos e a estimular aquilo a que Adorno chama a “ostentação pática” (do grego pathos), sem substância. Encontramos aqui uma análise que prossegue algumas ideias que ele já tinha desenvolvido num texto de 1951, A Teoria Freudiana e o Modelo da Propaganda Fascista.

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A palavra “propaganda” tem hoje conotações muito negativas, mas os regimes fascistas usaram-na sem reservas nem pudor. Ela pertenceu naturalmente e de pleno direito ao léxico da acção política e ideológica. A propaganda, diz Adorno, foi sobretudo uma técnica da psicologia de massas, geralmente instadas a mobilizar-se em torno de uma “personalidade autoritária”. Mas nos métodos propagandísticos do “novo radicalismo de direita” encontra Adorno algo novo, uma lógica hiperbólica dos meios, de tal modo que se torna possível afirmar que nestes movimentos radicais de direita a propaganda constitui a própria substância da política. Daí, a queda no irracionalismo.

Adorno mostra como a tentação para o irracional exerce um fortíssimo efeito sobre esta direita radical (mais um aspecto cuja actualidade os recentes acontecimentos bem ilustram). O triunfo do irracional explica a negação das evidências, tanto das evidências científicas (Bolsonaro e os seus seguidores mostraram bem a lógica do negacionismo), como das evidências da argumentação racional. A submissão ao pathos, ao emotivo, típica deste radicalismo de direita, não aceita as demonstrações do visível porque está exclusivamente orientada para o obscuro, o suspeito, o complot.

Não é preciso submeter nada à racionalidade da prova porque a verdade está encontrada à partida, e essa verdade diz-lhes que é preciso agir para que o mal não triunfe, para que os “homens de bem” (ouvi esta expressão a um bolsonarista e registei o modo como ela atravessa fronteiras; é de facto uma expressão, quase um conceito, tão antiga como o “honnête homme”) não sejam anulados por plebiscitos que só são válidos quando os elegem.

O irracional compreende medos ancestrais e visões paranóicas (psicopatologias diagnosticadas e analisadas por Adorno). Hoje, esta direita radical já não publicaria certamente os Protocolos dos Sábios de Sião, mas difunde outras informações inverosímeis, à medida das solicitações do nosso tempo. Tais psicopatologias e os seus sintomas continuam actuais e, como vemos, não foi preciso que aparecessem as redes sociais para que elas se manifestassem. Estes movimentos da direita radical (os de hoje, afinal muito iguais àqueles que Adorno definiu como “novos”) não participam da cultura de direita de uma aristocracia reaccionária que não tinha, evidentemente nenhum espírito de revolta.

Como alguém disse: alguém imagina o Spengler a revoltar-se? E quando entra no Capitólio ou nos palácios do governo, em Brasília, não é para destruir símbolos, como diziam os comentadores e jornalistas na televisão. É para destruir coisas reais, concretas. Nada da simbologia: isso pertence às retóricas românticas de uma certa cultura de direita bem defunta.



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Tudo ao contrário!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 12/01/2023)

Oito anos de construções fortificadas, túneis, bunkers e depósitos de armamento sem fim, dois meses de reposicionamento de reservas e perdas humanas militares, eis que tudo começa, finalmente, a colapsar. As perdas humanas situam-se na casa das dezenas de milhares de jovens, menos jovens, nacionais e estrangeiros, eis que aconteceu o inevitável. O comediante que é presidente, nos seus vídeos diários a partir de um qualquer bunker ou numa qualquer mansão resistiu sempre a fazer o que o oponente faz quando considera que o esforço é demasiado para o ganho: recuar para uma linha de defesa mais sólida, poupando homens e equipamento.

A narrativa oficial, partilhada vezes sem fim, ecoando “as vitórias mais importantes desde a Segunda Grande Guerra”, para o lado doméstico, não será despicienda, para a decisão de lutar até ao último homem. Afinal, qualquer decisão, de dar por perdida uma importante cadeia defensiva, implica uma inversão total na narrativa propagada pela imprensa corporativa do Atlântico Norte. Há que preparar primeiro o público, seguidor implacável de tais narrativas. Dizer-lhe a verdade, não é uma opção, pois tal significaria dizer efectivamente o contrário do que se tem dito, nomeadamente quanto ao desfecho inevitável do conflito.

Esta é mais uma guerra usada como ciclo de acumulação capitalista, facto bem patente na importância destes últimos 9 anos de sanções para a inversão da tendência no mercado mundial de armamento, que colocava os dois indirectos contendores em competição directa e com números muito próximos. Só que tal situação como que se inverteu, sendo hoje os EUA, o incontestável líder da venda mundial de armamento, com cerca de 2/3 a mais em valor de vendas do que o seu maior concorrente directo (a FR).

Não quer dizer que vendam mais quantidade…Vendem sobretudo mais caro. Os dados ao dispor são elucidativos sobre o uso da guerra e do complexo militar industrial enquanto instrumento do ciclo de acumulação capitalista, ou, ao contrário, enquanto instrumento que tem como objectivo fundamental a defesa nacional.

O “Global Fire Power 2023” que estabelece o “Fire Power Index”, coloca os EUA em primeiro com 0,0712, a Federação Russa (FR) com 0,0714 e a China (RPC) com 0,0722. Ou seja, os dois primeiros surgem empatados e o terceiro está muito próximo. O 4.º lugar, da India, já está muito mais longe, com 0,1025. O que é que isto nos diz sobre o papel de cada exército?

A primeira questão que salta à vista é, como é que um país que gasta 800 mil milhões de dólares em orçamento militar (e não integramos aqui o “dark money” das secretas, nem toda a investigação paga através de programas federais que também vai para fins militares), tem praticamente o mesmo poder de fogo que um país que gasta 65 mil milhões de dólares e pouco mais do que outro que gasta 290 mil milhões de dólares?

A resposta está em vários vectores: 1.º o complexo militar industrial norte americano é privado, logo, visa prosseguir o lucro, o enriquecimento de uma elite e a concentração de riqueza, sendo o estado um instrumento dessa acumulação; 2.º os outros dois têm um complexo militar industrial essencialmente público – não exclusivamente -, principalmente nas áreas mais sensíveis, não se destinando a mais do que cumprir o seu papel público, ou seja, garantir uma defesa nacional eficaz e capaz de defender a soberania do país.

Esta diferença é primordial, pois o primeiro faz armas para vender, nomeadamente e como dizem muitos especialistas, produzindo “brinquedos” de luxo, muito sofisticados e complexos, e por isso muito caros, quer no acto de compra, quer na manutenção, formação e exigências técnicas do pessoal, quer quando em combate, normalmente muito dados a avarias. Ao contrário, os outros dois contendores tentam produzir o mais barato possível, produtos eficazes, eficientes e com durabilidade. O facto de se tratarem, em grande parte, de empresas públicas, permite comprar a preço de custo e mesmo quando se tratam de empresas privadas, o preço que exigem está condicionado por um mercado dominado pelo sector empresarial público, cujas dinâmicas de acumulação são controladas pelo Estado, na defesa do que entende como interesse nacional. A isto, os EUA, chamam de “falta de liberdade económica”. Dos mais ricos, claro!

A estes dois vectores poderemos ainda adicionar outras variáveis que não deixarão de ter grande importância: qualquer uma das economias do 2.º e 3.º classificados são menos financeirizadas e, nesse sentido, menos especulativas, principalmente em sectores estratégicos, o que se reflecte em preços mais baixos e num menor peso do sector rentista sobre a indústria. Depois ambos os países têm um potencial industrial instalado muito grande, o que permite a produção nacional quase exclusiva, com cadeias de produção quase totalmente em moeda nacional e por isso muito pouco vulneráveis a ataques especulativos ou a disrupções de outro tipo (no caso da federação russa, ainda tem a vantagem de ter acesso a todas as matérias primas no seu próprio território). Por fim, e entroncando no tópico anterior, ambos os países têm contas de capital fechadas (pelo menos em parte, sendo que a FR tem vindo a fechar com as sanções e a RPC só abre em determinadas áreas e com muitos limites), o que permite estabelecer cadeias de produção de alto valor acrescentado, mas de baixo custo comparativo, quando avaliado, nominalmente, em dólares. As vantagens que aqui constatamos em matéria de defesa são também visíveis noutros domínios como por exemplo a investigação espacial, a ferrovia e a banca. Só assim se suportam sanções em catadupa (caso da FR), só assim é possível usar o potencial acumulado para um desenvolvimento mais rápido do país (como no caso da RPC).

Venham de lá agora os defensores do neoliberalismo e da “abertura” dos mercados, defender que os países defendem melhor a sua soberania dessa forma, e não através das medidas protecionistas atrás referidas. Não fossem essas medidas e as duas economias em causa já estariam absolutamente arrasadas, quer por sanções, quer por ataques especulativos e os seus povos na mais absoluta indigência, de que tanto lhes custou sair. Não é por acaso que as duas grandes reivindicações dos EUA quanto às mudanças na RPC estão relacionadas com a privatização do seu imenso (cerca de 30% da propriedade do país) sector público empresarial (principalmente a banca) e com a abertura total das contas de capital. Não é por acaso, também, que os EUA acusaram a FR de valorizar a sua moeda através do controlo de capitais. Eis porque razão a Casa Branca diz ser necessária uma “mudança de regime”. Este não interessa à “sua” democracia, dificulta a entrada de cavalos de tróia.

Mas se este constitui um dos mais importantes factores em disputa, um outro, o energético, já deu frutos, pelo menos no curto prazo. De acordo com a Bloomberg, os EUA tornaram-se, em 2022, o maior produtor mundial de gás. Tudo à custa da transição da compra europeia, da FR para os EUA. Se, para os EUA, esta “oportunidade” (como referiu Blinken) foi fantástica, para a Europa, deixa à mostra toda a sua fragilidade, política, económica e cultural. Para se ter uma ideia do custo que tem o “desacoplamento” da FR e “acoplamento” nos EUA, em matéria de dependência energética, basta ver os dados relativos à balança comercial em Novembro de 2022, período em que estes países se dedicaram a encher as suas reservas de gás natural e outros combustíveis.

Os dados fornecidos pela Golden Sachs dizem que, para a França, o ultimo novembro foi o mais negativo dos últimos 20 anos, em matéria de défice comercial (- 15%). A Suécia, tal como a França, também teve o pior novembro dos últimos 20 anos, um dos únicos 5 que em 20, tiveram deficit, sendo o deste ano muito superior ao do ano passado, que já era negativo e reflectia a “grande” decisão de Úrsula em se passar a comprar o gás “on the spot” ao invés de celebrar contratos de longa duração (já estava em preparação o “desacoplamento”), como seria aconselhável. A Alemanha, mantendo-se em terreno positivo, teve, mesmo assim, o seu pior novembro dos últimos 18 anos. Em matéria de produção industrial química e farmacêutica (que exigem gás), está em queda livre, baixando para níveis muito inferiores a 2010, em plena crise do subprime. O preço elevadíssimo do gás americano torna inviável a produção e, por outro lado, a falta de gás, devido ao encerramento e destruição do Nord Stream pelos seus “aliados”, leva a que tenha de se optar entre a produção industrial por um lado, e a manutenção das reservas estratégicas de gás, por outro, tão necessárias ao aquecimento em pleno inverno. A Alemanha tem optado pelo encerramento e deslocalização de empresas. Umas para a RPC, outras para os EUA, que até tem um competitivo sector farmacêutico (nada é por acaso).

O Japão também está numa situação complicada, também com o pior novembro dos últimos 20 anos. Por essa razão não será alheia a decisão de voltar a comprar petróleo à FR, nomeadamente voltando ao projeto Sahkalin e não cumprindo o teto de preço que havia antes, no G7, “contribuído”  para fixar. Esta decisão certamente não deixará os seus mestres atlantistas muito contentes.

Assim, a conclusão de um dos economistas da Golden Sachs que divulgou estes dados é esta: “os campeões mundiais da exportação já deixaram de o ser”. Eis no que dá prescindir da soberania nacional e deixar os “aliados” passarem a tomar as decisões que a cada um cabem.

A total sujeição dos países do G7 e EU aos ditames da NATO, organização criada para os arregimentar, confundindo-se hoje com a própria União Europeia; a aplicação cega de todas as sanções e orientações económicas e financeiras; a falta de mecanismos de protecção dos respectivos mercados internos… Não deixam de ter o efeito a que estamos a assistir, que havia sido previsto por tanta gente silenciada ao longo deste tempo. Como devem detestar ter razão.

E enquanto todos mantêm tal abertura, o “aliado” atlântico adopta medidas proteccionistas que visam precisamente captar o que de melhor a indústria dos seus “amigos” ainda tiver para dar.

Depois disto e do anunciado – manobra de diversão para os desaires militares recentes – pela cúpula da União Europeia, só falta ver o nosso Primeiro-ministro, Presidente e demais direitas e esquerdas atlantistas virem defender a entrada rápida da Ucrânia, da Geórgia, e da Moldávia na União Europeia… Tudo por solidariedade, claro! Quero ver depois quando esta gente, que tanta empresa tem que vive dos fundos comunitários, deixar de os receber… De certeza que vão encontrar culpados onde não existem. Afinal essa é a sua praxis!

Querem mudanças, querem mesmo? É fazer tudo ao contrário do que estes dizem!


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