A morte dos livros

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/12/2018)

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Miguel Sousa Tavares

É de bom tom começar pela usual declaração de interesses: Luiz Schwarcz é o meu editor brasileiro. Fundador, presidente, alma e coração da Companhia das Letras, que, para grande orgulho meu, é, não sei se a maior em volume de negócios, mas certamente a mais prestigiada editora brasileira — reunindo, entre os seus autores, os clássicos brasileiros, de Guimarães Rosa a Jorge Amado, e os novos, de Milton Hatoum a Chico Buarque. Há uns anos, juntou ao seu já extenso catálogo o da norte-americana Penguin Books, fazendo com que o acervo de autores sob a chancela da Companhia das Letras constitua uma biblioteca de fazer inveja a qualquer bibliógrafo. O Luiz é um editor que verdadeiramente ama os livros, assim como ama a música (foi um dos fundadores da Orquestra Sinfónica de São Paulo), os cavalos de corrida e a mesa com amigos. Foi com ele que pela primeira vez aprendi o que era “pagar a rolha” num restaurante. Foi no Figueira, em São Paulo, assim chamado porque tinha (ou ainda tem?) um imenso pátio onde se comia debaixo da mais extraordinária e frondosa figueira que alguma vez vi. Jantávamos, a convite do Luiz e, além da sua mulher, a historiadora Lilia Moritz, o já citado Milton Hatoum, autor do notável romance “Dois Irmãos” (mas não só), a Fafá de Belém e eu. O Milton, natural da Amazónia, ficou embevecido e admirado quando me viu, depois de consultar o cardápio, encomendar um filete de tucunaré, da trilogia dos peixes do rio Amazonas — tucanaré, pirarucu e tambaqui, os únicos grandes peixes do Brasil, pois que os de mar não prestam, para nós, portugueses, que desfrutamos do melhor peixe do mundo. Mas eu é que fiquei verdadeiramente espantado quando vi o Luiz sacar de um saco com duas garrafas de vinho que tinha trazido de casa, entregá-las ao empregado e dizer: “Sirva estas”. Grande conhecedor de vinhos, ele inventara, aos meus olhos pelo menos, o sistema da “rolha”, que depois vi replicado noutros lados, em que se leva o vinho de casa e só se paga uma quantia simbólica pelo serviço.

Isto para introduzir o personagem, antes da sua mensagem. Na semana passada, o Luiz Schwarcz enviou uma carta aberta a autores, editores, livreiros, leitores, amigos de livros, escrita em inglês e intitulada “Love letters to books”. O pretexto foi a simultânea entrada em processo de catástrofe das duas maiores cadeias de livrarias brasileiras, a Cultura e a Saraiva, uma fechando 40 lojas e a outra abrindo um processo de insolvência judicial, ambas deixando pendentes milhões de dívidas às editoras. Na sua carta aberta, espécie de grito de desespero de credor, mas, acima disso, de amigo dos livros, o Luiz escreve que nos últimos anos o mercado livreiro do Brasil se retraiu em 40% (o mesmo que em Portugal) e que muitas cidades brasileiras estão prestes a ficar sem uma única livraria. E acrescenta este desabafo : “Passei pelo pior momento da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive de deixar partir seis empregados que fizeram parte da Companhia e deram uma contribuição vital para o que fomos construindo dia após dia”. E termina apelando para que todos dêem ideias, sugestões, que ao menos comprem livros neste Natal, “para que mostrem algum amor por uma coisa que nos deu tanto durante tanto tempo: o livro”.

O apelo de Luiz Shwarcz não gerou só likes no Brasil. Em parte porque ele coincidiu com o anúncio de que o Luiz, embora mantendo-se presidente da Companhia das Letras, tinha acabado de vender a maioria do capital à Penguin, agora fundida com outro gigante americano da edição, a Random House. E em parte porque pequenos livreiros de pequenas cidades do interior o acusaram de se preocupar apenas com a falência das grandes cadeias de livrarias — às quais as editoras se submeteram ou foram forçadas a submeter-se. Tal como em Portugal. Mas isso é apenas parte da história da morte em curso dos livros: o estado actual da história. O livricídio começa pela oferta, antes de acabar na procura.

Anos atrás, numa Feira de Frankfurt — uma feira de vendas para editores e agentes literários, onde alguns autores são exibidos como rezes numa feira de gado — uma plateia de acabrunhados editores concordava com a iminente morte do livro, enquanto objecto, face ao aparecimento e inevitável triunfo do livro electrónico, o Kindle. Não havia nada a fazer, o inimigo era imbatível, assentiam aquelas avisadas cabeças, imaginado legiões planetárias de leitores em aeroportos, praias, jardins, autocarros, a sacar do seu Kindle e a devorar livros a 50 cêntimos cada um. Nos tempos seguintes, em cada contrato de edição que me apresentavam para assinar, inevitavelmente, lá vinha uma cláusula incluindo direitos sobre a edição online, o futuro irrecusável, juravam, e eu, inevitavelmente, recusava-a. Uma parte por intuição e talvez nostalgia: cresci com os livros como objecto físico, palpável, visível. Cada edição dos meus autores de cabeceira era como uma edição dos discos dos Beatles: tinha um cheiro próprio, a capa era olhada e apreciada mil vezes, acariciada com a mão, o papel era pesado e alisado, o seu lugar na estante era judiciosamente estudado, a sua lombada era fixada para sempre, nada era em vão. Outra parte tinha que ver com um raciocínio de ética económica: o Kindle da Amazon representava a mais devastadora e amoral destruição de uma cadeia de produção que eu já tinha visto. Começava por destruir os empregos e os investimentos ligados à indústria de papel dos livros; depois à parte da impressão, a gráfica; a seguir, à edição; depois, à distribuição; em seguida, com tudo o que tinha que ver com as feiras dos livros, visto que não haveria livros-objectos para apresentar nem para autografar; e, no fim da cadeia, sacrificaria os próprios autores, a quem pagariam uns miseráveis cêntimos por cada exemplar vendido com o falacioso argumento de que se venderiam muitos mais livros visto que seriam muito mais baratos. No final, feitas as contas, apenas o pirata do senhor Jeff Bezos, dono da Amazon, teria acrescentado a sua incontável fortuna, abrigada em paraísos e esquemas fiscais, à custa do talento e do emprego dos outros.

Mas se, contra as expectativas dos avisados crânios, o livro electrónico felizmente se revelou um fiasco, do lado da oferta a nova ameaça são as grandes superfícies de venda de livros que, de facto, matam as livrarias e impõem aos editores condições de sobrevivência insustentáveis. Se ver livros à venda em supermercados já é penoso, pior ainda é saber que é preciso comprar espaços de exposição e entrar em campanhas de promoção ao nível dos descontos em chouriços e detergentes. Mas é assim que estamos.

Mas é assim que estamos porque é assim que está a procura. Já quase ninguém lê livros. Como quase ninguém lê jornais ou revistas. Isto daria tema para todo um outro artigo, para que me falta espaço. Direi apenas, abreviadamente, que as redes sociais têm nisto, obviamente, uma trágica responsabilidade: elas são a maior fonte de leitura actual e a maior fonte de iliteracia funcional. Mas não são a única: a crítica literária que se faz em Portugal (e eu conheço outras) é também altamente responsável, porque não cumpre a sua função essencial de orientar os leitores para o encontro dos livros que lhes podem criar hábitos de leitura. O desporto favorito dos nossos críticos literários é não dizer do que trata um livro. Quanto mais confusa ou inexistente é a história de um romance, mais rebuscada e exaltante é a sua crítica, para no final se concluir que o autor é um génio, o crítico é brilhante e o leitor é um idiota se não entende a genialidade e o brilhantismo de um e de outro e se na próxima vez não voltar a comprar outro livro do mesmo autor. E, desnorteados, os editores botam as frases laudatórias dos brilhantes críticos nas cintas do próximo livro do genial autor e ficam à espera… acabrunhados com os exemplares por vender, devolvidos ao fim de uma semana, por um supermercado perto de si.

É toda uma cadeia feita de suicidárias cumplicidades na mediocridade, de arrogantes sentimentos de superioridade, de desnorte editorial, de falta de senso, de coragem e de imaginação, que aos poucos nos vai transportando, leve, levianamente, para um mundo de pesadelo, que sempre foi o sonho de todas as ditaduras: um mundo sem livros.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Cultura de Graça

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 26/11/2018)

PSG

Pedro Santos Guerreiro

(Eu, Estátua de Sal, posso criticar os jornais, discordar do seu alinhamento noticioso, desdenhar da comunicação social. Mas isso sou eu que não sou a Ministra da Cultura.

O Governo e o PS andam cada vez mais nervosos à medida que se aproximam as eleições. É só tiros no pé. Começou a Ministra da Cultura com as touradas; agora sente-se aliviada por não ler jornais portugueses (lembrei-me logo do Cavaco que dizia que também não lia). Depois o César, qual mestre-escola a dar notas, veio chumbar as aptidões do PCP e do BE para governar, dizendo que “não estão preparados”. E para culminar até António Costa, opinando sobre a greve dos estivadores, onde arrasou por completo os direitos de quem trabalha, teve a sua pior e mais lamentável prestação desde que é Primeiro Ministro.

Não, o PS não pode ser deixado à solta. Faz-me lembrar o meu cão. Quando sai à rua só com trela e, de preferência, trela bem curta.

Comentário da Estátua, 27/11/2018)


Um mês de trabalho depois, a ministra da Cultura já precisa de férias dos jornais portugueses. Podia ser enfado, mas é desrespeito pela própria função. Podia ser uma gaffe, mas é uma estupidez. Da ministra. Da Cultura. Da pasta da comunicação social. Daqui a nada está a pedir “deixem-me trabalhar”.

Não há como usar ironias, uma frase bruta precisa de posições brutas. “Uma coisa ótima de estar em Guadalajara é que não vejo jornais portugueses”, diz Graça Fonseca, com um sorriso nos lábios de quem não sabe que cargo desempenha ou, talvez seja melhor dizer, do cargo que ocupa. Habituada a política de gabinete, Graça Fonseca deve estar a adorar passear pelo México como atriz convidada, rodeada de uma corte de literatos, afinal é uma experiência. A experiência de uma ministra à experiência.

À experiência, sim, porque Graça Fonseca nunca tinha tocado estas bandas, o que não é eliminatório. O seu perfil assegurava robustez política, mas em meia de dúzia de semanas já magnetizou duas polémicas. O seu perfil sugeria a humildade de quem iria ouvir, mas compraz-se por nem sequer ler. O seu perfil criava o benefício da dúvida, que tem aniquilado com o malefício da falta de dúvidas.

Eliminatório é o desdém fútil. Eliminatório é cultivar a não leitura de jornais, porque o regozijo com essa sua “coisa ótima” é uma sugestão a leitores para que deixem de o ser. Se governar fosse só gerir um orçamento, Graça Fonseca seria uma casa decimal, mas é a ação e o discurso político que podem fazer de um ministro um número inteiro. Com piadas como esta, a ministra parece concorrer furiosamente para ser um zero, um zero à esquerda.

Os jornais são contrapoder ou não são jornais. Fazem perguntas, têm memória, duvidam, cobram promessas, cruzam factos e têm a mania de publicar coisas diferentes das que o poder gostaria. No país ideal de Graça Fonseca não havia notícias, havia comunicados. Hoje, por exemplo, talvez lhe fosse aprazível que todos os jornais tivessem como manchete “Governo cumpre três anos de sucessos”, sobre uma fotografia de António Costa em Bruxelas com a legenda “Estadistas europeus vergam Reino Unido às misérias da saída da UE” e uma chamada para “Graça Fonseca leva cultura portuguesa aos píncaros no México”. Notícias sobre o mau serviço da CP, zero. Do favor que a Santa Casa esteve para fazer há um ano injetando 170 milhões no Montepio, nem uma breve. De Marcelo, nada nunca. Da estrada de Borba, da greve dos estivadores ou das negociações com os professores, coisa nenhuma.

É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais? É mesmo preciso dizer à ministra da Cultura o que é cultura?

É por isso que há políticos que gostariam de escolher jornalistas, de condicionar perguntas e que repetem frases sobre decadências e dependências dos jornais, fogo tão fácil de atear nas redes sociais. A quem mais convirá que os jornais enfraqueçam do que ao poder? Quem beneficiará mais de criar má reputação? Querem mesmo um país sem jornalistas exigentes e sem leitores inteligentes? É mesmo preciso explicar Trump? É mesmo preciso dizer a Graça Fonseca que só os políticos autocráticos ou ignorantes dissuadem interessadamente a leitura de jornais? É mesmo preciso dizer à ministra da Cultura o que é cultura?

Talvez Graça Fonseca tenha acordado feliz naquela manhã em Guadalajara, nimbada de orgulho por representar Portugal como país convidado de honra na Feira Internacional do Livro. Talvez tenha aberto jornais mexicanos e lido artigos semelhantes sobre Portugal: que não, não é apenas o país de Ronaldo, de Saramago e de Pessoa, que há “escritores como António Lobo Antunes, Nuno Júdice, José Luís Peixoto y Gonzalo M. Tavares”. Talvez tenha pensado no poema de Pessoa e sentido o prazer de não cumprir um dever, ter um jornal para ler e não o fazer. Talvez tenha à tarde cruzado as mãos com a poeta uruguaia Ida Vitale, que aos 95 anos recebeu o grande prémio na Feira, que lê jornais e se diz pasmada com a coluna de emigrantes que chega ao México a caminho dos Estados Unidos, onde na Casa Branca está “o monstro ruivo”, como lhe chama.

Talvez pudesse ter sido só isto, uma resposta enfastiada à pergunta anticlímax de uma jornalista sobre touradas. Mas não é só isto. É uma ministra da Cultura possivelmente deslumbrada com o seu novo cartão de crédito cultural e provavelmente feliz por estar longe de Portugal e dos seus jornais.

No fundo, ser ministra da Cultura é “uma coisa ótima”. Graça Fonseca ainda está fora de Portugal, aliás, pelo que este texto não vai ler. Ou, como diz a ministra, não vai ver. Está certo. Como escreveu um heterónimo do poeta, “eu sou do tamanho do que vejo”.

 

A civilização contra a cultura

(António Guerreiro, in Público, 16/11/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

E, de repente, ao entrar em funções, confrontada com a questão das touradas, a ministra da Cultura pronunciou a palavra “civilização”, explicitando assim, espontaneamente, o campo e o horizonte de ideias em que esta discussão tem lugar. O aparecimento e a evolução semântica e ideológica da palavra “civilização” e das problemáticas que ela trouxe consigo é um assunto importante na história das ideias, que no nosso tempo mobilizou estudos de figuras tão importantes como Jean Starobinski e Émile Benveniste.

A civilização como categoria é um elemento central do projecto iluminista, para o qual ela designa o processo fundamental da História e o resultado desse processo: a superação de um estado primordial em direcção a um estado considerado superior do ponto de vista moral, cultural, científico, tecnológico, etc. A ideia de civilização tornou-se o critério pelo qual a barbárie — ou não-civilização — é julgada e condenada. Ela só pode ser compreendida em função da ideia de progresso, da concepção de que há um progresso da humanidade.

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A história da ideia de civilização não pode ser feita sem a referência à ideia de cultura, com a qual ela forma um par. E esse par ganhou uma importante configuração dicotómica — a civilização em oposição à cultura — que nos chegou da tradição romântica alemã. A reivindicação da Kultur contra a Zivilisation (vista com desconfiança como ideia muito francesa), a defesa da “cultura espiritual” e enraizada contra o cosmopolitismo e universalismo da ideia de civilização, democrática na sua essência, encontra em Thomas Mann, na sua fase inicial, um representante que manifestou todo o seu desprezo pela classe que ele denominou como intelectuais da civilização, Zivilisationsliterat, a que pertencia, aliás, o seu irmão Heinrich Mann.

O par dicotómico civilização/cultura é de uma grande complexidade, ao ponto de ser muito difícil responder a esta questão: quando Freud escreveu Unbehagen in der Kultur, publicado em 1930, é sobre o mal-estar da cultura ou sobre o mal-estar da civilização que ele escreveu? Sobre isso, os tradutores nunca se entenderam e nas principais línguas europeias encontramos o título traduzido das duas maneiras.

Fácil é então perceber porque é que os defensores das touradas reivindicam a ideia de cultura e os que querem que elas sejam proibidas tomam a civilização como critério. Mais difícil — mas necessário — é perceber que as duas partes não estão envolvidas num litígio em que é possível uma verdadeira discussão, isto é, um encadeamento das frases de um lado e de outro que formam uma argumentação e uma contra-argumentação, tendo como condição necessária o pressuposto de que é possível as duas partes litigarem.

Ora, neste caso não se trata nunca de um litígio, mas de um diferendo. O que é um diferendo? Há um diferendo, explicou o filósofo francês Jean-François Lyotard, quando o discurso de uma parte não tem nenhum sentido para a outra parte porque as duas falam uma linguagem diferente e nem partilham um terreno mínimo, uma razão comum, que possa tornar possível o esforço que consistiria em cada uma das partes se colocar no lugar da outra.

É que, neste caso em que há um diferendo, as palavras de uns não podem ser encadeadas nas palavras dos outros. Há uma absoluta heterogeneidade de linguagens, uma incomensurabilidade dos discursos, ao ponto de aquilo a que uns chamam cultura os outros chamarem barbárie. E cada vez que uma das partes explica e defende as suas razões, só confirma as razões da outra parte. E, assim, o conflito nunca pode ser equitativamente resolvido, não é possível recorrer a uma regra de julgamento aplicável ao discurso de ambos os lados. O diferendo não é uma mera oposição de opiniões nem se resolve accionando os mecanismos da democracia.