valha-nos nossa senhora do resgate!

(In Blog Quatro Almas,  valha-nos nossa senhora do resgate!)

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A direita grita astuta, como a puta da vida lhes ensinou: olhem a troika, lá vem a troika, trás o resgate, olhó resgate, o desastre, a hecatombe, o terramoto, o cataclismo. Costa é uma ilha rodeada de crocodilos e tubarões por todos os lados. Pela costa direita, cercam-no, apertam-no, tentam morder-lhe canelas e fundilhos os senhores do mundo, do dinheiro imundo, e para o povo não vai nada?, não, não vai que o pouco que há não chega para os ricos, é preciso empobrecer para que outros possam enriquecer, os paraísos fiscais não se criaram para ir a banhos mas para banhar de ouro as torneiras lá de casa, salário decente é luxo de demente, estado social é a encarnação do mal, direitos de pobre são coisa pouco nobre, uma loucura, vocifera o César, uma demência, vomita o Pulido, uma estupidez, diz a Inocência, pobrezinha, honrada e habituada a apoiar, a votar e a acreditar nos que lhe tiram o pão da boca para engordar a cupidez das suas opíparas vidinhas de nababos mal enjorcados. E pela costa esquerda, senhores? Ele é a trupe de Maria de Belém, do pouco santo Assis, dos instalados, dos encarreirados, dos carreiristas que de socialistas têm o cartão e o proveito. Ele são os outros partidos, por ora apoiantes mas vigilantes, se Costa ceder à direita, à Europa, à Merkel, mandam-no bardamerkel, é mais do que certo, tanto mais que as quintinhas, por pequenininhas que sejam, são para defender até ao último estertor, se os eleitores lhes fogem a culpa não é dos culpados, é dos por ora aliados, os grandes malvados. Costa, pobre Costa, qualquer dia dá à Costa naufragado. Se sobreviver, será o herói português do século XXI. É que são muitos os piratas, as piranhas, os amigos inimigos, os sujos e os sabujos, a quererem apoderar-se-lhe da barca do inferno de um país encurralado.
Que Nossa Senhora, a do Resgate, nos valha. Com a troika em truca-truca pago com o dinheiro roubado a pensões, salários, saúde, educação. Com o Senhor dos Passos, outra vez, a conduzir-nos pelo calvário dos sacrifícios. É que muitos de nós, Inocências, Purezas, Piedades, Pedros e Paulos, adoramos cilícios. Mortificações. Ladrões de casaca.
E de chafurdar na caca. Com lata e laca. Muita laca.

Há mais mentira para além do déficit

(Estátua de Sal, 29/09/2015)

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Este governo chegou ao poder com base nas falsas promessas, que sabia falsas, e com base na crítica aos supostos desvarios do governo anterior na gestão das contas públicas, pretendendo vender uma imagem de probidade e rigor na gestão do Estado.

Pois bem, hoje veio a saber-se que afinal, manipula as contas públicas de forma a que o deficit tenha melhor aspeto, de forma a enganar os portugueses, e a própria Comissão Europeia, podendo assim vangloriar-se de louros que não tem e de méritos que as políticas de desastre que seguiu manifestamente não possuem. Afinal, contrariamente ao que Passos badala por aí, nesse aspeto, Portugal é como a Grécia.

Parece que não é só Ricardo Salgado que falsifica contabilidades, e a Volkswagen que falseia testes aos motores. Passos e Maria Luís, também falseiam dados das empresas públicas para embelezarem os efeitos das suas políticas de devastação.

Vem isto a propósito de se ter hoje sabido que existiram indicações da Ministra das Finanças à Parvalorem – empresa que gere o ativos tóxicos do defunto BPN -, para que não transparecessem nas suas contas, em 2012, o real nível de tal toxicidade, continuando a contabilizar como ativos saudáveis, créditos sobre terceiros que nunca irá ter possibilidade de receber. Ou seja, desviando do deficit e ocultando do país a real dimensão dos prejuízos que o BPN trouxe aos contribuintes.

Mas, o mais cínico e caricato, é Passos Coelho e comandita, continuarem a usar o caso da intervenção do Estado no BPN como arma de arremesso contra o governo de Sócrates, quando é mais que sabido que o BPN era o “Banco do PSD” e para o PSD, tendo beneficiado as luminárias do PSD da maior parte dos créditos agora dados como incobráveis e por isso tóxicos. Antigos ministros e secretários de estado do PSD enxameavam as cúpulas e a lista dos beneficiários do BPN: Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho, e Duarte Lima – só para citar os mais mediáticos. E tal disseminação laranja ocorreu sempre com a cobertura dessa eminência parda que é Cavaco Silva, a quem o BPN também “deu esmola” em negócios de ações nunca cabalmente explicados. Se Sócrates é criticado por ter um amigo que lhe emprestava dinheiro, o que não dizer de Cavaco cuja amizade com Oliveira e Costa lhe rendeu milhares de euros, não emprestados, mas dados limpinhos e sem osso?

Também se soube hoje que a taxa de desemprego subiu em Agosto, relativamente ao mês de Julho. Ora, sendo Agosto um mês em que se criam empregos de caráter sazonal, mormente no setor do turismo, mais uma vez a narrativa do país pintado a cor de rosa que a coligação quer vender, começa a abrir brechas.

Esta coligação da direita é perita na mentira e na manipulação. Ele são os números do desemprego, artificialmente reduzidos com falsos estágios e cursos de formação. Ele são os números da dívida, ele são os números do deficit, ele são os números das sondagens que compram e distribuem por aí para manipular os eleitores, ele é tudo o mais que ainda hoje não sabemos e que é escondido com todo o zelo e afinco por baixo do tapete.

Compreende-se agora, a convicção de Passos e Maria Luís, quando continuam a dizer, contra todas as previsões das organizações estatísticas nacionais e internacionais que Portugal irá atingir em 2015 o deficit de 2,7%. Já devem ter pago a uma qualquer multinacional de consultoria o dossier que lhes vai permitir ocultar dívida pública, de forma a atingir o objetivo.

Perante este cenário, eu continuo só a ter uma esperança. É que os portugueses, em 4 de Outubro, para lá dos programas políticos, para lá dos casos de campanha, para lá da intoxicação que toda a comunicação social amestrada que temos vai disseminando com insídia, para lá das clivagens direita/esquerda, votem na seriedade.

E um cidadão que vote na seriedade, e com seriedade, jamais poderá votar PAF. Porque, seriedade, e palavra honrada é tudo aquilo que a coligação de direita não tem.

Estátua de Sal, 29/09/2015

A ninfeta de Bruxelas, o Novo Banco e o défice

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 25/09/2015)

Nicolau Santos

     Nicolau Santos

A Comissão Europeia liderada por Jean-Claude Juncker tem entre os seus porta-vozes algumas simpáticas e jovens meninas, que são muito despachadas a falar e matam os temas mais delicados rapidamente e com ares definitivos. Mas há assuntos que merecem bem mais que meia dúzia de palavras proferidas por simpáticas ninfetas.

A propósito da não venda do Novo Banco e do seu impacto sobre o défice de 2014, que sobe para 7,2%, a porta-voz da Comissão Europeia disse apenas que, no entender de Bruxelas, tal resultado não coloca em causa o processo de consolidação orçamental em Portugal. Fim de conversa. Mas não devia ter sido.

Em primeiro lugar, na União Europeia vigora a regra da contabilidade nacional (ótica de caixa) para os orçamentos dos Estados-membros, e não a ótica dos compromissos, como no caso da contabilidade pública. O que é que isto quer dizer? Que se a regra fosse aplicada, os 3900 milhões que o Estado colocou no fundo de resolução do BES deveriam ter sido imediatamente contabilizados no défice do ano passado, quando a operação ocorreu. No caso do processo de resolução de bancos (pela primeira vez experimentado pela Comissão no caso português), existe supostamente um período de dois anos para o resultado da operação ser inscrito no orçamento.

Foi, aliás, isso, que o Governo entendeu dizer em 2014: que o valor em causa entraria no orçamento nacional logo que fosse concluída a venda. E, para isso, o Banco de Portugal não só despediu Vítor Bento (que não concordava com a estratégia e queria dois anos para estabilizar o Novo Banco), como deu como missão a Stock da Cunha a venda da instituição no prazo mais rápido possível (porque, como doutamente explicou há uns meses o primeiro-ministro, quando mais tarde se vender, menor será o seu valor; a explicação mudou agora, mas isso não interessa nada).

Falhada no entanto a venda – e falhada porque há inúmeras incertezas quanto aos processos judiciais em curso e quanto aos resultados dos testes de stress que em Novembro o BCE fará ao Novo Banco, pelo que não é possível saber qual o aumento de capital que a instituição vai necessitar – aparece agora o INE a incluir os tais 3900 milhões no défice de 2014, com a ministra das Finanças a dizer logo que se trata de uma mera operação contabilística.

600 milhões das pensões são um problema. 3900 milhões aplicados no Novo Banco não. Esperemos que a ninfeta de Bruxelas nos explique isto, muito devagarinho, para nós percebermos bem.

Bom, mesmo que fosse – e não é, os 3900 milhões existem e foram emprestados pelos contribuintes – justificava-se seguramente uma explicação sobre esta mudança de atitude da Comissão, porque, como é óbvio, a leitura política que hoje é feita sobre a derrapagem do défice, seria completamente diferente se ela tivesse sido concretizada logo no ano passado.

Mais: se nos casos da resolução de bancos existe uma situação de transição de pelo menos dois anos que permite só registar a operação após a venda, então não se percebe porque é que os 3900 milhões são agora registados no défice de 2014, quando se deveria aguardar o resultado da venda para saber o resultado final da operação. Afinal, só passou um ano e dois meses sobre a resolução do BES.

Estamos, pois, perante uma situação que a Comissão Europeia deveria esclarecer cabalmente e seguramente e não através de uma das suas ninfetas. Torna seguramente a explicação mais agradável, mas eventualmente menos cabal. E qualquer porta-voz não tem autonomia para responder a algumas questões mais específicas e delicadas.

Uma última nota: o facto da ministra das Finanças insistir em que não haverá nenhum problema, nem com as metas do défice nos próximos anos, nem com a necessidade de novas medidas de austeridade, mesmo que seja necessário recapitalizar o Novo Banco e/ou o Fundo de Resolução, prova que há uma nova teoria económica em nascimento. Agora, 3900 milhões de euros de financiamento ao Fundo de Resolução garantidos pelo Estado, que podem ter de ser aumentados e no final do negócio não serão com grande probabilidade compensados não têm nenhum impacto do ponto de vista orçamental – quando verbas bem mais pequenas para outras rubricas são uma enorme dor de cabeça para Maria Luís Albuquerque. É o chamado orçamento vudu. 600 milhões das pensões são um problema. 3900 milhões aplicados no Novo Banco não. Esperemos que a ninfeta de Bruxelas nos explique isto, muito devagarinho, para nós percebermos bem.